Entrevista

“Música enlatada não é nosso foco”; confira papo com Alex Justino

O DJ e produtor goianiense fala sobre o processo de curadoria do seu selo, Nin92wo, seu novo projeto live, techno progressivo e a busca pela liberdade de criação.

* Por Georgia Kirilov

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Alex Justino é um verdadeiro marco do momento contemporâneo da cena nacional de e-music. Original de Goiás, o DJ, produtor e label head leva seu trabalho com uma seriedade e uma leveza que parecem quase antagônicas quando combinadas, porém se tornam perfeitamente compreensíveis quando exploradas por meio das suas produções e das atividades da sua label, a Nin92wo.

+ Novo lançamento da label Nin92wo traz duas faixas absolutamente poderosas para a pista

Seu primeiro hit veio em 2013, com “We Can Get It”, e hoje em dia o artista é representado por uma das maiores e melhores agências do Brasil, a D.AGENCY. Já lançou em selos do porte de Warung Recordings e Steyoyoke Black, e fez tour por diversos Estados brasileiros nos últimos anos — tudo com a melodia do seu techno etéreo e a calma e a segurança que regem seus estúdios, dando espaço para artistas diversos testarem os limites sonoros e evoluírem.

A Nin92wo foi criada em 2012, e por lá já passaram nomes como: Monobloq, Talking Machines e Upon Death. É com muita fluidez que Justino lida com seu som — agora em formato Live —, e com as relações que estabelece por meio da música, seja ela com a pista, com os artistas que representa ou consigo mesmo. Com exclusividade, ele nos concedeu uma entrevista falando sobre o atual momento da sua carreira:

Alex, como acontece o processo de curadoria da Nin92wo? Onde você normalmente procura por artistas, e o que de fato os difere para que se inicie esse contato?

A curadoria da Nin92wo é feita de forma muito natural. Sempre escuto tudo que recebo, seja por demo via email ou por indicação, e acompanho o que acontece à minha volta, os destaques entre os produtores e o que tem tocado por aí. Quando algo me chama a atenção de alguma forma, corro atrás para ouvir mais do artista, e assim o processo rola naturalmente — sempre em busca do som fora da curva.

É bem nítido, pela maneira como os produtores representados pela Nin92wo se expressam, que eles se sentem seguros para explorar os limites da própria sonoridade e evoluir na produção de maneira palpável. Como criar esse tipo de ambiente?

Música é arte, e sempre vai ser. Música enlatada não é nosso foco, e pra isso a criatividade do artista sempre faz diferença. Na verdade eu acho que se o artista não tiver liberdade pra criar, a música não faz sentido quando finalizada. A maioria das faixas que lançamos na Nin92wo não têm pedidos drásticos de mudanças, para assim preservar a ideia original. A liberdade de criação leva à qualidade.

Os sons que saem pela sua label se comunicam com facilidade com a sua própria sonoridade autoral. Isso é algo consciente?

Como escuto muito, e sempre seleciono os que me mais me agrada para lançar, a Nin92wo é uma extensão do meu som, e ao mesmo tempo é um braço dos meus DJ sets. Eu só assino uma faixa quando realmente gosto dela, e vejo que ela cabe nas pistas que toco. Assim, mesclo com minhas próprias produções e com minhas pesquisas.

Qual a importância de ser, você mesmo, um produtor e DJ para apoiar seus artistas e ajudá-los na procura de suas próprias expressões?

Sempre tento apoiar os artistas que trabalham comigo, seja dando suporte em suas músicas, feedbacks quando me pedem, ou até mesmo indicando para festas, como os eventos da Nin92wo. Ajudar é motivar cada vez mais o próximo, e acho que isso nunca é demais.

Você acabou de dar início a um novo projeto em formato live. Como foi essa experiência? Você pretende seguir nessa linha de apresentação de agora em diante?

O live é a maneira mais intensa de levar o público pra dentro do estúdio e mostrar minhas ideias como nunca foram mostradas em um DJ set. Além de ser uma experiência totalmente diferente de tudo que já tinha feito antes, levar meu trabalho de anos no estúdio e remontar, remixar, reconstruir, desconstruir as faixas ao vivo, de acordo com o momento, sem dúvidas é algo especial, e isso para um produtor é incomensurável. O foco agora é priorizar o live e ir evoluindo a cada apresentação, mostrar material inédito e sempre levar mais pro lado artístico, que muitas vezes o DJ set não permite tanto. Porém pretendo seguir com os dois.

Seu estilo muitas vezes é definido como techno melódico, ou ethereal techno, você concorda?

Concordo, mas não gosto de me definir em um estilo. Quando vou pro estúdio criar, não penso no que vou fazer, as ideias e a música vão fluindo. Já comecei uma música em um estilo e quando a terminei estava em outro, completamente diferente. Sem dúvidas o techno vem andando ao meu lado, mas na hora de produzir, o que conta são as influências, o humor e o feeling daquele dia. Então tudo pode acontecer.

Goiânia é — para se dizer o mínimo — peculiar quando se trata de referências para a sua vertente de techno. Suas produções e seus sets carregam algo da sua terra?

Artisticamente falando, não tenho referencia de produtores dentro do techno em Goiânia, mas o dia a dia da cidade acaba me inspirando. Com certeza morar lá pode influenciar de diversas formas meus sets e minhas produções, mas acho que isso vai mais de como eu absorvo. A verdade é que tudo influencia, e não apenas a cidade em que você vive. Tenho a vantagem de ser bem curioso e muitas vezes não me saciar com o normal ou convencional, então isso me leva bem longe.

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