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Lúdico, subversivo e impactante: conheça o universo de Carlos Capslock

Flávio Lerner

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Flávio Lerner conversa com Paulo Tessuto, criador da Carlos Capslock — uma das festas mais influentes da cultura de pista no Brasil.

Se você nunca ouviu falar em Carlos Capslock, sugiro que leia com atenção esta matéria. Mesmo que seu interesse passe longe de techno e noites mais alternativas, é essencial para qualquer pessoa minimamente ligada em cultura eletrônica saber mais sobre essa figura que subverte padrões e lança tendências. Por isso, não será de se estranhar se a originalidade e a influência de Paulo Tessuto acabarem atingido, mesmo que indiretamente, o mainstream da cena nacional.

Tive a oportunidade de falar ao vivo e a cores com o Tessuto no dia primeiro de abril — e o papo foi sério, mesmo ele sendo o criador de um personagem e uma festa tão lúdicos. O DJ foi atração dos dez anos da Disc-O-Nexo, uma das festas de dance music mais importantes da crescente cena de Porto Alegre. Hoje com 31 anos, o rapaz, que jogava basquete nas categorias de base do Pinheiros, em São Paulo, acabou seguindo uma carreira consideravelmente diferente da que sonhava, se transformando em figura-chave da cena alternativa brasileira.

Tocando “à paisana”, Tessuto foi uma das atrações nacionais do elogiadíssimo Dekmantel São Paulo

No fim dos anos 2000, quando já tinha alguns anos de carreira como DJ, com direito a residência no D-EDGE, o Paulo se via cercado por uma cena eletrônica quadrada, rígida, tomada por aparências, e acabou motivado por um impulso um tanto quanto inconsciente de mudar as coisas ao seu redor. “Quando eu comecei, rolava uma coisa muito baseada em troca de gigs, sabe? O cara te chama pra tocar, você chama ele de volta. Isso desvaloriza o mercado”, conta. “E aí eu comecei a pensar mais a fundo em profissionalismo, ter um conceito, enaltecer mesmo o artista, e não o negócio em si.”

Mas o modus operandi do mercado não foi o mais determinante para a criação da Capslock. A festa, criada em dezembro de 2010, inicialmente na Trackers, foi baseada no personagem homônimo, forjado de brincadeira, entre amigos. Depois, a vivência com o coletivo VOODOOHOP — que estabeleceu a onda dos coletivos de festas de rua, que transformaram São Paulo e posteriormente outros Estados brasileiros — serviu como base. Tessuto revela que tinha dentro de si o sentimento de transformar o ambiente ao seu redor. “Foi um processo natural. Encarnei o personagem, e aí comecei a me libertar de diversos pensamentos que me aprisionavam, de regras sociais. A Capslock foi meio que uma válvula de escape pra mim, eu não tava satisfeito em como a sociedade lidava com diversas coisas, e em como eu reagia em relação a isso. Eu me preocupava muito se tava dançando espalhafatosamente numa festa, porque ficava todo mundo olhando…”, segue. “[A cena de SP] Era meio assim. Muito status quo, aparências, e pouca arte. Com o Capslock, eu pude atrair um público completamente novo, livre desses paradigmas.”

O rosto encontrado na web e photoshopado virou a cara do personagem Carlos Capslock

Nada disso, porém, teria sido deliberado. “Nada que eu faço na minha vida é planejado, eu faço o que o meu coração manda. Eu simplesmente criei meu próprio sistema porque estava insatisfeito. A questão social dos eventos de rua, por exemplo: quando eu comecei a fazê-los, não imaginava que tinham toda essa importância social, de ocupar, trazer as pessoas pra rua, fazer com que elas se movimentem em bairros diferentes, entendam os problemas da cidade, e de anular um pouco esse individualismo de ‘todo mundo no seu carro’. Tudo isso foram questões que apareceram depois. Eu queria fazer festa na rua porque eu queria retribuir quem pagava entrada, e abrir pra quem não podia pagar.”

Os coletivos de festa de rua, de fato, foram revolucionários por tocar em questões sociais importantes; as festas deixaram de ser apenas entretenimento, resgatando os valores originais da cultura de pistademocracia, igualdade, comunhão —, permitindo o convívio entre todas as classes sociais. Mas não foi só por ser um dos pioneiros desse movimento que Paulo Tessuto se tornou uma figura tão influente. Travestindo-se de um personagem, inovando com circulação de fanzines e girando sobre temas idiossincráticos para as festas [cada edição tem um nome que faz trocadilhos com assuntos da nossa realidade, como “O Desfecho da Operação Leva Jato” e a mais recente “Carne Podre de Ri(z)co”], ele conseguiu tocar numa tecla que muitos artistas no mundo da música já tocaram — sobretudo David Bowie —, mas explorada por poucos DJs: o estabelecimento de um universo conceitual próprio, uma narrativa para além dos DJ sets, centralizada na criação de um personagem lúdico, bizarro, performático. Sem dúvidas, esse elemento central fez da Capslock um evento único, e catapultou a carreira de seu criador. “Eu me montava de nerd no começo”, segue contando. “O Carlos Capslock é um nerd, designer de teclados, hipocondríaco, gosta da Xuxa, e a mãe dele não deixava ele sair de casa. Era algo que não fazia muito sentido: por que esse cara faria uma festa?” Por ser algo tão diferente e enigmático, atraiu um público curioso, que se identificou com a proposta de libertação total.

Em 2014, quando estava em uma de suas turnês pela Alemanha [neste sábado, por sinal, parte para seis datas em Berlim], o DJ cativou as pessoas em mais uma brincadeira, dizendo que ia casar no país europeu pra conseguir o visto, e que, portanto, a festa morreria. Na volta a São Paulo, fez a edição de casamento do Capslock, e surpreendeu se vestindo de noiva. Desde então, tem se vestido de mulher em todas as edições — conceito que remete a Nova Iorque dos anos 70 e 80, em que a cultura da disco music foi fundada como grito de libertação de homossexuais e drag queens, até então duramente reprimidos socialmente. A house music continuou esse legado, mas atualmente, com a explosão da EDM e afins, mesmo nos redutos tidos como underground, essa cultura foi esvaziada.

Com o passar do tempo, a transformação e libertação pregadas pelo criador e executadas pela criatura acabaram fundindo ambos em um só. “Antigamente tinha uma distinção: eu começava a festa como Tessuto, tocando disco e house, e fechava como Capslock, tocando techno. Comecei adquirindo roupas somente pro Carlos. Isso durou uns dois anos. Aos poucos o personagem se misturou com o meu eu interior, e hoje são uma coisa só. Não sei como isso me ajudou, só sei que o Paulo morreu e nasceu de novo — e isso foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida até agora!”, revela, animado. “E apesar de girar em torno do meu personagem, de ser muito relacionada com a minha vida, a Capslock não é sobre egotrip — pelo contrário. Foi tão bom me libertar de todas as minhas amarras sociais que eu quis muito espalhar isso pra todo mundo. Por isso, eu acho que não só ela, como muitas outras festas, foram importantes na vida de muita gente.”

Pra seguir esse conceito de libertação e transformação social, o artista agora está expandindo sua marca para outras frentes. Hoje, aluga um galpão, para sediar algumas edições da festa, mas principalmente para abrigar uma biblioteca e feiras orgânicas, workshops de DJs, exposições, palestras e aulas de yoga — tudo gratuitamente, para a comunidade local. Também produtor, o Tessuto confessa que não lança tanto quanto gostaria, por faltar tempo. Mesmo assim, em parceria do amigo e também expoente L_cio, toca o selo de nome impronunciável MEMNTGN, distribuído pela Kompakt. “O que eu queria mesmo era tocar e fazer música, mas meu caminho me trouxe essas outras responsabilidades, então tô focando nesse projeto, que tem uma importância pra cidade, um poder de transformação. O artista tem um peso social muito importante, então ele tem que saber usar isso em favor da sociedade.” ~

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Notícia

Na Inglaterra, Sasha retorna com seu aclamado live orquestrado

Jonas Fachi

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re-Fracted
O lendário DJ e produtor galês volta com seu aclamado re-Fracted: Live em três shows na Inglaterra.

Sasha, juntamente de diversos músicos e uma orquestra independente, desembarca hoje para mais uma rodada do re-Fracted: Live, em parceria com a label Late Night Tales. A segunda temporada é uma resposta a uma demanda esmagadora após o sucesso de seus shows em maio de 2017, no emblemático Barbican de Londres, quando quase quatro mil ingressos foram vendidos em 90 minutos — um recorde na história do teatro.

Hoje (16) e amanhã (17), as apresentações serão realizadas no também londrino Roundhouse, originalmente construído em 1847 pela London & North Western Railway. No domingo (18), como um show extra devido à grande procura por cadeiras, o live vai a Manchester no Bridgewater Hall.

Imagem do último ensaio, nesta semana

re-Fracted: Live é um show eletrônico realizado por Sasha e músicos convidados, juntamente com cordas e vocais ao vivo, proporcionando uma experiência imersiva apaixonante de algumas de suas produções mais famosas. O produtor galês toca ao vivo, em piano e teclado, partes de arranjos das músicas ao lado de sua principal equipe de produção, composta por colaboradores de longa data como Charlie May (Involver e Invol2vr), Spooky, Dennis White, Thermal Bear e Dave Gardner — além de um conjunto de cordas de oito peças, um percussionista e vocalistas ao vivo.

Em 2017, o produtor John Graham, aka Quivver, subiu ao palco para cantar “Rooms”, faixa que fez parte do álbum Scene Delete, último de Sasha, lançado em 2016. Outras faixas que fizeram parte da tracklist foram “Wavy Gravy” (Airdrawndagger, 2002), “Battleships” (Involv3r, 2013) — em que subiu ao palco a cantora Abigail Wyles —, e a mais aguardada de todas, apresentada no encerramento: “Xpander”, single de 1999 que marcou a carreira do produtor e é considerado uma das dez maiores músicas eletrônicas de todos os tempos, segundo votação popular da revista Mixmag.

“No momento em que descemos do palco no Barbican, estávamos dizendo: temos que fazer isso novamente”, disse o DJ em um comunicado para a imprensa. “Nós não tínhamos realmente um plano na hora. Não tínhamos ideia de que a resposta a esses shows seria tão incrível. Então, esta é a segunda rodada, estamos começando a tocar em dois lugares dos mais emblemáticos do Reino Unido. Nós estamos pensando em mudar o show um pouco para incorporar algumas músicas novas e fazê-los tão especiais e únicos quanto os de Barbican em maio. Mal podemos esperar!”

Em Manchester, será uma volta na história para Sasha, pois foi onde iniciou sua carreira ainda nos anos 80. Na época, a cidade respirava a cultura underground eletrônica, pós o movimento punk. O Bridgewater Hall, que fica no centro da cidade, recebe em média 250 apresentações por ano e é considerado um dos mais modernos da Europa. Com um custo total de 42 milhões de libras, o teatro realizou seu primeiro concerto em 11 de setembro de 1996, sendo inaugurado oficialmente em 04 de dezembro pela Rainha Elizabeth II, ao lado do Duque de Edimburgo.

O Hall foi uma das várias estruturas construídas na década de 90 que simbolizavam a transição para uma Manchester nova e moderna. Apenas alguns meses após a abertura, a sala de concertos ganhou o prêmio RIBA North West.  Em 1998, ganhou o Civic Trust Special Award, que é dado a um edifício que melhorou a aparência de um centro de cidade.

Levar música eletrônica a um espaço como esse é uma grande conquista para a cultura eletrônica, além de mais uma mostra de todo o pioneirismo de Sasha. Artistas como Pete Tong e Jeff Mils também já se apresentaram em teatros, porém receber datas em alguns dos maiores espaços para concertos do Reino Unido é algo único.

Os shows no Barbican viraram Blu-Ray com vendas esgotadas de todos os CDs pela Late Night Tales, e os ingressos para os três shows deste final de semana estão esgotados. Ainda não há previsão para novos shows. Existem pedidos para uma tour pela Europa, porém no momento não há nada anunciado para os próximos anos.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Review

Sete anos para rever o mestre; como foi a volta de Laurent Garnier no Warung

Jonas Fachi

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Laurent Garnier
Um set do mais alto nível para um time de clubbers do mais alto nível
* Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini

16 de novembro de 2017. Um dia após a data que marcava os 15 anos de vida do Warung, o Instagram oficial do beach club anunciava a sequência de sua programação com um calendário para janeiro repleto de grandes artistas. Entretanto, em cima de um deles parecia haver um brilho especial, aquele nome que quando anunciado, os mais experientes já sabiam que seria a noite do verão. Porém, talvez os anos de hiato em nossa cena tivessem apagado um pouco da memória que, se tratando de Laurent Garnier, no mínimo deveria ser aguardado como uma das melhores noites dos últimos anos — o que de fato viria a acontecer.

Foi difícil esperar tanto tempo por seu retorno. A maioria dos que se fariam presentes, mesmo aqueles com alguns anos de pista, ainda não tinham recebido uma experiência musical com o francês. A meu exemplo, ter perdido seu live em 2011 foi um golpe duro. Sua primeira passagem havia sido em 2008, quando se apresentou no Templo em pleno aniversário de seis anos — portanto, não havia chances de deixar passar novamente o momento de receber a condecoração máxima.

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Mesmo quando se vive na era da internet e da corrida desenfreada pelo marketing a todo custo — em que seria obrigação de qualquer um que frequente uma cena conceitual e tenha o mínimo de interesse, saber em qual prateleira o nome de Laurent Garnier deve ser colocado —, ficar sem dar as caras em nosso país por sete anos foi suficiente para o público se renovar várias vezes. E se tratando de uma cena ainda em formação, muitos não conseguiam ter a verdadeira dimensão de quem e do que estavam por presenciar. Nesse ponto, vale destacar a quantidade de pessoas que são influenciadoras no cenário ajudando os mais novos através de matérias, vídeos e postagens, a entenderem a importância de se fazer presente em uma noite como essa.

Na semana do evento, Laurent havia cumprido datas no Rio e em São Paulo. No anúncio dos horários, a primeira surpresa: ele assumiria o Inside somente às 03 horas. Mesmo com vários comentários solicitando por pelo menos uma hora de antecipação, não houve mudança. Nessas situações, visto que por parte do club quase sempre há interesse em deixar a atração principal tocar o máximo de tempo possível, só poderia se tratar de um pedido do próprio francês. De qualquer forma, nada iria atrapalhar a felicidade de assistir ao artista que considero um dos cinco maiores que a cena eletrônica já produziu. Então, esperar por sua aparição ao palco foi algo extremamente gratificante.

Para abrir a casa e construir um set capaz de ser digno do warmup para Garnier, a curadoria depositou todas as fichas em um de seus melhores residentes. Paulinho Boghosian é detentor de uma vasta experiência, já dividiu cabine com grandes nomes e entre os residentes, possuía o perfil que mais poderia fazer a pista ficar bem ambientada até o momento mais aguardado. Antes disso, assisti à última meia hora do debutante da noite, Nezello. O Garden estava com ótimo público e o DJ estava aplicando uma sonoridade extremamente dançante e tribal. Esses adjetivos são comuns, porém o tipo de música que ele apresentava com essas caracteristicas não se ouve com frequência. É sempre bom ver novos artistas de nossa cena mostrando personalidade musical.

Após um tempo para rever e conversar com amigos, subi as escadas do Templo determinado a não mais descer. À 01h, Paulinho já havia ultrapassado o sempre difícil momento de receber o público e controlava com certa tranquilidade uma pista repleta de clubbers do mais alto nível. Com sua tradicional classe variando de house a techno, Boghosian era rápido até onde poderia ir. Cada minuto que passava, mais aumentava aquele sentimento de finalmente poder ver o francês surgir à frente do dragão e da bandeira de nosso país. Um sentimento de ter a certeza de que tudo estaria bem com a sua presença. E foi justamente assim que me senti quando o ícone surgiu na cabine.

Garnier é a personificação do artista completo, que é quando a genialidade está presente tanto no estúdio quanto no comando de uma pista de dança — dois mundos distintos, criação e execução sublime da mesma arte por um mesmo ser. Pontualmente, ele inicia seu set abrindo uma porta por onde se passava uma enorme quantidade de energia. Não havia espaço para alguma introdução; o ótimo warmup lhe permitia impor ritmo intenso junto de sua musicalidade única. Na primeira hora, já se percebia o ambiente completamente envolvido e entusiasmado. Minha atenção ficou em evidência quando ouvi uma das faixas do momento: “Singularity”, novo single de Sasha, encaixou perfeitamente no contexto inicial, formado por algo meio nebuloso e levemente viajante.

A pista não estava completamente lotada. Estava quase na medida para se apreciar sem incômodos a construção musical de Garnier. Não demorou muito para eu notar ao meu redor todos somando energias para mostrar-lhe a força da alma latina; sim, nós poderíamos estar à sua altura. Em contrapartida, Laurent atuava como se tentasse extrair sua melhor versão, de dentro para fora, onde cada música antes de passar pelos cabos, tivesse de dar uma volta por dentro de suas veias para então chegar nas caixas de som e reverberar em ondas sonoras a ponto de fusão.

Mesmo sendo um exímio DJ de longsets, após a segunda hora entendi que não havia mais qualquer motivo para queixar-me de ele não ter entrado mais cedo. Claro que vê-lo tocando mais devagar seria maravilhoso, porém sua musicalidade era estarrecedora em diversas frentes, indo direto ao ponto. Comentei antes que havia clubbers do mais alto nível porque nunca havia visto um ambiente com tamanha diversidade de gostos dentro da cena conceitual, reunidos na mesma sintonia. Talvez nenhum outro artista tenha tamanho poder para isso, apenas um verdadeiro diplomata da música eletrônica global seria capaz de juntar gostos advindos de variadas frentes ou estilos conceituais. Desde o seguidor do techno de Berlim, passando pelo balanço da house de Chicago, até os gostos pelo progressivo do Reino Unido poderiam se identificar com sua música. Ao longo dos anos, de alguma forma Garnier alinhou seu estilo a uma identidade própria capaz de beber de todas essas fontes, sendo impossível de classificá-lo. A quem gosta de introspecção, ele entrega; a quem gosta de movimentos lineares e intensidade, ele propõe.

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“Domino” de Oxia, uma faixa muito tocada nos últimos dois anos, e considerada já ultrapassada em seu momento “clássico”, surge às 05 horas, entretanto, ganhando nova oxigenação e soando tão interessante como se fosse ouvida pela primeira vez. Acelerando o tempo, Garnier liderava de olhos fechados sua sinfonia, fazendo-nos vibrar como nos velhos tempos, resgatando uma energia do Templo que parecia haver diminuído ao longo dos anos, mesmo o club vivendo, no quesito quantidade de público e reconhecimento, seu melhor momento.

Sua música estava calibrada até o limite, marcada por momentos de pura acidez até outros repletos de introspecção, e assim ele continuou até próximo ao amanhecer, quando nas duas últimas horas iria nos mostrar toda sua capacidade técnica e sonora. Quando todos já estavam extasiados, ele ainda traria um algo a mais. Tudo começa às 06h30: “Wir Reitem Durch Die Nacth”, do DJ Hell, em remix de Coyu atravessou a todos. O que mais havia no jogo? Sua discografia poderia ser colocada à mostra por muitas horas. “Jacques In The Box”, delirante, o que mais? Vamos, não parem, o que vocês querem? Ah, sim, não poderia faltar “1-4 Doctor C’Est Chouette” de seu aclamado EP Tribute para a Kompakt — que momento!

Tanta inspiração era de certa forma até constrangedora, pois seu amor pela música é algo tão profundo que te faz sentir que ainda não sabe de nada. Por dentro de seu transe sonoro, demonstrava uma conexão sem fim para o que vem se dispondo a fazer desde a metade dos anos 80, quando deixou Paris para fazer história na efervescente cena pós-punk de Manchester.  “Our Futur” me fez lembrar o icônico vídeo de sua performance no Templo em 2008, quando de forma bilateral mixou “Chinasse Massage”, de Rocket & Ponies, com “Everything in Its Right Place”, do Radiohead, em pleno amanhecer. Dois clássicos distintos unidos de forma tão singular que seria um pecado algum dia tentar-se repetir. Os olhares para o lado de incredulidade — “você também está presenciando isso?” — eram constantes, e claro, antes de tudo não poderia acabar sem sua maior obra prima, a música que se fosse um quadro, estaria certamente exposto na sala mais nobre do Musée du Louvre: “The Man With a Red Face” parecia estar sendo tocada ao vivo diante de nossos olhos.

Para finalizar, chegando próximo das 08 horas, em uma virada desconcertante, ele libera uma espécie de samba eletrônico, introduzindo as boas vindas ao famoso Carnaval brasileiro. Por mais que o Sul não tenha qualquer ligação com esse tipo de música, àquela altura, vindo de suas mãos, tudo parecia fazer sentido.

Os aplausos emotivos para sua performance e seu sorriso de volta nos davam a sensação de que Garnier parecia alguém muito próximo. Cada indivíduo na pista de dança sentia-se compelido a se conectar com sua personalidade, sua forma de agir e tocar; entretanto, talvez sua maior mensagem seja a de que não se pode querer ser como ele. Seria muita ousadia. Seu recado à frente da cabine é justamente o contrário — sem mestres, sem líderes, apenas dê tudo o que puder de si; seja você mesmo, construa sua própria história.

Assistir a Laurent Garnier é como obter uma das últimas graduações que se pode receber enquanto ouvinte em uma pista de dança.  Assistir a Laurent Garnier ao menos uma vez na vida é a passagem para o lado dos profissionais, o entendimento supremo do que é a verdadeira arte da discotecagem.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Entrevista

EXCLUSIVO: Depois de 14 anos como DJ, Dre Guazzelli se lança como produtor musical

Flávio Lerner

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Dre Guazzelli produtor
Com quase uma década e meia de estrada como DJ e agitador cultural, o paulistano agora se diz pronto para lançar as próprias músicas; escute os primeiros remixes!
* Atualizado em 02/02/2018, às 19:31

Dre Guazzelli traz grandes novidades para 2018. Depois de uma longa e sólida trajetória de 14 anos como DJ e agitador cultural, o paulistano está lançando agora sua carreira como produtor. Apesar de já ter uma faixa lançada em seu SoundCloud [“River Ray”, disponibilizada há cerca de um ano], ele considera que agora é o momento de começar de fato a soltar suas próprias músicas — algo que, na última década, se tornou uma das principais chaves para o sucesso de um artista no universo da dance music.

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“É neste ano que começa de verdade! Depois de 14 anos como DJ, recolhendo informações e sensações de diferentes pistas, festas, festivais, Ibiza, Burning Man, vou começar a produzir muitas músicas. Pegar e transformar um pouco do nosso Brasil musical é uma vontade antiga!”, revelou, em contato com a coluna. “Eu sempre sonhei em produzir, mas queria antes criar uma base sólida como DJ, uma segurança e experiência artística de dentro para fora, e assim chegar no momento certo, que é o de agora. Já fiz inúmeros cursos nos últimos anos, já tinha feito algumas músicas, mas precisei realizar algumas tarefas antes de poder chegar, sentar no estúdio e ter um ecossistema funcionando.”

Assim, em primeira mão, Dre compartilhou conosco os primeiros sons que marcam esse novo desafio. São dois remixes: um para “A Folha de Bananeira”, música de 2007 do cantor e compositor recifense Siba, e outro para o onipresente hit “Que Tiro Foi Esse”, da funkeira Jojo Maronttinni. Ambas as faixas foram pensadas em um primeiro momento para serem tocadas nas pistas, e por isso, ainda não têm previsão de um lançamento oficial.

Dre conta que o remix de “Que Tiro Foi Esse” foi pensado para o Carnaval: sua marca de festas “Dre Tarde” terá seu primeiro bloco no próximo dia 17, em São Paulo; ele vai do Pirajá até o Largo da Batata, com concentração a partir das 15h30, e saída entre às 17h e 18h. A faixa já está disponível para download gratuito, e existe a expectativa de que em breve ganhe um lançamento oficial.

Já sobre “A Folha de Bananeira”, o paulistano explica que o seu remix já foi testado e aprovado nas pistas baianas do Universo Paralello e do AWÊ, festa de Réveillon produzida em Caraíva pela sua própria empresa, a INNER. Este som, porém, não está disponibilizado para download — Dre explica que as negociações com o Siba estão bem adiantadas, e é bastante provável que a produção seja lançada oficialmente em breve.

Apesar de apresentarem propostas bem diferentes — uma é mais pop, voltada a um hit que está na boca do povo; a outra, numa proposta mais “cult”, traz uma roupagem mais orgânica e melódica, mantendo a essência dos ritmos tradicionais nordestinos —, é possível detectar nos dois remixes uma espinha dorsal de deep house fundida à música brasileira, o que deve ser a tônica dos seus próximos lançamentos. “Sim, vou seguir nessa pegada: melodia, instrumentos, elementos étnicos e orgânicos. Minhas influências são infinitas: MPB, Bob Marley, Bob Moses, Thievery Corporation, Kruder & Dorfmeister, Sasha Funke, Paul Kalkbrenner, progressive trance, techno, ambient, trip hop e tudo que faz o coração sorrir”, brinca, antes de introduzir o que deve vir por aí.

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“Estou com mais ou menos dez músicas prontas, e agora vou pensar em lançamentos e parcerias com selos — e inclusive com uma agência de DJs, coisa que nunca tive nesses 14 anos —, assim como em collabs com nomes que eu admiro e tenho como exemplo. Acredito que agora a produção vai aproximar meu som de pessoas que não me conhecem, além de aumentar o relacionamento com músicos que eu gosto. Mais do que nunca, vou me tornar um artista de dentro para fora!”, conclui, com empolgação.

Antes do seu bloco de Carnaval, o Dre Guazzelli toca neste sábado, no Carnauol; no domingo, no Chilli Beans Fashion Cruise; e no dia 11, no Laroc Club, onde abre para o jovem DJ francês Kungs. No dia 24, encerra as gigs do mês com o primeiro Sábado Dre Tarde do ano, com seus tradicionais long sets de sete horas.

* Flávio Lerner é editor da Phouse; leia mais artigos de sua coluna.

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