“2017 vai ser um ano de aperto de cintos; será difícil equilibrar as contas”

Às vésperas do RMC São Paulo, Claudio da Rocha Miranda Filho, sócio-fundador da conferência, fala sobre o mercado da música eletrônica e perspectivas para o futuro.

Chegamos na efervescente época do RMC, a tradicional conferência da indústria da música de pista no Brasil. Na semana passada tivemos a edição nacional, em Curitiba; nesta próxima, é a vez da sul-americana, em São Paulo; e, em fevereiro, a edição mundial, no Rio de Janeiro, como já é de praxe desde 2009. Nesses oito anos de Rio Music Conference, tanto o mercado quanto a conferência em si cresceram muito, um retroalimentando e impulsionando o desenvolvimento do outro. Já tivemos edições em diversas outras capitais brasileiras, o que é extremamente saudável e produtivo, ajuda a descentralizar a cena, normalmente focada nas regiões Sudeste/Sul. Contudo, atualmente, locais relevantes que já estiveram no mapa do evento — Florianópolis, Brasília, Belo Horizonte, Recife… — não são contemplados nesta temporada.

Para entender melhor o que vem rolando nos bastidores, troquei uma ideia com Claudio da Rocha Miranda Filho, sócio-fundador da sigla e conselheiro da AFEM [Association For Electronic Music], sobre o momento atual e as perspectivas para o futuro — em um papo que você lê abaixo.

Em 2016, teremos tido três edições do RMC, diferentemente dos últimos anos, em que tivemos em torno de seis ou sete. Locais como Recife, Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre, além da própria Santa Catarina — uma das regiões mais importantes para a cena nacional — já não estão mais no radar das conferências. Por quê?

Enxugamos as edições do RMC por uma limitação orçamentária momentânea da plataforma. Estamos em um período de uma grave crise no país e é claro que isto afetou não apenas a iniciativa do RMC, mas a atividade da indústria da música eletrônica, clubes, festas e festivais Brasil adentro como um todo. 

O produto do entretenimento musical, por mais amadurecido que possa estar em nossa cultura e em nosso país, ainda é de certa forma supérfluo. Voltamos, em muitos lares brasileiros, à era de “comida no prato, roupa no corpo”. O que quero dizer é que há a dificuldade no atendimento das necessidades básicas, da subsistência. É natural que esse impacto dificulte o cenário da música eletrônica e sua cadeia produtiva, profissionais e prestadores de serviços.

De qualquer forma, com a transformação da edição de Curitiba em edição Brasil, e a de São Paulo em edição latino-americana, estamos alinhados com o posicionamento do projeto de ser o principal hub continental da nossa indústria, assim como identificar e abordar as particularidades de cada região do Brasil. A edição do Rio, que continua sendo a principal, reunindo a maior incidência de painéis e convidados internacionais, será em 2017, fatalmente, uma das melhores que já realizamos até hoje.

Por que as datas das três conferências se mantêm tão próximas, e como esses três eventos se inter-relacionam?

A edição de Curitiba era mais cedo, de fato. Buscamos uma associação com um projeto da Fundação Cultural de Curitiba que daria um impulso no evento, mas o outro projeto fora cancelado. Do Rio e em SP, sempre foram essas datas.

Existem temáticas comuns a todos os encontros, que não podem faltar; alguns convidados também, mas a perspectiva, abordagem e o tamanho, essencialmente, mudam de uma praça pra outra. Em Curitiba temos uma audiência de 400 a 500 pessoas; em São Paulo, de 700 a 900; e no Rio de 1400 a 1600 participantes. Claro que o número de painéis e duração acompanham a demanda das cidades.

“A edição do Rio em 2017 será fatalmente uma das melhores que já realizamos até hoje.”

Os últimos anos têm sido de crise, e sabemos como isso afeta inteiramente o mercado. Contudo, soluções criativas têm sido encontradas e, mesmo que ainda não dentro do ideal, os festivais e eventos de música eletrônica estão conseguindo se manter nesse período nebuloso — o que, inclusive, foi tema de uma das mesas do RMC Curitiba. Surpreende a você que essa cena nacional esteja se sobressaindo nesse período? O que você consegue vislumbrar para 2017 e um futuro a curto e médio prazo?

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A crise é grave e profunda. Os eventos têm acontecido, mas os resultados financeiros, pelo que me parece, não têm sido muito favoráveis. Grandes eventos internacionais que chegaram no país não confirmaram sua permanência em 2016, e em 2017 acho que teremos mais ausências no calendário. Isso vale pros eventos nacionais também. 2017 vai ser um ano de aperto de cintos; será difícil equilibrar as contas.

Como vocês definem os temas das mesas e os palestrantes convidados?

Em primeiro lugar, procuramos dividir a grade de programação e uma abrangência equilibrada entre quatro macrotemas: mercado, artístico, tecnologia e tendências. Paralelamente, mantemos a nossa coordenação de atividades atenta e com os ouvidos abertos às demandas dos nossos embaixadores. O grupo dos embaixadores é um extrato muito importante de praticamente todas as categorias profissionais da nossa indústria. São indicados por outros embaixadores por serem referencias positivas em suas áreas de atuação. Por fim, o DNA do RMC é ser colaborativo. Se você tiver um tema interessante e oportuno, indicação de experts e a fim de propor uma mesa, o palco é do mercado e está lá pra isso. De qualquer forma, teremos uma boa novidade no que diz respeito a esse assunto em breve…

“O DNA do RMC é ser colaborativo. Se você tiver um tema interessante e oportuno, indicação de experts e a fim de propor uma mesa, o palco é do mercado e está lá pra isso.”

Claudio, você frequenta constantemente conferências no mundo todo, como o expoente ADE, na Holanda. Como você compara essas experiências e as cenas desses países com as cenas e experiências brasileiras? Você diria que cada vez mais o Brasil está alcançando esses polos mais consolidados?

Sem dúvida que sim. Seja artisticamente ou em termos de capacitação do mercado — muito impulsionada pela chegada dos grandes festivais —, nossa cena se desenvolveu muito nos últimos anos. É claro que ainda não temos esse tipo de cultura enraizada como em alguns países europeus e isso nos distância em muitos aspectos. Mas essa mesma distância nos trás oportunidades de desenvolvimento, sem contar no vasto tamanho do nosso mercado.

E como você enxerga o papel do RMC, desde sua fundação, para o desenvolvimento da cena nacional? Diria que ele foi fundamental para a cena brasileira atingir um novo patamar?

Nossa missão é oferecer espaço para as grandes mentes desse mercado, contribuir com o seu desenvolvimento e promover o intercâmbio com o exterior. Estamos felizes em estar caminhando para a nona temporada e os resultados alcançados até agora.

Estou escrevendo um artigo sobre o preconceito que a música eletrônica, em pleno 2016, ainda sofre. Tivemos a situação quase surreal com o Kraftwerk na Argentina, que quase foi cancelado por ser um show baseado em synths; e o lance da IPHAN Rio com o UMF, que dificultou demais a realização do Ultra. Isso sem falar também na Fabric, que foi fechada recentemente em Londres e só agora conseguiu reabrir suas portas. Vê algum tipo de retrocesso nessa questão do preconceito com a cultura clubber?

Como toda a cultura, a de música eletrônica e festivais precisa ter seus aspectos de identidade, herança e história preservadas e divulgadas. De tempos em tempos, mesmo com reconhecida legitimidade em todos os setores da sociedade civil, uma classe artística atuante e legião de fãs e consumidores nos quatro cantos do mundo, nos deparamos com preconceitos acerca de velhas questões que precisam ser enfrentados com diplomacia e informação. Associações de classe como a AFEM, sindicatos e organizações da indústria têm buscado uma atuação e interferência mais direta na política — o que definitivamente é um caminho necessário para que se tenha uma compreensão mais precisa desse tema. ~

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