O legado de David Mancuso; como um homem e seu loft inventaram a cultura clubber

Um dia após a morte do lendário DJ nova-iorquino, Flávio Lerner revisita uma das histórias fundamentais da cultura da pista de dança.

Em 2014, influenciado pelo clássico livro “Last Night a DJ Saved My Life”, de Bill Brewster e Frank Broughton — a bíblia da cultura DJ —, resolvi fundar um site para escrever sobre música eletrônica. O primeiro texto, chamado “A mensagem”, começou assim:

“Foi em 1970 que, para pagar o aluguel do loft onde morava, um nova-iorquino aficionado por música negra chamado David Mancuso resolveu sediar festas classudas aos amigos mais chegados. Inspirado por uns vizinhos ítalo-americanos que estavam inventando uma coisinha chamada DJismo e motivado por ideais de fraternidade, igualdade e amor — além de um extremo bom gosto —, o jovem David sequer imaginava que estaria sedimentando a base da cultura DJ.

Com seleções cuidadosas de público, música, soundsystem e demais detalhes adjacentes, o Loft de Mancuso se tornou um refúgio do mundo convencional, onde a nata da vanguarda de Nova Iorque se encontrava para trocar ideias e relaxar. Ali seguiu-se desenvolvendo a ideia do DJ artista; o DJ que cria, recria, mistura e costura; o DJ condutor entre música, cultura — mensagem — e pessoas. Assim, o modesto Loft foi nada menos que pedra fundamental do club moderno e embrião da cultura disco — cultura essa que culminaria na noção de uma música-feita-para-dançar, desenhada por e para DJs e direcionada à casas noturnas recheadas de negros, brancos, latinos, judeus, gays, heterossexuais, trabalhadores, boêmios e bon-vivants. Pistas de dança do submundo que rompiam fronteiras sociais através de diversão e escapismo.”

O nome do blog? LOFT55.

Não passava pela minha cabeça que, em alguns meses, eu estaria escrevendo em portais do calibre de uma Phouse; menos ainda, imaginava que, dois anos depois, estaria revisitando aquele artigo para falar sobre David Mancuso de uma nova perspectiva: a da sua morte. Pois é; infelizmente, o pioneiro nos deixou ontem, aos 72 anos. E é difícil escrever sobre o legado de alguém tão importante, porque talvez seja um tanto quanto surreal imaginar como uma única pessoa tenha sido responsável por catalisar tanta mudança.

Set de Mancuso na Itália, em 2003

Mancuso era a antítese do DJ contemporâneo: introspectivo, tímido, sem excessos ou ego inflado; não mixava os discos e não pesava nos graves. Audiófilo e purista, místico-hippie-transcendental, não gostava de mixers e achava que mexer no pitch das músicas era uma heresia; queria o som sem distorções, o mais fiel possível à gravação original, para não desvirtuá-la. Seu diferencial estava na qualidade e no ordenamento das faixas, gerando climas e contando histórias. E as festas no Loft eram a antítese da balada contemporânea: intimistas, com som cristalino e puro, sem foco nos DJs, nada de grandes multidões se espremendo; sequer havia bebidas alcoólicas — com muitos balões, sucos e boca livre, mais poderiam remeter a uma trivial festa de aniversário. Colocados em contraponto, uma pista do Tomorrowland ou mesmo uma ferveção no Berghain parecem completamente distantes do Loft de Mancuso, mas, acredite, foi ali que tudo começou: o embrião da cultura de pista de dança.

“Se a disco music e o que veio depois dela têm um anjo, ele se chama David Mancuso; se têm um lugar de origem, ele se chama The Loft”, escreveram Brewster e Broughton. “Mancuso descobriu e catapultou mais clássicos do que alguém pode lembrar, inspirou toda uma geração de DJs, colecionadores, donos de clubs e de selos, estabeleceu as bases para a reprodução sonora em clubs e, no Loft, criou um lugar onde a igualdade e o amor extraídos de milhares de letras piegas eram uma realidade tangível”, continuam, descrevendo como as experiências de David em relação a pistas de dança foram inovadoras e influentes.

O loft comercial, adquirido por ele em 1965, virou balada intimista para ajudar a pagar o aluguel daquela que era tão somente sua moradia. Mas não só isso. “Eu ficava muito frustado com alguns lugares que frequentava, do soundsystem ao controle da portaria”, disse, em rara entrevista para a Red Bull Music Academy, em junho deste ano. “Então eu consegui evitar aquilo, e tendo um modo de fazer as coisas, promovemos avanços sociais.” Não foram, portanto, somente a curadoria sonora impecável, o perfeccionismo acústico ou o ambiente acolhedor que fizeram das festas do Loft marcos históricos, mas também o seu papel político e social. O Loft se tornou celebre por reunir democraticamente pessoas das mais variadas etnias, origens, orientações sexuais e condições financeiras — todo mundo dançando em comunhão sob o mesmo teto, ao som das preciosidades escavadas pelo anfitrião. À época, mesmo para Nova Iorque, isso era revolucionário. E muito antes da fama, do dinheiro, das tracks bombantes e dos charts, é sobre isso que se trata a cultura DJ — uma visão que, infelizmente, muitos dos seus atuais expoentes não têm.

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Quando falamos da história da cultura de pista de dança, normalmente os primeiros nomes que vêm à tona são Frankie Knuckles e Larry Levan, que, de fato, foram pioneiros em muita coisa em seus clubs mais notórios — The Warehouse e Paradise Garage. Mas, às vezes, escapa o detalhe de que Knuckles e Levan foram frequentadores do Loft. Larry Levan, aliás, teria dito em 1983 que já vira “pessoas chorando no Loft ao som de uma música lenta, porque era lindo demais”. Logo, muito antes desses clubes, muito antes da house music e do techno, havia um homem gentil obcecado por música, qualidade sonora, ambientação e experiência.

Os tempos foram passando, e Mancuso foi forçado a se mudar uma meia dúzia de vezes. Com dificuldades financeiras, as festas do Loft foram migrando para suas novas residências, e, nos anos 90, viraram turnês, passando por continentes como Europa e Ásia, seletas vezes por ano — mantendo-se de pé até o dia da sua morte. Em grande parte das ocasiões, David sequer discotecava. Para ele, o DJ era somente um condutor; a música, o que realmente importava, era a mensagem. O amor era a mensagem. Quem teve o privilégio de frequentar qualquer festa do Loft, seja em 1970 ou em 2016, conta que era de fato algo mágico. “O som do Loft é imersivo e cristalino. Revela detalhes das músicas que você teria que ouvir cem vezes em fones pra perceber, mas sem ser alto. O baixo não agride seu corpo e seus ouvidos não ficam zunindo no dia seguinte. Mesmo em frente às caixas de som, conseguimos conversar em tom de voz normal”, escreveu Andy Beta ao Pitchfork sobre sua experiência em 2014. “O Loft inventou todas as festas de dance music, mas nenhuma festa de dance music se parece com o Loft.”

Infelizmente, aqueles que, como eu, não tiveram a oportunidade de viver a experiência ficarão apenas nos livros de história — especulando sobre como um simples homem e seu loft revolucionaram o mundo.

A playlist que acompanha a entrevista pra RBMA revista um pouco do que foi o som do Loft

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