DANÇAR É UM ATO POLÍTICO — Assista a documentário sobre os coletivos de festas que estão revolucionando SP

* Artigo publicado originalmente pelo nosso colunista Flávio Lerner no LOFT55, em dezembro de 2014

Lançado em dezembro, filme O QUE É NOSSO mostra como coletivos de DJs de São Paulo utilizam a cultura de pista como ferramenta de transformação social.

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A Metanol ajuda a abrir um caminho pra se pensar a música de maneira mais ampla e ao mesmo tempo entender que a música é uma ferramenta de mudança [Akin Deckard – Metanol FM]

“Vamos supor que frequentamos uma festa em que, em apenas uma noite, estaremos vivendo uma república de desejos saciados. Não deveríamos admitir que essa noite teve mais realidade e força política do que, digamos, todo o governo norte-americano?”

É com a frase do filósofo anarquista Hakim Bey que o livro Last Night a DJ Saved My Life [1999, Bill Brewster e Frank Broughton] inicia o capítulo O DJ enquanto um fora-da-lei. E continua: “Dançar é um ato político. […] Uma pista de dança é uma ação coletiva, fazendo de você um participante ativo. Você está criando o evento, e não apenas o consumindo. Um bom DJ pode suspender a realidade. Dance a sua música e você se esquece das suas contas não pagas e da sua luta por promoção. Você adia tudo aquilo que mantém a roda das nossas democracias capitalistas girando, e as troca por necessidades mais humanas — ou animais”. O livro segue o raciocínio para explicar como as raves e até mesmo o simples ato de juntar pessoas para dançar chegaram a ser ilegais: “Políticos sempre tiveram medo de aglutinações em massa”.

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As festas aqui estão mudando a cidade socialmente, politicamente, sua consciência, sua atitude [Jezmo Clode]

Em São Paulo, fazer festa e dançar não é contra a lei, mas a maior cidade da América do Sul vive hoje, possivelmente, o maior período de força política atrelado à cultura de pista na história do Brasil. Isso fica evidente no documentário independente O QUE É NOSSO – Reclaiming the Jungle, sobre como coletivos paulistas estão revolucionando, através de festas gratuitas na rua, o modo de viver e pensar a cidade. São eventos essencialmente artísticos, baseados nos valores da cultura DJ, com ideais políticos e sociais muito claros — democracia, igualdade, comunhão. Pode-se dizer, sem risco, que eles estão espalhando a mensagem da melhor maneira possível.

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Queríamos aceitar mais pessoas diferentes e quebrar esse padrão de balada elitizada de São Paulo [Thomas Haferlach – Voodoohop]

Tal relação também esteve explicita quando, muito antes de essa cena crescer tanto e de o filme nascer, o DJ e jornalista Camilo Rocha  citou Bey em seu blog,  justamente ao se referir ao primeiro SP na Rua — que é a contemplação de todos esses coletivos promovida pela prefeitura de São Paulo.

Em todo o caso, o filme de Murilo Yamanaka, Allyson Alapont e Jerry “Jezmo” Clode retrata e dá voz às lideranças de cinco coletivos — VoodoohopMetanol FMFree BeatsCarlos Capslock e Venga Venga —, mostrando como, no Brasil, mais do que nunca, fazer festa também pode ser sinônimo de fazer política.

* Está é a primeira parte de artigo publicado pelo autor em seu site LOFT55. A segunda parte, um papo com os diretores Allyson e Jezmo, você lê aqui.

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