Em pleno 2016, quem ainda tem medo da música eletrônica?

Do Kraftwerk na Argentina à novela do Ultra no Rio, o preconceito com a pista de dança segue firme e forte.

A cultura clubber é oriunda da cultura da disco music. Ambas nasceram marginalizadas, em ambientes de contestação, transgressão e busca por direitos. Naturalmente, à medida que foram crescendo, atraíram cada vez mais popularidade, bem como detratores. O primeiro grande movimento de oposição foi a infame campanha Disco Sucks, que culminou em 1979 com a “Noite da Demolição da Disco”. Capitaneado pelo radialista estadunidense Steve Dahl, o evento reuniu uns 50 mil roqueiros pra literalmente destruir vinis de disco music num estádio de baseball em Chicago — afinal, a hegemonia do que praqueles barbados era “música de viado” precisava ser exterminada.

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Nos anos 90, tivemos a explosão das raves na Europa, que não demoraram muito pra chegar até aqui. Ocupações clandestinas em lugares abandonados e drogas sintéticas compunham o cenário com a música eletrônica de pista — receita mais que suficiente pra chocar a sociedade “de bem”. Naturalmente, não foi nada fácil para público e profissionais desse nicho lidar com a pecha de “marginais drogados”. Ao THUMP, em 2014, o Erick Dias, da XXXPERIENCE, detalhou bem discriminação imposta pelos órgãos públicos e a imprensa sobre esse mercado nos anos 90. Quando falou comigo, em entrevista publicada aqui em novembro, disse que essa relação com a mídia já estava bem mais suave.

Música Eletrônica

Steve Dahl e o famoso slogan de ódio

É de se imaginar que a música eletrônica, em pleno 2016, há anos em um casamento muito bem-sucedido com a cultura de massa, num mercado que movimenta bilhões e proporciona festivais gigantescos por todo o planeta, seja infinitamente mais aceita do que outrora. Em um caso clássico de cooptação, deixou de ser marginal pra virar inofensiva, quase fofa, até. Mas engana-se quem pensa que aquele velho preconceito foi erradicado do mapa, como os seguidores de Dahl queriam fazer com a disco. Recentemente, tivemos mostras claras, aqui mesmo na América do Sul, de como o Estado ainda nutre problemas com esse universo.

Primeiro, foi o Kraftwerk na Argentina. Como escrevi aqui, também em novembro, o clássico grupo alemão quase teve seu show em Buenos Aires cancelado. Em uma decisão que mais lembrava os abusos autoritários e reacionários do Estado Islâmico ou da Coreia do Norte, os tribunais portenhos quiseram banir um evento cultural que já estava agendado simplesmente porque a banda baseia sua performance em sintetizadores! Essa própria decisão surgiu como consequência do Time Warp de BsAs, que, em abril, teve a morte de jovens que teriam consumido ecstasy adulterado. Ou seja: por causa do abuso de drogas em um festival e da negligência governamental em debater soluções práticas, decidiu-se banir a música eletrônica da cidade — mesmo numa apresentação não voltada pras pistas de dança!

A sociedade não consegue perceber a diferença entre as raves clandestinas e o Tomorrowland” — Pedro Nonato, diretor do Ultra Brasil.

O segundo caso emblemático rolou aqui mesmo, no país: a novela com o Ultra Brasil, no Rio de Janeiro. Por conta do poder público, o festival teve que mudar de local três vezes. O Aterro do Flamengo foi barrado em junho pelo Iphan [aquele mesmo órgão cujo ex-presidente entrou em evidência ao denunciar Geddel e Temer], três meses depois de sua confirmação. A alegação era de que o espaço era tombado e não comportaria o público estimado — 80 a 100 mil pessoas, “esquecendo” do pequeno detalhe de que seriam divididas em dois dias. “Isso nos veio como uma grande surpresa, já que as áreas que iríamos ocupar no entorno da Marina da Glória eram compostas por pisos de terra batida, sem presença de grama alguma, piso concretado e até asfaltado”, declarou Pedro Nonato, sócio de Claudio da Rocha Miranda Filho no Ultra Brasil e no Rio Music Conference. Segundo o empresário, eles inclusive encomendaram um estudo de impacto ambiental para reconstruir “as tais áreas já degradadas, de acordo com o paisagismo original do Parque do Flamengo”. Nada feito. O Iphan não voltou atrás, e ainda não teve constrangimento nenhum em liberar, menos de um mês depois, o ambiente para o Rio Parada Funk, que comportou um público oito vezes maior que o do Ultra.

A produção então optou pelo Parque dos Atletas, que recebeu a Olimpíada e também é sede do Rock in Rio; em plena época eleitoral, o prefeito Eduardo Paes negou, alegando que atrapalharia os moradores do entorno. A terceira opção foi, segundo Nonato, uma orientação da RioTur e da SEOP [ou seja, órgãos municipais]: a Quinta da Boa Vista. O Iphan voltou em cena, desta vez acompanhado pelo IBAMA, pra barrar o novo local — a quatro dias do evento, a produção teve que desmontar os palcos às pressas e remontá-los no Sambódromo, onde finalmente conseguiu se instalar. Assim como no caso do Aterro, o Iphan novamente mostrou uma relação de dois pesos, duas medidas, pois a Quinta, além de receber anualmente o festival gospel Louvorzão [200 mil pessoas], hospedou em novembro o show de 40 anos do Carrefour [100 mil pessoas], com apoio do Ministério da Cultura. Ficou muito claro que o problema era com o Ultra. Mas por quê? Qual a lógica em boicotar um festival que, em plena recessão, injetava grana e gerava empregos na cidade?

Posicionamento do Iphan sobre o veto na Quinta da Boa Vista; procurados, não responderam ao contato deste colunista

Nonato não tem dúvidas de que tudo se resume à falta de conhecimento. “Foi uma coisa de incompreensão do que é um festival, do que ele representa pro turismo da cidade. As pessoas mais velhas têm impressão de que essa indústria tá lá na festa rave de 20 anos atrás, que era ilegal, à margem, com criminalidade, com drogas”, diz. “A sociedade, de forma geral, não consegue perceber a diferença entre essas raves clandestinas e o Tomorrowland. Infelizmente, na América Latina, a música eletrônica ainda é um negócio complicado.”

O Pedro confessa ter escutado de autoridades no caso que “esse tipo de música não cabe no Aterro do Flamengo” — preconceito que se evidencia na própria fala do juiz Fabio Tenenblat, que justificou a realização do aniversário do Carrefour o comparando com o Ultra. Percebam a quantidade de informações equivocadas em um único parágrafo:

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Trecho extraído da decisão oficial do processo 0500327-54.2016.4.02.5101 (2016.51.01.500327-3), da 3ª Vara Federal de São Gonçalo

Mas a discriminação não é exclusiva do poder público, a quem já nos acostumamos a ver privilegiando seus compadres enquanto nos enchem de burocracias inescrupulosas. Muitos desses políticos apenas representam o pensamento hegemônico do cidadão médio, ou então seguem sua linha por demagogia. A imprensa também continua não ajudando muito. Boechat, normalmente lúcido, vomitou desinformação nas manhãs de uma Band News que teve papel crucial para o veto da Quinta: chamou o Ultra de “festa rave”, caiu no conto das cem mil pessoas, referiu-se ao Claudio da Rocha como “predador urbano” e comparou sua atividade com a de assassinar um coelho, e cravou que o evento era inadequado, sem sequer ouvir os empresários sobre as autorizações prévias e os esforços para não prejudicar ninguém. Mas no caso do Louvorzão e do Carrefour, a Band News se manifestou? Logo, não se trata apenas de desconhecimento, como também uma evidente seletividade e, pior, a recusa ao diálogo. E se ainda restam dúvidas sobre a opinião pública, basta abrir a seção de comentários dos portais — também conhecida como caixa de pandora do horror — pra constatar o que boa parte dos brasileiros pensa sobre o tema. Pois é, ainda temos muito trabalho pela frente.

“As coisas têm evoluído, mas ainda sinto um pouco de preconceito, no marketing também. Você não vê um banco patrocinando música eletrônica, mas vê num show do Guns N’ Roses. Será que tem mais drogas no festival eletrônico do que no show do Guns?”, segue Nonato. “Temos a missão de provar que nós somos uma indústria saudável. As pessoas imaginam que se trata de um ambiente degradado. Mas vamos conseguir prosperar, o Brasil vai crescer nisso e vai se desenvolver.” Amém.

* Você pode seguir o Flávio Lerner no Twitter

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