Dre Guazzelli: “Gosto de mostrar que é possível ser DJ e praticar Yoga, beber e comer brócolis”

Confira um papo exclusivo com o DJ brasileiro que tem se destacado mundialmente em festivais como Burning Man e Universo Paralello, além da sua marca INNER multi.art.

Eu já tinha ouvido bastante falar de Dre Guazzelli, mas tudo o que eu tinha visto sobre seu trabalho foi quando apareceu brevemente no programa das nossas parceiras do Gypsy Road, no Burning Man em 2014. Contudo, no Chilli Beans Fashion Cruise deste ano tive a honra de conhecê-lo pessoalmente, e trocamos uma ideia. Me surpreendi mesmo com o set do cara, e cheguei a pensar no começo que fosse algum gringo tocando — por ser algo um pouco diferente do que costumamos ver entre os artistas brasileiros.    

Fiquei ainda mais surpreso ao poder conhecer, em junho, a sua festa INNER multi.art, que aconteceu numa fábrica tombada em São Paulo, a Fabriketa. Foi incrível! Projeção visual nos prédios, a cabine da pista principal era uma caminhonete antiga, e muita decoração inusitada. Sem dúvidas, foi uma das melhores festas que já fui, com uma curadoria incrível de lineup.

Passados mais alguns meses, tive nova oportunidade de trocar uma ideia com o DJ, que desta vez concedeu um bate-papo exclusivo aqui pra Phouse. Confira:

A INNER é uma das festas mais incríveis que já tive o prazer de frequentar pelo Brasil, e fiquei com a impressão de que é também um movimento de arte, cultura e conscientização social. Como foi o seu início, quais os principais desafios e qual a principal mensagem que querem deixar?

A INNER multi.art nasceu em 2005 como uma vontade de fazer uma festa em que misturasse algo a mais além de música, amigos e bebidas. Algo que fosse mais lúdico, com mais artes visuais, interação e elementos que saíssem do ambiente comum. Foi uma longa trajetória até aqui e hoje estamos caminhando para a 17ª edição. Hoje temos mais ou menos cem artistas participando do evento, entre DJs, bandas, artistas gráficos, grafiteiros, artistas plásticos, videomakers, fotógrafos, performers circenses e cenógrafos. São três pistas diferentes — uma maior, que vai do deep house ao techno, uma de hip hop e outra ainda menor de música alternativa —, e um público médio de 3500 pessoas. A atmosfera que se cria é única; é uma das coisas mais importantes para uma festa, e que o dinheiro não compra. Esse é um dos principais ingredientes da INNER ter se transformado em uma festa única e com personalidade.

Um dos principais desafios no início é que eu já conseguia ver adiante, mas ainda não tinha ferramentas necessárias para colocar 100% em prática. Isso tudo vem com o tempo, né? Um segundo desafio era convencer minha família de que tocar e fazer festas também poderia ser uma maneira feliz e saudável de viver. Existe um desafio eterno que é estar sempre em constante evolução para não cair no óbvio.

A INNER multi.art tem mais de dez anos, e através dela e das atividades dentro dela conseguimos expandir e criar uma empresa chamada INNER enterprises. Através dela conectamos marcas, público e artistas. Hoje temos labels próprios como o Sábado Dre Tarde, onde eu toco ao pôr do sol por mais ou menos sete horas seguidas; o Réveillon AWE em Caraíva, na Bahia; os labels de hip hop Chocolate e Groovelicious; o label de techno LEEDS, em que trouxemos na última edição Stefano Noferini e Santé; e outros labels próprios como INNER gallery, INNER help, que é nosso braço de ajuda ao próximo, e mais alguns que ajudam a passar para os amigos e a sociedade um entretenimento feito com amor, um lugar para se sentir em casa e celebrar a vida, dançando música que gostamos.

Você possui uma rica história de execução da arte de discotecagem pelo mundo, tendo já se apresentado em importantes festivais como o Burning Man e Universo Paralello. Como tem conseguido “mixar” essa sua vida de empresário, produtor de eventos e DJ?

Lá atrás eu já sonhava em produzir minhas próprias festas, em ter um festival, viajar o mundo, conectar marcas e artistas amigos, e hoje consigo olhar para trás e ver que eu vivo o que uma década atrás era apenas um sonho. O segredo para conseguir unir essas três pontas é amar cada uma delas e ter paciência e foco. Com o objetivo traçado, essas partes que parecem separadas podem se conectar, e uma vez conectada a plataforma está pronta. Me encontro hoje com as pontas conectadas, o time formatado, um público cativo e eu como DJ começando a produzir minhas próprias músicas e sentindo que cada apresentação minha tem sido melhor que a outra.

Eu nunca sonhei em ser DJ apenas, mas em levar a INNER multi.art para fora de São Paulo e do Brasil. Sempre sonhei em transformar minhas apresentações em um show lúdico, e estamos no caminho, cada vez mais. Tocar e viajar só me trazem mais energia e criatividade para transformar e criar labels de festas, sustentar os que já existem, mostrar que é possível e instigar as pessoas. Isso me dá a exata segurança artística e empresarial necessária para fazer a diferença e ajudar a transformar o mundo em um lugar bem melhor para todos nós!

Foram 25 viagens para tocar nos últimos seis anos! Nove vezes em Ibiza passando por clubs como Privilège e Amnesia, beach clubs como Blue Marlin e discotecagens na Ibiza Global Radio e Sonica. Oito vezes em festas no alto das montanhas da Suíça e Áustria durante o dia com pessoas encasacadas e com neve contrapondo cenários como os do Burning Man, onde toquei nos últimos três anos e não pretendo parar jamais. Tudo isso só me faz sentir e relembrar que o mundo é vasto e as possibilidades são infinitas e que a escolha de fazer atividades interdependentes é minha missão de vida.

Dre no Burning Man, no programa Gypsy Road

Falando em Burning Man, você já esteve por lá diversas vezes, sendo uma dessas na companhia das nossas queridas amigas Giulia Lops, Carol e Riza, do Gypsy Road. No primeiro episódio, você aparece com uma mala de CDs e cita a seguinte frase: “A melhor moeda no lugar em que não tem dinheiro é a música, e a gente vai trocar por abraço”. Conte um pouco dessas experiências proporcionadas por esse incrível festival.

O Burning Man é o resultado de tudo que já vivi de incrível em festas e festivais. Lá não é um festival, é uma cidade que comporta diferentes tipos de pessoas, diferentes estilos musicais, diferentes atividades, campings que viram bairros, uma cidade que vive do amor. Uma cidade com pessoas que respiram sorrisos, que trocam palavras e conhecimento, que vivem em harmonia, que não pré-julgam o outro, que conhecem pessoas que transformam um dia em algo fora do tempo. Que deixam máscaras que somos obrigados a vestir caírem, que respeitam o outro ser, que tentam ao menos colocar o ego no bolso e simplesmente fazer o que vier a cabeça, com amor. O grande lance da vida é que a liberdade que tanto buscamos tem uma carga enorme de responsabilidade, e lá isso é visível. As pessoas lá aprendem a simplificar e viver o amor ao invés da dor. Amor é luz e dor é medo. Medo do que o outro vai achar, medo do seu namorado não gostar, medo de não ter likes na foto, medo de não se expressar, medo de atrasar, medo de usar a calça, medo de falar, medo de comer. Amor é a palavra chave da experiência Burning Man.

Lá, onde quer que você esteja, você acaba trocando conhecimento e recebendo presentes. O CD com minhas músicas foi uma forma de eu presentear pessoas com o que eu mais gosto de fazer nessa vida. A cada ano dou um upgrade nos presentes que levo e eu gosto muito de dar presentes durante o ano todo — e esse foi mais um ingrediente que fez gostar MUITO do Burning Man, dar e receber. Dar e não esperar nada em troca. Fazer pessoas sorrirem, fazer as pessoas se sentirem bem.

A viagem com as meninas foi incrível e elas deixaram a experiência ainda melhor, mais legal mais viva e cheia de risadas. Me deram todo apoio necessário para as minhas tocadas e me fizeram uma pessoa ainda mais feliz e realizada. Fizemos os episódios da viagem de 2014, a do ano passado fizemos um documentário que teve como foco a primeira instalação artística brasileira que levamos para o deserto (Projeto Mangueira) e a saga do início ao fim. Este ano fui lá tocar de novo e voltamos a fazer os episódios, que estão quase prontos e vamos divulgar no início de 2017.

Como se sente por ter entrado para a história do Burning Man, através do Projeto Mangueira? Há planos para outros projetos como esse?

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Me sinto parte do todo e me sinto como uma das pessoas que ajudou de certa forma a vontade e a ideia de outros brasileiros que também passaram por lá! Esse ponto me lembra sobre o que falamos de conciliar as atividades de empresa, festas e DJ; essa instalação é um resultado concreto de que a união dos três fatores me ajudou muito. Sou grato pelas escolhas e pelas pessoas que me ajudaram a chegar até aqui e ao fato de eu ter seguido sempre meu coração acima de tudo.

Há planos nesse âmbito, há planos de levar um grupo maior de brasileiros para lá. Uma vontade e sonhos de fazer um art car com som e convidar os amigos mais especiais para tocar. Há planos de continuar semeando os princípios do Burning Man aqui no Brasil.

“Me sinto um piloto de avião e um chef de cozinha ao mesmo tempo. O som que eu faço é como comer comida saudável — não dá ressaca, mas energia!”

A primeira vez que vi você tocar foi no Chilli Beans Fashion Cruise 2016. Fiquei surpreso com aquela apresentação em alto mar, que foi marcada por uma seleção de faixas incríveis e um excelente live com um saxofonista. Como funciona o processo construção do seu set? Você estuda antes o público e o local ou apenas leva seu acervo e vai tirando as cartas da manga, sentindo a vibe?

Esses 13 anos tocando em diferentes pistas e situações me ajudaram muito a evoluir a minha sensibilidade em relação à pista e ao meu próprio gosto musical. Saber o que encaixar e em que momento, causar surpresa, causar felicidade, introspecção e alegria. Fazer as pessoas dançarem e ao mesmo tempo meditarem, fazer uma massagem cerebral durante meus sets.

Eu faço um estudo e filtro semanal de músicas que compro ou recebo de presente. Eu toco semanalmente em diferentes lugares e isso me ajuda muito a criar esse efeito camaleônico que me diferencia e me traz a energia necessária para fazer algo diferente sempre, e não algo superprogramado. Adoro levar meu acervo e lá definir e dividir o que eu vou tocar. Hoje em dia estou muito alinhado com o fato de realmente tocar o que me faz bem e isso naturalmente está reverberando nas pistas.

Eu toco desde um Universo Paralello até um Burning Man. De uma inauguração de uma loja ou lançamento de um carro da Audi até um jantar ou uma prática de yoga. De um casamento de um amigo que gosta de músicas como as nossas até uma festa que produzimos. Há um ano eu transformei um dos meus sonhos em festa, o Sábado Dre Tarde, que foi o label que levamos para o navio Chilli Beans. Nessa festa eu toco por sete horas seguidas, junto com saxofone ao vivo do mestre Salazar. Eu já fazia apresentações ao vivo com sax nas viagens para Europa, o que me deu uma vontade enorme de encontrar alguém aqui em que eu pudesse fazer o mesmo. Desde 2015 fazemos isso, e hoje 50% das minhas apresentações são com sax! Eu acho sexy e necessário. Num mundo às vezes tão plástico, um instrumento ao vivo faz as pessoas se sentirem mais confortáveis.

Foram 12 edições do Dre Tarde fora as tocadas normais ao longo da semana, o me dá “horas de voo”, como um piloto que após voar bastante se sente confortável para cuidar dos passageiros e ao mesmo tempo desfrutar de uma vista maravilhosa. Me sinto um piloto de avião e um chef de cozinha ao mesmo tempo. O som que eu faço é como comer comida saudável — não da ressaca, e sim energia [risos]!

Há alguns meses você se apresentou dentro de um boeing 747, em Frankfurt, com nomes como Claptone e Tiefschwartz. Como foi?

Uau, foi demais! Essa foi uma festa dentro do terminal 1 do aeroporto internacional de Frankfurt, acredita?! Foi maravilhoso e tocamos por cinco horas seguidas, todo mundo pulando dentro do avião, em cima das cadeiras, uma loucura. Essa foi uma afterparty da festa que estávamos tocando no estádio de futebol de Frankfurt, o Commerza Bank Arena, onde uma vez por ano acontece o World Club Dome — Big City Beats. Foi o segundo ano que toquei lá e foi maravilhoso. Tocamos numa pista menor e na principal vão artistas como Guetta, Martin Garix, Armin, Tiësto, e acho que praticamente todos que fazem parte de um lineup do mainfloor de um Tomorrowland. Dizem eles que esse evento é o maior “club indoor” do mundo — eu estive lá e não duvido muito, não [risos].

“Num mundo às vezes tão plástico, um instrumento ao vivo faz as pessoas se sentirem mais confortáveis.”

Em seu Instagram podemos notar que você tem um lifestyle bem diferente de outros artistas da música eletrônica. Como é seu dia a dia?

Eu tento buscar um equilíbrio de tudo que me faz bem. Yoga, alimentação saudável, terapias, massagem, viagens, natureza, meditação… Eu não como carne e me sinto melhor assim, mas ao mesmo tempo adoro um after [risos]! Gosto muito de festas, de pessoas, de dançar. Sinto falta de mais festivais como tinham antigamente, mas ao mesmo tempo me movimento para criar mais situações como aquelas. Gosto muito de escrever, de mostrar que é possível ser DJ e praticar Yoga, de que é possível beber e comer brócolis [risos]. Que o balanço é a chave e a solução para nossas insatisfações.

Pra finalizar, conte para nós como foi o seu ano de 2016, quais foram os principais desafios, as principais conquistas e o que podemos esperar da INNER e do Dre Guazzelli para 2017.

O ano de 2016 foi um desafio constante, acho que para todos. Com a empresa de eventos INNER-e, conseguimos escolher com clareza onde e como colocar energia. A INNER multi.art é um exemplo disso, conseguimos também trazer mais personalidade para nossas festas e cultivar parcerias que nos fazem bem e podar as que não estavam nos trazendo bons frutos. O Sábado Dre Tarde expandiu e cresceu sem perder a essência, mais pessoas se conectaram comigo e com os nossos eventos, e o que me deixa mais feliz é conseguir transformar as pessoas através da experiência criada.

Eu como DJ evoluí ainda mais e isso é um constante exercício que escolho fazer diariamente. Esse ano é especial porque toquei mais uma vez no Burning Man, na Europa e chego em um momento que esperei com muita paciência; o de produzir músicas próprias. Desenvolvi um processo de elencar parceiros ao redor do mundo e com eles fazer mais e melhor. O meu lema para tudo é “dividir para multiplicar”, e isso também entra na parte das minhas apresentações e produções.

Me sinto feliz e cheio de ideias e projetos para 2017 e com uma família em constante crescimento que me dá forças e energia para criar e realizar. Temos um projeto de viagens e que eu farei a cobertura das minhas tocadas, a emoção de viajar, os lugares legais daquela cidade e sem perder de vista os esportes e a natureza. Temos ainda neste ano nossa primeira festa de réveillon, em que eu toco com os primeiros raios de Sol vindos do oceano em Caraíva na Bahia, um lugar mágico e inspirador.

Hoje em dia eu toco mais fora do Brasil do que fora de São Paulo, o que me dá até arrepio de pensar o quanto eu ainda posso tocar por aqui. Isso transforma 13 anos em apenas a primeira parte dessa incrível jornada aqui. Termino o ano feliz e empolgado e agradeço a vocês por eu conseguir fazer uma retrospectiva emocionante não apenas de 2016, mas dos primeiros indícios de um sonho.

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