Entrevista

Fotógrafo de Alok narra sua trajetória e dá dicas para o sucesso na área

Alisson Demétrio é o quarto personagem da série “Click: a música por trás das câmeras”, que investiga o trabalho dos fotógrafos da cena eletrônica.

Pense você na ingrata tarefa encarada por um fotógrafo que se dedica ao mercado da música. Seu trabalho é registrar da melhor forma possível, de maneira visual, um espetáculo que é na sua maior parte auditivo. Como transmitir toda a energia de um momento, de uma batida, em uma simples imagem? Sem dúvida, não é um trabalho para qualquer um. Exige talento, dedicação e uma conexão profunda com a música.

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Na era em que as redes sociais são instrumento fundamental para a propagação da música eletrônica, DJs, produtores, labels, eventos e todos os outros agentes da cena têm usado fortemente o apelo visual como forma de divulgação de seus trabalhos. Instagram, Facebook, Snapchat e outros são diariamente tomados por imagens estonteantes de grandes festas, palcos maravilhosos, viagens a lugares exóticos e tudo mais que puder ser capturado pela lente de uma câmera.

O que poucos param pra pensar é que por trás de cada uma dessas fotos, há um profissional que dedica sua vida a isso, a passar a mensagem da música eletrônica através da fotografia. Na série Click: a música por trás das câmerasvamos te apresentar, em cinco capítulos, alguns dos maiores nomes da fotografia no mercado da música eletrônica brasileira. Eles estão nos maiores eventos, trabalham com os principais artistas e enxergam a música como mais ninguém.

CAPÍTULO 4: Alisson Demétrio

O quarto episódio da série nos apresenta a um dos personagens em maior evidência no cenário atualmente. O catarinense Alisson Demétrio é sem dúvida alguma um dos principais nomes da fotografia dentro da cena, sendo conhecido principalmente pelo trabalho realizado junto a Alok, com quem viaja durante as turnês ao redor do mundo.

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O trabalho de Alisson, porém, não se resume à parceria com o DJ mais popular do Brasil. A lista de artistas com quem já trabalhou é interminável, reunindo outros grandes nomes da cena nacional e internacional. Além disso, ele também cobre festas e eventos e até mesmo artistas de fora da cena eletrônica, como no sertanejo. O fotógrafo também faz parte do projeto Image Dealers com nosso entrevistado anterior, Pepe.

Com uma das lentes mais cobiçadas do Brasil hoje em dia, o homem que venceu as barreiras da própria música eletrônica e hoje vê sua arte valorizada em todo o cenário musical não nos escondeu nada.

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O que veio primeiro: a paixão pela música ou pela fotografia? E como as duas se uniram?

Comecei a me interessar por “fotografia de balada” porque tinha um amigo de Santa Catarina, o Diego Machado, que estudava comigo e trabalhava com isso. Eu achava demais ter os acessos que ele tinha, então em 2008 comprei uma Canon Sx30 Superzoom. Quando ainda morava em Curitiba, dava pra ver a superfície da lua com ela, só não dava pra fazer foto boa à noite. Me mudei para Jundiaí em 2011, e em 2012 comecei a fotografar festas na cidade com essa mesma câmera, que era horrível pra festas noturnas.

As fotos ficavam granuladas demais, mas eu queria aquilo e tinha que começar de alguma forma. No ano seguinte comprei uma câmera melhor e um flash, e montei o 501 Fotos. Desenvolvi um logo — que era uma cópia descarada do logo do Rukes.com —, uniformes, cartões e uma página no Facebook para postar os trabalhos que fazia na noite.

As festas não tinham muita estrutura; mesmo assim, sempre procurava dar o meu melhor ali e fui sendo reconhecido por isso. Sempre li muito sobre a área e fiz alguns pequenos cursos. Olhava todas as fotos das minhas referências na época, como Rukes, Rudgr, Gui Urban e os I Hate Flash. Tentava copiar o estilo até encontrar o meu.

Em 2014, consegui um credenciamento de imprensa para fotografar na Tribe, em Itu. Todo o custo de ida, estacionamento e comida foi por minha conta. Falaram que eu não teria acesso aos palcos, mas com um pouco de educação você consegue coisas incríveis, e foi assim que conquistei a simpatia do tour manager do Martin Garrix. Na época, ele já era um fenômeno, e o manager me deixou sozinho no palco fazendo as fotos.

No final, me pediu um cartão e eu entreguei. No dia seguinte recebi um e-mail dele pedindo algumas fotos; mandei algumas e ele postou uma. Ter uma foto postada pelo Martin Garrix foi o ápice na minha carreira até então. No mês seguinte vi que o Alok iria tocar na Anzu pela primeira vez e mandei um inbox na página dele, perguntando se poderia fotografá-lo. Usei como portfólio de apresentação as fotos que fiz na Tribe e o surpreendi; ele aceitou e gostou muito das fotos que fiz, e estamos na estrada até hoje viajando juntos.

Como é trabalhar com grandes DJs e estar sempre viajando com eles?

É muito louco. Você viaja muito, fotografa em vários Estados e cidades no mesmo final de semana, dorme pouco, se alimenta mal, tem que entregar as fotos o mais rápido possível, mas no final sempre está feliz, realizado por fazer o que sempre almejou na carreira. Fazer parte desse meio é uma realização profissional muito grande. Você tem acessos que ninguém mais tem: pode estar ali no meio de todos os DJs que você curte, que é fã, conversar com eles, trocar ideias e contatos. Para mim, o networking que você pode construir, as pessoas que você pode conhecer e reencontrar os amigos que trabalham na área são as melhores partes.

Viajar com DJ é ser mais que fotógrafo. Você se torna um membro de uma família onde todos se ajudam e são preocupados uns com os outros. Já cansei de ter que invadir quarto pra acordar alguém que perdeu o horário, de organizar camarim, fãs pra tirar foto, logística, chegada, saída e resolver muitas outras coisas que vão além da função de fotografo, mas que eu amo fazer.

“Ter uma foto postada pelo Martin Garrix foi o ápice na minha carreira até então.”

Conte um pouco da sua rotina e dos principais desafios da profissão.

Esse trabalho definitivamente não tem uma rotina. Ele tem algo que costumo chamar de “rituais”, como ir para aeroporto, passar no raio-x, embarcar, desembarcar, pegar van, hotel, show… Cada show é diferente. Mesmo se você já fotografou aquele lugar antes, os acessos mudam, a estrutura muda. Tento sempre chegar bem antes do artista no evento, para fazer um reconhecimento de área, conversar com as pessoas que estão trabalhando no evento e principalmente conhecer os acessos, as passagens, os lugares e ângulos que irei fotografar.

Percorro todos os caminhos pelos quais irei passar na hora do show, para calcular tempo e para não ter surpresas na hora. Um lugar que sempre vou e uso para fotografar é a housemix, aquela “casinha” no meio da galera, onde ficam os técnicos de som, luz e efeitos. Ali consigo ter uma visão ampla do show e registrar momentos importantes, sem ninguém me empurrando ou derrubando bebida na minha câmera. Ter um tratamento cordial com todos que estão trabalhando no evento é essencial. Ser sempre educado, pedir licença e agradecer é o básico. Isso vai diferenciar você dos outros, e te facilitará algumas coisas.

Qual foi o momento mais curioso da sua trajetória?

Nesses anos de carreira a gente acumula muitas histórias, mas na mais recente, estávamos no camarim, Alok estava atendendo à imprensa e em certo momento ele pediu pra trocar de lugar comigo, para dar entrevista para um veículo local. Eu falei: “Pode deixar que eu dou a entrevista”.

Ele começou a rir e saiu de perto, e a entrevistadora não sabia quem era Alok. Comecei a responder todas as perguntas por ele: onde nasceu, o que estava achando da cidade… e tentando segurar a risada, porque todos estavam chorando de rir! Até que ele surgiu na frente da câmera falando que eu era um impostor. Fora outras vezes que tirei foto com pessoas achando que sou ele, mas depois a gente desmente pra pessoa não ficar triste.

“Viajar com DJ é ser mais que fotógrafo. Você se torna um membro de uma família onde todos se ajudam e são preocupados uns com os outros.”

Como você resumiria sua carreira até este momento?

O ano passado foi o melhor até agora. Pude fotografar os maiores festivais, grandes DJs, conhecer pessoas incríveis, conhecer novos países e culturas, tudo através da minha fotografia. É incrível ver esse resultado: de onde a arte pode te levar, mas que nem sempre foi fácil. É um longo caminho até aqui, e ainda uma longa estrada a percorrer. Você só precisa ter bem claro na sua mente onde você quer chegar, mas principalmente de onde você veio, a estrada que percorreu. Eu tenho muito pra percorrer ainda, muita coisa que ainda quero conquistar.

O começo foi difícil. Fotografei muita festa ruim, já trabalhei muitas vezes de graça pra pegar experiência, tomei vários calotes, fui barrado em várias festas. Já tive equipamento roubado, fotografei no barro, na chuva, no calor insuportável, já jogaram bebida em mim, no meu equipamento, mas acho que tudo isso foi necessário pro aprendizado. Hoje sei como me virar sozinho em qualquer situação.

Que dicas daria para quem está começando?

– Tenha um planejamento de carreira. Saiba qual é seu objetivo, onde quer chegar e o que quer fazer.

– Se você não tem um estilo de fotografia, copie quem você admira até desenvolver o seu. Não é vergonha nenhuma copiar quem é bom.

– Conheça pessoas e faça amizades, dos seguranças ao pessoal da limpeza dos banheiros. Todos esses contatos são importantes.

– Chegue cedo no evento, procure ângulos que ninguém procurou, não se acomode nunca. Ande muito, não fique parado muito tempo no mesmo lugar e nem perca muito tempo conversando com amigos; eles atrapalham muito.

– Não se preocupe com equipamentos e lentes. Isso não vai fazer sua fotografia ser melhor. Faça o melhor na condição que você tem, enquanto você não tem condições de fazer melhor ainda.

– Não pergunte se você pode entrar em um palco ou camarote. Apenas vá entrando; se mandarem voltar, volte. Esse conselho é muito errado, mas me ajudou muito.

– Programe com antecedência os festivais e as festas que você quer ir. Tente se credenciar bem antes, nunca deixe pra semana do evento. Se não conseguir contato, fale com organizadores e promoters.

– E o principal: seja humilde e educado, sempre.

Veja alguns cliques de Alisson Demétrio:

Confira os outros capítulos da série Click: a música por trás das câmeras.

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