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Uma nova experiência: Como foi o extended set de Hernan Cattaneo no Warung

Jonas Fachi

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Hernan Cattaneo Warung Review

Em oito horas de música, Hernan Cattaneo trouxe talvez o seu set mais desafiador já feito em dez anos de apresentações no clube catarinense.

* Fotos por Gustavo Remor e vídeos por Fernando Hauenstein e José Alonso Ponse

Como você define experiência? Algumas literaturas falam em algo como “qualquer conhecimento obtido por meio dos sentidos”. Empirismo, prática de vida, ensaio, quando a pessoa é capaz de experimentar, reconstruir e modificar algo. Todas essas colocações serão usadas em breve para ajudar-nos a compreender que uma simples ideia pode transformar as percepções de um grupo de pessoas de forma definitiva.

Foram dias tentando encontrar um formato ideal para colocar os pensamentos no papel sobre o último dia 08 de setembro no Warung Beach Club. Antes de começar a escrever, eu estava cheio de questionamentos, e isso era ótimo. Ao mesmo tempo, busquei ouvir o máximo de pessoas possíveis quanto à apresentação do maestro argentino no Inside do club. Percebi durante uma madrugada que todas as mensagens que tinha lido e recebido, de alguma maneira se assemelhavam a um conceito muito simples, e que também estava de acordo com minhas percepções: Hernan Cattaneo trouxe talvez seu set mais desafiador já feito no Templo Sul-Americano”.

O sentimento comum de praticamente todos que se fizeram presentes era de êxtase na semana pós-festa. Perguntei-me se realmente seria necessário fazer um review sobre o evento, pois cada indivíduo na pista de dança poderia contar sua experiência vivida ao longo de oito horas de set do seu jeito, por meio de linguagens e formatos mais livres e criativos. Para que serve relatar algo? Uma de suas maiores funções é revelar enfrentamentos ou dificuldades. É importante também para entender um todo, um plano ou uma proposta pensada para um determinado período de tempo. Este, por sua vez, capaz de se tornar irreversível na vida de um conjunto de corpos e mentes que participaram dessa experiência. Em nosso caso, eles estiveram flutuantes e compactados sobre uma extensa armação de madeira em frente ao mar do litoral norte catarinense.

Responder à pergunta de abertura do texto serviu como base, pois senti que necessitava ir além de relembrar diversos momentos de destaque e ocorridos. E ainda, o plano ou a proposta que Hernan decidiu executar durante uma extensa noite em pleno feriadão de Independência do Brasil exigia um algo a mais. Aos poucos, veremos que quanto mais olharmos para esse conceito ou ideia de desafio, mais caminhos poderão ser descobertos, e assim nos ajudarem a subir um degrau a mais no entendimento de algo que vai muito além da música.

Hernan Cattaneo Warung Review

Em sua postagem no Facebook de meu artigo que saiu aqui na Phouse um dia antes da festa, Hernan colocou ao final um recado que fez as expectativas de todos aflorarem de vez: “From midnight ’till very late”. Acredito que, assim como eu, todos os frequentadores do Warung anteriores a 2011 começaram a lembrar-se das manhãs sem fim no Templo, e do quanto elas fazem diferença no entendimento da alma do club. A resposta do quão tarde poderia ir, teríamos apenas após a música parar.

Sexta-feira, 22h30min. Cheguei e fui ouvir um pouco do set de Leo Janeiro no Garden. Leo, além de ser uma das figuras mais importantes no que tange ao desenvolvimento de nossa cena nacional, é um artista de extrema personalidade. Capaz de se adaptar conforme o local inserido, ele estava jogando músicas que eu não imaginava virem de suas mãos. Dançante e ao mesmo tempo com seriedade, receptivo ao enorme público que aos poucos estava chegando. Quando me dei conta, já estava no horário de subir. Enquanto conseguia achar meu espaço na pista, Hernan já estava trabalhando na primeira música. Eu estava ansioso por descobrir o que ele tinha pensado para seu set — minhas expectativas giravam em torno do tipo de música que ele vinha apresentando em seus últimos programas de rádio.

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Gostaria de deixar um parêntese quanto ao “tipo” de música que ele poderia apresentar. Isso não quer dizer que jogaria algo fora de seu mundo musical. Um dos segredos de ser um artista tão admirado por tantos anos é que Hernan sempre foi capaz de ser abrangente no tipo de som que toca, mas nunca mudou seu estilo — este é muito próprio, particular e inimitável. Contrário ao ano passado, desde a meia noite o soundsytem já estava trabalhando em alto nível, não existia espaço para desperdiçar qualquer segundo. Em sua primeira hora, vale destacar duas faixas que mostram perfeitamente um cuidado acima da média no alinhamento musical (mais à frente falarei mais sobre isso). Dois dos meus artistas favoritos, passado e presente com estilos parecidos, Audiofly & Patrice Baumel em “Atacama” na primeira meia hora, e na outra metade “Khaya”, de Jonathan Kaspar compondo baixos alongados e baterias muito parecidas.

Na segunda hora, até antes do esperado, linhas de baixo que pressionavam a pista começaram a surgir, um pouco mais de atmosfera também. O começo da intensidade estava apresentado com o excelente remix de “Hold”, por Luiz Kiverling & Diego Berrondo. Chegando à terceira hora, percebi que algo estava diferente. Relutei em usar essa palavra até agora, pois ela é muito importante para entendermos o que vem a seguir. Depois de duas horas de set, não só eu como a grande maioria de seus fãs começou a se perguntar: onde estão as melodias? Quero dizer, até então o estilo dele estava ali, baterias com contratempos, atmosfera, linhas de baixo que nos abraçavam por completo. Porém ainda precisávamos assimilar tudo, era como se as ideias estivessem todas circundando nossos pensamentos, mas faltava um momento para tudo se encaixar.

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Então, como se estivesse lendo nossas mentes, Catta renasce com nada menos que uma das faixas do ano: o lendário duo Way Out West em “Tuesday Maybe”, com remix de Guy J — uma faixa capaz de setar um novo ritmo para a pista, além de trazer maior profundidade e interação com o público. O grande destaque das três primeiras horas, entretanto, veio após mais meia hora de sonoridades flertando com aspectos obscuros. Hernan é especialista nesse quesito, cria momentos de tensão e cadência que se fecham em si mesmos, para depois, em uma virada sorrateira, chegar com algum toque inconfundível e surpreendente. Nesse caso, se tratava de “Airborne”, mais uma do pequeno israelense. Eu ainda me impressiono com esses movimentos de seu set como se fosse à primeira vez; o quanto Hernan consegue elevar o nível das músicas que toca, independentemente de ser um produtor consagrado ou de alguém ainda em formação. Sua maneira de entender onde e como cada uma de suas escolhas deve entrar faz com que elas soem muito mais interessantes.

Marti Perarnau conta em seu livro Guardiola – Confidencial que Pep é incapaz de passar mais do que 32 minutos sem deixar de pensar em futebol. Após esse tempo, ele já está novamente planejando sozinho alguma solução tática nova. Não à toa, o técnico espanhol foi responsável por uma das quatro revoluções do futebol nos últimos 40 anos. Lembrei-me disso na marcação que Hernan preparou dentro da construção de seu set. A cada período pré-determinado de tempo, ele jogava algo mais profundo e melódico; em seguida, porém, voltava a sua proposta para a noite. Na quarta hora, as demonstrações do quão conectados todos podiam estar se fizeram em faixas como “Spaceless”, de Ezequiel Arias. Às duas da manhã eu tinha recebido a seguinte mensagem no whatsapp: “dezembro confirmado”. Porém, confesso que somente às quatro é que percebi que a volta para seu clássico set de final do ano estava estritamente relacionada com a música que ele estava jogando ali, naquele momento. As duas datas são próximas, e o maestro já estava planejando seu próximo set.

Hernan carregava sua música com mixagens encaixadas como um entrelace das mãos, fechadas em uma síntese sonora que fundia produções e balançava a todos o mais próximo do chamado “ritmo ideal”, que é quando o ambiente inteiro está na mesma frequência — quando ninguém está se movendo mais ou menos rápido, não há dissonância. Eu já mencionei que essa fase do set é minha favorita, as reações das pessoas acontecem em momentos menos usuais, as explosões são brandas e inconscientes. A faixa “Smyrna”, de Nightboy, com remix de Alec Araujo, surge após o começo da quinta hora, em uma demonstração simbólica do “tipo” de música que representa uma noite inteira.

Hernan entra na sexta hora de set sem olhar para trás. Há espaço para um ritmo ainda mais intenso, e ele o faz. A sensação do amanhecer ainda com a pista escura é maravilhosa, e toques um pouco mais anestesiantes como em “Netherworld”, de L.S.G, em remix de Rise and Fall entram em cena. Nessas duas horas finais preciso mencionar um aprendizado que sem dúvidas foi um dos mais marcantes para mim em todos esses anos ouvindo música eletrônica. Às sete horas, Hernan corre com músicas bastante rápidas; ainda era cedo pra baixar a intensidade. Percebo em uma de suas mixagens desconcertantes que ele estava baixando o pitch — ou seja, diminuindo a quantidade de batidas por minuto a um número que, para os padrões normais de horário e tipo de música, eram extremamente baixos.

Então, ele se vira para mim, caminha lentamente e comenta com um entusiasmo de quem estava em um parque de diversões: “Estou tocando a 122 BPM somente aqui no Warung! Depois de tantas horas, jogar a 122 BPMs, somente aqui!”. Eu estava sem chão. Qual a intenção? Passei o resto daquela hora imaginando, e conforme a pista foi ficando ainda mais quente e explosiva, entendi que ele na verdade estava desafiando o senso corporal e rítmico de todos na pista de dança — e a si próprio também. Hernan nunca foi adepto de BPMs altos, mas sua busca de equilíbrio com a ideia do “quanto mais rápida a música, mais baixarei o BPM” era uma das demonstrações de controle de pista mais interessantes e incríveis que já vivenciei. Para você ter ideia, qualquer outro artista estaria tocando a 126, 127 ou mais. De fato, no meio da noite, quando as músicas ainda não tinham tanta velocidade, ele subiu o BPM até 126, e com o entrar da manhã, aos poucos foi descendo sem que ninguém percebesse.

Em meio a isso tudo, por volta das 07h20, joga uma faixa ainda desconhecida (não precisamos saber de tudo), que fez a todos levantarem as mãos de uma só vez. Era isso, uma noite inteira trabalhando e construindo um set tão meticuloso e bem pensado, para nos momentos finais entregar aquilo que todos esperavam. Em seguida, entra um dos vocais mais famosos da dance music: “Age of Love”, através do novo remix de Solomun. Que momento! As escolhas finais ficaram por “Cover Me”, da banda Depeche Mode em remix de Ben Pearce. Após a clássica pausa para aplausos, uma de minhas faixas favoritas nos últimos anos, e nunca esperada para um encerramento de Warung: “Epikur”, de David August, com edit do próprio Mestre.

Hernan Cattaneo Warung Review

Olhando para os produtores que compõem o tracklist, podemos notar que em grande maioria são os mesmos que ele sempre deu suporte. Mas então, como explicar uma proposta diferente, menos emotiva, mais fria, com baixos por vezes mais secos e com momentos emocionais extremamente bem colocados, se eram os mesmos nomes que já compuseram noites super emotivas, tribais ou obscuras? Poderia simplificar falando que ele apenas ajustou o set, os mesmos produtores apresentados de maneira diferente, buscando deles outras ideias musicais.

Em psicologia da Gestalt, fala-se que “o todo é maior do que a soma das partes”. Talvez nunca antes essa afirmação seja tão verdadeira e apropriada quanto à construção de set de Hernan no Warung. Vejamos: se você pegar todas as faixas escolhidas por ele e ouvir separadas ou aleatoriamente, não conseguirá captar qual foi sua proposta nesse 8 de setembro. Você só consegue entender ouvindo-as durante um único ensaio. Por mais que as partes estejam todas dentro, o todo que se cria com a soma delas é maior e com verdadeiro significado. Esse conceito tem muito poder e pode ser aplicado a inúmeras situações em nossa vida, as fazendo terem um sentido mais amplo. Hoje, servirá apenas para buscarmos o entendimento de sua experiência apresentada no Templo. Quando conseguimos criar um todo, a nossa maneira, nós estamos fazendo algo realmente diferente, pois às partes, todos têm acesso; qualquer um pode ter, mas o que fazer com elas é o segredo. Hernan sabe disso, é algo que vai muito além da música.

Hernan Cattaneo Warung Review

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Hernán Cattaneo estreia concerto sinfônico com clássicos da dance music

Jonas Fachi

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Concerto
Foto: Hernán Zenteno/La Nación
Performance inédita será no teatro Colón, em Buenos Aires

Nunca antes a música eletrônica esteve exposta em um palco tão importante. Hoje (22), às 19h e às 22h, o lendário DJ argentino Hernán Cattaneo desembarca, juntamente de artistas convidados e uma orquestra com 50 músicos, no teatro Colón de Buenos Aires.

O projeto foi anunciado há alguns meses como parte do festival “Únicos”. Automaticamente, o movimento de seus fãs em toda América do Sul foi intenso por mais informações. Em dezembro as vendas foram abertas, e em poucas horas os dois horários tiveram ingressos esgotados.

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Vale lembrar que o Colón possui espaço para mais de duas mil pessoas sentadas. Com a demanda muito superior ao esperado, a organização do festival cedeu a Hernán mais um horário no dia 23, às 19h. Novamente, com os tickets esgotados, outro horário foi colocado à disposição no dia 26.

Com tamanho sucesso, a imprensa argentina ficou simplesmente de boca aberta, buscando saber um pouco mais do que havia por trás do nome que fez ter quatro funções esgotadas no icônico e respeitado teatro. Jornais como La Nación e canais de TV procuraram Hernán para entender melhor do que se tratava. Imagine no Brasil Gui Boratto sendo entrevistado pelo Fantástico. É mais ou menos isso que Hernán tem vivido nos últimos dias em Buenos Aires, sendo o centro das atenções na mídia da cidade.

Entrevista para o canal Telenoche

Para os argentinos, o Colón é uma espécie de Maracanã cultural, com mais de cem anos de construção e arquitetura que remete à história da cidade. É um cartão postal e um espaço de muito orgulho para o país, pois é considerando internacionalmente como um dos cinco mais importantes do planeta. Após o anúncio, algumas pessoas de perfil mais conservador se mostraram intrigadas sobre o que iria se passar com um DJ e “música eletrônica” no templo que é dedicado à música clássica, ballet e peças líricas.

Hernán, porém, em todos os momentos deixou claro que se trata de um concerto sinfônico, não de um show de música eletrônica comum. Nas suas palavras, “o que difere de um concerto de Mozart ou Beethoven é apenas que os músicos da orquestra irão reinterpretar faixas da dance music, que fazem parte de minha história enquanto artista”. Entre as escolhidas, terão clássicos de bandas e DJs como Depeche Mode, Chemical Brothers, Massive Attack, Underworld, Way out West (com Nick Warren como convidado), Moby e Frankie Knuckles — que foi o DJ que inspirou Hernán a tocar —, além de músicas autorais não divulgadas. Haverá ainda uma quinta apresentação gratuita ao ar livre no dia 3 de março, no famoso parque destinado a shows da avenida Figueroa Alcorta y Pampa, bairro de Palermo.

Mural feito por um artista da cidade com imagem do DJ argentino em Palermo (Foto: Seba Cener/La Nación)

O festival Únicos conta com apoio do poder público da cidade. O novo ministro da cultura portenã, Enrique Avogadro, declarou que “a abertura de Colón a novos públicos é um debate interessante e que precisa ser feito”. Comentou também, em matéria trazida pelo La Nación, que “hoje se vive um ciclo em que já não existe mais a lógica de uma cultura superior à outra”.

O festival reúne diferentes gêneros para propor sinfônicas de música popular. Uma das preocupações dos guardiões da sala maior do teatro e artistas do ambiente lírico foi em nome da famosa acústica do teatro, em que ofereceram resistência quanto ao uso de amplificadores. Sobre isso, Hernán explicou ao La Nación suas intenções:

Hernán Cattaneo se apresentou na Catedral de Liverpool em setembro de 2012 (Foto: Hernán Zenteno/La Nación)

“Me contaram que no Twitter estavam falando que eu queria ultrapassar o limite de 90 decibéis [permitido no local]. As pessoas de Colón falaram que há um nível de decibéis. Não vi nenhum contrato, mas se falarem 70, serão 70, e se decidirem 90, serão 90. Como que vou querer impor minhas regras ao teatro? Não sou um herege, não venho profanar um cenário. Isso é uma vez na minha carreira, uma oportunidade, um convite impossível de recusar e estou feliz. Não vejo a hora de chegar esse dia”.

Em outro momento da entrevista, Hernán conta como tudo começou: “Darío Lopérfido nos contatou, conversamos sobre as opções de apresentações e começamos a trabalhar. Depois ele saiu do Colón, e o projeto não deu em nada, mas eu já tinha a programação na cabeça, com Oliverio Sofía e Paul Baunder [produtores que trabalham com Hernán], e já havíamos avançado. Então em meados do ano passado, Gerardo Gardelín, o diretor da orquestra, nos contou sobre a possibilidade de participar do festival Únicos, um contexto bastante lógico para nós. Então seguimos: por um lado, Gerardo fazendo as versões sinfônicas de todas as canções, e Oliverio, Baunder e eu com as versões eletrônicas. Tudo ia e voltava constantemente”.

Vale lembrar que após as cinco mortes durante o festival Time Warp, em Buenos Aires, em que foi declarado que houve negligencia por parte dos organizadores pela superlotação e poucos espaços para descanso e hidratação, o governo da cidade, fortemente pressionado pela grande mídia, resolveu cancelar todos os alvarás para grandes festivais. Eventos importantes para a economia, como o tradicional Creamfields, não foram mais realizados desde então. De certa forma, apenas três anos depois de sofrer uma grande discriminação, a música eletrônica parece estar dando a volta por cima.

Chegar com tamanha representatividade em um palco tão importante culturalmente é um passo enorme para fazer a mídia e o poder público começarem a ter um olhar diferente sobre o gênero. Todo o respaldo da carreira exemplar de Hernán em mais de 30 anos, sendo o maior DJ que a America do Sul já produziu, ajuda a tudo convergir para anos de maior integração e evolução da cena pioneira da cidade e do país. Hernán, desde os 15 anos de idade, fez sua escolha. Foi o primeiro DJ sul-americano a se tornar verdadeiramente global, e hoje continua a quebrar barreiras que pareciam inatingíveis — só poderia ser ele.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Na Inglaterra, Sasha retorna com seu aclamado live orquestrado

Jonas Fachi

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re-Fracted
O lendário DJ e produtor galês volta com seu aclamado re-Fracted: Live em três shows na Inglaterra.

Sasha, juntamente de diversos músicos e uma orquestra independente, desembarca hoje para mais uma rodada do re-Fracted: Live, em parceria com a label Late Night Tales. A segunda temporada é uma resposta a uma demanda esmagadora após o sucesso de seus shows em maio de 2017, no emblemático Barbican de Londres, quando quase quatro mil ingressos foram vendidos em 90 minutos — um recorde na história do teatro.

Hoje (16) e amanhã (17), as apresentações serão realizadas no também londrino Roundhouse, originalmente construído em 1847 pela London & North Western Railway. No domingo (18), como um show extra devido à grande procura por cadeiras, o live vai a Manchester no Bridgewater Hall.

Imagem do último ensaio, nesta semana

re-Fracted: Live é um show eletrônico realizado por Sasha e músicos convidados, juntamente com cordas e vocais ao vivo, proporcionando uma experiência imersiva apaixonante de algumas de suas produções mais famosas. O produtor galês toca ao vivo, em piano e teclado, partes de arranjos das músicas ao lado de sua principal equipe de produção, composta por colaboradores de longa data como Charlie May (Involver e Invol2vr), Spooky, Dennis White, Thermal Bear e Dave Gardner — além de um conjunto de cordas de oito peças, um percussionista e vocalistas ao vivo.

Em 2017, o produtor John Graham, aka Quivver, subiu ao palco para cantar “Rooms”, faixa que fez parte do álbum Scene Delete, último de Sasha, lançado em 2016. Outras faixas que fizeram parte da tracklist foram “Wavy Gravy” (Airdrawndagger, 2002), “Battleships” (Involv3r, 2013) — em que subiu ao palco a cantora Abigail Wyles —, e a mais aguardada de todas, apresentada no encerramento: “Xpander”, single de 1999 que marcou a carreira do produtor e é considerado uma das dez maiores músicas eletrônicas de todos os tempos, segundo votação popular da revista Mixmag.

“No momento em que descemos do palco no Barbican, estávamos dizendo: temos que fazer isso novamente”, disse o DJ em um comunicado para a imprensa. “Nós não tínhamos realmente um plano na hora. Não tínhamos ideia de que a resposta a esses shows seria tão incrível. Então, esta é a segunda rodada, estamos começando a tocar em dois lugares dos mais emblemáticos do Reino Unido. Nós estamos pensando em mudar o show um pouco para incorporar algumas músicas novas e fazê-los tão especiais e únicos quanto os de Barbican em maio. Mal podemos esperar!”

Em Manchester, será uma volta na história para Sasha, pois foi onde iniciou sua carreira ainda nos anos 80. Na época, a cidade respirava a cultura underground eletrônica, pós o movimento punk. O Bridgewater Hall, que fica no centro da cidade, recebe em média 250 apresentações por ano e é considerado um dos mais modernos da Europa. Com um custo total de 42 milhões de libras, o teatro realizou seu primeiro concerto em 11 de setembro de 1996, sendo inaugurado oficialmente em 04 de dezembro pela Rainha Elizabeth II, ao lado do Duque de Edimburgo.

O Hall foi uma das várias estruturas construídas na década de 90 que simbolizavam a transição para uma Manchester nova e moderna. Apenas alguns meses após a abertura, a sala de concertos ganhou o prêmio RIBA North West.  Em 1998, ganhou o Civic Trust Special Award, que é dado a um edifício que melhorou a aparência de um centro de cidade.

Levar música eletrônica a um espaço como esse é uma grande conquista para a cultura eletrônica, além de mais uma mostra de todo o pioneirismo de Sasha. Artistas como Pete Tong e Jeff Mils também já se apresentaram em teatros, porém receber datas em alguns dos maiores espaços para concertos do Reino Unido é algo único.

Os shows no Barbican viraram Blu-Ray com vendas esgotadas de todos os CDs pela Late Night Tales, e os ingressos para os três shows deste final de semana estão esgotados. Ainda não há previsão para novos shows. Existem pedidos para uma tour pela Europa, porém no momento não há nada anunciado para os próximos anos.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Sete anos para rever o mestre; como foi a volta de Laurent Garnier no Warung

Jonas Fachi

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Laurent Garnier
Um set do mais alto nível para um time de clubbers do mais alto nível
* Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini

16 de novembro de 2017. Um dia após a data que marcava os 15 anos de vida do Warung, o Instagram oficial do beach club anunciava a sequência de sua programação com um calendário para janeiro repleto de grandes artistas. Entretanto, em cima de um deles parecia haver um brilho especial, aquele nome que quando anunciado, os mais experientes já sabiam que seria a noite do verão. Porém, talvez os anos de hiato em nossa cena tivessem apagado um pouco da memória que, se tratando de Laurent Garnier, no mínimo deveria ser aguardado como uma das melhores noites dos últimos anos — o que de fato viria a acontecer.

Foi difícil esperar tanto tempo por seu retorno. A maioria dos que se fariam presentes, mesmo aqueles com alguns anos de pista, ainda não tinham recebido uma experiência musical com o francês. A meu exemplo, ter perdido seu live em 2011 foi um golpe duro. Sua primeira passagem havia sido em 2008, quando se apresentou no Templo em pleno aniversário de seis anos — portanto, não havia chances de deixar passar novamente o momento de receber a condecoração máxima.

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Mesmo quando se vive na era da internet e da corrida desenfreada pelo marketing a todo custo — em que seria obrigação de qualquer um que frequente uma cena conceitual e tenha o mínimo de interesse, saber em qual prateleira o nome de Laurent Garnier deve ser colocado —, ficar sem dar as caras em nosso país por sete anos foi suficiente para o público se renovar várias vezes. E se tratando de uma cena ainda em formação, muitos não conseguiam ter a verdadeira dimensão de quem e do que estavam por presenciar. Nesse ponto, vale destacar a quantidade de pessoas que são influenciadoras no cenário ajudando os mais novos através de matérias, vídeos e postagens, a entenderem a importância de se fazer presente em uma noite como essa.

Na semana do evento, Laurent havia cumprido datas no Rio e em São Paulo. No anúncio dos horários, a primeira surpresa: ele assumiria o Inside somente às 03 horas. Mesmo com vários comentários solicitando por pelo menos uma hora de antecipação, não houve mudança. Nessas situações, visto que por parte do club quase sempre há interesse em deixar a atração principal tocar o máximo de tempo possível, só poderia se tratar de um pedido do próprio francês. De qualquer forma, nada iria atrapalhar a felicidade de assistir ao artista que considero um dos cinco maiores que a cena eletrônica já produziu. Então, esperar por sua aparição ao palco foi algo extremamente gratificante.

Para abrir a casa e construir um set capaz de ser digno do warmup para Garnier, a curadoria depositou todas as fichas em um de seus melhores residentes. Paulinho Boghosian é detentor de uma vasta experiência, já dividiu cabine com grandes nomes e entre os residentes, possuía o perfil que mais poderia fazer a pista ficar bem ambientada até o momento mais aguardado. Antes disso, assisti à última meia hora do debutante da noite, Nezello. O Garden estava com ótimo público e o DJ estava aplicando uma sonoridade extremamente dançante e tribal. Esses adjetivos são comuns, porém o tipo de música que ele apresentava com essas caracteristicas não se ouve com frequência. É sempre bom ver novos artistas de nossa cena mostrando personalidade musical.

Após um tempo para rever e conversar com amigos, subi as escadas do Templo determinado a não mais descer. À 01h, Paulinho já havia ultrapassado o sempre difícil momento de receber o público e controlava com certa tranquilidade uma pista repleta de clubbers do mais alto nível. Com sua tradicional classe variando de house a techno, Boghosian era rápido até onde poderia ir. Cada minuto que passava, mais aumentava aquele sentimento de finalmente poder ver o francês surgir à frente do dragão e da bandeira de nosso país. Um sentimento de ter a certeza de que tudo estaria bem com a sua presença. E foi justamente assim que me senti quando o ícone surgiu na cabine.

Garnier é a personificação do artista completo, que é quando a genialidade está presente tanto no estúdio quanto no comando de uma pista de dança — dois mundos distintos, criação e execução sublime da mesma arte por um mesmo ser. Pontualmente, ele inicia seu set abrindo uma porta por onde se passava uma enorme quantidade de energia. Não havia espaço para alguma introdução; o ótimo warmup lhe permitia impor ritmo intenso junto de sua musicalidade única. Na primeira hora, já se percebia o ambiente completamente envolvido e entusiasmado. Minha atenção ficou em evidência quando ouvi uma das faixas do momento: “Singularity”, novo single de Sasha, encaixou perfeitamente no contexto inicial, formado por algo meio nebuloso e levemente viajante.

A pista não estava completamente lotada. Estava quase na medida para se apreciar sem incômodos a construção musical de Garnier. Não demorou muito para eu notar ao meu redor todos somando energias para mostrar-lhe a força da alma latina; sim, nós poderíamos estar à sua altura. Em contrapartida, Laurent atuava como se tentasse extrair sua melhor versão, de dentro para fora, onde cada música antes de passar pelos cabos, tivesse de dar uma volta por dentro de suas veias para então chegar nas caixas de som e reverberar em ondas sonoras a ponto de fusão.

Mesmo sendo um exímio DJ de longsets, após a segunda hora entendi que não havia mais qualquer motivo para queixar-me de ele não ter entrado mais cedo. Claro que vê-lo tocando mais devagar seria maravilhoso, porém sua musicalidade era estarrecedora em diversas frentes, indo direto ao ponto. Comentei antes que havia clubbers do mais alto nível porque nunca havia visto um ambiente com tamanha diversidade de gostos dentro da cena conceitual, reunidos na mesma sintonia. Talvez nenhum outro artista tenha tamanho poder para isso, apenas um verdadeiro diplomata da música eletrônica global seria capaz de juntar gostos advindos de variadas frentes ou estilos conceituais. Desde o seguidor do techno de Berlim, passando pelo balanço da house de Chicago, até os gostos pelo progressivo do Reino Unido poderiam se identificar com sua música. Ao longo dos anos, de alguma forma Garnier alinhou seu estilo a uma identidade própria capaz de beber de todas essas fontes, sendo impossível de classificá-lo. A quem gosta de introspecção, ele entrega; a quem gosta de movimentos lineares e intensidade, ele propõe.

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“Domino” de Oxia, uma faixa muito tocada nos últimos dois anos, e considerada já ultrapassada em seu momento “clássico”, surge às 05 horas, entretanto, ganhando nova oxigenação e soando tão interessante como se fosse ouvida pela primeira vez. Acelerando o tempo, Garnier liderava de olhos fechados sua sinfonia, fazendo-nos vibrar como nos velhos tempos, resgatando uma energia do Templo que parecia haver diminuído ao longo dos anos, mesmo o club vivendo, no quesito quantidade de público e reconhecimento, seu melhor momento.

Sua música estava calibrada até o limite, marcada por momentos de pura acidez até outros repletos de introspecção, e assim ele continuou até próximo ao amanhecer, quando nas duas últimas horas iria nos mostrar toda sua capacidade técnica e sonora. Quando todos já estavam extasiados, ele ainda traria um algo a mais. Tudo começa às 06h30: “Wir Reitem Durch Die Nacth”, do DJ Hell, em remix de Coyu atravessou a todos. O que mais havia no jogo? Sua discografia poderia ser colocada à mostra por muitas horas. “Jacques In The Box”, delirante, o que mais? Vamos, não parem, o que vocês querem? Ah, sim, não poderia faltar “1-4 Doctor C’Est Chouette” de seu aclamado EP Tribute para a Kompakt — que momento!

Tanta inspiração era de certa forma até constrangedora, pois seu amor pela música é algo tão profundo que te faz sentir que ainda não sabe de nada. Por dentro de seu transe sonoro, demonstrava uma conexão sem fim para o que vem se dispondo a fazer desde a metade dos anos 80, quando deixou Paris para fazer história na efervescente cena pós-punk de Manchester.  “Our Futur” me fez lembrar o icônico vídeo de sua performance no Templo em 2008, quando de forma bilateral mixou “Chinasse Massage”, de Rocket & Ponies, com “Everything in Its Right Place”, do Radiohead, em pleno amanhecer. Dois clássicos distintos unidos de forma tão singular que seria um pecado algum dia tentar-se repetir. Os olhares para o lado de incredulidade — “você também está presenciando isso?” — eram constantes, e claro, antes de tudo não poderia acabar sem sua maior obra prima, a música que se fosse um quadro, estaria certamente exposto na sala mais nobre do Musée du Louvre: “The Man With a Red Face” parecia estar sendo tocada ao vivo diante de nossos olhos.

Para finalizar, chegando próximo das 08 horas, em uma virada desconcertante, ele libera uma espécie de samba eletrônico, introduzindo as boas vindas ao famoso Carnaval brasileiro. Por mais que o Sul não tenha qualquer ligação com esse tipo de música, àquela altura, vindo de suas mãos, tudo parecia fazer sentido.

Os aplausos emotivos para sua performance e seu sorriso de volta nos davam a sensação de que Garnier parecia alguém muito próximo. Cada indivíduo na pista de dança sentia-se compelido a se conectar com sua personalidade, sua forma de agir e tocar; entretanto, talvez sua maior mensagem seja a de que não se pode querer ser como ele. Seria muita ousadia. Seu recado à frente da cabine é justamente o contrário — sem mestres, sem líderes, apenas dê tudo o que puder de si; seja você mesmo, construa sua própria história.

Assistir a Laurent Garnier é como obter uma das últimas graduações que se pode receber enquanto ouvinte em uma pista de dança.  Assistir a Laurent Garnier ao menos uma vez na vida é a passagem para o lado dos profissionais, o entendimento supremo do que é a verdadeira arte da discotecagem.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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