“O caminho é outro”; o legado de David Bowie para além do rock ou da música eletrônica

David Bowie não foi uma lenda apenas para o rock, mas também foi fundamental para influenciar a música eletrônica e revolucionar a cultura pop, a arte e a contracultura.

Em claro tom de despedida, ‘Lazarus’ é o último videoclipe de Bowie, lançado um dia antes do seu 69º aniversário [data também de seu último álbum, Blackstar] e três antes de sua morte

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
...

É difícil ficar indiferente. Mesmo que você não goste ou sequer conheça a trajetória de David Bowie, é inegável que ele influenciou basicamente todo mundo no imaginário da cultura pop — e de quebra, influenciou sua vida em maior ou menor grau. Pense em Madonna, Marilyn Manson, Arcade Fire, Lady Gaga, Phillip Glass, Brian Eno, Lou Reed, of Montreal, Kanye West, Boy George, Kurt Kobain… Artistas das mais variadas escolas, todos drasticamente impactados por Bowie. Muito além da música, o “camaleão” foi igualmente importante para quebrar padrões e tabus em questões de comportamento, identidade, sexualidade e outras esferas da arte; ajudou a revolucionar os videoclipes e as noções de performance, bem como contribuiu para o cinema ao atuar em diversos filmes, além da composição de trilhas. Um verdadeiro espírito livre.

Nem todos sabem, mas Bowie teve sua relevância também na música eletrônica, seja no experimentalismo em forma livre com tecnologia, seja em sua relação com a dance music. Colaborou em diversas faixas com o também mítico Nile Rodgers, do Chic — incluíndo o hit Let’s Dance, de 1983, a provável maior aproximação do ícone com a disco music —, e deu destaque a Berlim muito antes da febre raver, a partir de uma trilogia de discos compostos quando morava na capital alemã e se inspirou em atos como Kraftwerk, Neu! e Can. A chamada “Berlin Trilogy” foi o momento de incursão de Bowie na música eletrônica, a partir dos álbuns Low e Heroes, de 1977, e Lodger, de 1979. Lodger, por sinal, contém o single “D.J.”, que é tido como uma crítica ao status de glamour que os disc jockeys estavam adquirindo em plena febre disco.

‘Let’s Dance’, de Heroes, é o hino disco de Bowie

“I am a DJ, I am what I play”

Nos anos 1990, David Bowie também teve sua “fase clubber”, carregada em synths e com bastante influência de soul, jazz, industrial, hip hop e jungle — vertente que antecipou o drum’n’bass e foi febre em Londres, cidade natal do músico. Uma excelente matéria de 2013, da DJ Mag, aborda justamente como ele influenciou diversos DJs contemporâneos, trazendo relatos de nomes como Tiga, DJ Hell e Soulwax. “O modo com o qual ele se renovava e mudava de estilo poderia ser comparado ao jeito que um DJ inteligentemente mistura gêneros para fazer uso do que há de mais novo”, escreveu Andrew Whitehurst. A reportagem ainda aborda a relação de pioneirismo de Bowie em questões que seriam fundamentais para o surgimento da cultura clubber — liberdade total de expressão, gênero e sexualidade —, bem como sua influência para bandas de synth pop dos anos 1980. Não à toa, até o Daft Punk já o mimetizou.

De 1997, ‘Dead Man Walking’ integra Earthling, álbum mais raver da discografia de David Bowie

Mas eu não sou nenhum especialista na vida e obra de Bowie, e por isso convidei meu ex-professor e orientador do TCC na faculdade, Ticiano Paludo, pra deixar algumas palavras. O Ticiano é produtor musical, pesquisador e professor da PUCRS, onde também ministra o Curso de Extensão em Produção Musical. Já levou alguns prêmios nacionais e internacionais na área de e-music, incluindo a lendária premiação de remixes DMC. A sua tese de doutorado está sendo em torno das obras de Kiss, Lady Gaga e David Bowie, então nada mais adequado do que ceder aqui um espaço a ele:

Hoje é um dia para se ficar catatônico. Bowie se foi. Mas o Flávio Lerner me pediu para dizer umas palavras sobre ele e sua relação com a música eletrônica. Vamos tentar, então. Bowie sempre foi um inquieto. Nunca assumiu uma identidade definitiva: era sempre Bowie, mas sempre diferente. Isso é um processo extremamente complexo que exige aprimoramento constante, conhecimento musical e estético, senso de oportunidade e, além da criatividade própria, cercar-se de pessoas bacanas para viabilizar os projetos. A primeira faixa que me vem à cabeça quando penso na relação Bowie + música eletrônica é “Little Wonder”, de 1997. Produzida com Reeves Gabrels e Mark Plati, soa como uma mistura de jungle, pop e rock, tudo ao mesmo tempo. Aqui começamos a entender o que é ser Bowie: misturar escolas diferentes, linguagens diferentes, mas manter a mesma identidade artística. Nesse aspecto, a dosagem entre elementos orgânicos e sintéticos é essencial. 

‘Little Wonder’ também faz parte de Earthling

Mas o namoro do artista com a música eletrônica começa antes, nos anos 1970, quando ele morou em Berlim e produziu álbuns memoráveis. Dessa fase, destaco “Heroes” (de 1977). Produzida por Tony Visconti (produtor dos dois últimos álbuns de Bowie, Next Day (2013) e Blackstar (2016)), a faixa conta com sintetizadores, uma atmosfera densa e sons de guitarra matadores do também grande músico experimental Robert Fripp, guitarrista que participou de uma banda que você deveria ouvir chamada King Crimson.  A faixa foi tema do filme “Cristiane F.”.

Já que é um comentário e não uma analise, meu último destaque vai para o testamento de Bowie, a faixa “Blackstar” lançada em novembro de 2015. Bowie foi calculista durante toda a sua carreira. “Blackstar” é uma despedida em grande estilo, um testamento vivo e uma aula de como ser inventivo/criativo misturando coisas díspares quando tudo parece já ter sido misturado. A música eletrônica ama rótulos. E ama misturar. Rótulos são importantes, mas acabam às vezes sendo fetichistas e engessando a obra. Misturas nem sempre produzem bons resultados. Porém, nesse tema musical, temos uma batida orgânica, misturada com o que parece ser uma batida eletrônica, cantos gregorianos, solo de sax jazzístico e synths perturbadores. Na verdade, não identificamos de todo se a batida é orgânica ou sintética. Ela segue um ritmo descompassado e agoniante. A música é doce e cruel, ao mesmo tempo.

Como outros estilos, independente da vertente, a música eletrônica vive de utilizar a tecnologia para criar novas ondas sonoras, novas atmosferas e cativar seus ouvintes. Seja para dançar ou para curtir uma viagem mental, devemos muito ao trabalho de Bowie. Sua obra sempre foi matriz e ponto de partida para novas texturas sonoras, seja pelas misturas que produziu, seja pelas possibilidades que demonstrou. Que consigamos aprender com ele, e sermos músicos cada vez melhores. Nunca esquecendo que por trás de qualquer programação eletrônica existe o humano. Bowie era um artista e um músico excepcional. O mesmo não se pode dizer de boa parte de quem trabalha com música, em especial com música eletrônica, hoje. Diversas vezes, encontro alunos querendo muito mais dominar softwares do que a arte da composição. Bowie já deu todas as pistas: o caminho é outro.

Deixe um comentário

No Comments Yet

Comments are closed