No Forte do Brum, o Boiler Room de Recife celebrou a música brasileira e fez história

Evento mostrou como a dance music e a cultura DJ vão muito além de house e techno.

Na última quinta-feira, tivemos o primeiro Boiler Room brasileiro de 2016, no Forte do Brum, em Recife. E que Boiler Room!  A convite da galera da Ballantine’s — agradecimentos do coração a Adriana Texeira, Manuela Reis, Caio Cruz, Gigi Costa e Ken Lindsay —, a Phouse esteve lá representada por seu CEO, o Luckas Wagg, e o Fernando Cruz, diretor de marketing e repórter da Phouse TV.

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todd terry - Luckas Wagg - Fernando Cruz

O Luckas e o Fernando foram muito bem recebidos desde o dia anterior, com direito a jantar especial e degustação de uísque na companhia do diretor de desenvolvimento do BR, o londrino Steven Appleyard. Na quinta-feira, puderam conferir a passagem de som do Gilles Peterson, tietar o Todd Terry e trocar uma ideia no camarim com os DJs Nuts e Tahira e com o diretor de marketing da Pernod Ricard Brasil, o Rafael Nadale [tudo isso rendeu material pro próximo episódio da Phouse TV]. O rolê começou perto das 20h [horário local], e a dupla da Phouse só conseguiu entrar porque tinha passaporte de imprensa — às 21h o pico já tinha atingido a lotação máxima [600 pessoas], e, sem brincadeira, umas mil ficaram do lado de fora.

Mais cedo, quando o Luckas e o Fernando foram fazer o reconhecimento do terreno — no local que é atualmente a base do exército em Recife —, se surpreenderam por ver uma instalação muito diferente do imaginário típico do Boiler Room. As salas herméticas davam espaço a uma estrutura de festival, com palco em espaço semiaberto. Na verdade, um dos grandes lances do BR é justamente a capacidade de se reinventar e abrir novas possibilidades sem perder sua essência: o projeto, que começou em 2011 com festinhas secretas em escritórios londrinos transmitidas ao vivo na web, cresceu muito em cinco anos, se expandiu pra diversos outros países e teve a capacidade de romper as fronteiras do seu próprio formato. Os DJs e as pistas de dança intimistas ainda são o foco, mas isso não impede edições em espaços maiores, planos de câmera diferentes e sessões com grupos de jazz.

Essa edição pernambucana, porém, teve outro grande diferencial: fez parte da série Stay True, que foi justamente lançada em conjunto com a Ballantine’s para explorar as influências musicais de vários países. A Stay True começou em 2014, no México, e nesses quase dois anos passou por Chile, Polônia, Alemanha, África do Sul, Rússia, Escócia e Espanha, até chegar ao nosso país.

Vamos ao que interessa: música

Infelizmente eu não pude estar presente in loco, mas o barato do Boiler Room é poder participar da festa pelo computador. E fiquei de queixo caído. A noite toda foi reprisada na web da sexta-feira até o domingo, em loop, e eu devo ter assistido a cada set de três a seis vezes. Foi efetivamente uma grande aula de cultura DJ e de música brasileira ao mesmo tempo — os DJs, todos fora de série, construíram sets brilhantes que trafegavam, cada qual a seu estilo, entre episódios da nossa história musical, mostrando ao mundo nossa bagagem e a importância do DJ como artista, curador e pesquisador.

O line-up foi escolhido a dedo para representar toda essa brasilidade, e brilhou mesmo com as mudanças de última hora: não sabemos por que, mas o lendário-porém-subvalorizado-no-Brasil Marcos Valle foi substituído poucos dias antes por dois reforços de peso: o local 440 e o gigante britânico Nightmares on Wax. O time todo, no fim, tinha uma ligação enorme com a música brazuca.

Tirando os BRs que não trouxeram DJs, mas grupos como os de Hermeto Pascoal, o trio de jazz carioca Azymuth ou a banda de jazz contemporâneo Bad Bad Not Good — estes dois últimos, por sinal, apresentados na casa do Gilles Peterson —, eu nunca havia visto um Boiler Room em que a música eletrônica não tinha sido a protagonista. A maior parte dos sets enfatizou uma forma mais primitiva da dance music: o samba, a bossa nova, o jazz-funk, o Jorge Ben; as batidas africanas de ritmos folclóricos típicos do nordeste; a antropofagia da tropicália e do mangue beat. Foram sete horas de imersão que revelaram a riqueza da nossa herança cultural, que é infelizmente desprezada por enorme parte dos DJs de expressão do Brasil atualmente.

O destaque pernambucano 440 foi o responsável pela abertura. Artista menos famoso e com menor autoridade da noite, fez um dos sets mais tesão, com um interessantíssimo global bass que misturava regionalismos e organicidade com beats sincopados e bass. Uma gratíssima surpresa. O Tahira, que é celebrado por incorporar muitos ritmos étnicos em sua arte, também mandou DEMAIS em uma performance que lançou mão de muita música nordestina — sobretudo o samba de coco e o coco de embolada/coco de repente —, além de MPB, como “Bola de Meia, Bola de Gude”, do Milton Nascimento; tudo sem remixes. A música típica brasileira é dançante por si só.

O samba de coco do Coco Raízes do Arcoverde integrou o baita set do Tahira

Depois, foi a vez do Gilles Peterson assumir os toca-discos. Nascido na França, mas criado em Londres, Peterson é uma instituição da música brasileira, já que vem escavando tesouros do nosso País pra importar pra Europa há mais de 30 anos. Em 2014 ele fundou o grupo Sonzeira, com músicos do calibre de Elza Soares, Seu Jorge, Kassin, Mart’nalia e o próprio Marcos Valle, e aí produziu e lançou com eles o disco Brasil Bam Bam Bam. Agora, o DJ nos deu a honra de apresentar em primeira mão seu mais novo projeto: a releitura eletrônica do fantástico disco Tam Tam Tam, de José Prates, de 1958. Sim, nosso amigo Gilles gosta de sílabas onomatopeias.

Com o auxílio de dois produtores que o auxiliaram com controladoras e synths, o DJ fez uso de vinil e pendrive pra mandar o set mais quebrado da noite. Gilles é muito mais um DJ de rádio, pesquisador e apresentador de sons raros, do que um DJ artista, que costura sets coesos. Assim, mandou uma mistureba de global bass, acid jazz — estilo que ajudou a difundir no início dos anos 1990 e que se popularizou em bandas como o Jamiroquai — e ritmos folclóricos brasileiros, com bastante coco, maracatu e baião. A maior parte dos sons foi orgânica, mas foi possível detectar alguns remixes dessas faixas tradicionalistas, como um edit do francês iZem para “Tarde Nordestina”, da Marinalva. O set, que foi mais contemplativo do que pista, ainda contou com uma palhinha de MC da rapper Karol Conka, que a convite do Gilles cantou duas músicas por cima de percussões africanas: “É o Poder”, faixa sua produzida pelo Tropkillaz, e “Maracatu Atômico”, clássico do Chico Science & Nação Zumbi.

‘Tam Tam Tam’ é um disco raro e histórico; sua terceira faixa, ‘Nânâ Imborô’, foi chupada por Jorge Ben na criação de ‘Mas que Nada’; Gilles Peterson esteve atrás desse álbum por anos

Se o set do inglês foi o menos técnico, o de Nuts foi o mais: o DJ, que já cansou de tocar em turnês com o Marcelo D2, mandou um mix quase todo de samba e bossa nova. Com cortes e transições rápidas, ele fez a costura musical mais classuda e habilidosa desse Boiler Room. A essas alturas, a galera presente já estava dançando pacas, e roubou a cena um time de b-boys e b-girls mandando ver nos brakes.

Depois de muitas horas em que os sons orgânicos e quebrados dominaram, as coisas começaram a ficar mais eletrônicas e 4×4. O Nightmares on Wax, natural do Reino Unido mas hoje cidadão de Ibiza, começou a injetar seu delicioso house baleárico e pouco ortodoxo, construindo, talvez, o set mais brasilidades da sua vida. E se os artistas anteriores enfatizaram o passado da música do nosso País, o britânico mostrou um pouco do nosso futuro, ao tocar “Karma” — nova track do excelente-mas-subvalorizado-no-Brasil [lembra alguém?] duo Fatnotronic. “Karma” foi lançada semana passada pela Deewee, selo dos 2manydjs, e é a melhor faixa dos caras até hoje; uma bomba acid house futurista, conforme eu já havia descrito em uma matéria sobre eles. Ela ainda não está disponível digitalmente, mas vai ter clipe saindo ainda nesta semana.

Por fim, outra lenda, o nova-iorquino Todd Terry, fez o set mais dissonante, com pouca música brasileira. A influência de Terry pela nossa música aparece em elementos mínimos, como samples de cuíca em faixas como “Samba”, “Sume Sigh Say” e “Jum Bah Day”. A onda do cara, mesmo, é a house clássica, e foi isso que ele trouxe pro Forte do Brum. Em vez de uma discotecagem óbvia, porém, preferiu usar três CDJs [foi o único a não tocar com vinil] pra mandar edits ao vivo de clássicos noventistas como “Show Me Love”, “Gypsy Woman”, “You Don’t Know Me”, “Music Sounds Better With You” e, claro, seu próprio remix de “Missing”, do Everything But the Girl. Um set bastante saudosista, que nos fez voltar à época em que os hits da música de pista tinham mais alma e eram menos bregas.

Assim, encerrou-se um evento absolutamente único, histórico, que eu espero que possa vir a ser um divisor de águas pra nossa cena clubber. Essa noite foi uma aula de como dance music e cultura DJ significam muito mais do que house e techno, e todo artista nacional deveria ter assistido; sem uma cabeça fechada, qualquer um teria expandido muito seus horizontes. A reprise saiu do ar, mas esperamos que a turma do Boiler Room coloque os vídeos no Youtube em breve — pelo bem da nação.

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