Da BASE ao Tomorrowland; a trajetória e a visão da “personalidade do ano”, Luiz Eurico Klotz

Com 20 anos de música eletrônica, o diretor da Plus Talent e ID&T Brasil e criador do Skol Beats conta sua história e os bastidores da agência e do Tomorrowland.

O empresário Luiz Eurico Klotz começou a trabalhar com música eletrônica já nos seus 30 anos, quando foi convidado pra entrar como sócio no Club BASE, inaugurado em São Paulo em 1996 — uma das primeiras casas brasileiras a trazer grandes DJs internacionais. Essa experiência daria uma nova guinada em sua carreira, em que ele se especializaria e se transformaria num dos grandes nomes dos bastidores da cena eletrônica no Brasil.

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Depois do BASE veio o clube U-Turn, em 1999, e em seguida a fundação do famoso Skol Beats, o primeiro grande festival brasileiro de dance music, que rolou anualmente entre 2000 e 2009. Ainda no começo do novo milênio, fundou uma das maiores agências de DJs do Brasil, a Plus Talent, em sociedade com Edo van Duyn e Silvio Conchon. Paralelamente, tocou outros eventos tipo Nokia Trends, Dream Valley e XXXperience.

Mais recentemente, a Plus Talent foi adquirida pela multinacional SFX, fazendo com que o Luiz Eurico se tornasse diretor geral também da ID&T Brasil — filial brasileira da companhia que gere o Tomorrowland. Foi assim que o festival, que teve sua segunda edição recentemente, chegou ao nosso País, e obviamente o Klotz é um dos figurões por trás de tudo.

Antes desse último Tomorrowland, porém, trocamos uma ideia com o Luiz Eurico sobre sua trajetória, cena e mercado brasileiro, reclamações em mídias sociais [incluindo a polêmica do Vintage Culture], crises econômicas, line-ups de festivais e projeções pro futuro, em papo que você confere abaixo.

Por que você considera que foi eleito “Personalidade do Ano” pelo RMC?

Acredito que pela soma do meu trabalho em todos esses anos de carreira. Desde 96, levando vários artistas para o Club BASE, o qual era sócio, em São Paulo, e assim iniciando o trabalho de agenciamento, pois trazia-os para tocar e negociava as atrações para outros lugares no País. Começou então a base da agência [Plus Talent], somando-se ainda o trabalho com o Skol Beats, que durou nove anos, e todo o trabalho desenvolvido em inúmeras curadorias de festivais e grandes eventos — fizemos o Fatboy Slim na praia do Flamengo [em 2004]! —, além de outros tantos festivais, tours e agências que participo direta ou indiretamente. Com a vinda do Tomorrowland e outros eventos maiores, acho que isso só fundamentou uma carreira de 20 anos de trabalho ligado ao mercado; o que não é pouco, não é? Então não há algo específico, acredito que seja a soma de tudo que já fiz, com a ajuda de muita gente, ao longo desses anos; foi importante para a cena brasileira.

Você foi chamado para a criação do conceito do Skol Beats, certo? Como se deu exatamente a criação do projeto?

Não exatamente. Mostrei a eles que existia um momento correto para o festival. Quando eu era sócio do BASE, a Camel começou a patrocinar o Camel Connection, em 1998. Foi o primeiro projeto grande em que uma marca investia em trazer grandes nomes da cena eletrônica mundial para um clube no Brasil. O BASE foi um divisor de águas para a cena brasileira; trouxemos nomes como Sasha, Nick Warren, Kevin Saunderson e Deep Dish. O Camel Connection era um projeto tão legal que, no ano seguinte, a marca queria fazer algo fora do club. Estava na hora de fazer um festival, só que a Camel era licenciada e foi vendida. Naquele momento eu já era sócio da U-Turn, outra casa noturna em SP, e me aproximei mais ainda do pessoal da Ambev/Skol da época, e formatamos assim o Skol Beats — uma iniciativa minha junto com a Ambev.

Você é sócio do cara que ajudou a revolucionar a cena eletrônica brasileira e o drum’n’bass no mundo, e que já tinha uma experiência de agente de DJs na Bulldozer, da Inglaterra. Como você conheceu o Edo van Duyn, e o que fez ele se tornar sócio na Plus Talent?

O Edo tinha uma noite de drum’n’bass em Londres chamada Movement. Foi ele quem começou a levar o Marky e o Patife para a Inglaterra. A gente se conheceu em alguns festivais, enquanto ele fazia a curadoria de alguns eventos de d’n’b. Depois disso, ele conheceu uma brasileira e passou a fazer uma festa Movement no Lov.e [em SP]. Como ele quis mudar pro Brasil, eu o convidei para trabalharmos juntos em 2002.

Como a Plus Talent baseia a sua curadoria de novos talentos?

Abordamos e estudamos o potencial de cada artista, a capacidade de produção, capacidade de apresentação e o futuro na cena em que escolheu tocar. Estudamos também o mercado, a empatia, existem vários critérios. É lógico que uma agência busca um artista que possa agenciar o máximo possível, mas não é o curto prazo que nos interessa. Para nós, o mais importante é saber se a pessoa tem o perfil e a seriedade, se vai ter a capacidade profissional de produção, de entrega, e a persistência pra ser um artista no longo prazo.

O Brasil atualmente vive crise política e econômica, mas o interesse do público e a qualificação do mercado de DJs vêm numa crescente, concorda?

Por obra do destino o fato do Brasil estar em crise política e econômica — com o dólar e o euro tão altos em relação ao real — faz com que os artistas nacionais ganhem destaque na cena nacional. Você vê artistas crescendo, sendo privilegiados, cachês crescendo proporcionalmente, e o fato de estarmos em crise faz com que o promoter tenha que escolher onde apostar suas fichas. Ele vê no artista nacional de renome, que tem possibilidade de encher sua casa, uma saída excelente com relação ao DJ de pequeno/médio porte ou até do de grande porte internacional. Hoje em dia é muito difícil zerar a conta. Então se de um lado a crise existe, do outro lado o mercado brasileiro está muito aquecido.

Além da crise brasileira, temos também a crise da SFX. Como, na prática, ela afeta o trabalho de vocês? É um período muito duro o atual?

A crise da SFX não nos atinge, pois é só sobre os ativos dos EUA. A operação fora de lá vai bastante bem, obrigado. Agora, o cenário macroeconômico brasileiro não pode se deteriorar mais. Aí não é o Tomorrowland que vai ser sacrificado, são os fornecedores ideais, parceiros, patrocínios… Todo o universo em volta do festival fica afetado, então não é só a gente querer, é conseguirmos fazer.

A SFX comprou a Plus Talent em setembro de 2014, e a crise da companhia começou a bater no ano passado. Vocês tinham noção de que as coisas podiam dar uma desestabilizada quando fizeram o negócio? E quais as principais razões para fechar com eles? Foi uma venda que mudou muita coisa no mercado brasileiro?

A gente não tinha noção da crise, acredito que ninguém tinha. A gente sabia que poderia mudar alguma coisa, mas ninguém sabia que seria uma crise moral e política tão grande quanto foi. As razões para fechar foram participar de um grupo forte, estar em contato com várias empresas do mesmo ramo e trocar inteligência, informação. É por causa disso que somos os operadores e produtores do Tomorrowland Brasil e de outras marcas que vêm de fora.

Logicamente para nós mudou muita coisa, e consequentemente fazendo isso pela empresa no Brasil também mudou o mercado brasileiro. Então de qualquer ângulo eu sempre vejo essa transação com bons olhos, independentemente da crise momentânea.

Como funciona a curadoria do Tomorrowland, e como vocês têm recebido as críticas dessa última edição?

Estou no mercado há 20 anos e desde a época do Skol Beats eu escutava isso [reclamações]. A curadoria é feita de vários critérios, muita gente fazendo, aqui dentro, lá fora, gente de fora da agência, e os critérios são vários: quem já tocou, quem precisa ou não tocar de novo, quem aqui dentro da agência merece… As críticas são bem-vindas, a gente vai escutar todas, agora, ninguém é unanimidade. O Dunga não é! Imagina você ser o técnico da seleção brasileira e não ter crítica nenhuma. Impossível! A polêmica sempre vai existir, todo mundo está no direito de dar sua opinião, mas faz parte. Como em outros festivais, de concorrentes, tem agências que colocam 100% de seu line-up, a gente nunca fala nada; a gente entende. Então, eu vejo que reclamar faz parte da vida e da mídia social do brasileiro, mas a maioria a gente consegue agradar — isso é o que importa.

O Vintage Culture deu aquela declaração polêmica sobre ficar de fora por não ser da Plus Talent… Essa rivalidade entre as agências não acaba prejudicando a experiência de quem paga o ingresso?

Ele tem todo o direito de ficar chateado de não estar no nosso evento. Mas eu pergunto: se quando a agência que o representa [Entourage] faz a Kaballah, ela coloca alguém da Plus Talent? Por acaso ficamos reclamando? Não! Ele tocou o ano passado, pode ser que o convidemos para o ano que vem, não sei. O fato é que ele foi o único que deu uma declaração enquanto os outros milhões que não vão tocar não deram nenhuma. Ele está no direito dele, não é? Mas nenhum artista nosso fica reclamando que não toca em outros festivais. Se ele se sente bem fazendo isso, quem sou eu pra falar?

Os grandes festivais e clubs, no Brasil e no mundo — sejam mais populares, como Tomorrowland e Green Valley, ou com propostas mais nichadas, como BPM, Warung… —, parecem rodar sempre nos mesmos nomes nos últimos anos. Não falta um pouco de ousadia e criatividade pra dar espaço a tantos outros artistas talentosos periféricos?

Essa é uma pergunta bastante pertinente e eu posso explicar da seguinte maneira: do mesmo jeito que é dever de todo e qualquer festival entregar coisas novas, repare que cada vez que se coloca um novo nome, os frequentadores das mídias sociais sempre pedem os mesmos: “ah, por que não tem o Avicii? Por que não tem o Calvin Harris?”. Mas acho que pelos nossos festivais e pelo Warung, vem sendo feito um balanceamento entre nomes conhecidos e nomes novos, só que o público tem que estar aberto também para sair do que ele sempre ouviu e experimentar coisas novas. Qual a validade de um festival, se não também esta?

O que você pode prever para o futuro do mercado brasileiro?

Os ciclos das músicas vêm e vão. Agora o EDM teve o seu boom há quatro anos, este ano está com menos força, pois é uma música com muita energia e pouca melodia. Eu acho que sempre haverá espaço para música boa, qualquer que seja o seu estilo. Se  for boa, não importa se é EDM, comercial, techno, deep house… Seja o que for, todo mundo vai gostar. Agora, sem dúvida nenhuma, os criadores de cada cena têm uma tendência em buscar novas coisas, e o underground e as músicas menos comerciais tendem a se renovar mais. O comercial encontra uma fórmula e usa até esgotar, já o underground nunca está satisfeito — ele sempre busca mais renovação. Então ter os dois juntos, cada um em uma ponta, é o que faz a cena andar. Sempre vão acontecer coisas novas, e o público tem que estar aberto a ouvi-las. O DJ vem no natal, réveillon, carnaval, e falam: “pô, por que não tá no festival de novo?”. Mas de novo? Vá ouvir o cara que você nunca ouviu! Fiquem abertos, passeiem mais pelo festival.

E o que falta ao mercado da música eletrônica brasileiro?

O Estado brasileiro não nos atrapalhar. Existir uma legislação específica para eventos, e  não baseada em uma legislação de construção civil. Queremos uma política tributária que seja de acordo com nosso tipo de negócio, e não essa cascata de tributos em toda e qualquer área. Impostos e importações menores, para tecnologias e até mesmo coisas que não temos aqui. Máquinas de operação para facilitar trabalhos. Enfim, o que precisa é o Brasil ficar mais moderno, mais ágil e mais empreendedor. O País não tem uma política de eventos que ajude o empreendedor. O que precisa é deixar a gente trabalhar, e neste momento o Brasil não está deixando.  ~

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