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O novo álbum do Urbandawn é uma verdadeira obra de arte do Drum and Bass

Luckas Wagg

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Nos últimos tempos, as redes sociais tem se tornado um grande palco de discussão sobre o que alguns afirmam ser a estagnação musical da cena eletrônica nacional, isso por conta de artistas talentosíssimos que se perdem ao se limitarem a produzir algo novo, preferindo sem perceber, seguir sendo cópias de artistas que poderiam servir-los apenas como boas referências.

Em meio a essa crise de criatividade, eis que o mercado tem nos presenteado também com uma outra parcela de artistas que seguem o outro lado da moeda. Um desses grandes exemplos é o Felipe, nome por trás do projeto de Drum and Bass Urbandawn, que recentemente foi destaque na gigantesca BBC Radio 1.

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Ao ter acesso ao material, ficamos extremamente surpresos com o resultado de “Gothenburg Cluster“, álbum que conforme o titulo dessa matéria, pode ser classificado como uma verdadeira obra de arte do DNB.

Para entender mais sobre a história desse belíssimo trabalho, fomos imediatamente em busca do Felipe, convidamos ele para trocar umas ideias e entender um pouco melhor do seu trabalho, processo de produção, apresentação na BBC, mercado brasileiro e projetos futuros. Aperte o play para ir apreciando o álbum enquanto confere o nosso bate-papo:

Como foi para você receber o convite para apresentar o seu trabalho na BBC Radio1, uma das mais importantes rádios do planeta?

É uma honra inenarrável poder contar com o suporte deles, a BBC tem um espaço muito importante dentro da musica eletrônica, em todos os estilos. Desde a primeira vez que fiz uma entrevista ao vivo com eles por telefone em 2015, tenho tido um suporte significativo da rádio, programas de caras como Mistajam, Friction e Roni Size tem sido peças fundamentais para o desenvolvimento da minha carreira na Inglaterra e Europa.

Quanto tempo você esteve trabalhando nesse álbum? Como foi o processo de produção?

Quase um ano de muito trabalho, um pouco mais de 10 meses pra ser exato! Meu background musical vem de diversos gêneros e sou músico a mais de 15 anos, então sempre tive a vontade de trabalhar em um álbum de musica eletrônica de uma maneira mais orgânica, usando e gravando diversos instrumentos e com um approach musical mais intimista.

Comecei o álbum semanas antes da minha turnê europeia em outubro de 2015 e finalizei na primeira semana de julho desse ano. Toquei e gravei instrumentos como guitarra, violão, baixo, bateria além de ter experimentado muito com soundesign, aonde explorei bastante a gravação e manipulação de foley recordings. Foi um processo bem saudável e inspirador, poder passar em diversos estúdios tanto aqui no Brasil quanto lá fora, gravando ideias e até convidando músicos amigos foi algo que sempre almejei com produtor e músico.

urbandawn-album

Embora tenhamos grandes pioneiros do DNB no Brasil, ao exemplo do DJ Marky, esse é um gênero que ainda não se popularizou para essa nova geração que curte música eletrônica no país. Como você enxerga isso?

O D&B é um estilo que intimida um pouco, é muito rápido e muitas vezes bem musical e experimental, então é natural (infelizmente) que o publico seja menor em um país como o Brasil. O estilo teve um boom muito expressivo há 15 anos  – caras como Marky, Patife, Andy e vários outros fizeram o estilo crescer bastante, principalmente em São Paulo.

Depois de alguns anos saiu um pouco do radar mas sempre continuou existindo e evoluindo, e hoje em dia temos a safra mais forte de produtores de D&B, caras que tem um trabalho expressivo fora do país e fazem o estilo acontecer por aqui.

Acredito que o estilo possa ficar ainda mais forte nos próximos anos, esse publico novo está começando a usar a internet como uma ferramenta de pesquisa musical ao invés de apenas ouvir o que é trend no Spotify, então acho que estilos como o D&B e outros possam ter um publico maior em um médio/longo prazo.

O que podemos esperar do Urbandawn para 2017?

Agora que meu álbum foi lançado, a ideia é ter um trabalho maior com remixes e singles mais focados pros DJ’s, já tem muita coisa legal programada pro primeiro semestre de 2017!

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Review

Uma viagem por 17 faixas: como Ferry Corsten faz ficção a partir do trance

Fernando Matt

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Lançado nesta sexta-feira, “Blueprint”, o novo álbum de Ferry Corsten traz a história de um jovem e uma androide; em junho, o produtor traz a turnê do disco para São Paulo e Rio.

Hoje foi lançado o quinto álbum de estúdio daquele que é considerado um dos maiores (pra mim o maior) produtores de trance da história, Ferry Corsten. O produtor, que chega muito em breve para duas festas no Brasil (saiba mais no fim do artigo), nos presentou com Blueprint, uma viagem de 17 faixas que se interligam e contam uma história, mais ou menos como um audiobook musicado.

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O projeto realmente lembra uma produção de cinema, já que Corsten contou com o roteirista David Miller (mais conhecido pelo trabalho nas séries Rosewood e House of Cards) para desenvolver a trama, e o ator Campbell Scott (The Amazing Spider-Man) como narrador.  Portanto, convido vocês pra analisar aqui comigo, faixa por faixa, essa nova experiência disco-literária-cinematográfica.

Reception: A voz de Scott introduz: “It begins with the sound, echoing from the depths of space, endless repeating. We couldn’t help, but listen. Scientists, academics, politicians and pratically everyone on Earth with no idea and the internet, none can explain the sound. Is it a pulse of a dying star? A rogue satellite? Or perhaps an interstelar S.O.S.?”. Depois, continua com uma mensagem sobre sinais recebidos do espaço que acreditam ser alienígenas. A faixa segue com uma temática cinematográfica, digna de filmes como Interestellar. Nota: 8,0.

Blueprint: Faixa-título, “Blueprint” já havia sido lançada anteriormente por Ferry e distribuída de graça aos fãs. Uma linda música, com progressão perfeita, e com uma voz continuando a explicar sobre o significado do som que vem do espaço, chamando-o de “the drum” (a batida). Conta a história do personagem Lucas, que, ouvindo esse som, faz um aparelho inspirado no que ele ouve, e cria algo com um corpo e uma face, o que nos leva à faixa seguinte. Nota: 8,0.

Your Face: Com vocais de Eric Lumiere, traz a continuação da história, falando sobre a criação de Lucas, incitando a busca pela descoberta dos mistérios de sua existência. Linda faixa — LINDA! Lembra muito a fase do Ferry em seu álbum WKND. Nota: 8,0.

Venera: Música de Ferry com seu alias Gouryella. Lucas descobre que a máquina que criou é uma androide, que ganha vida e conversa com ele — inicialmente, apenas repetindo suas falas, como um papagaio. Até que a androide responde seu nome: “I am Vee”. Como todas as faixas de Gouryella, “Venera” traz uma temática espacial e emocionante, como só Corsten é capaz de fazer. Impossível não se arrepiar ouvindo. Nota: 9,0.

Something to Believe in: Mais uma faixa com vocais de Eric Lumiere. Lucas fica com medo de sua criação cair em mãos erradas, então a esconde no porão de sua casa durante o dia, e durante a noite dá aulas a ela sobre o nosso mundo. Ao perceber a evolução de Vee, ele acaba tendo uma visão de “algo em que acreditar”. Esta é uma música com uma pegada mais tech e lenta, introspectiva. Eric canta sobre sentimentos e conhecer a si mesmo e ao outro. Nota: 7,0.

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Waiting: Lucas se isola do mundo e fica fissurado em Vee, que pede pra conhecer outro lugar que não seja a garagem. O rapaz responde: “Em breve”, até ser questionado novamente pela androide: “Quando é em breve? O que estamos esperando?”. Com vocal de Niels Geusebroek, “Waiting” nos diz que “nós só temos uma chance na vida. Então o que estamos esperando para vivê-la?”. Belo vocal, energético e melódico! Nota: 7,5.

Here we Are: Lucas acorda com uma vibração vinda do porão, então corre até ele e encontra “Vee” dançando um som alienígena.  Ela reclama que sente falta de casa, uma casa que fica longe dali. O rapaz não entende, pois ele construiu a androide, que responde: “você me construiu, mas não me criou”. O “drumbeat” que deu a Lucas a ideia de criar Vee foi também o que a deu consciência. Vee tem lembranças de um lugar de outra parte do cosmo, e pergunta para Lucas se ele quer conhecer o mundo dela; ele diz que eles estão presos ali. A robô retruca, afirmando que o corpo está preso, mas a mente é livre, e então emite pulsações que envolvem a mente do personagem. Lucas, então, “se torna a batida” (the drum). Os vocais de Haliene narram essa viagem astral. Com uma pegada que lembra alguns sons de BT, a faixa sai do convencional e tem tons de breakbeat junto ao progressive. Nota: 7,0.

Edge of the Sky: Lucas chega a um mundo bem próximo ao mundo humano, com linguagem similar, mas sem mazelas; nada de doenças, dor ou medo. É um lugar com tecnologias que apenas sonhamos, “no limiar do céu”. Mais uma faixa cantada por Haliene, “Edge of the sky” tem uma pegada deliciosa, melódica, dançante, que traduz a sensação de se estar em um lugar como esse. Nota: 9,0.

A World Beyond: Lucas vê o planeta de Vee, com cidades flutuantes, em um mundo repleto de possibilidades. Ele pede a ela para aprender como viajar dessa forma, livre. A androide responde que todos já são livres, e que ela apenas abriu uma porta (a da mente de Lucas). Vee, por outro lado, quer entender como é sentir coisas simples, como neve caindo no rosto, e outras coisas do “mundo além”. Mais uma faixa introspectiva, calma, com um piano maravilhoso ao fundo. Nota: 7,0.

Trust: Lucas acorda de manhã, e encontra o mundo em chamas. Todos repetem a mesma palavra: “the drum”. Cientistas decodificam parte do som, que contém um aviso: “not safe” (não é seguro). O jovem pergunta a Vee quem ela é. Ela diz que é uma amiga, e quer viver. Lucas diz que não é seguro, e que ela precisa confiar nele; ela responde: “Você é quem precisa confiar em mim”. Faixa com profundidade, espacial, contemplativa. Típica música na qual se fecham os olhos e se estendem os braços ao ar. Uma mistura de Daft Punk com Eric Prydz. Ótima faixa! Nota: 7,5.

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Lonely Inside: Lucas decide sair do porão com Vee, e ela tem uma noção do que é o mundo lá fora. Com frio, os dois se aproximam, e um beijo ocorre. Ela percebe uma mudança sem volta, e passa a querer viver no mundo externo, mas ele a detém, argumentando que o mundo a usaria para estudos. Vee afirma que ele não tem certeza disso, mas Lucas diz: “É o que eu faria”. Faixa calma e contemplativa. Nota: 7,0.

Piece of You: No dia seguinte, Lucas encontra o porão vazio, sem sua amiga. Sua mãe não viu nada. O rapaz sai pela rua e encontra carros parados, sirenes soando, e no fim de uma trilha de destroços: Vee está destruída, peça por peça. Haliene canta sobre corações partidos, e que permanecem parte um do outro. Lindo vocal, mas um remix deixará a track mais interessante. Nota: 6,5.

Wherever you Are: Semanas após o ocorrido, e de coração partido, Lucas ouve a transmissão da batida “the drum”, e Lucas espera por alguma mensagem dela, acreditando que sua consciência ainda está lá fora. Haliene canta sobre uma pessoa esperando por alguém, onde quer que ela esteja… Linda progressão! Linda melodia! Que voz linda de Haliene. Nota 7,0.

Drum’s a Weapon:  O som da batida muda, e Lucas corre para decifrar o código. É uma coordenada. Ele corre para o local indicado, e se encontra no meio de uma paisagem selvagem, no meio do nada. Lá, acha um cilindro que pulsa energia e música, e descobre que o som não vem do espaço; vem da Terra. Lucas acredita que não está mais sozinho, que há outros como ele, e uma multidão passa a rodear o cilindro. Mas helicópteros e pessoas aparecem, acreditando que “the drum” é uma arma, que precisa ser destruída. Há então um impasse entre governo e público: o primeiro querendo destruir, o segundo querendo proteger o que acredita ser um instrumento de paz.

A faixa é tensa, pesada, e reflete o momento da história. Tech trance! Nota: 7,0.

Reanimate: O cilindro vibra, mais alto do que antes, o chão vibra e mais uma mensagem ecoa. Lucas entende, e começa a bater palmas, influenciando o restante do público, que canta e dança. O cilindro racha, revelando um buraco de minhoca (uma fenda no espaço tempo); o outro lado — Vee, reanimada. Não um androide, mas a Vee real. A faixa é cantada por Clarity, e conta sobre quem você realmente é, seu real “eu”. Faixa mais pop do álbum. Nota: 7,0.

+ O auge, a derrocada, o retorno do trance e o que a EDM tem a ver com isso

Another Sunrise: Vee e Lucas conversam, e se reencontram durante o nascer do sol. O povo de Vee passa pelo buraco de minhoca, emanando uma música que destrói todas as armas do exército ao redor. Vitória e paz através da música. Eric Lumiere e Halime cantam juntos sobre o nascer do sol e estar em casa, um lar, em uma faixa muito bela! Nota: 7,5.

Eternity: Lucas e Vee se beijam, e as batidas de seus corações se tornam a batida de “the drum”. O rapaz se pergunta se o povo de Vee é o criador da raça humana. Faixa final do álbum, com uma profundidade incrível, eufórica e introspectiva ao mesmo tempo.

Um lindo fechamento de um álbum diferente, com uma história por trás de cada música, e um sentimento condizente com cada momento. Coisa de gênio! Nota: 9,0!

Ferry Corsten não necessariamente inova — já tivemos Daft Punk realizando um álbum todo baseado em uma história, como mostrado em Discovery, uma masterpiece da música eletrônica —, mas cria uma história superbacana, que tem como plano de fundo um álbum envolvente, que transpira energia, sentimento e magia. Algo que o trance consegue descrever bem.

Vale muito os 89 minutos de música e de ficção. Faça sua viagem!

A turnê brasileira de Blueprint se dará em dois eventos: em São Paulo, na Laroc, dia 10 de junho, e no dia seguinte no Rio de Janeiro, na Apoteose.

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Voa alto, passarinho; como o primeiro álbum da BLANCAh pode ser um divisor de águas pra cena eletrônica nacional

Flávio Lerner

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Com Nest, que será lançado no dia 30 pela Steyoyoke, a BLANCAh prova que dance music pode ir muito além de apenas música pra se consumir nas pistas de dança; pode ser poesia.

Quem vem acompanhando a cena eletrônica 4×4 no Brasil ao menos desde o ano passado dificilmente não tem deparado com ela, Patrícia Laus, a artista catarinense que chutou o balde depois de 14 anos como DJ de música comercial pra se lançar como BLANCAh, um dos projetos mais sólidos da nossa atualidade. Integrante do selo berlinense Steyoyoke, ela passou a se destacar cada vez mais não apenas por sua música, mas também por todas as outras narrativas midiáticas que complementam a sua persona. As fotografias, os desenhos [feitos por ela] ajudaram a construir uma identidade muito forte — “um pássaro que aprendeu a voar em queda livre”, como ela mesma me revelou em uma entrevista no ano passado.

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Esse conceito do pássaro estava presente de alguma forma em todos os seus lançamentos até então, e agora chegou ao seu ápice, seu voo mais alto — seu último e mais poderoso ato. O álbum Nest [“Ninho”, em tradução livre] será lançado nesta sexta-feira, 30, e comprova que, de fato, a BLANCAh não está pra brincadeira. Com dez faixas, o LP apresenta uma consistência e uma profundidade que dificilmente vemos nos artistas da cena eletrônica nacional, normalmente mais preocupados com os hypes do momento e com suas posições nos charts do Beatport. Nest faz verdadeiramente jus à proposta de álbum, que, assim como um DJ set, é um pacote fechado, uma história com começo, meio e fim; uma experiência que precisa ser vivida por inteiro e na ordem em que está disposta para fazer sentido.

Por enquanto, é possível ouvir o disco no player acima em forma de set mixado, e com um diferencial: em algumas transições, temos declamações do poema de Zeina Samy, que o escreveu como resposta à audição de Nest — uma reação que apenas música com alma é capaz de provocar

“Eu sempre tive convicção de que um álbum é um momento muito especial, principalmente do nosso nicho musical onde os EPs são a forma mais popular  de apresentação. Já vi alguns LPs por aí que não passavam de coletâneas em que o artista juntou músicas de contextos fragmentados da sua carreira e chamou de álbum”, disse a Patrícia. “No meu caso, cada música que compus foi pensada pra fazer sentido no contexto da história que eu queria contar. A minha gravadora me aconselhou a fazer umas 20 faixas, para depois enxugar e ficar apenas com as melhores. Eu disse não! Expliquei que meu processo não é tão mecânico e que eu não funciono desse jeito. E deu certo!”

Assim, a BLANCAh mostra que existe um outro caminho a ser seguido — a possibilidade de, no contexto da música de pista de dança, se fazer arte, no seu sentido estrito. A exemplo de outras figuras consolidadas do nosso cenário, como o Gui Boratto, a moça abre caminho e, espero, influenciará novas gerações a optarem pelo caminho da Música, com “M” maiúsculo, em vez de contentarem-se apenas com tentativas de hits sazonais que não carregam consigo muito mais do que hedonismo vazio.

Regido pelo seu característico techno etéreo e gelado, mas sempre intenso e dinâmico, baseado na repetição de loops com camadas de sintetizadores arpeggiados, Nest também aponta pra uma versatilidade maior da sua criadora, que agora lança mão de um leque mais amplo de sonoridades, como eletrônica, downtempo e o trip hop, que já marca território desde a faixa-título. O clássico trio Portishead, aliás, foi confirmado pela Patrícia como uma de suas principais influências pra fazer esse disco, ao lado de Faithless e James Blake. O LP tem no seu começo o seu ponto mais alto, e seu principal defeito, talvez, seja a prolixidade; mesmo com apenas dez músicas, ele é bastante longo, e em determinado momento pode se tornar um pouco cansativo; não me parece ser o tipo de álbum que você escuta sem parar, mas que, pelo contrário, requer que você dê um tempo de maturação entre uma audição e outra.

Ao final, porém, ele surpreende, encerrando com a primeira canção de BLANCAh em português, “Queda do Ninho”, que dá um ponto final no que ela batizou de “ciclo dos pássaros” — isto é, toda a imagética que permeou seu projeto até hoje. “Essa é uma metodologia criativa que adotei pra minha carreira, criar ciclos bem definidos. É um meio de estar sempre me motivando e reinventando, porque nesse meio da criação é importante estar sempre faminto. Os pássaros me ajudaram muito. Eles me nortearam nos meus processos de mudança e eu os transformei na minha poesia. Eu prefiro fechar de forma consciente a correr o risco de me tornar repetitiva, cansativa”, contou, afirmando já ter uma ideia do conceito a ser abraçado daqui pra frente — que só será revelado na hora certa.

Pra encerrar de fato esse ciclo, está nos planos um live mais intimista, tocando “sentada no chão, pra poucos convidados”. A Patrícia está agora mesmo na Europa, onde faz quatro apresentações do lançamento do LP entre os dias 7 e 15 de outubro, passando por Bélgica, Líbano, Suíça e Tunísia. Quando chegar o momento, a BLANCAh precisará passar por novas provas de fogo, como o famigerado desafio do segundo álbum, e saber se reinventar sem perder a sua essência. Acompanharemos na expectativa de que ela siga se desenvolvendo, confirmando-se cada vez mais como uma das artistas mais interessantes da cena eletrônica brasileira, mas, até lá, temos bastante tempo pra ouvir e decifrar a poesia de Nest.

Tracklist:

01. Nest 
02. Urutau
03. Swan
04. Higher Ground
05. Harpia
06. Learning To Fly
07. Learning To Fall
08. Albatroz
09. Apuim
10. Queda Do Ninho

Abaixo, você confere também o que disseram outros expoentes da cena sobre Nest:

“Não tem uma faixa sequer que não tenha me tocado. Gosto de absolutamente tudo, e principalmente do quanto eleva o nível da nossa produção nacional. Sou fã da BLANCAh e esse álbum já é sem dúvida muito inspirador pra mim. Destaque para as faixas ‘Swan’, ‘Learning to Fall’, ‘Albatroz’ e ‘Queda do Ninho’, que fecha lindamente o álbum com letra em português, arranjo muito sofisticado de muito bom gosto. Incrível ver como BLANCAh desenvolveu com maestria e delicadeza diversos gêneros da eletrônica mantendo uma identidade super marcante. Sou fã!” — Pedro Zopelar  – Músico/DJ [In Their Feelings/ODD].


“Acredito que Nest é um candidato ao hall dos grandes álbuns já produzidos dentro da cena brasileira. Em todas as faixas é possível observar um sutil traço pessoal da autora, mesclando escolas e estilos que particularmente sempre me atraíram muito na música eletrônica — faixas cheias de melodia e hipnóticas, como que numa releitura do house progressivo clássico. Minha favorita é ‘Learning to Fly’” — João Anzolin – Hot Content [Revista Warung].


“BLANCAh me surpreendeu, é original desde a capa à escolha do nome das faixas e a ordem delas. Conseguiu criar uma viagem envolvente do começo ao fim, com músicas atemporais, e não focadas na pista de dança. Gosto muito dos vocais que vêm com um tom suave, mas poderosos. Me conquistou também pelas melodias com atmosfera de suspense e espaciais.  Minhas faixas preferidas são ‘Learning to Fly’, ‘Apium’ e a poética ‘Queda do Ninho’” — Monique Dardenne – ex-label manager Skol Music e Boiler Room Brasil/Manager/Booker [MD/Agency].


“Um trabalho primoroso, delicado e repleto de movimento. Em Nest, BLANCAh parece nos pegar pela mão e nos levar por uma viagem pela dialética da vida. Uma viagem de arrepiar. Lindas canções, numa harmonia e conexão que tocam a alma. Um disco pra se ouvir de novo, de novo e de novo… Obrigada pela experiência, BLANCAh” — Luciane Chiodi – Jornalista/DJ [Rádio Jovem Pan Itajaí].


“É um lindo álbum, muito bem produzido, e nota-se que BLANCAh dedicou-se muito a ele. Eu gostei muito das duas primeiras músicas, que fogem um pouco do compromisso com a pista e são mais experimentais e livres. Pude sentir maturidade, muita emoção e ouvi texturas belíssimas.  Parabenizo a artista pelo excelente trabalho e desejo que o álbum lhe traga ainda mais sucesso em novos horizontes!” — Priscila Prestes – Label Manager [24 Bits].

Você pode saber mais sobre o conceito dos pássaros e a trajetória da artista lendo “Um pássaro que aprendeu a voar em queda livre; conheça o universo da BLANCAh”, matéria que escrevi para o LOFT55 em outubro de 2015.

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REVIEW: Novo álbum do Flume é bom, mas não o suficiente

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Flume é um produtor australiano que emplacou o seu LP de estreia em 2012, o LP “Flume” contava com quinze faixas, sendo cinco delas com vocalistas convidados. O LP era de Future Garage com melodias características e onipresentes no álbum e recebeu um feedback positivo, tanto de críticos como de fãs.

Skin foi o que o artista conseguiu bolar depois de quatro anos sem novos lançamentos originais (descontando o Deluxe version de seu primeiro LP, lançado em 2013 que contava com remixes e vocais desnecessários adicionais).

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O resultado: Decepção.

Metade dessa decepção foi marcada pela qualidade musical inferior comparada ao seu primeiro LP, a outra metade foi pelos pequenos relances que existem no álbum, que mostram que poderia ter sido uma adesão bastante sólida à discografia do Flume.

O álbum abre com a Intro instrumental, “Helix”, uma faixa bastante progressiva e com samples de vocais, que marcam praticamente todas as músicas, junto com um sintetizados de diversas camadas, que costumam ser bastante doces, junto com batidas que tem inspiração clara em trap e wonk. A introdução faz bem a sua função e deixa a ansiedade alta para ouvir o resto do álbum. Essa ansiedade é rapidamente quebrada com a segunda faixa, “Never Be Like You”, uma música em colaboração com a vocalista Kai, acabou como um pop bastante genérico, com a produção do artista ficando em segundo plano e o vocal mediano de letras rasas tomando o centro do palco.

As coisas melhoram um pouco com a faixa “Lose It” em colaboração com o rapper Vic Mensa, que é capaz e manter um flow bem consistente e a produção lembra bastante o primeiro álbum do australiano. O começo da quarta faixa, “Numb & Getting Colder” tem um synth bastante convidativo, e os vocais da cantora australiana Kučka acabam dando algum charme para a faixa, mas ela se repete por mais tempo que deveria e se torna enjoativa ao final. A quinta faixa, “Say It”, conta com a cantora pop em alta, Tove Lo, trás uma música que tem letras focadas em sexo, mas nem sua performance vocalmente quanto a produção são capazes de condizer com esse vibe sensual que a música buscava passar,  aquelas melodiase doces transbordam na música, em uma tentativa de fazer ela voltada para o rádio e acabam perdendo o foco original.

As coisas melhoram bastante com “Wall Fuck”, uma das únicas cinco músicas sem um vocalista convidado. A melhor track das dezesseis que o álbum conta, trás samples de vocal e synths bastante progressivos logo de cara, que são quebrados por uma bassline massiva, junto com uma percussão bem forte. Talvez a mais experimental do álbum para o repertório do Flume, a track se mantém interessante do começo ao fim e mostra como o artista cresceu desde seu primeiro lançamento.

A faixa “Pika” é uma das outra cinco sem vocal, que se mostra bastante descente, mas com menos de dois minutos, ela deixa um gosto amargo por não ter sido mais longa, o mesmo sentimento é deixado pelas faixas “3” e “Free”, duas outras que também não contam com vocalistas. O interlude “When Everything Was New” é divertido e trás vocais de crianças (Afinal era a época em que tudo era novo).

As tracks “Take a Chance” e “Innocence”, com as vocalistas LittleDragon e AlunaGeore, prometiam devido ao estilo e consistência das convidadas, e não são ruins, mas também deixam a desejar devido a espectativa. Acabam sendo música de produção extremamente rasas. No caso da “Innocence”, o produtor utilizou o vocal da Aluna em menos da metade da música, e desperdiçou uma boa chance.

“Like Water” com a convidada MNDR uma das mais interessantes do álbum, a vocalista manda uma performance repleta de falsetes e notas fora do tom que dão um toque bem interessante em uma das melodias mais bem produzidas do álbum. A track não é para todos os gostos, o vocal pode ser meio difícil de digerir, mas não deixa de envolver.

“You Know” e “Like Water”, são as duas tracks mais desinteressantes do álbum. “You Know” tendo letras totalmente desconexas do resto do álbum, quase como um Gangster Rap, junto com uma produção preguiçosa e uma harmonização de vozes na segunda parte que chega a doer. “Like Water” fecha o álbum com uma contribuição do artista, vencedor de múltiplos Grammys, Beck, mas a faixa é pop genérico, que não inova e repete a formula, já utilizada até o limite no resto do álbum, com vocais bem sem sal, termina o álbum como mais uma das músicas que poderia ter sido ótima, mas foi razoável, no melhor dos casos.

Existem músicas muito boas no álbum, principalmente as instrumentais, mas parece que o Flume está tentando agradar ao rádio e a si mesmo, tudo de uma vez. Isso resultou em um álbum sem nenhum tema, ligado pelo estilo musical, mas sem nenhuma conexão ou conceito. Que perdeu uma chance de ter causado um real impacto, e acabou sendo apenas mais um álbum médio.

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