Como a crise e as mudanças de mercado geraram um novo perfil de festivais no Brasil

Com o cancelamento de nomes como Tomorrowland e EDC, tudo indicava um 2017 fraco de eventos na música eletrônica nacional; felizmente, a realidade aponta outro caminho.

O cancelamento das edições brazucas do Tomorrowland e do EDC para 2017 pegou muita gente de surpresa e desanimou geral. O motivo podia ser resumido a uma única palavra: crise. E se dois dos maiores festivais se retiravam do mercado brasileiro, tudo indicava um ano bem morno pra música brasileira no Brasil, correto? Bem, não necessariamente.

Apesar de, sim, a recessão econômica ainda estar longe de ser resolvida, o mercado passa por uma readequação, um momento de adaptação a novos hábitos do público e ao macroambiente. Assim, diversos festivais já foram anunciados para este ano [alguns inclusive já rolaram], com um novo perfil: sai um pouco de cena o megafestival para cem mil pessoas, com os maiores nomes da EDM global e cenários apoteóticos, e entram no lugar eventos mais enxutos e nichados — isto é, para um público mais específico, oferecendo o máximo de qualidade de experiência com uma conta que fecha. Sim, é a Cauda Longa ganhando mais força na cultura de pista brasileira.

Quando Luiz Eurico Klotz, sócio-fundador da Plusnetwork [antiga Plus Talent], informou que o Tomorrowland seria substituído por quatro festivais de menor porte, já estava cantando essa pedra. O Electric Zoo, um desses eventos, já está confirmado para abril, e é destaque de uma safra de festivais que aportam no Brasil pela primeira vez, como também será o caso de Awakenings e Welcome to the Future [mais duas produções da Plusnetwork — especula-se que o Misteryland seja o quarto nome]. O Dekmantel São Paulo, que rolou agora em fevereiro, é outro ótimo exemplo, com uma curadoria seletíssima para um público diverso, mas longe do mainstream. O BPM seria outro destaque entre os debutantes no país, mas infelizmente o incidente na edição mexicana adiou esse projeto.


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“O cancelamento do Tomorrowland não indica necessariamente que o mercado iria encolher, mas que estava acontecendo um ajuste comportamental do público e dos organizadores. Houve no passado recente o crescimento do número de grandes eventos no país para um público que não seria capaz de assimilá-los, tanto pela curadoria quanto pelo bolso. O ‘ajuste’ já começou e deve continuar pelos próximos anos, em mais eventos de médio porte com propostas de valor e experiências diferentes”, diz Guga Trevisani, sócio-diretor da Entourage, que produz o Kaballah Festivaluma das marcas nacionais que vão se adaptando às mutações do mercado, ao lado de expoentes como Federal Music, Rio Music Carnaval e XXXPERIENCE. O Guga explica que o maior desafio dessa última edição de janeiro foi “vencer os claros sinais que a crise está causando no país”. “Investimos mais do que ano passado em cenografia e marketing e reduzimos nossas projeções de vendas, melhorando nossa precificação. O resultado foi uma entrega com melhor qualidade e experiência para o público.”

“Este vai ser um ano difícil, não tenho dúvidas, mas acredito também que o fator novidade deve colaborar com o sucesso desses novos eventos”, complementa Maurício Soares, diretor de marketing e estratégia da Plusnetwork, que projeta um 2017 tão difícil quanto 2016, mas “menos traumático”: “Não há variação drástica no câmbio, como aconteceu num passado recente, deixando muita gente que havia feito contratações de grande porte em dólar numa situação bastante difícil”. Para ele, “o processo de recuperação econômica deve ganhar tração a partir do quarto trimestre, o que vai favorecer também a continuidade desses eventos no Brasil em 2018 e além”.

Erick Dias, um dos produtores da XXXPERIENCE, crê num começo muito duro, mas tem esperança de melhorias em curto prazo. “Acho que o primeiro semestre vai ser mais difícil que 2016. Espero que o segundo seja melhor, mas acredito que em 2018 as coisas melhorem bem”. A XXX, que neste ano prevê duas edições [10 de junho em BH e 11 de novembro em Itu], comemorou vinte anos em 2016, e o Erick já havia admitido que a comemoração poderia ter sido maior, não fosse a economia em frangalhos. “Vamos continuar por uma longa estrada ainda, trazendo inovações. Neste ano, iremos ampliar algumas coisas na parte cenográfica, deixando a xxx21 ainda mais personificada e surreal.”


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Por sua vez, o produtor de eventos Otacílio Mesquita, mais conhecido por tocar os mineiros Sunflower e Net Festival e o baiano Sundance, entende que, mais do que a recessão — que inviabiliza a contratação de headliners gringos —, a mudança de perfil dos festivais se dá por um esgotamento de formato. “Pegamos carona num modelo de grandes festivais, mas é um modelo cascata, ficou tudo muito repetitivo. O próprio Tomorrowland da Bélgica tá mudando um pouco no palco principal, dando uma diversificada. Aquela onda de som feito pro mainstream ficou cansativa”, diz. “O público de música eletrônica no Brasil está mais exigente. É o momento de se reinventar, não só por causa da economia, mas porque a música eletrônica é muito dinâmica — e o Brasil vem amadurecendo nisso.”

Mas se esses festivais menores não fazem a sua cabeça e você quer mesmo é saber dos colossos, ainda há motivos pra comemorar. Além de megafestivais que contemplam a dance music, como o Lollapalooza e o Rock in Rio, o Ultra Brasil, que passou por poucas e boas em sua primeira edição tupiniquim, segue firme e forte — e com bastante otimismo. “Temos a crença de que 2017 vai ser bem melhor do que 2016”, conta Pedro Nonato, diretor do festival, que tem sua segunda edição confirmada para outubro. “Estamos muito satisfeitos com a utilização por completo do Sambódromo, muito confiantes no novo formato de três dias, com a reestruturação dos palcos e com os novos espaços. Além disso, seremos o único festival internacional de grande porte presente no país. Ano passado tivemos cerca de 60 mil pessoas e este ano a previsão é superar a marca de cem mil, sem contar também que o dólar está mais do que um real mais barato do que há um ano.” Quando o perguntei sobre o que afastou as vindas de Tomorrowland e EDC mas não afastou o Ultra, ele foi taxativo: “Competência: previsões realistas de captação de patrocínio, controle de custos de produção, pricing certo e de análise macroeconômica — antevendo o dólar em um patamar correto”.

Assim, se não ocorrerem grandes reviravoltas, 2017 promete acabar entregando consideravelmente mais do que a recessão sugere.

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