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O que o Dia Internacional da Mulher tem a ver com a dance music

Flávio Lerner

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Temos cada vez mais mulheres chutando bundas na cultura eletrônica, mas a EDM ainda se mostra um território bastante machista.

Dia da mulher. Hoje não é um dia de festa, mas de reflexão. Inclusive, eu preciso deixar claro que me sinto um pouco constrangido em estar falando essas palavras aqui: quem deveria fazer esse texto é uma mulher. Mas a redação da Phouse não tem mulheres, o que não é uma preferência deliberada da revista, mas uma consequência natural da configuração da nossa sociedade — o lugar da mulher é na pista de dança, mas ainda não na cabine, comandando o som; não nas revistas, formando opinião. Mulher é só um acessório. Se for gostosa, vai ser objetificada pra atrair os moleques punheteiros, mas se essas gostosas tão de roupa curta, aaah, só podem ser umas vadias, não são pra casar. E se pedirem respeito ou não se dobrarem aos homens, obviamente são feminazis xexelentas com pelo no suvaco, umas recalcadas por falta de rola ou vitimistas mimizentas.

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É hipócrita celebrar um dia da mulher com flor e bombom e depois perpetuar convenções machistas; a gente precisa respeitar as minas sempre, e entender que são tão merecedoras de liberdade e direitos quanto nós, homens. Liberdade de usar sua sensibilidade ímpar pra produzir música profunda e etérea e ganhar o RMC de produtor revelação, como a BLANCAh; ou de escolher o país onde morar, fazer um puta nome lá e depois ganhar o RMC de melhor DJ no país natal, como a ANNA. Ou ainda de fazer o único livro já escrito sobre a história do DJ no Brasil e se consolidar como uma autoridade no jornalismo de pista, como a Claudia Assef — livro este que traz relatos da pioneira Sônia Abreu, DJ da São Paulo dos anos 70, que começou tocando em uma época em que não havia mulheres dejotas. “Imagina como os outros DJs ficavam putos. Eu tinha 20 anos, era loira, bonita e tinha o melhor horário […]. E meu som era diferente: tocava hits da disco, mas misturava com uns sons instrumentais bem loucos. Tive que aguentar muito aluguel”, disse a Sônia pra Claudia no famoso livro Todo DJ Já Sambou.

A trilha sonora deste artigo não poderia ser outra: 55 faixas de 35 mulheres, lendas da música eletrônica, selecionadas e costuradas pela artista francesa Arandel para o podcast da InFiné

Parece estranho ter que falar isso, mas as mulheres têm tanta capacidade de ser DJs, produtoras, jornalistas, policiais, taxistas, empresárias quanto os homens. Claro, nós temos algumas características genéticas que nos diferem, e uma das teorias pra se ter tão menos mulheres DJs é a de que os homens teriam, teoricamente, mais propensão a ser colecionadores obsessivos [isto é, nerds] do que as mulheres — o que, convenhamos é um requisito bem importante pra ser um disc jockey. Mesmo assim, não podemos negar a problemática da falta de incentivo a garotas DJs; a falta de modelos, de minas que chegam lá, se destacam e fazem, mostrando que a cultura DJ e produção eletrônica não são só “coisa de menino”. Claro, temos vários exemplos pontuais ao longo da história: da tecladista do New Order Gillian Gilbert ao duo de drum’n’bass Kemistry & Storm; da musicista transsexual Wendy Carlos à Nina Kraviz; da techneira Ellen Allien à sensacional Black Madonna. Mas ainda assim é muito pouco, sobretudo no cenário EDM, em que a norma exige DJs homens, brancos e atléticos. Mulheres lá de vez em quando pra fazer uns vocaizinhos ou pra ficarem seminuas nos clipes do David Guetta. O mundo ainda aceita isso muito naturalmente e, sobretudo, não desafiar esse status quo é bem lucrativo, então pra que mudar, né?

Felizmente, as garotas estão se mexendo e chutando muitas bundas misóginas por aí. O babaca que queria contratar DJs atraentes num grupo feminista e foi detonado virtualmente é um exemplo, mas a melhor resposta vem com muito trabalho sério e dedicado, que faz os caras respeitarem à força. Festas como a paulistana Mamba Negra, comandada pelas DJs Cashu e Laura Diaz [que é voz do live Teto Preto, com Zopelar e L_cio], coletivos como o estadunidense Discwoman e escolas de música eletrônica para mulheres como a Lower Eastside Girls Club e a Women’s Audio Mission têm lutado pra reverter essa situação de que, comprovadamente, há muito menos mulheres nos lineups dos grandes festivais e clubs pelo mundo todo — isso sem falar em premiações como o infame ranking da DJ Mag, que traz pouquíssimas mulheres.

Sim, as coisas vêm melhorando, mas este ainda é um mundo bem machista, e a cena eletrônica é apenas mais um dos campos em que esse machismo se manifesta. E é pra trazer reflexões como as deste texto que o 8 de março é o Dia Internacional da Mulher.

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Escute a mais nova “A State Of Trance Year Mix” de Armin van Buuren

Phouse Staff

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A State of Trance Year Mix
O mix retrospectivo de 2017 acaba de ser lançado pelo DJ holandês

Este foi um grande ano para Armin van Buuren. Em meio a muitos lançamentos e episódios do seu programa de rádio A State Of Trance, o cara fez um B2B com Hardwell no ADE, tocou nas pirâmides de Gizé com Aly & Fila e apresentou o show The Best Of Armin Only, um mega concerto em comemoração de seus 20 anos de carreira.

E agora que 2017 está ficando para trás, ele lançou mais um volume da sua série de mixes anual, A State Of Trance Year Mix, com as melhores faixas do ano pela Armada Music. Nomes como Ferry Corsten, Above & Beyond, deadmau5 e W&W figuram em uma retrospectiva muito positiva de um dos importantes segmentos da cena eletrônica no mundo todo.

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O lançamento é o 13º da série anual e está disponível nas plataformas digitais, mas também em um CD duplo disponível na Armada Shop. No dia 28 de dezembro, o último episódio do ASOT do ano vai tocar esse megamix de duas horas na íntegra.

Confira:

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SELVA lança seu primeiro single em português

Phouse Staff

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SELVA O Amor Existe
“O Amor Existe (meu amor)” foi lançado neste sexta, via Warner Music, com colaboração da dupla Mar Aberto

O duo SELVA está de volta com um novo single para o verão brasileiro. “O Amor Existe (meu amor)” saiu hoje pela Warner Music, junto com o videoclipe da faixa dirigido por Thiago Eva e produzido pela Bossa Nova Films.

A faixa soma as vozes do SELVA com as da dupla Mar Aberto (formada pela carioca Gabriela Luz e o paulistano Thiago Mart) em um coro que busca trazer uma mensagem positiva, mesmo que hoje em dia o mundo possa parecer mais violento e inseguro. O som é rodeado de guitarras e cai num drop com graves fortes mas mantendo um tom tropical.

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“É a nossa primeira faixa em português. Sempre tivemos vontade de fazer algo na nossa língua nativa, e o momento certo chegou! Estamos muito empolgados para mostrar esse nosso outro lado pra todo mundo”, disseram Pe Lu e Brian, em contato com a Phouse.

Confira:

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Gui Boratto homenageia pioneiro do tango em show inusitado em Paris; assista!

Flávio Lerner

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Gui Boratto Tango
Em programa da TV francesa, o músico improvisou ao lado de instrumentista letã para uma plateia que contou até com um dos “robôs” do Daft Punk

Ao lado da importante instrumentista Ksenija Sidorova — original da Letônia e integrante da Orquestra Sinfônica de Viena —, o conceituado produtor e arquiteto brasileiro Gui Boratto protagonizou uma bela homenagem a um dos criadores do tango, o argentino Astor Piazzolla.

A apresentação, em formato live, rolou em outubro, em Paris, e teve direito até a convidado de honra: um dos “robôs” do Daft Punk. “Foi lindo, até o Thomas Bangalter do Daft Punk estava lá na plateia! Foi muito foda!”, resumiu o boss da D.O.C. Records, em contato com a coluna.

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O espetáculo durou quase meia hora, e agora, com vídeo disponibilizado ontem no YouTube, podemos assistir ao show na íntegra [veja abaixo]. O próprio Gui destaca que foi ele quem escolheu trabalhar com a música do Piazzolla, pois já havia um flerte antigo com o lendário jazzista que resultou na faixa de 2011 “Soledad”, do seu terceiro álbum.

O músico admite que levou quase dois meses pra tirar as harmonias do Piazzolla e fazer os arranjos da forma que queria, pensando em como criar as harmonias para encaixar com o acordeão de Sidorova.

O projeto faz parte da segunda temporada do Variations, conteúdo exclusivo que une música eletrônica e orgânica reunindo músicos das duas áreas para homenagear ídolos do jazz — em outras ocasiões, o programa já trouxe Marc Romboy e Kenny Larkin para, ao lado de instrumentistas famosos, interpretar John Coltrane e Miles Davis, respectivamente. Além deles, Dubfire e Rebotini também já participaram.

O Variations é apresentado pela Culturebox, canal cultural da tevê francesa, e sempre gravado ao vivo na sala de espetáculos La Cigale, clube parisiense que data da belle époque, nascido em 1887. “La Cigale é um lugar cheio de história que remonta ao começo do século: já pegou fogo e foi reinaugurado nos anos 90. Pra mim, foi um prazer sem igual me apresentar nessa obra arquitetônica, acima de tudo”, concluiu o Gui Boratto, que, também como arquiteto, está sempre atento a esses detalhes.

Flávio Lerner é editor da Phouse; leia mais artigos de sua coluna.

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