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Entrevista

Alec Araujo: “O progressive house de hoje é bom demais para ser ignorado”

Jonas Fachi

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Em entrevista com Jonas Fachi, Alec Araujo fala sobre a estreia de seu programa mensal na Frisky Radio, de Nova Iorque — uma das rádios mais respeitadas do planeta.

Como artista, Alec Araujo alcançou altos níveis de reconhecimento e apoio, dos quais muitos produtores só sonham. De suporte de DJs como Hernan Cattaneo, Nick Warren, Paul Oakenfold e Dave Seaman a feedback positivo da icônica banda alemã Kraftwerk, Alec já conseguiu muito em sua carreira. Um dos pioneiros da cena eletrônica no Sul do país, ele ajudou a construir as bases de um movimento cultural que explodiu durante a primeira década do século 21 no Rio Grande Do Sul, e que agora está novamente circundando as mentes da nova geração de clubbers no país — o house progressivo.

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+ Por que Guy J pode ajudar a escrever uma nova página na cena gaúcha

Sua dedicação à música por quase duas décadas de carreira é refletida através de poderosos sets, que compartilham de uma perspectiva única e atingem ouvidos afiados por novos talentos. A capacidade elevada em construir mixagens com energia e atmosfera são aclamadas em toda América do Sul, levando-o a ser convidado para se apresentar em clubs com Warung e D-EDGE, além de podcasts para diversos programas de todo mundo. Agora, a Frisky Radio — uma das rádios eletrônicas mais respeitadas do planeta, que recebe mixes e faz curadoria exclusiva há quase 20 anos de grandes expoentes, como Nick Muir, 16 bit Lolitas, Robert Babicz, Quiver, Martin Garcia e Miss Nine — ganha um novo integrante. Pelo podcast Fenix Sessions, Alec será o segundo brasileiro a fazer parte do disputado roster da Frisky, que dispõe de quase 40 artistas. Nesta entrevista, ele nos conta como conquistou seu espaço na consagrada rádio de Nova Iorque, além de referências, produções, insights sobre a cena nacional, e claro, detalhes do seu show mensal que vai ao ar na próxima segunda.

Alec, conte-nos: como surgiu o convite da Frisky?

Há anos que recebo convites para sets na Frisky. O time da rádio sempre me apoiou, e a afinidade entre eles e minha música só cresceu durante esse tempo. Há algum tempo eu já amadurecia a ideia de ter meu próprio show, e acredito que o convite veio no momento certo — um momento em que me sinto maduro na minha carreira. Acredito que os trabalhos realizados durante esses anos de relacionamento só favoreceram para que o Fenix Sessions se tornasse real, e no momento adequado.

O nome escolhido para o seu programa é Fenix; parece que existe um simbolismo por trás dessa escolha.

Quando eu residia em Porto Alegre, diversos amigos sempre me questionavam quando eu iria ter minha própria festa, pois éramos uma turma enorme de pessoas que gostavam de um mesmo estilo, o progressive house — e não era normal escutar esse estilo em clubs. Naquela época, resolvi que teríamos que criar uma festa, com algo novo musicalmente. O nome “Fenix” veio da ideia de “renascer das cinzas”, da renovação esperada por todos em relação à música tocada, e pegou. Tenho um carinho especial pelo seu significado, e não poderia fazer diferente [com o nome do podcast]. Também pelo conceito nostálgico criado pelas pessoas em relação à festa, resolvi que manteria o nome no show.

“Fenix” também significa o novo. Por isso, fiz questão de trazer artistas que o público não conhecia para cada evento, e também produções deles para meus sets. Continuarei fazendo sempre isso nos shows mensais. Há musicas em que o propósito é diferente de tocar ao vivo, mas no show elas serão encaixadas no momento merecido, juntamente com sons que já funcionam nas apresentações. Quero fazer o diferente do meu jeito.

“Eu sempre acreditei que a cena é você quem faz.”

Você atualmente vive em São Paulo, mas é do Rio Grande do Sul, onde foi pioneiro. Em que época foi isso, e como você vê a cena do seu Estado de origem?

De 2000 a 2012 foram os anos em que mais toquei naquela cena. Era uma festa melhor que a outra. Eu amo meu Estado e tenho uma consideração enorme por todas as pessoas que, de uma forma ou de outra, ajudaram a construir a minha carreira. O RS realmente tem um público maravilhoso. Eu fico feliz de ver hoje artistas gaúchos como o Fran Bortolossi, produtor da Colours, fazer não só sua festa como a sua carreira de DJ um sucesso. Produtores como o Do Santos, que é meu conterrâneo, se destacarem não só no Brasil como no mundo com suas músicas é incrível.  Ouvi sets do Mezomo (Santa Maria) com excelente repertório. O PoSher, que é um DJ novo, é um artista dedicado e com gosto e técnica musical incríveis. Tem o Ednner Soares aka Zipman, que é um produtor e técnico de áudio dos melhores — o Marco Carola e o Stefano Noferini tocam músicas dele. O Cesar [Funck, do Sonic Future] já é para mim um dos maiores produtores mundiais. O Rodrigo Moita também, sempre foi um batalhador: mora hoje em SP e é sócio da Entourage, um dos maiores empresários do ramo no Brasil.

Estes são somente alguns de um leque de talentos inefáveis do meu Estado. Festas como a Levels contribuem a cada edição com excelentes atrações e público bonito em seus eventos, isso sem contar com clubs como a Beehive, que mantêm uma tradição em qualidade em seus lineups. Eu sempre acreditei que a cena é você quem faz, então acredito que as pessoas que trabalham com amor e dedicação com a música eletrônica estão colhendo bons frutos atualmente por lá.

Você também foi pioneiro na produção musical no país. Recentemente, sua faixa pela Global Underground foi relançada em uma série comemorativa da gravadora. Qual o sentimento em ter lançado por uma marca tão importante no cenário global?

A faixa “Baghdad” foi feita em parceria com meu amigo e irmão de produção de muitos anos, o Fernando Goraieb. Para a gente, é sempre uma surpresa com alegria quando lançamos em um label como o GU. A nossa parceria se estende até hoje e somos amigos dentro e fora do estúdio; duas crianças grandes. O legal de lançar em um label expressivo, ao menos para mim, é a questão de os olhos lá focarem no Brasil como um lugar que tem, sim, produtores esforçados e com grande talento para a música.

Ouvi também sobre sua parceria com o Wolfgang Flur, um dos membros da lendária banda eletrônica Kraftwerk. Como aconteceu isso?

O Wolfgang curtiu um remix do Kraftwerk que fiz para o Hernan Cattaneo tocar. Falou que havia amado o trabalho, e perguntou se eu poderia enviar a ele uma cópia, juntamente com os canais do remix abertos para que ele fizesse sua própria versão. Fiquei lisonjeado com tudo isso. Em seu livro  I Was A Robot ele citou meu nome — achei muito gentil e educado. A partir disso, a amizade estreitou, e recentemente recebi dele uma proposta para um novo trabalho, um novo remix.

Atualmente, como está sua carreira? No que tem trabalhado?

Estou contente com as produções recentes, oportunidades e apresentações que têm surgido. Neste ano tive músicas lançadas nos labels Clinique e Nube Music.  A convite da Hot Cue Music, produzi um remix da faixa “Smyrna”, do Nightboy, que já tem o suporte do Hernan Cattaneo, e outro remix para a gravadora Chief Rouge Records. Há faixas também que serão lançadas por 3XA, Astrowave e Varona Label. Recentemente retornei de Santa Catarina, onde pude tocar no InProgress Showcase. Público lindo e vibe inacreditável. Santa Catarina possui uma energia pura e próxima com o progressive, e senti isso com muito mais intensidade desta vez.

Também estou muito contente pela oportunidade de mostrar meu trabalho no D-EDGE no dia 27, juntamente com um time de amigos e DJs que admiro. Aproveito para deixar o meu agradecimento pessoal ao clube pela recepção do Progression, e a todo o pessoal pelo empenho e trabalho já realizados. Faremos uma grande festa. Dia 14 de outubro retorno ao RS para tocar em Garibaldi, no Freedom Music. Eventos como este são importantíssimos para o crescimento da música eletrônica, pois são feitos com muito foco, determinação e principalmente amor — e o público é quem mais ganha com isso.

“Os clubs precisam abrir as portas para a boa música, independentemente do estilo.”

Existe um movimento que tenta inserir o house progressivo em São Paulo. Por que agora a cidade e até clubs importantes, como o D-EDGE, estão abrindo as portas para o estilo? Sabemos que o techno sempre predominou por aí…

Acredito no amadurecimento da música e das pessoas como um todo. Há o momento certo para as coisas acontecerem. Aqui em SP, o núcleo da Unik ID está fazendo um trabalho bonito dentro da cena progressiva, trazendo Darin Epslon e Cid Inc para a sua primeira edição — quer dizer, o movimento está mais forte. Progressive house é um estilo bonito de se tocar e de se mixar. Há toda uma técnica por trás, as músicas são mais trabalhadas, as harmonias mais intensas e os breaks das produções atuais são explosivos e completos. O que está acontecendo atualmente dentro desse estilo é bom demais para ser ignorado. Minha opinião é que os clubs precisam abrir as portas para a boa música, independentemente do estilo.

Quais são os produtores que têm frequentado sua playlist ultimamente? E você poderia nos adiantar algo sobre o set de estreia na próxima semana?

A lista é enorme. Tenho um respeito gigante pelo talento de cada um deles. Estão em outro nível nas produções e são pessoas incríveis. Vou citar alguns: Nicolas Rada, Ezequiel Arias, Lucas Rossi, Emi Galvan, Subconscious Tales, SHFT, Dmitri Molosh, Christian Monique, Martin Gardoqui, Franco Tejedor, Guhus, Ignacio Torne, Clyde Rouge, Santo Adriano, Bablak, Antrim, Michael A, Eze Ramirez, Sebastian Busto, Ewan Rill. No Brasil: Luciano Scheffer, Fer J, Danilo MorttaguaAndré Sobota e André Salata têm feito trabalhos com suporte de muito artista grande. Mas há vários ainda no anonimato, e não vejo a hora de ver a música deles em alguma edição do Fenix Sessions.

Quanto ao set, tenho recebido músicas que são verdadeiras histórias para se ouvir, e vai ser ótimo poder contá-las durante os 60 minutos do show. Vou trabalhar para ter uma obra prima a cada mês para oferecer a quem puder ouvir. O Fenix Sessions terá o que tenho de melhor, de mais novo, e também tudo o que aprendi nesses anos como DJ e produtor, em técnica e estudo musical. Não é para ser um simples set. É um trabalho para fazer parte da vida de alguém.

Estreando no dia 14, o Fenix Sessions vai rolar na Frisky Radio nas segundas segundas-feiras de cada mês. Você pode conferir a programação e o link para ouvir o lançamento do programa aqui.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Entrevista

Saiba tudo sobre o Caos, novo clube do underground de Campinas, que estreia com Carl Craig

Jonas Fachi

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Caos
Em entrevista exclusiva, Eli Iwasa, uma das fundadoras do novo clube campineiro, traz todos os detalhes do empreendimento e revela, em primeira mão, a atração especial de abril
* Com a colaboração de Flávio Lerner
* Foto de capa por Bill Ranier; artes e vídeos promocionais por Muto

Quando em 29 de maio de 2013 a “japa do techno” Eli Iwasa abriu as portas do Club 88 pela primeira vez — junto com seus sócios Rodolfo Salin, Antonio Carlos Diaz, Juka Pinsetta e João Mota —, era a concretização de um sonho que cresceu, transbordou, fomentou a cena local e dentro de uma semana se transforma em uma nova realização: o club Caos, que inaugura em Campinas no dia 22 trazendo pela primeira vez à cidade a lenda do techno de Detroit, Carl Craig.

E Carl é aquele artista para o qual a palavra “lenda” realmente se encaixa, sem cair em banalizações ou esvaziamentos. Tanto que foi escolhido a dedo pela DJ, empresária, sócia-proprietária e curadora Eliana Iwasa para ser a grande atração do primeiro ato desse novo empreendimento no interior de São Paulo.

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Eli possui mais de 15 anos de carreira na música eletrônica, e já passou por clubs como o lendário Lov.e em São Paulo, o Kraft em Campinas e diversos eventos e gigs pelo país afora — seja como produtora, curadora ou DJ. À frente do Club 88, que continua funcionando normalmente no belíssimo Jockey Club de Campinas, a artista bookou artistas como Mind Against e Michael Meyer, e agora o momento é de expansão.

O Caos é o segundo estabelecimento do grupo e foi desenhado para abrigar artistas de maior porte — além de Craig, já estão confirmados Marco Carola (12/01) e um grande artista israelense (para abril) que ainda não foi anunciado oficialmente, revelado em primeira mão por Eli nesta entrevista exclusiva que você lê abaixo.

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Assim, o Caos promete estimular ainda mais a já movimentada cena do interior paulista, com seu espaço industrial aconchegante e ressignificado especialmente para que as pessoas sintam-se livres na pista, guiadas pela soberania musical.

Confira todos os detalhes que Eli nos revelou sobre o novo reduto underground campineiro:

Como mostrado na apresentação do projeto à imprensa, o Caos chega para cobrir uma demanda local por artistas de maior renome, devido à falta de capacidade no Club 88 atualmente. Quando vocês perceberam que existia esse potencial latente para um projeto maior?

Sempre houve um desejo de receber esses artistas, e o Caos nasceu justamente para possibilitar essa realização. Quando procuramos o local, pensamos no tamanho ideal que nos permitisse viabilizar esses nomes que sonhamos tanto em bookar, e que oferecesse uma experiência diferente do Club 88. Nós voltamos ao nosso começo, onde o que importava era a música sem muitas firulas — com apenas som e luz que proporcionassem algo bem intenso na pista.

Talvez um dos grandes diferenciais desse novo club é sua localização. Parece existir no Brasil uma tendência extraída da Europa por espaços com características industriais. O que o Caos vai apresentar de diferente em relação à estrutura, capacidade e, mais importante, atendimento e soundsystem?

O Caos ocupa um antigo galpão industrial, onde ficava uma siderúrgica — uma das características mais interessantes do espaço é que ele conta com diversas janelas, com luz natural inundando o club assim que amanhece. O ambiente é rústico, cru, mas é fundamental que as pessoas tenham conforto.

A pista conta com dois bares grandes, uma área externa bem ampla, e vamos trabalhar com o sistema cashless, que é super moderno e garante maior tranquilidade para você consumir na festa. Quanto ao soundsystem, vamos deixar para quem for à inauguração, mas posso te adiantar que é de uma marca que usamos em alguns de nossos eventos em Campinas.

“É simbólico ter na inauguração um artista que nos faz revisitar nosso passado ao mesmo tempo em que nos faz olhar para frente — porque Carl Craig é história, mas nunca deixou de ser um visionário.”

Não é qualquer clube que consegue inaugurar com uma das lendas de Detroit, Carl Craig. Qual a expectativa para sua vinda? O Caos tem pretensão de oferecer quantas horas de apresentação para os convidados?

O techno de Detroit sempre foi uma influência muito grande para mim, e Craig um dos meus produtores favoritos. É um artista que se manteve atualizado, atuando um diversas frentes, e  cuja música só reforçou sua relevância ao longo dos anos. Depois da apresentação arrebatadora no DGTL em São Paulo, a expectativa realmente é muito alta. Acho que é muito simbólico ter um artista como ele na noite de inauguração de um club que nos faz revisitar nosso passado ao mesmo tempo em que nos faz olhar para frente — porque Carl é história, mas nunca deixou de ser um visionário.

Além de você como anfitriã, teremos o lendário Mauricio Lopes e o duo campinense Black Sun na estreia do Caos. Em relação a residentes, existem nomes cotados?

O time de residentes de um club se forma conforme sua história é escrita, e os personagens importantes para ela aparecem nesse processo. Os residentes do Club 88 estão entre os melhores DJs de Campinas e região, em minha opinião, e conquistaram seu lugar com a qualidade de seus sets ali. No Caos, tenho certeza que este grupo também vai se formar no seu ritmo e tempo.

Caos

Antes de tudo, vem o Caos

Em janeiro, outro nome importante do circuito global chega a Campinas: Marco Carola. Nessas duas primeiras datas, podemos observar que o techno e o tech house prevalecem. É esse o estilo de música que o Caos vai focar, ou haverá abertura para outros nomes importantes de estilos como deep house ou house progressivo?

Um ponto importante é que não vamos levantar bandeira de estilo algum — o que importa é a qualidade musical. Temos o techno de Detroit de Carl Craig, o tech house cheio de classe de Marco Carola, mas também confirmamos o Guy J no dia 06 de abril, para quem gosta de progressive house, além de três artistas de techno que ainda não posso relevar, mas que estão entre os mais relevantes do estilo.

Além de uma data mensal fixa, o espaço irá receber outros gêneros de música, como o hip hop. Como vai funcionar exatamente esse diálogo entre estilos e públicos tão diferentes?

Já temos uma programação diversificada no Club 88, e nossos projetos de hip hop e pop (o Groove Urbano e a Wolf) também terão suas noites no Caos mensalmente. Cada noite e cada público servem para enriquecer nosso trabalho, nossa experiência, e o que podemos oferecer ao público.

“Não vamos levantar bandeira de estilo algum — o que importa é a qualidade musical.”

Parece haver uma tendência recente de novos clubes, com propostas cada vez mais nichadas, surgindo pelo Brasil. Como você enxerga esse atual momento do mercado dos clubes e da cena eletrônica em geral? Crises econômicas à parte, você diria que este é um dos melhores momentos para abrir esse tipo de negócio no país?

Sempre acreditei que crises trazem muitas oportunidades. O interior de SP abriga muitos dos maiores festivais do Estado, tem um público que consome avidamente música eletrônica, provou que é importante celeiro de talentos, com ótimos produtores e DJs, e conta com o Club 88 e o Laroc, que investem fortemente em sua direção artística de forma constante — assim, percebemos que havia demanda e espaço para um novo club. Num momento em que o mercado está tão retraído, por que não encarar mais um empreendimento se tudo conspirou a favor?

Como é o processo de estudo e incubação da ideia de criar um novo clube até, efetivamente, o seu nascimento? Conta pra gente o trabalho que envolve a criação de um empreendimento desse tipo.

Nosso trabalho é muito intuitivo — sempre falo que não servimos como modelo de negócio algum, de uma maneira mais tradicional assim falando [risos]. Lógico que todos esses anos de experiência servem como base para tomada de decisões, e no caso do Caos, foi apenas seguir um desejo latente em ter um espaço maior, para não termos que criar uma estrutura temporária cada vez que quiséssemos expandir nossas atividades para fora do Club 88. Todos nós temos uma inquietude que nos faz sempre pensar qual o próximo passo, o próximo negócio, evento…

Quando o 88 completou quatro anos, sentimos que era hora de crescer. A primeira coisa é encontrar o local adequado — ou no nosso caso, descobrir um local e pensar que seria incrível ter um club ali, como foi com o prédio do Jockey Club. Eu já tinha em mente que artistas gostaria de trazer, e corremos para a obra ser finalizada a tempo.

“Não há excessos: o Caos é uma grande pista de dança com um baita soundsystem e uma iluminação projetada para criar a atmosfera certa para dançar.”

Quais são as principais referências que nortearam o conceito e os princípios do Caos?

De alguma maneira, o Caos é como o final e início de um ciclo, e sentimos que é um retorno às nossas origens, quando o que realmente importava era apenas a música, mas com o olhar para o futuro. Tudo que era excesso foi retirado: o club é uma grande pista de dança com um baita soundsystem e uma iluminação projetada e pensada para criar a atmosfera certa para dançar. Desde a comunicação até a decoração, tudo foi simplificado, sem rodeios, sem exageros, para que você tenha a experiência e a percepção mais pessoais possíveis.

Espero que as pessoas realmente vivenciem uma imersão musical ao som de ótimos artistas, e possam compartilhar conosco a realização de mais um sonho.

Como o Caos vai se diferenciar de todos os outros clubes conceituais do mercado brasileiro?

Posso falar da estrutura, do espaço, dos bookings, mas o que na verdade sempre nos diferenciou, e espero que continue no Caos, é a relação que criamos com as pessoas que prestigiam nosso trabalho, com nossa equipe e com os artistas. Esse apreço pelo outro, por uma boa festa — é claro — e o amor genuíno ao que fazemos é o que vai tornar o Caos especial.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Entrevista

30 músicas para 30 anos: DJ Mau Mau celebra 3 décadas de carreira com playlist exclusiva

Flávio Lerner

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DJ Mau Mau 30 anos
Um dos principais nomes da cena nacional comemora 30 anos como DJ neste sábado, em São Paulo; confira o depoimento e a playlist que o Mau Mau montou para a Phouse!

Modelo, inspiração, exemplo, referência, ícone, respeito… São inúmeras as palavras que clubbers e profissionais da cena house/techno poderiam usar para resumir o DJ Mau Mau. Afinal, não é qualquer DJ brasileiro que festeja 30 anos de profissão com uma trajetória consistente, sendo pioneiro em tempos de terra seca e tendo a capacidade de se manter atual e relevante depois de tantas transformações nesse cenário.

Exemplo disso é o último ato de seu ano comemorativo: após aproveitar a marca pra celebrar em diversos momentos especiais durante todo este 2017, a festa derradeira desses seus 30 anos de DJ não é nada parecido com um baile da saudade tocando flashback para tiozões saudosistas, mas a nova edição da Capslock de Paulo Tessuto — um dos maiores exemplos [e reflexos] do que é a cena clubber contemporânea.

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Antes de discotecar pra jovens mudérnos e hedonistas no sábado — fechando com chave de ouro um ano que teve direito até a B2B com o DJ Marky no palco eletrônico do Rock in Rio —, o Mau Mau gentilmente topou dar um depoimento à coluna com uma breve retrospectiva de sua trajetória; de quebra, escolheu pra gente 30 músicas que representam essas três décadas de carreira, incluindo nomes como Kraftwerk, Front 242, Moby, John Tejada, Paul van Dyk, LFO, Carl Craig e Galaxy 2 Galaxy, além de uma faixa autoral.

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Basta, então, clicar na playlist abaixo [tracklist ao final do artigo] e ler as palavras a seguir pra curtir essa pequena viagem no tempo com um dos DJs-símbolo de São Paulo. Com vocês, DJ Mau Mau:

Sempre fui apaixonado por música. Na adolescência, minha experiência inicial foi através de vários grupos profissionais de dança que participei. No final dos anos 80, frequentei o Largo São Bento, em São Paulo, onde gangues e grupos de hip hop munidos de equipamentos de som portáteis se encontravam para disputas de breakdance. Foi nesse momento que o universo do DJ começou a me conquistar.

Um pouco antes de completar 18 anos, tive minha primeira oportunidade como DJ: no porão do casarão mais underground da cidade, o Madame Satã, reduto de punks, góticos e modernos, comandado pelos mestres Marquinhos MS e DJ Magal, duas grandes fontes de inspiração. Nos primeiros cinco anos, os toca-discos eram apenas um passatempo, e eu exercia outras atividades como sustento — fui bancário, trabalhei no escritório do DMC Brasil e fui coreógrafo do grupo Dance Division. Com o tempo, me apaixonei pela profissão, outras oportunidades apareceram e ganhei residências importantes no final dos anos 80: Club Malícia, US Beef Rock, Rouge Neon e Walkabout.

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Nos anos 90, adotei o nome profissional de DJ Mau Mau, quando fui convidado para comandar a cabine de som do Sra. Kravitz, ao lado do DJ Renato Lopes. Naquele momento, meu trabalho ganhou destaque e pude desenvolver meu estilo, voltado para o underground. Em meados dos anos 90, nasceu em São Paulo o primeiro after hours do Brasil: o Hell’s Club. Convidado pelo promoter e amigo Pil Marques, comandei por quatro anos essa grande revolução que moldou um novo comportamento na noite.

Em seguida, outras residências importantes: o after do Club Base, com o promoter Paulo Silveira, e a noite Technova no Lov.e Club, a convite de Oscar Bueno. Depois dos anos 2000, fui residente da noite Mothership no D-EDGE, onde, depois de alguns anos, fui transferido para a residência do Superafter, em que sigo até hoje. Atualmente, também comando a noite Houseira, no Club Jerome, com meu amigo Roque Castro.

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A carreira de DJ também me direcionou para a produção musical, em que desenvolvi muitos projetos e parcerias. Fazendo remixes e participações em shows, trabalhei com artistas nacionais importantes, como Roberto Carlos, Rita Lee, Marina Lima, Edgar Scandurra, Kiko Zambianchi, Edson Cordeiro, Laura Finocchiaro, DeFalla, Rodrigo Pitta, Franco Junior, Daniela Mercury, Jota Quest, Dudu Marote, Adriana Calcanhoto e o maestro Fabio Gomes Oliveira. Minhas músicas foram tocadas por DJs internacionais que admiro e que sempre foram fonte de inspiração: Laurent Garnier, Stacey Pullen, Mr C. e Carl Cox, entre outros.

A profissão também me proporcionou conhecer outros países e culturas. A convite do mestre Garnier, fiz minha primeira apresentação na França em 1995, no festival Trans Musicales, em Rennes. Depois ganhei residência por dois anos na festa francesa Open House, onde passei pelas principais capitais do país. Os convites internacionais não pararam: Inglaterra, Portugal, Alemanha, Turquia, Japão, Itália, Espanha, Bélgica, Estados Unidos, Argentina, Uruguai, Chile e Bolívia.

Em 2017, já recebi homenagem pelos anos de carreira do Nation Disco Club, primeiro reduto clubber em São Paulo, do final dos anos 80, comandado pelo DJ Mauro Borges, e também do Music Non Stop de Claudia Assef, entre outras comemorações. No início do ano, recebi o convite para tocar na Carlos Capslock através do L_cio e do Paulo Tessuto, e desde então estou muito ansioso.

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A Capslock é o tipo de festa que eu gostaria de frequentar, mas a minha agenda de trabalho não permite. Ter a oportunidade de comemorar essa data tão especial numa das festas mais legais da atualidade é um presente ao lado de amigos queridos! Tantos momentos de plena felicidade dedicados à música passaram voando, mas a paixão em pesquisar novos estilos musicais, desenvolver sons em estúdio e depois testar o resultado nas pistas pelo mundo continua a mesma do início de carreira.

São 30 anos de dedicação e amor. Assim, preparei uma retrospectiva com 30 músicas que marcaram minha carreira. São composições em estilos diferentes que em algum momento fizeram parte do meu repertório, e mesmo as mais antigas ainda soam bem atuais. ​Divirtam-se!

Tracklist:

[Anos 80]

1- Section 25 – Looking from a Hilltop (Megamix)

2- Colourbox – Hipnition

3- Front 242 – Don’t Crash

4- Kraftwerk – Numbers

5- Test Dept – The Faces of Freedom 1,2,3

6- Fast Eddie – Acid Thunder

7- Mike Dunn – Life Goes On

8- Adonis – No Way Back

9- Bam Bam – Give It To Me (Club Mix)

[Anos 90]

10- LNR – Work It To The Bone (The Original Classic)

11- West Bam – Alarm Clock

12- Dr. Baker – Kaos 1989

13- LFO – LFO

14- Xpansions – Move Your Body

15- DSR – Babaloo

16- Capricorn – 20 Hz

17- Speedy J – Something For Your Mind

18- Moby – Go

19- Humate – Love Stimulation (Paul van Dyk’s Love Club Mix)

20- Galaxy 2 Galaxy – Hi-Tech Jazz

21- Secret Cinema 2 ‎- Straight Forward

22- Kosmic Messenger – Flash

23- Jonny L – This Time (Carl Craig Mix 2)

[Anos 2000]

24- M4J – Macumba

25- DJ Mau Mau – Space Funk

26- John Tejada – Sweat (On The Walls)

27- The Martian – Particle Shower

28- Gabriel Ananda – Doppelwhipper

29- Luna City Express – Fresh

30- Justin Maxwell & John Tejada – I’ve Got Acid

A Capslock com o DJ Mau Mau rola neste sábado, dia 09, em São Paulo, em local ainda não revelado; o line ainda traz Tessuto, L_cio, Ella De Vuono, Max Underson, Vitor Lagoeiro e o alemão Sebastian Voigt.

Flávio Lerner é editor da Phouse; leia mais artigos de sua coluna.

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Entrevista

João Brasil: “Sou tipo um rapper, um funkeiro; minha matéria-prima é meu cotidiano”

Castelan

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Por

João Brasil
Rock in Rio, funk, EDM, Brazilian Bass, memes, morte da cultura dos mashups e novo clipe: confira um papo transante com o “cronista” João Brasil
* Com a supervisão e colaboração de Flávio Lerner

Em poucas semanas, damos as boas-vindas para mais um verão. Novos sons, hits e festas chegam em quantidades grandes para ajudar a suportar o calor que já bate na nossa porta. Mais ou menos nessa época do ano passado, o grande hit era claro: “Michael Douglas”, do João Brasil, havia se tornado uma febre fonográfica instantânea — em todos os cantos do país, geral deixava bem claro que nunca mais iria dormir.

Completando agora uma década de carreira, e após já ter desfrutado da exposição de hits como “Moleque Transante” (este pelo projeto Rio Shock), “Baranga” e incontáveis mashups, João embarcou em uma nova fase, mais eletrônica, onde pôde refrescar seu som através do EP #Naite, que, dentro da estética que batizou de “Low Funk” — que mistura seu amor pelo funk carioca a diversas outras referências da dance music e brasilidades populares —, traz quatro músicas, incluindo “Latinha”; novo single que, assim como “Michael Douglas”, vai deixar os entendedores entenderem do que se trata seus “lá-lá-lás” e “ló-ló-lós”.

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Aproveitando o gancho desta entrevista, o João nos convidou para mostrar com exclusividade aqui na Phouse o clipe de “Latinha”, que traz imagens de nada menos que sua performance no último Rock in Rio. De quebra, decidiu conversar conosco a respeito disso e de muitas outras questões da sua carreira — papo que você pode conferir logo depois de assistir ao clipe abaixo, em primeira mão!

O clipe de “Latinha” será lançado oficialmente nesta quinta-feira

João, conheci o teu trabalho através do projeto 365 mashups, de 2010, e ali ouvi misturas que nunca tinha sequer imaginado. Queria que você contasse um pouco sobre a importância desse projeto e o que ele te trouxe em termos de carreira.

Esse foi o maior projeto que fiz na vida. Realmente fiz um mashup por dia durante um ano. Estava morando em Londres e fazendo mestrado, foi muito intenso. O projeto me levou para espaços como o jornal The Guardian, proporcionou uma parceria minha com o Fatboy Slim no disco dele, me colocou para tocar em festivais como o Back to Black, também em Londres e tocar durante a queima de fogos do Réveillon de Copacabana para mais de dois milhões de pessoas.

“A nova política da internet praticamente matou a cena de mashup. Estamos voltando aos anos 80, com o Spotify como a nova rádio e o músico independente com cada vez menos voz.”

Os mashups reinaram até o começo desta década, mais ou menos; depois, podemos notar um declínio acentuado na popularidade deles. O que você acha dessa cultura dos mashups e por que ela caiu tão acintosamente nos últimos anos?

A nova política da internet praticamente matou a cena de mashup. Derrubaram minha página no Soundcloud, assim como as de diversos artistas que faziam mashups e remixes. Hoje em dia, praticamente, não conseguimos subir nenhum remix ou mashup que não seja oficial. Antes mesmo de completar o upload do mashup, o sistema o derruba. É uma pena, estamos voltando aos anos 80 — o Spotify e os outros players de streaming viraram a nova rádio, e as grandes gravadoras voltaram a ter uma importância muito grande. O músico independente está com cada vez menos voz a cada ano que passa.

Talvez nada represente melhor a capacidade de mashups do João Brasil do que esse clássico que mistura um pagode do Grupo Raça, um beat de funk e um dos gols mais perdidos da história do futebol brasileiro

Você lançou recentemente o novo EP, #Naite, com um show de sucesso no Rock in Rio. Como foi fazer o lançamento em um festival tão importante?

Foi épico. Foi o melhor dia da minha vida profissional como um performer. A galera estava muito animada, pulando muito, vibe incrível. Montamos o meu maior show até hoje, com painel de LED, fogos, brincadeiras com o público e tudo mais a que tínhamos direito. Era um mar de gente, foi inesquecível para todo mundo que estava lá. A galera recebeu as novas músicas muito bem e já tinha gente cantando algumas delas, foi demais!

“Eu sou um observador e cronista do que acontece ao meu redor. Sou tipo um rapper, um funkeiro, onde a minha matéria-prima para as canções está no meu cotidiano.”

A faixa “Michael Douglas” virou seu maior hit até hoje. Conta um pouco pra gente do meme e de como surgiu a ideia de fazer esse som.

Eu estava no Sul, em Atlântida, no club Pista 3. Estava todo mundo muito animado, éramos um grupo grande, todo mundo pulando e se abraçando. Vários DJs amigos do Sul, o crew de Brasília New Chicks On The Block, todo mundo cantando “Nunca mais eu vou dormir”, sobre outra música que estava rolando. Aí eu mandei “Ih, que isso?! Michael Douglas!”, o povo chorou de rir, pirou. Pensei na hora: tenho um hit. Voltei para o Rio e produzi a música em uma semana. A minha cabeça de “mashupeiro” logo fez a música soar como um mashup de funk com EDM.

Reza a lenda que esse áudio de Whatsapp que originou o meme “Michael Douglas”

Por que você acha que “Michael Douglas” explodiu tanto? Você entende que tem mais a ver com a sonoridade dela ou pelo fato de se tratar de uma piada com um meme?

Ela fala com todo mundo. O cara mais velho que adora o ator Michael Douglas, o baladeiro insider que sabe o que “Michael Douglas” significa na noite e as crianças que não querem dormir nunca. Atingiu a todos. Os amigos da minha filha de cinco anos cantam na escola. Realmente o que aconteceu foi algo surreal. E a sonoridade fácil ajudou a disseminação também: batida de funk e synths de EDM.

#Naite é o mais recente EP do produtor

“Michael Douglas” faz alusão ao MDMA, e “Latinha” brinca com Loló. Você por acaso quer ser o novo Tim Maia cantando “Chocolate”?

Ou a Rita Lee cantando “Lança Perfume”? [Risos] Adoraria ser o novo Tim Maia, mas me contento em ser um observador e cronista do que acontece ao meu redor. Sou tipo um rapper, um funkeiro, onde a minha matéria-prima para as canções está no meu cotidiano.

Estamos divulgando aqui em primeira mão o clipe de “Latinha”. Você tem alguma curiosidade pra nos contar sobre a faixa, o vídeo e seu processo de produção?

A ideia que tive foi: quero uma música épica, eletrônica, com humor e cantada em português, bem na linha de “Michael Douglas”, mas sem batida de funk. O funk iria ficar na interpretação do vocal, na vibe mesmo. Confesso que me incomodo que a maioria dos produtores de música eletrônica do Brasil tem nomes gringos e faz músicas em inglês. Não sou contra ninguém compor em inglês, eu mesmo já compus, mas compor apenas nesse idioma, sendo brasileiro, eu acho um pouco estranho.

“A maioria dos produtores de música eletrônica do Brasil tem nomes gringos e só faz músicas em inglês. Não sou contra ninguém compor em inglês, eu mesmo já compus, mas acho um pouco estranho.”

Não é a minha onda, gosto muito de música brasileira. Eu chamei o Brazza Squad para fazer o drop da música. O remix que eles fizeram de “Michael Douglas” ficou fantástico, toco sempre nos meus sets, e foi natural chamá-los para uma colaboração na “Latinha”. Não poderia ter escolhido parceria melhor para essa faixa. O clipe, todo filmado no Rock in Rio, passa bem a energia dessa nossa colaboração.

João Brasil

João Brasil e Brazza Squad, no Rock in Rio

Trabalhar com o Brazza Squad foi uma mistura inédita na sua carreira? Existe alguma mistura ainda não feita que você quer levar para o público?

Foi a primeira vez que colaborei com DJs de Brazilian Bass. Curti muito o resultado, gosto muito do estilo. Já tinha feito mashups nessa onda, mas nunca uma música do zero. Ainda quero fazer muitas novas misturas nessa vida [risos], principalmente com esses funks novos a 150 BPM que estão rolando agora nas comunidades do Rio.

No final de agosto saiu o clipe da faixa “Youtubers”, uma ode psicodélica a uma galera que hoje influencia a opinião das pessoas em alguma medida, e em uma entrevista pro G1 você até os chamou de “novos rockstars”. Até quando você acha que dura este momento de ouro dessa galera?

Acho que dura ainda um bom tempo. O YouTube é a nova televisão da molecada mais nova. Outro dia fui numa palestra sobre o Musical.ly e descobri o mundo dos “musers”. Eles foram os maiores responsáveis por espalhar o “Michael Douglas” para a criançada, fizeram várias versões. Ainda vamos ver muitas plataformas e influenciadores surgirem. Está tudo cada vez mais rápido, porém os melhores vão saber aproveitar a oportunidade e surfar as diferentes ondas, ao mesmo tempo em que muitos vão ficar pelo caminho.

João Brasil

João, no Rock in Rio, executando seu passinho clássico: a “sarrada gravitacional”

Como tem sido o retorno das pessoas a essa sua mistura entre EDM e funk carioca? Pela nossa experiência, o grosso do público da cena eletrônica no Brasil tem um preconceito enorme com o funk…

Eu amo funk, adoro as batidas. Sou do Rio, e por aqui é muito difícil não ter um pouco dessa influência. O preconceito com o funk não é exclusivo do público da dance music, muita gente tem. É uma música produzida, originalmente, por negros e pobres. O preconceito não é apenas musical, infelizmente. Odeio preconceito e adoro funk — os mashups e minhas misturas são maneiras que encontrei de construir um mundo onde todos possam se divertir, independentemente de sua origem, classe social, orientação sexual, religião ou cor.

“Minhas misturas são maneiras que encontrei de construir um mundo onde todos possam se divertir, independentemente de sua origem, classe social, orientação sexual, religião ou cor.”

Ao mesmo tempo, o estilo se desenvolveu muito nos últimos anos, e faz sucesso tanto nas favelas quanto nas festas de playboy. Você tem alguma ideia de por que existe ainda tanta resistência no Brasil ao funk carioca?

O Brasil sempre viveu um complexo de vira-lata, sempre achou que tudo que vem de fora é melhor, e isso não é de hoje. Não damos valor às nossas verdadeiras riquezas, aos nossos verdadeiros talentos. Ainda precisamos ter nomes gringos e músicas em inglês para ter música na playlist Eletro BR do Spotify. Ainda precisamos contratar um gringo como o Diplo ou o Hardwell para tocar nossa própria música — como “Baile de Favela” — para nós mesmos. Ainda temos muito que evoluir como sociedade.

Depois desses últimos lançamentos, quais são os planos? Uma turnê por aqui no exterior? Mais videoclipes?

Depois de “Latinha”, vamos finalizar o clipe de “Rave de Favela”, que será lançado até o final do ano. Vou lançar mais um single também. Entro numa agenda intensa aqui pelo Brasil no verão com a turnê do #Naite, que só vai acabar no carnaval, e depois parto para a Europa e os Estados Unidos para a minha turnê gringa no verão de lá.

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