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Uma nova experiência: Como foi o extended set de Hernan Cattaneo no Warung

Jonas Fachi

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Hernan Cattaneo Warung Review

Em oito horas de música, Hernan Cattaneo trouxe talvez o seu set mais desafiador já feito em dez anos de apresentações no clube catarinense.

* Fotos por Gustavo Remor e vídeos por Fernando Hauenstein e José Alonso Ponse

Como você define experiência? Algumas literaturas falam em algo como “qualquer conhecimento obtido por meio dos sentidos”. Empirismo, prática de vida, ensaio, quando a pessoa é capaz de experimentar, reconstruir e modificar algo. Todas essas colocações serão usadas em breve para ajudar-nos a compreender que uma simples ideia pode transformar as percepções de um grupo de pessoas de forma definitiva.

Foram dias tentando encontrar um formato ideal para colocar os pensamentos no papel sobre o último dia 08 de setembro no Warung Beach Club. Antes de começar a escrever, eu estava cheio de questionamentos, e isso era ótimo. Ao mesmo tempo, busquei ouvir o máximo de pessoas possíveis quanto à apresentação do maestro argentino no Inside do club. Percebi durante uma madrugada que todas as mensagens que tinha lido e recebido, de alguma maneira se assemelhavam a um conceito muito simples, e que também estava de acordo com minhas percepções: Hernan Cattaneo trouxe talvez seu set mais desafiador já feito no Templo Sul-Americano”.

O sentimento comum de praticamente todos que se fizeram presentes era de êxtase na semana pós-festa. Perguntei-me se realmente seria necessário fazer um review sobre o evento, pois cada indivíduo na pista de dança poderia contar sua experiência vivida ao longo de oito horas de set do seu jeito, por meio de linguagens e formatos mais livres e criativos. Para que serve relatar algo? Uma de suas maiores funções é revelar enfrentamentos ou dificuldades. É importante também para entender um todo, um plano ou uma proposta pensada para um determinado período de tempo. Este, por sua vez, capaz de se tornar irreversível na vida de um conjunto de corpos e mentes que participaram dessa experiência. Em nosso caso, eles estiveram flutuantes e compactados sobre uma extensa armação de madeira em frente ao mar do litoral norte catarinense.

Responder à pergunta de abertura do texto serviu como base, pois senti que necessitava ir além de relembrar diversos momentos de destaque e ocorridos. E ainda, o plano ou a proposta que Hernan decidiu executar durante uma extensa noite em pleno feriadão de Independência do Brasil exigia um algo a mais. Aos poucos, veremos que quanto mais olharmos para esse conceito ou ideia de desafio, mais caminhos poderão ser descobertos, e assim nos ajudarem a subir um degrau a mais no entendimento de algo que vai muito além da música.

Hernan Cattaneo Warung Review

Em sua postagem no Facebook de meu artigo que saiu aqui na Phouse um dia antes da festa, Hernan colocou ao final um recado que fez as expectativas de todos aflorarem de vez: “From midnight ’till very late”. Acredito que, assim como eu, todos os frequentadores do Warung anteriores a 2011 começaram a lembrar-se das manhãs sem fim no Templo, e do quanto elas fazem diferença no entendimento da alma do club. A resposta do quão tarde poderia ir, teríamos apenas após a música parar.

Sexta-feira, 22h30min. Cheguei e fui ouvir um pouco do set de Leo Janeiro no Garden. Leo, além de ser uma das figuras mais importantes no que tange ao desenvolvimento de nossa cena nacional, é um artista de extrema personalidade. Capaz de se adaptar conforme o local inserido, ele estava jogando músicas que eu não imaginava virem de suas mãos. Dançante e ao mesmo tempo com seriedade, receptivo ao enorme público que aos poucos estava chegando. Quando me dei conta, já estava no horário de subir. Enquanto conseguia achar meu espaço na pista, Hernan já estava trabalhando na primeira música. Eu estava ansioso por descobrir o que ele tinha pensado para seu set — minhas expectativas giravam em torno do tipo de música que ele vinha apresentando em seus últimos programas de rádio.

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Gostaria de deixar um parêntese quanto ao “tipo” de música que ele poderia apresentar. Isso não quer dizer que jogaria algo fora de seu mundo musical. Um dos segredos de ser um artista tão admirado por tantos anos é que Hernan sempre foi capaz de ser abrangente no tipo de som que toca, mas nunca mudou seu estilo — este é muito próprio, particular e inimitável. Contrário ao ano passado, desde a meia noite o soundsytem já estava trabalhando em alto nível, não existia espaço para desperdiçar qualquer segundo. Em sua primeira hora, vale destacar duas faixas que mostram perfeitamente um cuidado acima da média no alinhamento musical (mais à frente falarei mais sobre isso). Dois dos meus artistas favoritos, passado e presente com estilos parecidos, Audiofly & Patrice Baumel em “Atacama” na primeira meia hora, e na outra metade “Khaya”, de Jonathan Kaspar compondo baixos alongados e baterias muito parecidas.

Na segunda hora, até antes do esperado, linhas de baixo que pressionavam a pista começaram a surgir, um pouco mais de atmosfera também. O começo da intensidade estava apresentado com o excelente remix de “Hold”, por Luiz Kiverling & Diego Berrondo. Chegando à terceira hora, percebi que algo estava diferente. Relutei em usar essa palavra até agora, pois ela é muito importante para entendermos o que vem a seguir. Depois de duas horas de set, não só eu como a grande maioria de seus fãs começou a se perguntar: onde estão as melodias? Quero dizer, até então o estilo dele estava ali, baterias com contratempos, atmosfera, linhas de baixo que nos abraçavam por completo. Porém ainda precisávamos assimilar tudo, era como se as ideias estivessem todas circundando nossos pensamentos, mas faltava um momento para tudo se encaixar.

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Então, como se estivesse lendo nossas mentes, Catta renasce com nada menos que uma das faixas do ano: o lendário duo Way Out West em “Tuesday Maybe”, com remix de Guy J — uma faixa capaz de setar um novo ritmo para a pista, além de trazer maior profundidade e interação com o público. O grande destaque das três primeiras horas, entretanto, veio após mais meia hora de sonoridades flertando com aspectos obscuros. Hernan é especialista nesse quesito, cria momentos de tensão e cadência que se fecham em si mesmos, para depois, em uma virada sorrateira, chegar com algum toque inconfundível e surpreendente. Nesse caso, se tratava de “Airborne”, mais uma do pequeno israelense. Eu ainda me impressiono com esses movimentos de seu set como se fosse à primeira vez; o quanto Hernan consegue elevar o nível das músicas que toca, independentemente de ser um produtor consagrado ou de alguém ainda em formação. Sua maneira de entender onde e como cada uma de suas escolhas deve entrar faz com que elas soem muito mais interessantes.

Marti Perarnau conta em seu livro Guardiola – Confidencial que Pep é incapaz de passar mais do que 32 minutos sem deixar de pensar em futebol. Após esse tempo, ele já está novamente planejando sozinho alguma solução tática nova. Não à toa, o técnico espanhol foi responsável por uma das quatro revoluções do futebol nos últimos 40 anos. Lembrei-me disso na marcação que Hernan preparou dentro da construção de seu set. A cada período pré-determinado de tempo, ele jogava algo mais profundo e melódico; em seguida, porém, voltava a sua proposta para a noite. Na quarta hora, as demonstrações do quão conectados todos podiam estar se fizeram em faixas como “Spaceless”, de Ezequiel Arias. Às duas da manhã eu tinha recebido a seguinte mensagem no whatsapp: “dezembro confirmado”. Porém, confesso que somente às quatro é que percebi que a volta para seu clássico set de final do ano estava estritamente relacionada com a música que ele estava jogando ali, naquele momento. As duas datas são próximas, e o maestro já estava planejando seu próximo set.

Hernan carregava sua música com mixagens encaixadas como um entrelace das mãos, fechadas em uma síntese sonora que fundia produções e balançava a todos o mais próximo do chamado “ritmo ideal”, que é quando o ambiente inteiro está na mesma frequência — quando ninguém está se movendo mais ou menos rápido, não há dissonância. Eu já mencionei que essa fase do set é minha favorita, as reações das pessoas acontecem em momentos menos usuais, as explosões são brandas e inconscientes. A faixa “Smyrna”, de Nightboy, com remix de Alec Araujo, surge após o começo da quinta hora, em uma demonstração simbólica do “tipo” de música que representa uma noite inteira.

Hernan entra na sexta hora de set sem olhar para trás. Há espaço para um ritmo ainda mais intenso, e ele o faz. A sensação do amanhecer ainda com a pista escura é maravilhosa, e toques um pouco mais anestesiantes como em “Netherworld”, de L.S.G, em remix de Rise and Fall entram em cena. Nessas duas horas finais preciso mencionar um aprendizado que sem dúvidas foi um dos mais marcantes para mim em todos esses anos ouvindo música eletrônica. Às sete horas, Hernan corre com músicas bastante rápidas; ainda era cedo pra baixar a intensidade. Percebo em uma de suas mixagens desconcertantes que ele estava baixando o pitch — ou seja, diminuindo a quantidade de batidas por minuto a um número que, para os padrões normais de horário e tipo de música, eram extremamente baixos.

Então, ele se vira para mim, caminha lentamente e comenta com um entusiasmo de quem estava em um parque de diversões: “Estou tocando a 122 BPM somente aqui no Warung! Depois de tantas horas, jogar a 122 BPMs, somente aqui!”. Eu estava sem chão. Qual a intenção? Passei o resto daquela hora imaginando, e conforme a pista foi ficando ainda mais quente e explosiva, entendi que ele na verdade estava desafiando o senso corporal e rítmico de todos na pista de dança — e a si próprio também. Hernan nunca foi adepto de BPMs altos, mas sua busca de equilíbrio com a ideia do “quanto mais rápida a música, mais baixarei o BPM” era uma das demonstrações de controle de pista mais interessantes e incríveis que já vivenciei. Para você ter ideia, qualquer outro artista estaria tocando a 126, 127 ou mais. De fato, no meio da noite, quando as músicas ainda não tinham tanta velocidade, ele subiu o BPM até 126, e com o entrar da manhã, aos poucos foi descendo sem que ninguém percebesse.

Em meio a isso tudo, por volta das 07h20, joga uma faixa ainda desconhecida (não precisamos saber de tudo), que fez a todos levantarem as mãos de uma só vez. Era isso, uma noite inteira trabalhando e construindo um set tão meticuloso e bem pensado, para nos momentos finais entregar aquilo que todos esperavam. Em seguida, entra um dos vocais mais famosos da dance music: “Age of Love”, através do novo remix de Solomun. Que momento! As escolhas finais ficaram por “Cover Me”, da banda Depeche Mode em remix de Ben Pearce. Após a clássica pausa para aplausos, uma de minhas faixas favoritas nos últimos anos, e nunca esperada para um encerramento de Warung: “Epikur”, de David August, com edit do próprio Mestre.

Hernan Cattaneo Warung Review

Olhando para os produtores que compõem o tracklist, podemos notar que em grande maioria são os mesmos que ele sempre deu suporte. Mas então, como explicar uma proposta diferente, menos emotiva, mais fria, com baixos por vezes mais secos e com momentos emocionais extremamente bem colocados, se eram os mesmos nomes que já compuseram noites super emotivas, tribais ou obscuras? Poderia simplificar falando que ele apenas ajustou o set, os mesmos produtores apresentados de maneira diferente, buscando deles outras ideias musicais.

Em psicologia da Gestalt, fala-se que “o todo é maior do que a soma das partes”. Talvez nunca antes essa afirmação seja tão verdadeira e apropriada quanto à construção de set de Hernan no Warung. Vejamos: se você pegar todas as faixas escolhidas por ele e ouvir separadas ou aleatoriamente, não conseguirá captar qual foi sua proposta nesse 8 de setembro. Você só consegue entender ouvindo-as durante um único ensaio. Por mais que as partes estejam todas dentro, o todo que se cria com a soma delas é maior e com verdadeiro significado. Esse conceito tem muito poder e pode ser aplicado a inúmeras situações em nossa vida, as fazendo terem um sentido mais amplo. Hoje, servirá apenas para buscarmos o entendimento de sua experiência apresentada no Templo. Quando conseguimos criar um todo, a nossa maneira, nós estamos fazendo algo realmente diferente, pois às partes, todos têm acesso; qualquer um pode ter, mas o que fazer com elas é o segredo. Hernan sabe disso, é algo que vai muito além da música.

Hernan Cattaneo Warung Review

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Gui Boratto homenageia pioneiro do tango em show inusitado em Paris; assista!

Flávio Lerner

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Gui Boratto Tango
Em programa da TV francesa, o músico improvisou ao lado de instrumentista letã para uma plateia que contou até com um dos “robôs” do Daft Punk

Ao lado da importante instrumentista Ksenija Sidorova — original da Letônia e integrante da Orquestra Sinfônica de Viena —, o conceituado produtor e arquiteto brasileiro Gui Boratto protagonizou uma bela homenagem a um dos criadores do tango, o argentino Astor Piazzolla.

A apresentação, em formato live, rolou em outubro, em Paris, e teve direito até a convidado de honra: um dos “robôs” do Daft Punk. “Foi lindo, até o Thomas Bangalter do Daft Punk estava lá na plateia! Foi muito foda!”, resumiu o boss da D.O.C. Records, em contato com a coluna.

O espetáculo durou quase meia hora, e agora, com vídeo disponibilizado ontem no YouTube, podemos assistir ao show na íntegra [veja abaixo]. O próprio Gui destaca que foi ele quem escolheu trabalhar com a música do Piazzolla, pois já havia um flerte antigo com o lendário jazzista que resultou na faixa de 2011 “Soledad”, do seu terceiro álbum.

O músico admite que levou quase dois meses pra tirar as harmonias do Piazzolla e fazer os arranjos da forma que queria, pensando em como criar as harmonias para encaixar com o acordeão de Sidorova.

O projeto faz parte da segunda temporada do Variations, conteúdo exclusivo que une música eletrônica e orgânica reunindo músicos das duas áreas para homenagear ídolos do jazz — em outras ocasiões, o programa já trouxe Marc Romboy e Kenny Larkin para, ao lado de instrumentistas famosos, interpretar John Coltrane e Miles Davis, respectivamente. Além deles, Dubfire e Rebotini também já participaram.

O Variations é apresentado pela Culturebox, canal cultural da tevê francesa, e sempre gravado ao vivo na sala de espetáculos La Cigale, clube parisiense que data da belle époque, nascido em 1887. “La Cigale é um lugar cheio de história que remonta ao começo do século: já pegou fogo e foi reinaugurado nos anos 90. Pra mim, foi um prazer sem igual me apresentar nessa obra arquitetônica, acima de tudo”, concluiu o Gui Boratto, que, também como arquiteto, está sempre atento a esses detalhes.

Flávio Lerner é editor da Phouse; leia mais artigos de sua coluna.

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Entrevista

Saiba tudo sobre o Caos, novo clube do underground de Campinas, que estreia com Carl Craig

Jonas Fachi

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Caos
Em entrevista exclusiva, Eli Iwasa, uma das fundadoras do novo clube campineiro, traz todos os detalhes do empreendimento e revela, em primeira mão, a atração especial de abril
* Com a colaboração de Flávio Lerner
* Foto de capa por Bill Ranier; artes e vídeos promocionais por Muto

Quando em 29 de maio de 2013 a “japa do techno” Eli Iwasa abriu as portas do Club 88 pela primeira vez — junto com seus sócios Rodolfo Salin, Antonio Carlos Diaz, Juka Pinsetta e João Mota —, era a concretização de um sonho que cresceu, transbordou, fomentou a cena local e dentro de uma semana se transforma em uma nova realização: o club Caos, que inaugura em Campinas no dia 22 trazendo pela primeira vez à cidade a lenda do techno de Detroit, Carl Craig.

E Carl é aquele artista para o qual a palavra “lenda” realmente se encaixa, sem cair em banalizações ou esvaziamentos. Tanto que foi escolhido a dedo pela DJ, empresária, sócia-proprietária e curadora Eliana Iwasa para ser a grande atração do primeiro ato desse novo empreendimento no interior de São Paulo.

Eli possui mais de 15 anos de carreira na música eletrônica, e já passou por clubs como o lendário Lov.e em São Paulo, o Kraft em Campinas e diversos eventos e gigs pelo país afora — seja como produtora, curadora ou DJ. À frente do Club 88, que continua funcionando normalmente no belíssimo Jockey Club de Campinas, a artista bookou artistas como Mind Against e Michael Meyer, e agora o momento é de expansão.

O Caos é o segundo estabelecimento do grupo e foi desenhado para abrigar artistas de maior porte — além de Craig, já estão confirmados Marco Carola (12/01) e um grande artista israelense (para abril) que ainda não foi anunciado oficialmente, revelado em primeira mão por Eli nesta entrevista exclusiva que você lê abaixo.

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Assim, o Caos promete estimular ainda mais a já movimentada cena do interior paulista, com seu espaço industrial aconchegante e ressignificado especialmente para que as pessoas sintam-se livres na pista, guiadas pela soberania musical.

Confira todos os detalhes que Eli nos revelou sobre o novo reduto underground campineiro:

Como mostrado na apresentação do projeto à imprensa, o Caos chega para cobrir uma demanda local por artistas de maior renome, devido à falta de capacidade no Club 88 atualmente. Quando vocês perceberam que existia esse potencial latente para um projeto maior?

Sempre houve um desejo de receber esses artistas, e o Caos nasceu justamente para possibilitar essa realização. Quando procuramos o local, pensamos no tamanho ideal que nos permitisse viabilizar esses nomes que sonhamos tanto em bookar, e que oferecesse uma experiência diferente do Club 88. Nós voltamos ao nosso começo, onde o que importava era a música sem muitas firulas — com apenas som e luz que proporcionassem algo bem intenso na pista.

Talvez um dos grandes diferenciais desse novo club é sua localização. Parece existir no Brasil uma tendência extraída da Europa por espaços com características industriais. O que o Caos vai apresentar de diferente em relação à estrutura, capacidade e, mais importante, atendimento e soundsystem?

O Caos ocupa um antigo galpão industrial, onde ficava uma siderúrgica — uma das características mais interessantes do espaço é que ele conta com diversas janelas, com luz natural inundando o club assim que amanhece. O ambiente é rústico, cru, mas é fundamental que as pessoas tenham conforto.

A pista conta com dois bares grandes, uma área externa bem ampla, e vamos trabalhar com o sistema cashless, que é super moderno e garante maior tranquilidade para você consumir na festa. Quanto ao soundsystem, vamos deixar para quem for à inauguração, mas posso te adiantar que é de uma marca que usamos em alguns de nossos eventos em Campinas.

“É simbólico ter na inauguração um artista que nos faz revisitar nosso passado ao mesmo tempo em que nos faz olhar para frente — porque Carl Craig é história, mas nunca deixou de ser um visionário.”

Não é qualquer clube que consegue inaugurar com uma das lendas de Detroit, Carl Craig. Qual a expectativa para sua vinda? O Caos tem pretensão de oferecer quantas horas de apresentação para os convidados?

O techno de Detroit sempre foi uma influência muito grande para mim, e Craig um dos meus produtores favoritos. É um artista que se manteve atualizado, atuando um diversas frentes, e  cuja música só reforçou sua relevância ao longo dos anos. Depois da apresentação arrebatadora no DGTL em São Paulo, a expectativa realmente é muito alta. Acho que é muito simbólico ter um artista como ele na noite de inauguração de um club que nos faz revisitar nosso passado ao mesmo tempo em que nos faz olhar para frente — porque Carl é história, mas nunca deixou de ser um visionário.

Além de você como anfitriã, teremos o lendário Mauricio Lopes e o duo campinense Black Sun na estreia do Caos. Em relação a residentes, existem nomes cotados?

O time de residentes de um club se forma conforme sua história é escrita, e os personagens importantes para ela aparecem nesse processo. Os residentes do Club 88 estão entre os melhores DJs de Campinas e região, em minha opinião, e conquistaram seu lugar com a qualidade de seus sets ali. No Caos, tenho certeza que este grupo também vai se formar no seu ritmo e tempo.

Caos

Antes de tudo, vem o Caos

Em janeiro, outro nome importante do circuito global chega a Campinas: Marco Carola. Nessas duas primeiras datas, podemos observar que o techno e o tech house prevalecem. É esse o estilo de música que o Caos vai focar, ou haverá abertura para outros nomes importantes de estilos como deep house ou house progressivo?

Um ponto importante é que não vamos levantar bandeira de estilo algum — o que importa é a qualidade musical. Temos o techno de Detroit de Carl Craig, o tech house cheio de classe de Marco Carola, mas também confirmamos o Guy J no dia 06 de abril, para quem gosta de progressive house, além de três artistas de techno que ainda não posso relevar, mas que estão entre os mais relevantes do estilo.

Além de uma data mensal fixa, o espaço irá receber outros gêneros de música, como o hip hop. Como vai funcionar exatamente esse diálogo entre estilos e públicos tão diferentes?

Já temos uma programação diversificada no Club 88, e nossos projetos de hip hop e pop (o Groove Urbano e a Wolf) também terão suas noites no Caos mensalmente. Cada noite e cada público servem para enriquecer nosso trabalho, nossa experiência, e o que podemos oferecer ao público.

“Não vamos levantar bandeira de estilo algum — o que importa é a qualidade musical.”

Parece haver uma tendência recente de novos clubes, com propostas cada vez mais nichadas, surgindo pelo Brasil. Como você enxerga esse atual momento do mercado dos clubes e da cena eletrônica em geral? Crises econômicas à parte, você diria que este é um dos melhores momentos para abrir esse tipo de negócio no país?

Sempre acreditei que crises trazem muitas oportunidades. O interior de SP abriga muitos dos maiores festivais do Estado, tem um público que consome avidamente música eletrônica, provou que é importante celeiro de talentos, com ótimos produtores e DJs, e conta com o Club 88 e o Laroc, que investem fortemente em sua direção artística de forma constante — assim, percebemos que havia demanda e espaço para um novo club. Num momento em que o mercado está tão retraído, por que não encarar mais um empreendimento se tudo conspirou a favor?

Como é o processo de estudo e incubação da ideia de criar um novo clube até, efetivamente, o seu nascimento? Conta pra gente o trabalho que envolve a criação de um empreendimento desse tipo.

Nosso trabalho é muito intuitivo — sempre falo que não servimos como modelo de negócio algum, de uma maneira mais tradicional assim falando [risos]. Lógico que todos esses anos de experiência servem como base para tomada de decisões, e no caso do Caos, foi apenas seguir um desejo latente em ter um espaço maior, para não termos que criar uma estrutura temporária cada vez que quiséssemos expandir nossas atividades para fora do Club 88. Todos nós temos uma inquietude que nos faz sempre pensar qual o próximo passo, o próximo negócio, evento…

Quando o 88 completou quatro anos, sentimos que era hora de crescer. A primeira coisa é encontrar o local adequado — ou no nosso caso, descobrir um local e pensar que seria incrível ter um club ali, como foi com o prédio do Jockey Club. Eu já tinha em mente que artistas gostaria de trazer, e corremos para a obra ser finalizada a tempo.

“Não há excessos: o Caos é uma grande pista de dança com um baita soundsystem e uma iluminação projetada para criar a atmosfera certa para dançar.”

Quais são as principais referências que nortearam o conceito e os princípios do Caos?

De alguma maneira, o Caos é como o final e início de um ciclo, e sentimos que é um retorno às nossas origens, quando o que realmente importava era apenas a música, mas com o olhar para o futuro. Tudo que era excesso foi retirado: o club é uma grande pista de dança com um baita soundsystem e uma iluminação projetada e pensada para criar a atmosfera certa para dançar. Desde a comunicação até a decoração, tudo foi simplificado, sem rodeios, sem exageros, para que você tenha a experiência e a percepção mais pessoais possíveis.

Espero que as pessoas realmente vivenciem uma imersão musical ao som de ótimos artistas, e possam compartilhar conosco a realização de mais um sonho.

Como o Caos vai se diferenciar de todos os outros clubes conceituais do mercado brasileiro?

Posso falar da estrutura, do espaço, dos bookings, mas o que na verdade sempre nos diferenciou, e espero que continue no Caos, é a relação que criamos com as pessoas que prestigiam nosso trabalho, com nossa equipe e com os artistas. Esse apreço pelo outro, por uma boa festa — é claro — e o amor genuíno ao que fazemos é o que vai tornar o Caos especial.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Ícone do house progressivo, Nick Warren é headliner de festa em São Paulo

Jonas Fachi

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Nick Warren São Paulo
O segundo evento do núcleo Unik ID traz o expoente britânico de volta à cidade que tem um peso especial em sua carreira

Nesta semana, uma longa espera chegará ao fim. Depois de quatro anos, um dos mais consagrados DJs da história da dance music desembarca novamente no Brasil. Quase 20 anos após ter marcado época em São Paulo ao escolher a cidade para gravar sua segunda compilação pela Global Underground (ouça abaixo), o inglês está de volta para consolidar um novo ciclo musical na capital financeira do Brasil.

Falar de Nick Warren não é uma tarefa fácil. Sua trajetória impressionante como DJ e brilhante como produtor musical o colocou frente a frente com o que já houve de melhor na cena clubber e festival no mundo. Podemos dizer que a apresentação do próximo sábado, em evento realizado pelo núcleo Unik ID, será algo emblemático. Por quê? Para entender, precisamos voltar um pouco no tempo e relembrar a estreita relação que o DJ de Bristol já teve com a cidade.

Em 1998, durante a explosão do estilo house progressivo desenvolvido por ele e ícones como Sasha, John Digweed e Danny Howells no Reino Unido, Nick apostou na capital paulista para compilar um de seus álbuns mais interessantes e distintos. Foi um dos raros momentos em que o artista flertou com techno de maneira magistral, acabando por conceber um disco que poderia ser facilmente apresentado nos dias de hoje.

Vale ainda destacar que nenhum outro artista compilou tantos álbuns para a gravadora mais importante dos anos 90 e 2000. Foram oito cidades escolhidas a dedo por Nick para expressar sua música e também adaptá-la ao movimento local. A escolha por São Paulo serviu como uma pequena amostra do potencial que a cidade já apresentava em ser uma das lideres de desenvolvimento eletrônico no mundo, como mais tarde veio a se tornar. Durante todo esse tempo, o artista obteve grandes momentos por aqui, em clubs com o Warung, o Sirena e, mais recentemente, na Amazon.

Em 2017, o público paulista de apreciadores do estilo que o DJ ajudou a criar e consolidar pode dizer que teve um ano especial. A vinda de nomes como John Digweed, Guy J, Hernan Cattaneo e agora Nick Warren fecha uma temporada que deverá ser lembrada como de mudança e abertura de ideias para outros estilos. Nick estará dando uma volta na história quando iniciar seu long set em um dos eventos mais aguardados dos últimos tempos. Em recente publicação em sua página no Facebook, o artista demonstrou todo entusiasmo para voltar à cidade: “Brasil, eu já estava com saudades de vocês!”.

O núcleo Unik ID, uma das bandeiras mais fortes da capital para o house progressivo, chega para realizar sua segunda edição já contando com um artista do mais alto escalão do cenário conceitual. Tudo isso foi possível após o retorno positivo no primeiro evento, em que trouxeram dois produtores de destaque nos últimos anos — Cid Inc e Darin Epsilon.

Nick Warren São Paulo

Sábado, dia 16, a pista em anexo ao AUDIO Club receberá ainda um B2B com dois talentosos produtores que vêm se destacando em nossa cena: Luciano Scheffer e Goraieb. Completam o lineup Pedro Capelossi, Gui Milani e Pk Live. Você pode conferir mais informações no Facebook.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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