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Dre Guazzelli: “Gosto de mostrar que é possível ser DJ e praticar Yoga, beber e comer brócolis”

Luckas Wagg

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Confira um papo exclusivo com o DJ brasileiro que tem se destacado mundialmente em festivais como Burning Man e Universo Paralello, além da sua marca INNER multi.art.

Eu já tinha ouvido bastante falar de Dre Guazzelli, mas tudo o que eu tinha visto sobre seu trabalho foi quando apareceu brevemente no programa das nossas parceiras do Gypsy Road, no Burning Man em 2014. Contudo, no Chilli Beans Fashion Cruise deste ano tive a honra de conhecê-lo pessoalmente, e trocamos uma ideia. Me surpreendi mesmo com o set do cara, e cheguei a pensar no começo que fosse algum gringo tocando — por ser algo um pouco diferente do que costumamos ver entre os artistas brasileiros.    

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Fiquei ainda mais surpreso ao poder conhecer, em junho, a sua festa INNER multi.art, que aconteceu numa fábrica tombada em São Paulo, a Fabriketa. Foi incrível! Projeção visual nos prédios, a cabine da pista principal era uma caminhonete antiga, e muita decoração inusitada. Sem dúvidas, foi uma das melhores festas que já fui, com uma curadoria incrível de lineup.

Passados mais alguns meses, tive nova oportunidade de trocar uma ideia com o DJ, que desta vez concedeu um bate-papo exclusivo aqui pra Phouse. Confira:

A INNER é uma das festas mais incríveis que já tive o prazer de frequentar pelo Brasil, e fiquei com a impressão de que é também um movimento de arte, cultura e conscientização social. Como foi o seu início, quais os principais desafios e qual a principal mensagem que querem deixar?

A INNER multi.art nasceu em 2005 como uma vontade de fazer uma festa em que misturasse algo a mais além de música, amigos e bebidas. Algo que fosse mais lúdico, com mais artes visuais, interação e elementos que saíssem do ambiente comum. Foi uma longa trajetória até aqui e hoje estamos caminhando para a 17ª edição. Hoje temos mais ou menos cem artistas participando do evento, entre DJs, bandas, artistas gráficos, grafiteiros, artistas plásticos, videomakers, fotógrafos, performers circenses e cenógrafos. São três pistas diferentes — uma maior, que vai do deep house ao techno, uma de hip hop e outra ainda menor de música alternativa —, e um público médio de 3500 pessoas. A atmosfera que se cria é única; é uma das coisas mais importantes para uma festa, e que o dinheiro não compra. Esse é um dos principais ingredientes da INNER ter se transformado em uma festa única e com personalidade.

Um dos principais desafios no início é que eu já conseguia ver adiante, mas ainda não tinha ferramentas necessárias para colocar 100% em prática. Isso tudo vem com o tempo, né? Um segundo desafio era convencer minha família de que tocar e fazer festas também poderia ser uma maneira feliz e saudável de viver. Existe um desafio eterno que é estar sempre em constante evolução para não cair no óbvio.

A INNER multi.art tem mais de dez anos, e através dela e das atividades dentro dela conseguimos expandir e criar uma empresa chamada INNER enterprises. Através dela conectamos marcas, público e artistas. Hoje temos labels próprios como o Sábado Dre Tarde, onde eu toco ao pôr do sol por mais ou menos sete horas seguidas; o Réveillon AWE em Caraíva, na Bahia; os labels de hip hop Chocolate e Groovelicious; o label de techno LEEDS, em que trouxemos na última edição Stefano Noferini e Santé; e outros labels próprios como INNER gallery, INNER help, que é nosso braço de ajuda ao próximo, e mais alguns que ajudam a passar para os amigos e a sociedade um entretenimento feito com amor, um lugar para se sentir em casa e celebrar a vida, dançando música que gostamos.

Você possui uma rica história de execução da arte de discotecagem pelo mundo, tendo já se apresentado em importantes festivais como o Burning Man e Universo Paralello. Como tem conseguido “mixar” essa sua vida de empresário, produtor de eventos e DJ?

Lá atrás eu já sonhava em produzir minhas próprias festas, em ter um festival, viajar o mundo, conectar marcas e artistas amigos, e hoje consigo olhar para trás e ver que eu vivo o que uma década atrás era apenas um sonho. O segredo para conseguir unir essas três pontas é amar cada uma delas e ter paciência e foco. Com o objetivo traçado, essas partes que parecem separadas podem se conectar, e uma vez conectada a plataforma está pronta. Me encontro hoje com as pontas conectadas, o time formatado, um público cativo e eu como DJ começando a produzir minhas próprias músicas e sentindo que cada apresentação minha tem sido melhor que a outra.

Eu nunca sonhei em ser DJ apenas, mas em levar a INNER multi.art para fora de São Paulo e do Brasil. Sempre sonhei em transformar minhas apresentações em um show lúdico, e estamos no caminho, cada vez mais. Tocar e viajar só me trazem mais energia e criatividade para transformar e criar labels de festas, sustentar os que já existem, mostrar que é possível e instigar as pessoas. Isso me dá a exata segurança artística e empresarial necessária para fazer a diferença e ajudar a transformar o mundo em um lugar bem melhor para todos nós!

Foram 25 viagens para tocar nos últimos seis anos! Nove vezes em Ibiza passando por clubs como Privilège e Amnesia, beach clubs como Blue Marlin e discotecagens na Ibiza Global Radio e Sonica. Oito vezes em festas no alto das montanhas da Suíça e Áustria durante o dia com pessoas encasacadas e com neve contrapondo cenários como os do Burning Man, onde toquei nos últimos três anos e não pretendo parar jamais. Tudo isso só me faz sentir e relembrar que o mundo é vasto e as possibilidades são infinitas e que a escolha de fazer atividades interdependentes é minha missão de vida.

Dre no Burning Man, no programa Gypsy Road

Falando em Burning Man, você já esteve por lá diversas vezes, sendo uma dessas na companhia das nossas queridas amigas Giulia Lops, Carol e Riza, do Gypsy Road. No primeiro episódio, você aparece com uma mala de CDs e cita a seguinte frase: “A melhor moeda no lugar em que não tem dinheiro é a música, e a gente vai trocar por abraço”. Conte um pouco dessas experiências proporcionadas por esse incrível festival.

O Burning Man é o resultado de tudo que já vivi de incrível em festas e festivais. Lá não é um festival, é uma cidade que comporta diferentes tipos de pessoas, diferentes estilos musicais, diferentes atividades, campings que viram bairros, uma cidade que vive do amor. Uma cidade com pessoas que respiram sorrisos, que trocam palavras e conhecimento, que vivem em harmonia, que não pré-julgam o outro, que conhecem pessoas que transformam um dia em algo fora do tempo. Que deixam máscaras que somos obrigados a vestir caírem, que respeitam o outro ser, que tentam ao menos colocar o ego no bolso e simplesmente fazer o que vier a cabeça, com amor. O grande lance da vida é que a liberdade que tanto buscamos tem uma carga enorme de responsabilidade, e lá isso é visível. As pessoas lá aprendem a simplificar e viver o amor ao invés da dor. Amor é luz e dor é medo. Medo do que o outro vai achar, medo do seu namorado não gostar, medo de não ter likes na foto, medo de não se expressar, medo de atrasar, medo de usar a calça, medo de falar, medo de comer. Amor é a palavra chave da experiência Burning Man.

Lá, onde quer que você esteja, você acaba trocando conhecimento e recebendo presentes. O CD com minhas músicas foi uma forma de eu presentear pessoas com o que eu mais gosto de fazer nessa vida. A cada ano dou um upgrade nos presentes que levo e eu gosto muito de dar presentes durante o ano todo — e esse foi mais um ingrediente que fez gostar MUITO do Burning Man, dar e receber. Dar e não esperar nada em troca. Fazer pessoas sorrirem, fazer as pessoas se sentirem bem.

A viagem com as meninas foi incrível e elas deixaram a experiência ainda melhor, mais legal mais viva e cheia de risadas. Me deram todo apoio necessário para as minhas tocadas e me fizeram uma pessoa ainda mais feliz e realizada. Fizemos os episódios da viagem de 2014, a do ano passado fizemos um documentário que teve como foco a primeira instalação artística brasileira que levamos para o deserto (Projeto Mangueira) e a saga do início ao fim. Este ano fui lá tocar de novo e voltamos a fazer os episódios, que estão quase prontos e vamos divulgar no início de 2017.

Como se sente por ter entrado para a história do Burning Man, através do Projeto Mangueira? Há planos para outros projetos como esse?

Me sinto parte do todo e me sinto como uma das pessoas que ajudou de certa forma a vontade e a ideia de outros brasileiros que também passaram por lá! Esse ponto me lembra sobre o que falamos de conciliar as atividades de empresa, festas e DJ; essa instalação é um resultado concreto de que a união dos três fatores me ajudou muito. Sou grato pelas escolhas e pelas pessoas que me ajudaram a chegar até aqui e ao fato de eu ter seguido sempre meu coração acima de tudo.

Há planos nesse âmbito, há planos de levar um grupo maior de brasileiros para lá. Uma vontade e sonhos de fazer um art car com som e convidar os amigos mais especiais para tocar. Há planos de continuar semeando os princípios do Burning Man aqui no Brasil.

“Me sinto um piloto de avião e um chef de cozinha ao mesmo tempo. O som que eu faço é como comer comida saudável — não dá ressaca, mas energia!”

A primeira vez que vi você tocar foi no Chilli Beans Fashion Cruise 2016. Fiquei surpreso com aquela apresentação em alto mar, que foi marcada por uma seleção de faixas incríveis e um excelente live com um saxofonista. Como funciona o processo construção do seu set? Você estuda antes o público e o local ou apenas leva seu acervo e vai tirando as cartas da manga, sentindo a vibe?

Esses 13 anos tocando em diferentes pistas e situações me ajudaram muito a evoluir a minha sensibilidade em relação à pista e ao meu próprio gosto musical. Saber o que encaixar e em que momento, causar surpresa, causar felicidade, introspecção e alegria. Fazer as pessoas dançarem e ao mesmo tempo meditarem, fazer uma massagem cerebral durante meus sets.

Eu faço um estudo e filtro semanal de músicas que compro ou recebo de presente. Eu toco semanalmente em diferentes lugares e isso me ajuda muito a criar esse efeito camaleônico que me diferencia e me traz a energia necessária para fazer algo diferente sempre, e não algo superprogramado. Adoro levar meu acervo e lá definir e dividir o que eu vou tocar. Hoje em dia estou muito alinhado com o fato de realmente tocar o que me faz bem e isso naturalmente está reverberando nas pistas.

Eu toco desde um Universo Paralello até um Burning Man. De uma inauguração de uma loja ou lançamento de um carro da Audi até um jantar ou uma prática de yoga. De um casamento de um amigo que gosta de músicas como as nossas até uma festa que produzimos. Há um ano eu transformei um dos meus sonhos em festa, o Sábado Dre Tarde, que foi o label que levamos para o navio Chilli Beans. Nessa festa eu toco por sete horas seguidas, junto com saxofone ao vivo do mestre Salazar. Eu já fazia apresentações ao vivo com sax nas viagens para Europa, o que me deu uma vontade enorme de encontrar alguém aqui em que eu pudesse fazer o mesmo. Desde 2015 fazemos isso, e hoje 50% das minhas apresentações são com sax! Eu acho sexy e necessário. Num mundo às vezes tão plástico, um instrumento ao vivo faz as pessoas se sentirem mais confortáveis.

Foram 12 edições do Dre Tarde fora as tocadas normais ao longo da semana, o me dá “horas de voo”, como um piloto que após voar bastante se sente confortável para cuidar dos passageiros e ao mesmo tempo desfrutar de uma vista maravilhosa. Me sinto um piloto de avião e um chef de cozinha ao mesmo tempo. O som que eu faço é como comer comida saudável — não da ressaca, e sim energia [risos]!

Há alguns meses você se apresentou dentro de um boeing 747, em Frankfurt, com nomes como Claptone e Tiefschwartz. Como foi?

Uau, foi demais! Essa foi uma festa dentro do terminal 1 do aeroporto internacional de Frankfurt, acredita?! Foi maravilhoso e tocamos por cinco horas seguidas, todo mundo pulando dentro do avião, em cima das cadeiras, uma loucura. Essa foi uma afterparty da festa que estávamos tocando no estádio de futebol de Frankfurt, o Commerza Bank Arena, onde uma vez por ano acontece o World Club Dome — Big City Beats. Foi o segundo ano que toquei lá e foi maravilhoso. Tocamos numa pista menor e na principal vão artistas como Guetta, Martin Garix, Armin, Tiësto, e acho que praticamente todos que fazem parte de um lineup do mainfloor de um Tomorrowland. Dizem eles que esse evento é o maior “club indoor” do mundo — eu estive lá e não duvido muito, não [risos].

“Num mundo às vezes tão plástico, um instrumento ao vivo faz as pessoas se sentirem mais confortáveis.”

Em seu Instagram podemos notar que você tem um lifestyle bem diferente de outros artistas da música eletrônica. Como é seu dia a dia?

Eu tento buscar um equilíbrio de tudo que me faz bem. Yoga, alimentação saudável, terapias, massagem, viagens, natureza, meditação… Eu não como carne e me sinto melhor assim, mas ao mesmo tempo adoro um after [risos]! Gosto muito de festas, de pessoas, de dançar. Sinto falta de mais festivais como tinham antigamente, mas ao mesmo tempo me movimento para criar mais situações como aquelas. Gosto muito de escrever, de mostrar que é possível ser DJ e praticar Yoga, de que é possível beber e comer brócolis [risos]. Que o balanço é a chave e a solução para nossas insatisfações.

Pra finalizar, conte para nós como foi o seu ano de 2016, quais foram os principais desafios, as principais conquistas e o que podemos esperar da INNER e do Dre Guazzelli para 2017.

O ano de 2016 foi um desafio constante, acho que para todos. Com a empresa de eventos INNER-e, conseguimos escolher com clareza onde e como colocar energia. A INNER multi.art é um exemplo disso, conseguimos também trazer mais personalidade para nossas festas e cultivar parcerias que nos fazem bem e podar as que não estavam nos trazendo bons frutos. O Sábado Dre Tarde expandiu e cresceu sem perder a essência, mais pessoas se conectaram comigo e com os nossos eventos, e o que me deixa mais feliz é conseguir transformar as pessoas através da experiência criada.

Eu como DJ evoluí ainda mais e isso é um constante exercício que escolho fazer diariamente. Esse ano é especial porque toquei mais uma vez no Burning Man, na Europa e chego em um momento que esperei com muita paciência; o de produzir músicas próprias. Desenvolvi um processo de elencar parceiros ao redor do mundo e com eles fazer mais e melhor. O meu lema para tudo é “dividir para multiplicar”, e isso também entra na parte das minhas apresentações e produções.

Me sinto feliz e cheio de ideias e projetos para 2017 e com uma família em constante crescimento que me dá forças e energia para criar e realizar. Temos um projeto de viagens e que eu farei a cobertura das minhas tocadas, a emoção de viajar, os lugares legais daquela cidade e sem perder de vista os esportes e a natureza. Temos ainda neste ano nossa primeira festa de réveillon, em que eu toco com os primeiros raios de Sol vindos do oceano em Caraíva na Bahia, um lugar mágico e inspirador.

Hoje em dia eu toco mais fora do Brasil do que fora de São Paulo, o que me dá até arrepio de pensar o quanto eu ainda posso tocar por aqui. Isso transforma 13 anos em apenas a primeira parte dessa incrível jornada aqui. Termino o ano feliz e empolgado e agradeço a vocês por eu conseguir fazer uma retrospectiva emocionante não apenas de 2016, mas dos primeiros indícios de um sonho.

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Entrevista

Saiba tudo sobre o Caos, novo clube do underground de Campinas, que estreia com Carl Craig

Jonas Fachi

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Caos
Em entrevista exclusiva, Eli Iwasa, uma das fundadoras do novo clube campineiro, traz todos os detalhes do empreendimento e revela, em primeira mão, a atração especial de abril
* Com a colaboração de Flávio Lerner
* Foto de capa por Bill Ranier; artes e vídeos promocionais por Muto

Quando em 29 de maio de 2013 a “japa do techno” Eli Iwasa abriu as portas do Club 88 pela primeira vez — junto com seus sócios Rodolfo Salin, Antonio Carlos Diaz, Juka Pinsetta e João Mota —, era a concretização de um sonho que cresceu, transbordou, fomentou a cena local e dentro de uma semana se transforma em uma nova realização: o club Caos, que inaugura em Campinas no dia 22 trazendo pela primeira vez à cidade a lenda do techno de Detroit, Carl Craig.

E Carl é aquele artista para o qual a palavra “lenda” realmente se encaixa, sem cair em banalizações ou esvaziamentos. Tanto que foi escolhido a dedo pela DJ, empresária, sócia-proprietária e curadora Eliana Iwasa para ser a grande atração do primeiro ato desse novo empreendimento no interior de São Paulo.

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Eli possui mais de 15 anos de carreira na música eletrônica, e já passou por clubs como o lendário Lov.e em São Paulo, o Kraft em Campinas e diversos eventos e gigs pelo país afora — seja como produtora, curadora ou DJ. À frente do Club 88, que continua funcionando normalmente no belíssimo Jockey Club de Campinas, a artista bookou artistas como Mind Against e Michael Meyer, e agora o momento é de expansão.

O Caos é o segundo estabelecimento do grupo e foi desenhado para abrigar artistas de maior porte — além de Craig, já estão confirmados Marco Carola (12/01) e um grande artista israelense (para abril) que ainda não foi anunciado oficialmente, revelado em primeira mão por Eli nesta entrevista exclusiva que você lê abaixo.

+ Em turnê pela América Latina, Carl Craig volta ao Brasil neste fim de ano

Assim, o Caos promete estimular ainda mais a já movimentada cena do interior paulista, com seu espaço industrial aconchegante e ressignificado especialmente para que as pessoas sintam-se livres na pista, guiadas pela soberania musical.

Confira todos os detalhes que Eli nos revelou sobre o novo reduto underground campineiro:

Como mostrado na apresentação do projeto à imprensa, o Caos chega para cobrir uma demanda local por artistas de maior renome, devido à falta de capacidade no Club 88 atualmente. Quando vocês perceberam que existia esse potencial latente para um projeto maior?

Sempre houve um desejo de receber esses artistas, e o Caos nasceu justamente para possibilitar essa realização. Quando procuramos o local, pensamos no tamanho ideal que nos permitisse viabilizar esses nomes que sonhamos tanto em bookar, e que oferecesse uma experiência diferente do Club 88. Nós voltamos ao nosso começo, onde o que importava era a música sem muitas firulas — com apenas som e luz que proporcionassem algo bem intenso na pista.

Talvez um dos grandes diferenciais desse novo club é sua localização. Parece existir no Brasil uma tendência extraída da Europa por espaços com características industriais. O que o Caos vai apresentar de diferente em relação à estrutura, capacidade e, mais importante, atendimento e soundsystem?

O Caos ocupa um antigo galpão industrial, onde ficava uma siderúrgica — uma das características mais interessantes do espaço é que ele conta com diversas janelas, com luz natural inundando o club assim que amanhece. O ambiente é rústico, cru, mas é fundamental que as pessoas tenham conforto.

A pista conta com dois bares grandes, uma área externa bem ampla, e vamos trabalhar com o sistema cashless, que é super moderno e garante maior tranquilidade para você consumir na festa. Quanto ao soundsystem, vamos deixar para quem for à inauguração, mas posso te adiantar que é de uma marca que usamos em alguns de nossos eventos em Campinas.

“É simbólico ter na inauguração um artista que nos faz revisitar nosso passado ao mesmo tempo em que nos faz olhar para frente — porque Carl Craig é história, mas nunca deixou de ser um visionário.”

Não é qualquer clube que consegue inaugurar com uma das lendas de Detroit, Carl Craig. Qual a expectativa para sua vinda? O Caos tem pretensão de oferecer quantas horas de apresentação para os convidados?

O techno de Detroit sempre foi uma influência muito grande para mim, e Craig um dos meus produtores favoritos. É um artista que se manteve atualizado, atuando um diversas frentes, e  cuja música só reforçou sua relevância ao longo dos anos. Depois da apresentação arrebatadora no DGTL em São Paulo, a expectativa realmente é muito alta. Acho que é muito simbólico ter um artista como ele na noite de inauguração de um club que nos faz revisitar nosso passado ao mesmo tempo em que nos faz olhar para frente — porque Carl é história, mas nunca deixou de ser um visionário.

Além de você como anfitriã, teremos o lendário Mauricio Lopes e o duo campinense Black Sun na estreia do Caos. Em relação a residentes, existem nomes cotados?

O time de residentes de um club se forma conforme sua história é escrita, e os personagens importantes para ela aparecem nesse processo. Os residentes do Club 88 estão entre os melhores DJs de Campinas e região, em minha opinião, e conquistaram seu lugar com a qualidade de seus sets ali. No Caos, tenho certeza que este grupo também vai se formar no seu ritmo e tempo.

Caos

Antes de tudo, vem o Caos

Em janeiro, outro nome importante do circuito global chega a Campinas: Marco Carola. Nessas duas primeiras datas, podemos observar que o techno e o tech house prevalecem. É esse o estilo de música que o Caos vai focar, ou haverá abertura para outros nomes importantes de estilos como deep house ou house progressivo?

Um ponto importante é que não vamos levantar bandeira de estilo algum — o que importa é a qualidade musical. Temos o techno de Detroit de Carl Craig, o tech house cheio de classe de Marco Carola, mas também confirmamos o Guy J no dia 06 de abril, para quem gosta de progressive house, além de três artistas de techno que ainda não posso relevar, mas que estão entre os mais relevantes do estilo.

Além de uma data mensal fixa, o espaço irá receber outros gêneros de música, como o hip hop. Como vai funcionar exatamente esse diálogo entre estilos e públicos tão diferentes?

Já temos uma programação diversificada no Club 88, e nossos projetos de hip hop e pop (o Groove Urbano e a Wolf) também terão suas noites no Caos mensalmente. Cada noite e cada público servem para enriquecer nosso trabalho, nossa experiência, e o que podemos oferecer ao público.

“Não vamos levantar bandeira de estilo algum — o que importa é a qualidade musical.”

Parece haver uma tendência recente de novos clubes, com propostas cada vez mais nichadas, surgindo pelo Brasil. Como você enxerga esse atual momento do mercado dos clubes e da cena eletrônica em geral? Crises econômicas à parte, você diria que este é um dos melhores momentos para abrir esse tipo de negócio no país?

Sempre acreditei que crises trazem muitas oportunidades. O interior de SP abriga muitos dos maiores festivais do Estado, tem um público que consome avidamente música eletrônica, provou que é importante celeiro de talentos, com ótimos produtores e DJs, e conta com o Club 88 e o Laroc, que investem fortemente em sua direção artística de forma constante — assim, percebemos que havia demanda e espaço para um novo club. Num momento em que o mercado está tão retraído, por que não encarar mais um empreendimento se tudo conspirou a favor?

Como é o processo de estudo e incubação da ideia de criar um novo clube até, efetivamente, o seu nascimento? Conta pra gente o trabalho que envolve a criação de um empreendimento desse tipo.

Nosso trabalho é muito intuitivo — sempre falo que não servimos como modelo de negócio algum, de uma maneira mais tradicional assim falando [risos]. Lógico que todos esses anos de experiência servem como base para tomada de decisões, e no caso do Caos, foi apenas seguir um desejo latente em ter um espaço maior, para não termos que criar uma estrutura temporária cada vez que quiséssemos expandir nossas atividades para fora do Club 88. Todos nós temos uma inquietude que nos faz sempre pensar qual o próximo passo, o próximo negócio, evento…

Quando o 88 completou quatro anos, sentimos que era hora de crescer. A primeira coisa é encontrar o local adequado — ou no nosso caso, descobrir um local e pensar que seria incrível ter um club ali, como foi com o prédio do Jockey Club. Eu já tinha em mente que artistas gostaria de trazer, e corremos para a obra ser finalizada a tempo.

“Não há excessos: o Caos é uma grande pista de dança com um baita soundsystem e uma iluminação projetada para criar a atmosfera certa para dançar.”

Quais são as principais referências que nortearam o conceito e os princípios do Caos?

De alguma maneira, o Caos é como o final e início de um ciclo, e sentimos que é um retorno às nossas origens, quando o que realmente importava era apenas a música, mas com o olhar para o futuro. Tudo que era excesso foi retirado: o club é uma grande pista de dança com um baita soundsystem e uma iluminação projetada e pensada para criar a atmosfera certa para dançar. Desde a comunicação até a decoração, tudo foi simplificado, sem rodeios, sem exageros, para que você tenha a experiência e a percepção mais pessoais possíveis.

Espero que as pessoas realmente vivenciem uma imersão musical ao som de ótimos artistas, e possam compartilhar conosco a realização de mais um sonho.

Como o Caos vai se diferenciar de todos os outros clubes conceituais do mercado brasileiro?

Posso falar da estrutura, do espaço, dos bookings, mas o que na verdade sempre nos diferenciou, e espero que continue no Caos, é a relação que criamos com as pessoas que prestigiam nosso trabalho, com nossa equipe e com os artistas. Esse apreço pelo outro, por uma boa festa — é claro — e o amor genuíno ao que fazemos é o que vai tornar o Caos especial.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Entrevista

30 músicas para 30 anos: DJ Mau Mau celebra 3 décadas de carreira com playlist exclusiva

Flávio Lerner

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DJ Mau Mau 30 anos
Um dos principais nomes da cena nacional comemora 30 anos como DJ neste sábado, em São Paulo; confira o depoimento e a playlist que o Mau Mau montou para a Phouse!

Modelo, inspiração, exemplo, referência, ícone, respeito… São inúmeras as palavras que clubbers e profissionais da cena house/techno poderiam usar para resumir o DJ Mau Mau. Afinal, não é qualquer DJ brasileiro que festeja 30 anos de profissão com uma trajetória consistente, sendo pioneiro em tempos de terra seca e tendo a capacidade de se manter atual e relevante depois de tantas transformações nesse cenário.

Exemplo disso é o último ato de seu ano comemorativo: após aproveitar a marca pra celebrar em diversos momentos especiais durante todo este 2017, a festa derradeira desses seus 30 anos de DJ não é nada parecido com um baile da saudade tocando flashback para tiozões saudosistas, mas a nova edição da Capslock de Paulo Tessuto — um dos maiores exemplos [e reflexos] do que é a cena clubber contemporânea.

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Antes de discotecar pra jovens mudérnos e hedonistas no sábado — fechando com chave de ouro um ano que teve direito até a B2B com o DJ Marky no palco eletrônico do Rock in Rio —, o Mau Mau gentilmente topou dar um depoimento à coluna com uma breve retrospectiva de sua trajetória; de quebra, escolheu pra gente 30 músicas que representam essas três décadas de carreira, incluindo nomes como Kraftwerk, Front 242, Moby, John Tejada, Paul van Dyk, LFO, Carl Craig e Galaxy 2 Galaxy, além de uma faixa autoral.

+ Lúdico, subversivo e impactante: conheça o universo de Carlos Capslock

Basta, então, clicar na playlist abaixo [tracklist ao final do artigo] e ler as palavras a seguir pra curtir essa pequena viagem no tempo com um dos DJs-símbolo de São Paulo. Com vocês, DJ Mau Mau:

Sempre fui apaixonado por música. Na adolescência, minha experiência inicial foi através de vários grupos profissionais de dança que participei. No final dos anos 80, frequentei o Largo São Bento, em São Paulo, onde gangues e grupos de hip hop munidos de equipamentos de som portáteis se encontravam para disputas de breakdance. Foi nesse momento que o universo do DJ começou a me conquistar.

Um pouco antes de completar 18 anos, tive minha primeira oportunidade como DJ: no porão do casarão mais underground da cidade, o Madame Satã, reduto de punks, góticos e modernos, comandado pelos mestres Marquinhos MS e DJ Magal, duas grandes fontes de inspiração. Nos primeiros cinco anos, os toca-discos eram apenas um passatempo, e eu exercia outras atividades como sustento — fui bancário, trabalhei no escritório do DMC Brasil e fui coreógrafo do grupo Dance Division. Com o tempo, me apaixonei pela profissão, outras oportunidades apareceram e ganhei residências importantes no final dos anos 80: Club Malícia, US Beef Rock, Rouge Neon e Walkabout.

+ Exclusivo: DJ Marky fala sobre novos lançamentos e o que falta à cena brasileira

Nos anos 90, adotei o nome profissional de DJ Mau Mau, quando fui convidado para comandar a cabine de som do Sra. Kravitz, ao lado do DJ Renato Lopes. Naquele momento, meu trabalho ganhou destaque e pude desenvolver meu estilo, voltado para o underground. Em meados dos anos 90, nasceu em São Paulo o primeiro after hours do Brasil: o Hell’s Club. Convidado pelo promoter e amigo Pil Marques, comandei por quatro anos essa grande revolução que moldou um novo comportamento na noite.

Em seguida, outras residências importantes: o after do Club Base, com o promoter Paulo Silveira, e a noite Technova no Lov.e Club, a convite de Oscar Bueno. Depois dos anos 2000, fui residente da noite Mothership no D-EDGE, onde, depois de alguns anos, fui transferido para a residência do Superafter, em que sigo até hoje. Atualmente, também comando a noite Houseira, no Club Jerome, com meu amigo Roque Castro.

+ O que significa ser um DJ? Alguns dos principais nomes do país respondem

A carreira de DJ também me direcionou para a produção musical, em que desenvolvi muitos projetos e parcerias. Fazendo remixes e participações em shows, trabalhei com artistas nacionais importantes, como Roberto Carlos, Rita Lee, Marina Lima, Edgar Scandurra, Kiko Zambianchi, Edson Cordeiro, Laura Finocchiaro, DeFalla, Rodrigo Pitta, Franco Junior, Daniela Mercury, Jota Quest, Dudu Marote, Adriana Calcanhoto e o maestro Fabio Gomes Oliveira. Minhas músicas foram tocadas por DJs internacionais que admiro e que sempre foram fonte de inspiração: Laurent Garnier, Stacey Pullen, Mr C. e Carl Cox, entre outros.

A profissão também me proporcionou conhecer outros países e culturas. A convite do mestre Garnier, fiz minha primeira apresentação na França em 1995, no festival Trans Musicales, em Rennes. Depois ganhei residência por dois anos na festa francesa Open House, onde passei pelas principais capitais do país. Os convites internacionais não pararam: Inglaterra, Portugal, Alemanha, Turquia, Japão, Itália, Espanha, Bélgica, Estados Unidos, Argentina, Uruguai, Chile e Bolívia.

Em 2017, já recebi homenagem pelos anos de carreira do Nation Disco Club, primeiro reduto clubber em São Paulo, do final dos anos 80, comandado pelo DJ Mauro Borges, e também do Music Non Stop de Claudia Assef, entre outras comemorações. No início do ano, recebi o convite para tocar na Carlos Capslock através do L_cio e do Paulo Tessuto, e desde então estou muito ansioso.

+ Famoso edit de clássico de Chico Buarque ganha lançamento oficial

A Capslock é o tipo de festa que eu gostaria de frequentar, mas a minha agenda de trabalho não permite. Ter a oportunidade de comemorar essa data tão especial numa das festas mais legais da atualidade é um presente ao lado de amigos queridos! Tantos momentos de plena felicidade dedicados à música passaram voando, mas a paixão em pesquisar novos estilos musicais, desenvolver sons em estúdio e depois testar o resultado nas pistas pelo mundo continua a mesma do início de carreira.

São 30 anos de dedicação e amor. Assim, preparei uma retrospectiva com 30 músicas que marcaram minha carreira. São composições em estilos diferentes que em algum momento fizeram parte do meu repertório, e mesmo as mais antigas ainda soam bem atuais. ​Divirtam-se!

Tracklist:

[Anos 80]

1- Section 25 – Looking from a Hilltop (Megamix)

2- Colourbox – Hipnition

3- Front 242 – Don’t Crash

4- Kraftwerk – Numbers

5- Test Dept – The Faces of Freedom 1,2,3

6- Fast Eddie – Acid Thunder

7- Mike Dunn – Life Goes On

8- Adonis – No Way Back

9- Bam Bam – Give It To Me (Club Mix)

[Anos 90]

10- LNR – Work It To The Bone (The Original Classic)

11- West Bam – Alarm Clock

12- Dr. Baker – Kaos 1989

13- LFO – LFO

14- Xpansions – Move Your Body

15- DSR – Babaloo

16- Capricorn – 20 Hz

17- Speedy J – Something For Your Mind

18- Moby – Go

19- Humate – Love Stimulation (Paul van Dyk’s Love Club Mix)

20- Galaxy 2 Galaxy – Hi-Tech Jazz

21- Secret Cinema 2 ‎- Straight Forward

22- Kosmic Messenger – Flash

23- Jonny L – This Time (Carl Craig Mix 2)

[Anos 2000]

24- M4J – Macumba

25- DJ Mau Mau – Space Funk

26- John Tejada – Sweat (On The Walls)

27- The Martian – Particle Shower

28- Gabriel Ananda – Doppelwhipper

29- Luna City Express – Fresh

30- Justin Maxwell & John Tejada – I’ve Got Acid

A Capslock com o DJ Mau Mau rola neste sábado, dia 09, em São Paulo, em local ainda não revelado; o line ainda traz Tessuto, L_cio, Ella De Vuono, Max Underson, Vitor Lagoeiro e o alemão Sebastian Voigt.

Flávio Lerner é editor da Phouse; leia mais artigos de sua coluna.

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Entrevista

João Brasil: “Sou tipo um rapper, um funkeiro; minha matéria-prima é meu cotidiano”

Castelan

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João Brasil
Rock in Rio, funk, EDM, Brazilian Bass, memes, morte da cultura dos mashups e novo clipe: confira um papo transante com o “cronista” João Brasil
* Com a supervisão e colaboração de Flávio Lerner

Em poucas semanas, damos as boas-vindas para mais um verão. Novos sons, hits e festas chegam em quantidades grandes para ajudar a suportar o calor que já bate na nossa porta. Mais ou menos nessa época do ano passado, o grande hit era claro: “Michael Douglas”, do João Brasil, havia se tornado uma febre fonográfica instantânea — em todos os cantos do país, geral deixava bem claro que nunca mais iria dormir.

Completando agora uma década de carreira, e após já ter desfrutado da exposição de hits como “Moleque Transante” (este pelo projeto Rio Shock), “Baranga” e incontáveis mashups, João embarcou em uma nova fase, mais eletrônica, onde pôde refrescar seu som através do EP #Naite, que, dentro da estética que batizou de “Low Funk” — que mistura seu amor pelo funk carioca a diversas outras referências da dance music e brasilidades populares —, traz quatro músicas, incluindo “Latinha”; novo single que, assim como “Michael Douglas”, vai deixar os entendedores entenderem do que se trata seus “lá-lá-lás” e “ló-ló-lós”.

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Aproveitando o gancho desta entrevista, o João nos convidou para mostrar com exclusividade aqui na Phouse o clipe de “Latinha”, que traz imagens de nada menos que sua performance no último Rock in Rio. De quebra, decidiu conversar conosco a respeito disso e de muitas outras questões da sua carreira — papo que você pode conferir logo depois de assistir ao clipe abaixo, em primeira mão!

O clipe de “Latinha” será lançado oficialmente nesta quinta-feira

João, conheci o teu trabalho através do projeto 365 mashups, de 2010, e ali ouvi misturas que nunca tinha sequer imaginado. Queria que você contasse um pouco sobre a importância desse projeto e o que ele te trouxe em termos de carreira.

Esse foi o maior projeto que fiz na vida. Realmente fiz um mashup por dia durante um ano. Estava morando em Londres e fazendo mestrado, foi muito intenso. O projeto me levou para espaços como o jornal The Guardian, proporcionou uma parceria minha com o Fatboy Slim no disco dele, me colocou para tocar em festivais como o Back to Black, também em Londres e tocar durante a queima de fogos do Réveillon de Copacabana para mais de dois milhões de pessoas.

“A nova política da internet praticamente matou a cena de mashup. Estamos voltando aos anos 80, com o Spotify como a nova rádio e o músico independente com cada vez menos voz.”

Os mashups reinaram até o começo desta década, mais ou menos; depois, podemos notar um declínio acentuado na popularidade deles. O que você acha dessa cultura dos mashups e por que ela caiu tão acintosamente nos últimos anos?

A nova política da internet praticamente matou a cena de mashup. Derrubaram minha página no Soundcloud, assim como as de diversos artistas que faziam mashups e remixes. Hoje em dia, praticamente, não conseguimos subir nenhum remix ou mashup que não seja oficial. Antes mesmo de completar o upload do mashup, o sistema o derruba. É uma pena, estamos voltando aos anos 80 — o Spotify e os outros players de streaming viraram a nova rádio, e as grandes gravadoras voltaram a ter uma importância muito grande. O músico independente está com cada vez menos voz a cada ano que passa.

Talvez nada represente melhor a capacidade de mashups do João Brasil do que esse clássico que mistura um pagode do Grupo Raça, um beat de funk e um dos gols mais perdidos da história do futebol brasileiro

Você lançou recentemente o novo EP, #Naite, com um show de sucesso no Rock in Rio. Como foi fazer o lançamento em um festival tão importante?

Foi épico. Foi o melhor dia da minha vida profissional como um performer. A galera estava muito animada, pulando muito, vibe incrível. Montamos o meu maior show até hoje, com painel de LED, fogos, brincadeiras com o público e tudo mais a que tínhamos direito. Era um mar de gente, foi inesquecível para todo mundo que estava lá. A galera recebeu as novas músicas muito bem e já tinha gente cantando algumas delas, foi demais!

“Eu sou um observador e cronista do que acontece ao meu redor. Sou tipo um rapper, um funkeiro, onde a minha matéria-prima para as canções está no meu cotidiano.”

A faixa “Michael Douglas” virou seu maior hit até hoje. Conta um pouco pra gente do meme e de como surgiu a ideia de fazer esse som.

Eu estava no Sul, em Atlântida, no club Pista 3. Estava todo mundo muito animado, éramos um grupo grande, todo mundo pulando e se abraçando. Vários DJs amigos do Sul, o crew de Brasília New Chicks On The Block, todo mundo cantando “Nunca mais eu vou dormir”, sobre outra música que estava rolando. Aí eu mandei “Ih, que isso?! Michael Douglas!”, o povo chorou de rir, pirou. Pensei na hora: tenho um hit. Voltei para o Rio e produzi a música em uma semana. A minha cabeça de “mashupeiro” logo fez a música soar como um mashup de funk com EDM.

Reza a lenda que esse áudio de Whatsapp que originou o meme “Michael Douglas”

Por que você acha que “Michael Douglas” explodiu tanto? Você entende que tem mais a ver com a sonoridade dela ou pelo fato de se tratar de uma piada com um meme?

Ela fala com todo mundo. O cara mais velho que adora o ator Michael Douglas, o baladeiro insider que sabe o que “Michael Douglas” significa na noite e as crianças que não querem dormir nunca. Atingiu a todos. Os amigos da minha filha de cinco anos cantam na escola. Realmente o que aconteceu foi algo surreal. E a sonoridade fácil ajudou a disseminação também: batida de funk e synths de EDM.

#Naite é o mais recente EP do produtor

“Michael Douglas” faz alusão ao MDMA, e “Latinha” brinca com Loló. Você por acaso quer ser o novo Tim Maia cantando “Chocolate”?

Ou a Rita Lee cantando “Lança Perfume”? [Risos] Adoraria ser o novo Tim Maia, mas me contento em ser um observador e cronista do que acontece ao meu redor. Sou tipo um rapper, um funkeiro, onde a minha matéria-prima para as canções está no meu cotidiano.

Estamos divulgando aqui em primeira mão o clipe de “Latinha”. Você tem alguma curiosidade pra nos contar sobre a faixa, o vídeo e seu processo de produção?

A ideia que tive foi: quero uma música épica, eletrônica, com humor e cantada em português, bem na linha de “Michael Douglas”, mas sem batida de funk. O funk iria ficar na interpretação do vocal, na vibe mesmo. Confesso que me incomodo que a maioria dos produtores de música eletrônica do Brasil tem nomes gringos e faz músicas em inglês. Não sou contra ninguém compor em inglês, eu mesmo já compus, mas compor apenas nesse idioma, sendo brasileiro, eu acho um pouco estranho.

“A maioria dos produtores de música eletrônica do Brasil tem nomes gringos e só faz músicas em inglês. Não sou contra ninguém compor em inglês, eu mesmo já compus, mas acho um pouco estranho.”

Não é a minha onda, gosto muito de música brasileira. Eu chamei o Brazza Squad para fazer o drop da música. O remix que eles fizeram de “Michael Douglas” ficou fantástico, toco sempre nos meus sets, e foi natural chamá-los para uma colaboração na “Latinha”. Não poderia ter escolhido parceria melhor para essa faixa. O clipe, todo filmado no Rock in Rio, passa bem a energia dessa nossa colaboração.

João Brasil

João Brasil e Brazza Squad, no Rock in Rio

Trabalhar com o Brazza Squad foi uma mistura inédita na sua carreira? Existe alguma mistura ainda não feita que você quer levar para o público?

Foi a primeira vez que colaborei com DJs de Brazilian Bass. Curti muito o resultado, gosto muito do estilo. Já tinha feito mashups nessa onda, mas nunca uma música do zero. Ainda quero fazer muitas novas misturas nessa vida [risos], principalmente com esses funks novos a 150 BPM que estão rolando agora nas comunidades do Rio.

No final de agosto saiu o clipe da faixa “Youtubers”, uma ode psicodélica a uma galera que hoje influencia a opinião das pessoas em alguma medida, e em uma entrevista pro G1 você até os chamou de “novos rockstars”. Até quando você acha que dura este momento de ouro dessa galera?

Acho que dura ainda um bom tempo. O YouTube é a nova televisão da molecada mais nova. Outro dia fui numa palestra sobre o Musical.ly e descobri o mundo dos “musers”. Eles foram os maiores responsáveis por espalhar o “Michael Douglas” para a criançada, fizeram várias versões. Ainda vamos ver muitas plataformas e influenciadores surgirem. Está tudo cada vez mais rápido, porém os melhores vão saber aproveitar a oportunidade e surfar as diferentes ondas, ao mesmo tempo em que muitos vão ficar pelo caminho.

João Brasil

João, no Rock in Rio, executando seu passinho clássico: a “sarrada gravitacional”

Como tem sido o retorno das pessoas a essa sua mistura entre EDM e funk carioca? Pela nossa experiência, o grosso do público da cena eletrônica no Brasil tem um preconceito enorme com o funk…

Eu amo funk, adoro as batidas. Sou do Rio, e por aqui é muito difícil não ter um pouco dessa influência. O preconceito com o funk não é exclusivo do público da dance music, muita gente tem. É uma música produzida, originalmente, por negros e pobres. O preconceito não é apenas musical, infelizmente. Odeio preconceito e adoro funk — os mashups e minhas misturas são maneiras que encontrei de construir um mundo onde todos possam se divertir, independentemente de sua origem, classe social, orientação sexual, religião ou cor.

“Minhas misturas são maneiras que encontrei de construir um mundo onde todos possam se divertir, independentemente de sua origem, classe social, orientação sexual, religião ou cor.”

Ao mesmo tempo, o estilo se desenvolveu muito nos últimos anos, e faz sucesso tanto nas favelas quanto nas festas de playboy. Você tem alguma ideia de por que existe ainda tanta resistência no Brasil ao funk carioca?

O Brasil sempre viveu um complexo de vira-lata, sempre achou que tudo que vem de fora é melhor, e isso não é de hoje. Não damos valor às nossas verdadeiras riquezas, aos nossos verdadeiros talentos. Ainda precisamos ter nomes gringos e músicas em inglês para ter música na playlist Eletro BR do Spotify. Ainda precisamos contratar um gringo como o Diplo ou o Hardwell para tocar nossa própria música — como “Baile de Favela” — para nós mesmos. Ainda temos muito que evoluir como sociedade.

Depois desses últimos lançamentos, quais são os planos? Uma turnê por aqui no exterior? Mais videoclipes?

Depois de “Latinha”, vamos finalizar o clipe de “Rave de Favela”, que será lançado até o final do ano. Vou lançar mais um single também. Entro numa agenda intensa aqui pelo Brasil no verão com a turnê do #Naite, que só vai acabar no carnaval, e depois parto para a Europa e os Estados Unidos para a minha turnê gringa no verão de lá.

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