Dos primeiros discos ao lançamento pela Innervisions de Dixon; uma entrevista exclusiva com Davis

‘’A devoção à arte é uma premissa fundamental para alguém que se chama um artista.’’ É com essa premissa que o DJ, produtor e incitador cultural paulista Davis caminha para fechar mais um grande ano em sua carreira.

Um dos responsáveis pela democratização da noite eletrônica na maior cidade do país e um dos DJs mais requisitados em nossa cena atualmente, ele conta nesta entrevista exclusiva para Phouse um pouco do início da sua carreira, o lançamento de sua label com Zopelar, experiências em dos clubes mais respeitados da Europa e sua grande conquista no ano, lançando pela consagrada gravadora de Dixon, a Innervisions.

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Você ganhou evidência nos últimos anos na cena eletrônica e rapidamente conseguiu se estabelecer como um dos DJs mais respeitados do Brasil. Obviamente essa é uma visão externa e não retrata toda sua trajetória anterior, bem como o tempo que passou até se destacar, como foi?

Eu nasci e cresci na Zona Leste de São Paulo, rodeado de música, onde minha maior diversão na adolescência era sair com meus amigos para dançar e assistir meus DJs favoritos nos clubes da região, como Toco, Contramão e Overnight. Ainda carrego comigo a memória da primeira vez que entrei num clube, vi aquela massa de gente dançando ao som de um DJ numa mega cabine, um enorme show de luzes … foi especial. E, então, foi daí que nasceu meu interesse em discotecar. Naquela época juntava grana do lanche da escola para poder pagar a entrada nos clubes. Sendo assim, eu não tinha grana suficiente para comprar muitos discos, nem tampouco um toca-discos decente. Mas mesmo assim eu arriscava gravar, no aparelho de som do meu pai,  fitas K-7 para meus amigos e para poder tocar nos nossos “bailinhos” na garagem, era uma mistura bem tosca, composta de músicas da minha ampla coleção formada de 6 discos e algumas faixas que gravava de programas de rádio (lógico que com aquelas vinhetas bizarras de programas de rádio), mas era muito gratificante ver a reação dos meus amigos quando as ouviam.. Os salários dos meus primeiros empregos (office-boy, atendente de locadora, entre outros) serviram para comprar discos (Vinis e CDs).  Enfim, por diversas razões eu não segui com a discotecagem, mas não deixei nem um instante de colecionar música.

Daí, em 2000, após uma grande perda na minha vida, fui buscar na música uma motivação, um forma de equilibrar minha vida. Passei a comprar discos novamente, comprei um par de toca-discos, fui praticando, contando com a ajuda de outros amigos DJs (como André Ribeiro, Maurício UM e Ronald Pacheco) que me incentivavam a  tocar, sempre elogiando meu gosto musical.

Poucos anos depois, em meados de 2004 comecei a fazer as minhas próprias festas, criando assim uma impressão muito boa para o público e para outros artistas que tocaram comigo. Uma hora arrumava um puteiro desativado, noutra ocupava espaço de um bar, enfim, tudo muito pequeno, mas com muito amor pela música. E, assim, foi me tornando conhecido no cenário alternativo de São Paulo até chegar a tocar nos clubes de maior prestígio na cidade.

Você é visto como um artista que está sempre buscando ajudar o desenvolvimento da cena em que está inserido, certo? Ser um ‘’agitador cultural’’ daquilo que acredita hoje pode ser visto como um diferencial tão importante quanto produzir e tocar?

Sim, gosto colaborar com o desenvolvimento do ambiente musical. Porém, eu prefiro acreditar que tocar e produzir é o mais importante. Gosto muito de me envolver na concepção de uma experiência de dança, em propor uma imersão e oportunidades para outros artistas se expressarem com liberdade. Por exemplo, na ODD, os artistas tem uma situação que é muito mais memorável e atraente do que a maioria dos clubes. Isso lhes permite tocar música mais interessante e fazer uma maior impressão em seu público.

Como você tem visto a nova geração de produtores em São Paulo, nomes como L_cio e Zopelar são talentos inquestionáveis. Fale sobre suas colorações com eles e a label com o Pedro.

 Os meus queridos e talentosos amigos, Zopelar e L_cio, já não são tão novos assim … rsrs. A amizade com o Pedro nasceu em meados de 2006, de nossas vontades de trabalharmos juntos, pois ambos temos essa facilidade de trabalhar com outros artistas. E, como temos características complementares, conseguimos superar alguns limites, e construir uma forma muito particular. E foi assim que nasceu o In Their Feelings, da nossa enorme vontade de apresentar a música que melhor nos representa, em diversos formatos, em diversas vertentes, mas com a nossa cara. Onde nossos padrões são muito elevados, tanto para a seleção dos artistas, como a arte da capa, mixagem, masterização e distribuição.

O selo está prestes a completar um ano de existência, e colhemos um grande aprendizado, uma lista de excelentes artistas nos apoiando (Axel Boman, Jennifer Cardini, Dixon, The Drifter, Mano Le Tough, Seth Troxler, Âme, Cleveland, entre outros), destaque em lojas e na mídia internacional.

Nos últimos 3 anos temos observado o que pode-se chamar de ‘’flexibilização’’ da noite paulista, novas opções culturais e eventos como a ODD, que você ajudou a criar. Qual a sua visão sobre essa nova fase da cidade?

Prefiro denominar este momento  como a democratização da noite, onde a queda de uma monopólio era iminente. Veja que os cidadãos agora estão explorando a cidade da melhor forma e acredito que isto é irreversível. É gratificante ver um congloremado de gente comum criar uma noite enfervescente para cidade, oferecendo uma maior gama de arte, de opções de diversão à população, uma maior quantidade de oportunidades para os artistas se apresentarem. Enfim. O cidadão tem o direito de ter acesso a maior oferta de cultura bem como escolher onde se divertir na cidade onde mora.

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Em suas apresentações internacionais você teve a oportunidade de se apresentar em alguns dos clubes mais importantes do mundo, teria algum que gostaria de relatar a experiência?

Sim, um das mais marcantes foi minha apresentação em março deste ano no Robert Johnson. Foi uma noite da Innervisions, comigo, Dixon e Kristian (Âme). Fiz o warm up para Dixon que se revezou com o Kris por algumas horas, e depois ao final tocamos os 3 juntos, por longas horas. Foi muito especial pois recebi excelentes feedbacks do público, conheci muita gente nova e tive meus melhores amigos comigo na viagem. Foi inesquecível.

Lançar uma música pela Innervisions, uma das gravadoras mais respeitadas do momento, foi sua grande conquista neste ano?

Foi uma das maiores conquistas da vida, com certeza, mas é apenas o começo. Desde o primeiro EP na gravadora eu admirava muito a proposta musical da Innervisions, a estética do selo, a conduta dos artistas. Quando conheci o Dixon no Sónar em 2007, eu imaginava como seria se um dia eu lançasse música no selo … então dá para imaginar o quanto esse lançamento representa para mim.

Conte-nos como foi o processo criativo desta faixa e a parceria com Cameo Culture.

O Dave (Cameo Culture) se tornou um grande amigo desde sua primeira vinda ao Brasil. Sempre falávamos em dedicar tempo a uma colaboração, e assim começamos trocando remixes. Mas foi numa  segunda visita dele ao Brasil, ano passado, que começamos uma jam session (Davis, Cameo e Zopelar) que nasceu a Blind.  A primeira versão surgiu sem vocal, com uma levada bastante hipnótica, mas  foi quando ele voltou para Nova Iorque que me mandou uma nova versão com o vocal. Eu fiquei muito bem impressionado, mas cheguei a testar um vocal feminino naquela ocasião, mas optei por manter a voz original. Foi então que comecei a testar a faixa na pista, mas antigamente eu tinha muita restrição de tocar minhas próprias músicas, foi quando o Marcus Worgull me mandou email dizendo que tinha amado a faixa e que se poderia remixá-la bem como me encorajando a mandar a faixa para o Dixon. Naquela época eu já mandava tudo o que fazia para ele. Mas com a Blind, eu tive esse bloqueio momentâneo, pensava que a música não se encaixaria na Innervisions. Daí veio a surpresa, ele não só escreveu pedindo para assinar a música, como logo em seguida me disse para segurar a ansiedade pois a música estaria no Essential Mix em algumas semanas. Foi muito legal ver a faixa ser a mais procurada durante esses 6 meses mundo afora e agora vê-la no topo dos charts das lojas e recebendo suporte de artistas em todos os cantos.

A sua relação com Dixon e o pessoal da Inner já tem algum tempo, como foi que isso começou? Emendando, conte-nos também como tem sido a parceria da festa Lost In A Moment no Brasil, rolou inclusive uma edição em plena final de copa do mundo no Brasil, como foi?

Sim, como falei, conheci o Steffen em 2007, no Sónar, mas nossa relação foi se tornando mais próxima durante suas apresentações no Brasil onde tocamos juntos na maioria delas. Houve uma identificação e admiração recíproca pela música e pelas condutas. Foi assim que nos unimos para realizar as festas da Innervisions e Lost in a Moment no Brasil durante a Copa do Mundo.

Apesar do tropeço do Brasil perante a Alemanha, o famoso 7 x1, tive momentos muito especiais com meus amigos. Eu não sabia o amor que eles têm pelo futebol, expressado da forma alemã, sabe? Uma mistura de orgulho e alegria por terem vencido mas a dureza na hora de comemorar, rsrsrs. Eu brincava com eles, falando, “porra, vocês acabaram de ganhar a copa do mundo e não sabem comemorar”, “olhem, os brasileiros estão comemorando mais do que vocês”.

As festas foram um sucesso, sold out, muita diversão, ou seja, comemoraram do melhor jeito alemão, com muita festa e música boa. 

Teve uma foto de vocês no Maracanã na final onde a Alemanha foi campeã, certamente foi um dia especial…

Como mencionei acima, foi muito especial ver a Alemanha campeã e ver os amigos chorando de alegria, se abraçando, vibrando pela conquista. Foi emocionante para mim como para eles.

Quais são os planos para 2017, algum lançamento ou tour em construção?

Bem, tenho muitos planos mas prefiro guardá-los para depois. O que posso falar agora é que acabaram de anunciar um EP meu e do Zopelar na Connaisseur Recordings para 2017. E as tours seguem normais, a todo vapor.

Sempre tem aquelas músicas que os artistas acabam não conseguindo tirar do set por um bom tempo, por sempre funcionar, qual ou quais a sua no momento? 

Tenho várias, mas a faixa do momento é a House-Hole do duo My girlfriend is programming the roland tr909 making a house beat.

Você pode saber mais sobre o Davis no SoundCloud e no Resident Advisor

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