Connect with us

O gênero Brazilian Bass vai saturar?

Phouse Staff

Publicado há

O programa Pergunte ao Senne está de volta pelo canal da Phouse e já está dando muito o que falar. Um dos temas discutido recentemente foi o gênero Brazilian Bass, em uma pergunta feita pelo Eduardo Oscar.

No video acima, você confere uma análise bem interessante feita pelo Felippe Senne, que vale para esse e qualquer gênero da música eletrônica.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
...

 

Deixe um comentário

O novo Essential Mix do Justice é mais legal do que o novo álbum do Justice

Flávio Lerner

Publicado há

De Pink Floyd e Air a Tame Impala e Gesaffelstein; por que o novíssimo set do Justice pra BBC Radio 1 é um presente pra qualquer fã de música.

No começo desta semana você viu aqui na Phouse os cinco indicados ao posto de Essential Mix do ano, da BBC Radio 1. Pouco depois do anúncio oficial — cujo grande vencedor será anunciado nesta sexta-feira, 23 —, deu tempo ainda da rádio britânica divulgar seu último podcast de 2016, com ninguém menos que o Justice, que retornou aos holofotes recentemente com seu novo álbum, Woman [Ed Banger Records].

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
...

LEIA TAMBÉM: O que o novo clipe do Justice diz sobre o terceiro álbum da dupla

Esse novo Essential Mix do Justice, que na verdade seria lançado em novembro mas atrasou, também representa um retorno marcante. É o primeiro em nove anos, mostrando mais daquela boa e velha estratégia da qual o Daft Punk é mestre e os pupilos franceses seguem à risca: apareça em doses homeopáticas, mas com muito peso.

Pra quem espera por um set recheado de dance music, sinto desapontá-los — não há nada de house, techno ou sequer algum electro mais pisteiro. A dupla levou a sério o conceito de um “mix essencial” e claramente esmiuçou influências, com referências do passado e do presente. De roqueiros clássicos como Pink Floyd e Stones a roqueiros modernos como Tame Impala; o lendário Prince, falecido neste ano; o synth pop contemporâneo de Alan Braxe, M83 e do finado grupo Late of the Pier, que fez certo rebuliço no fim dos anos 2000, mas nunca chegou a estourar; ícones pop-alternativos, como Air, The Flaming Lips e Charlotte Gainsbourg; expoentes do funk/soul como Sly & The Family Stone e Shuggie Otis; do R&B dos anos 70 de Fern Kinney ao R&B do século XXI do Frank Ocean e do Miguel; e música eletrônica trippy, como Jackson and His Computer Band, GENER8ION e Gesaffelstein, além do DJ Pone, que figura aqui com uma sonzeira também da Ed Banger Records, muito similar ao próprio Justice. Esse registro de quase duas horas forma um desenho claro dos heróis de Gaspard Augé e Xavier de Rosnay e é um presente pra qualquer fã de música, que pode a partir de então conhecer e se aprofundar em muito material bacana. Aliás, apesar de ser uma comparação meio cretina, me arrisco a dizer que o novo Essential Mix do Justice é melhor, mais interessante e dá bem mais vontade de escutar de novo que o seu novo álbum. #falei

As músicas estão extremamente bem costuradas entrei si, mesmo que, pela ausência de batidas DJ-friendly, haja efetivamente poucas mixagens. Não importa; a coesão é tão grande que se você não prestar atenção, nem vai perceber que mudou de faixa. Temos ainda três passagens curiosas com sons dos próprios autores do podcast, como é praxe na série da BBC Radio 1. Esses sons — “Stop” e “Love S.O.S.”, do novo disco, e “Presence”, faixa “secreta” do antecessor Audio, Video, Disco e uma das melhores que a dupla já produziu — harmonizam muito bem com o contexto em que se inserem. A transição de “Shock Machine” pra “Presence” é tão perfeita que esta parece ter sido feita pela dupla sob medida para se encaixar com aquela. Isso tudo reforça a ideia de que o Justice fez um mix com músicas que lhes inspiraram diretamente.

Tracklist:

Jackson and His Computer Band – Dead Living Things [Warp Records]
Principles of Geometry – Spring Dodged
Frank Ocean – Nikes [Boys Don’t Cry]
Air – Playground Love [Virgin]
Connan Mockasin – I’m The Man, That Will Find You [Phantasy Sound]
M83 – Walkway Blues [Naive]
Late of the Pier – Blueberry [Phantasy Sound]
Shock Machine – Open Up The Sky [Marathon Artists]
The Flaming Lips – Always There… In Our Hearts [Warner Bros.]
The Rolling Stones – Can’t You Hear Me Knocking [Atlantic]
Serge Gainsbourg – Flash Forward
Charlotte Gainsbourg – Le Chat du Café des Artistes
John Carpenter – Escape From NY [Varese Sarabande]
Cobra Space Adventure Soundtrack – Shi No Koshin [Animusik]
T. Rex – Monolith [Fly]
GENER8ION – Close (To The Metal) [Bromance]
Justice – Stop [Ed Banger]
Gesaffelstein – Aleph [The Vinyl Factory]
Fern Kinney – Baby Let Me Kiss You [T.K. Disco]
Shuggie Otis – Inspiration Information [Epic]
Tame Impala – Led Zeppelin [Modular]
Miguel – The Valley [RCA]
DJ Pone – Falken’s Maze [Ed Banger]
Sly & The Family Stone – In Time [Epic]
Ennio Morricone – Cavallina A Cavallo (Jackson Edit)
Serge Gainsbourg – Requiem Pour Un Con
Prince – Sign ‘O’ The Times [Paisley Park]
Soft Hair – Relaxed Lizard [Weird World Record Co.]
Mort Garson – Plantasia [Homewood Records]
The Zombies – The Way I Feel Inside [Decca]
Todd Rundgren – A Treatise On Cosmic Fire [Bearsville]
Harry Nilsson – One [RCA]
Shock Machine – Shock Machine
Justice – Presence [Ed Banger]
Air – Electronic Performer [Source]
Pink Floyd – The Great Gig In The Sky [Harvest]
Nicolas Godin – Orca [Because Music]
Anna Meredith – Nautilus
Scratch Massive – Golden Dreams [Oraculo Records]
Jackson and His Computer Band – Seal [Warp Records]
Alan Braxe & The Spimes – One More Chance [Scion Audio/Visual]
Justice – Love S.O.S. [Ed Banger]

* Você pode seguir o Flávio Lerner no Twitter

Deixe um comentário

Continue Lendo

Em pleno 2016, quem ainda tem medo da música eletrônica?

Flávio Lerner

Publicado há

Do Kraftwerk na Argentina à novela do Ultra no Rio, o preconceito com a pista de dança segue firme e forte.

A cultura clubber é oriunda da cultura da disco music. Ambas nasceram marginalizadas, em ambientes de contestação, transgressão e busca por direitos. Naturalmente, à medida que foram crescendo, atraíram cada vez mais popularidade, bem como detratores. O primeiro grande movimento de oposição foi a infame campanha Disco Sucks, que culminou em 1979 com a “Noite da Demolição da Disco”. Capitaneado pelo radialista estadunidense Steve Dahl, o evento reuniu uns 50 mil roqueiros pra literalmente destruir vinis de disco music num estádio de baseball em Chicago — afinal, a hegemonia do que praqueles barbados era “música de viado” precisava ser exterminada.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
...

Nos anos 90, tivemos a explosão das raves na Europa, que não demoraram muito pra chegar até aqui. Ocupações clandestinas em lugares abandonados e drogas sintéticas compunham o cenário com a música eletrônica de pista — receita mais que suficiente pra chocar a sociedade “de bem”. Naturalmente, não foi nada fácil para público e profissionais desse nicho lidar com a pecha de “marginais drogados”. Ao THUMP, em 2014, o Erick Dias, da XXXPERIENCE, detalhou bem discriminação imposta pelos órgãos públicos e a imprensa sobre esse mercado nos anos 90. Quando falou comigo, em entrevista publicada aqui em novembro, disse que essa relação com a mídia já estava bem mais suave.

Música Eletrônica

Steve Dahl e o famoso slogan de ódio

É de se imaginar que a música eletrônica, em pleno 2016, há anos em um casamento muito bem-sucedido com a cultura de massa, num mercado que movimenta bilhões e proporciona festivais gigantescos por todo o planeta, seja infinitamente mais aceita do que outrora. Em um caso clássico de cooptação, deixou de ser marginal pra virar inofensiva, quase fofa, até. Mas engana-se quem pensa que aquele velho preconceito foi erradicado do mapa, como os seguidores de Dahl queriam fazer com a disco. Recentemente, tivemos mostras claras, aqui mesmo na América do Sul, de como o Estado ainda nutre problemas com esse universo.

Primeiro, foi o Kraftwerk na Argentina. Como escrevi aqui, também em novembro, o clássico grupo alemão quase teve seu show em Buenos Aires cancelado. Em uma decisão que mais lembrava os abusos autoritários e reacionários do Estado Islâmico ou da Coreia do Norte, os tribunais portenhos quiseram banir um evento cultural que já estava agendado simplesmente porque a banda baseia sua performance em sintetizadores! Essa própria decisão surgiu como consequência do Time Warp de BsAs, que, em abril, teve a morte de jovens que teriam consumido ecstasy adulterado. Ou seja: por causa do abuso de drogas em um festival e da negligência governamental em debater soluções práticas, decidiu-se banir a música eletrônica da cidade — mesmo numa apresentação não voltada pras pistas de dança!

A sociedade não consegue perceber a diferença entre as raves clandestinas e o Tomorrowland” — Pedro Nonato, diretor do Ultra Brasil.

O segundo caso emblemático rolou aqui mesmo, no país: a novela com o Ultra Brasil, no Rio de Janeiro. Por conta do poder público, o festival teve que mudar de local três vezes. O Aterro do Flamengo foi barrado em junho pelo Iphan [aquele mesmo órgão cujo ex-presidente entrou em evidência ao denunciar Geddel e Temer], três meses depois de sua confirmação. A alegação era de que o espaço era tombado e não comportaria o público estimado — 80 a 100 mil pessoas, “esquecendo” do pequeno detalhe de que seriam divididas em dois dias. “Isso nos veio como uma grande surpresa, já que as áreas que iríamos ocupar no entorno da Marina da Glória eram compostas por pisos de terra batida, sem presença de grama alguma, piso concretado e até asfaltado”, declarou Pedro Nonato, sócio de Claudio da Rocha Miranda Filho no Ultra Brasil e no Rio Music Conference. Segundo o empresário, eles inclusive encomendaram um estudo de impacto ambiental para reconstruir “as tais áreas já degradadas, de acordo com o paisagismo original do Parque do Flamengo”. Nada feito. O Iphan não voltou atrás, e ainda não teve constrangimento nenhum em liberar, menos de um mês depois, o ambiente para o Rio Parada Funk, que comportou um público oito vezes maior que o do Ultra.

A produção então optou pelo Parque dos Atletas, que recebeu a Olimpíada e também é sede do Rock in Rio; em plena época eleitoral, o prefeito Eduardo Paes negou, alegando que atrapalharia os moradores do entorno. A terceira opção foi, segundo Nonato, uma orientação da RioTur e da SEOP [ou seja, órgãos municipais]: a Quinta da Boa Vista. O Iphan voltou em cena, desta vez acompanhado pelo IBAMA, pra barrar o novo local — a quatro dias do evento, a produção teve que desmontar os palcos às pressas e remontá-los no Sambódromo, onde finalmente conseguiu se instalar. Assim como no caso do Aterro, o Iphan novamente mostrou uma relação de dois pesos, duas medidas, pois a Quinta, além de receber anualmente o festival gospel Louvorzão [200 mil pessoas], hospedou em novembro o show de 40 anos do Carrefour [100 mil pessoas], com apoio do Ministério da Cultura. Ficou muito claro que o problema era com o Ultra. Mas por quê? Qual a lógica em boicotar um festival que, em plena recessão, injetava grana e gerava empregos na cidade?

Posicionamento do Iphan sobre o veto na Quinta da Boa Vista; procurados, não responderam ao contato deste colunista

Nonato não tem dúvidas de que tudo se resume à falta de conhecimento. “Foi uma coisa de incompreensão do que é um festival, do que ele representa pro turismo da cidade. As pessoas mais velhas têm impressão de que essa indústria tá lá na festa rave de 20 anos atrás, que era ilegal, à margem, com criminalidade, com drogas”, diz. “A sociedade, de forma geral, não consegue perceber a diferença entre essas raves clandestinas e o Tomorrowland. Infelizmente, na América Latina, a música eletrônica ainda é um negócio complicado.”

O Pedro confessa ter escutado de autoridades no caso que “esse tipo de música não cabe no Aterro do Flamengo” — preconceito que se evidencia na própria fala do juiz Fabio Tenenblat, que justificou a realização do aniversário do Carrefour o comparando com o Ultra. Percebam a quantidade de informações equivocadas em um único parágrafo:

print-decisa%cc%83o-judicial

Trecho extraído da decisão oficial do processo 0500327-54.2016.4.02.5101 (2016.51.01.500327-3), da 3ª Vara Federal de São Gonçalo

Mas a discriminação não é exclusiva do poder público, a quem já nos acostumamos a ver privilegiando seus compadres enquanto nos enchem de burocracias inescrupulosas. Muitos desses políticos apenas representam o pensamento hegemônico do cidadão médio, ou então seguem sua linha por demagogia. A imprensa também continua não ajudando muito. Boechat, normalmente lúcido, vomitou desinformação nas manhãs de uma Band News que teve papel crucial para o veto da Quinta: chamou o Ultra de “festa rave”, caiu no conto das cem mil pessoas, referiu-se ao Claudio da Rocha como “predador urbano” e comparou sua atividade com a de assassinar um coelho, e cravou que o evento era inadequado, sem sequer ouvir os empresários sobre as autorizações prévias e os esforços para não prejudicar ninguém. Mas no caso do Louvorzão e do Carrefour, a Band News se manifestou? Logo, não se trata apenas de desconhecimento, como também uma evidente seletividade e, pior, a recusa ao diálogo. E se ainda restam dúvidas sobre a opinião pública, basta abrir a seção de comentários dos portais — também conhecida como caixa de pandora do horror — pra constatar o que boa parte dos brasileiros pensa sobre o tema. Pois é, ainda temos muito trabalho pela frente.

“As coisas têm evoluído, mas ainda sinto um pouco de preconceito, no marketing também. Você não vê um banco patrocinando música eletrônica, mas vê num show do Guns N’ Roses. Será que tem mais drogas no festival eletrônico do que no show do Guns?”, segue Nonato. “Temos a missão de provar que nós somos uma indústria saudável. As pessoas imaginam que se trata de um ambiente degradado. Mas vamos conseguir prosperar, o Brasil vai crescer nisso e vai se desenvolver.” Amém.

* Você pode seguir o Flávio Lerner no Twitter

LEIA TAMBÉM:

O legado de David Mancuso; como um homem e seu Loft inventaram a cultura clubber

Volte no tempo e reviva raves históricas

Um mal necessário chamado cooptação

Uma pataquada histórica ameaça cancelar o Kraftwerk na Argentina

“2017 vai ser um ano de aperto de cintos; será difícil equilibrar as contas”, diz sócio do RMC

O carnaval eletrônico de Curitiba brilhou, mas o chorume comeu solto na internet

Deixe um comentário

Continue Lendo

O legado de David Mancuso; como um homem e seu loft inventaram a cultura clubber

Flávio Lerner

Publicado há

Um dia após a morte do lendário DJ nova-iorquino, Flávio Lerner revisita uma das histórias fundamentais da cultura da pista de dança.

Em 2014, influenciado pelo clássico livro “Last Night a DJ Saved My Life”, de Bill Brewster e Frank Broughton — a bíblia da cultura DJ —, resolvi fundar um site para escrever sobre música eletrônica. O primeiro texto, chamado “A mensagem”, começou assim:

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
...

“Foi em 1970 que, para pagar o aluguel do loft onde morava, um nova-iorquino aficionado por música negra chamado David Mancuso resolveu sediar festas classudas aos amigos mais chegados. Inspirado por uns vizinhos ítalo-americanos que estavam inventando uma coisinha chamada DJismo e motivado por ideais de fraternidade, igualdade e amor — além de um extremo bom gosto —, o jovem David sequer imaginava que estaria sedimentando a base da cultura DJ.

Com seleções cuidadosas de público, música, soundsystem e demais detalhes adjacentes, o Loft de Mancuso se tornou um refúgio do mundo convencional, onde a nata da vanguarda de Nova Iorque se encontrava para trocar ideias e relaxar. Ali seguiu-se desenvolvendo a ideia do DJ artista; o DJ que cria, recria, mistura e costura; o DJ condutor entre música, cultura — mensagem — e pessoas. Assim, o modesto Loft foi nada menos que pedra fundamental do club moderno e embrião da cultura disco — cultura essa que culminaria na noção de uma música-feita-para-dançar, desenhada por e para DJs e direcionada à casas noturnas recheadas de negros, brancos, latinos, judeus, gays, heterossexuais, trabalhadores, boêmios e bon-vivants. Pistas de dança do submundo que rompiam fronteiras sociais através de diversão e escapismo.”

O nome do blog? LOFT55.

Não passava pela minha cabeça que, em alguns meses, eu estaria escrevendo em portais do calibre de uma Phouse; menos ainda, imaginava que, dois anos depois, estaria revisitando aquele artigo para falar sobre David Mancuso de uma nova perspectiva: a da sua morte. Pois é; infelizmente, o pioneiro nos deixou ontem, aos 72 anos. E é difícil escrever sobre o legado de alguém tão importante, porque talvez seja um tanto quanto surreal imaginar como uma única pessoa tenha sido responsável por catalisar tanta mudança.

Set de Mancuso na Itália, em 2003

Mancuso era a antítese do DJ contemporâneo: introspectivo, tímido, sem excessos ou ego inflado; não mixava os discos e não pesava nos graves. Audiófilo e purista, místico-hippie-transcendental, não gostava de mixers e achava que mexer no pitch das músicas era uma heresia; queria o som sem distorções, o mais fiel possível à gravação original, para não desvirtuá-la. Seu diferencial estava na qualidade e no ordenamento das faixas, gerando climas e contando histórias. E as festas no Loft eram a antítese da balada contemporânea: intimistas, com som cristalino e puro, sem foco nos DJs, nada de grandes multidões se espremendo; sequer havia bebidas alcoólicas — com muitos balões, sucos e boca livre, mais poderiam remeter a uma trivial festa de aniversário. Colocados em contraponto, uma pista do Tomorrowland ou mesmo uma ferveção no Berghain parecem completamente distantes do Loft de Mancuso, mas, acredite, foi ali que tudo começou: o embrião da cultura de pista de dança.

“Se a disco music e o que veio depois dela têm um anjo, ele se chama David Mancuso; se têm um lugar de origem, ele se chama The Loft”, escreveram Brewster e Broughton. “Mancuso descobriu e catapultou mais clássicos do que alguém pode lembrar, inspirou toda uma geração de DJs, colecionadores, donos de clubs e de selos, estabeleceu as bases para a reprodução sonora em clubs e, no Loft, criou um lugar onde a igualdade e o amor extraídos de milhares de letras piegas eram uma realidade tangível”, continuam, descrevendo como as experiências de David em relação a pistas de dança foram inovadoras e influentes.

O loft comercial, adquirido por ele em 1965, virou balada intimista para ajudar a pagar o aluguel daquela que era tão somente sua moradia. Mas não só isso. “Eu ficava muito frustado com alguns lugares que frequentava, do soundsystem ao controle da portaria”, disse, em rara entrevista para a Red Bull Music Academy, em junho deste ano. “Então eu consegui evitar aquilo, e tendo um modo de fazer as coisas, promovemos avanços sociais.” Não foram, portanto, somente a curadoria sonora impecável, o perfeccionismo acústico ou o ambiente acolhedor que fizeram das festas do Loft marcos históricos, mas também o seu papel político e social. O Loft se tornou celebre por reunir democraticamente pessoas das mais variadas etnias, origens, orientações sexuais e condições financeiras — todo mundo dançando em comunhão sob o mesmo teto, ao som das preciosidades escavadas pelo anfitrião. À época, mesmo para Nova Iorque, isso era revolucionário. E muito antes da fama, do dinheiro, das tracks bombantes e dos charts, é sobre isso que se trata a cultura DJ — uma visão que, infelizmente, muitos dos seus atuais expoentes não têm.

2403132488_5d2307e9ec_z

Quando falamos da história da cultura de pista de dança, normalmente os primeiros nomes que vêm à tona são Frankie Knuckles e Larry Levan, que, de fato, foram pioneiros em muita coisa em seus clubs mais notórios — The Warehouse e Paradise Garage. Mas, às vezes, escapa o detalhe de que Knuckles e Levan foram frequentadores do Loft. Larry Levan, aliás, teria dito em 1983 que já vira “pessoas chorando no Loft ao som de uma música lenta, porque era lindo demais”. Logo, muito antes desses clubes, muito antes da house music e do techno, havia um homem gentil obcecado por música, qualidade sonora, ambientação e experiência.

Os tempos foram passando, e Mancuso foi forçado a se mudar uma meia dúzia de vezes. Com dificuldades financeiras, as festas do Loft foram migrando para suas novas residências, e, nos anos 90, viraram turnês, passando por continentes como Europa e Ásia, seletas vezes por ano — mantendo-se de pé até o dia da sua morte. Em grande parte das ocasiões, David sequer discotecava. Para ele, o DJ era somente um condutor; a música, o que realmente importava, era a mensagem. O amor era a mensagem. Quem teve o privilégio de frequentar qualquer festa do Loft, seja em 1970 ou em 2016, conta que era de fato algo mágico. “O som do Loft é imersivo e cristalino. Revela detalhes das músicas que você teria que ouvir cem vezes em fones pra perceber, mas sem ser alto. O baixo não agride seu corpo e seus ouvidos não ficam zunindo no dia seguinte. Mesmo em frente às caixas de som, conseguimos conversar em tom de voz normal”, escreveu Andy Beta ao Pitchfork sobre sua experiência em 2014. “O Loft inventou todas as festas de dance music, mas nenhuma festa de dance music se parece com o Loft.”

Infelizmente, aqueles que, como eu, não tiveram a oportunidade de viver a experiência ficarão apenas nos livros de história — especulando sobre como um simples homem e seu loft revolucionaram o mundo.

A playlist que acompanha a entrevista pra RBMA revista um pouco do que foi o som do Loft

LEIA TAMBÉM:

De maneira simbólica, duas das maiores lendas da história da cultura clubber “revivem” na mesma semana

O dia do DJ também é um dia de reflexão

The Haçienda: Conheça a história de um dos clubs mais lendários de todos os tempos

Deixe um comentário

Continue Lendo

Trending

-->

Copyright © 2018 Phouse