O que o Dia Internacional da Mulher tem a ver com a dance music

Temos cada vez mais mulheres chutando bundas na cultura eletrônica, mas a EDM ainda se mostra um território bastante machista.

Dia da mulher. Hoje não é um dia de festa, mas de reflexão. Inclusive, eu preciso deixar claro que me sinto um pouco constrangido em estar falando essas palavras aqui: quem deveria fazer esse texto é uma mulher. Mas a redação da Phouse não tem mulheres, o que não é uma preferência deliberada da revista, mas uma consequência natural da configuração da nossa sociedade — o lugar da mulher é na pista de dança, mas ainda não na cabine, comandando o som; não nas revistas, formando opinião. Mulher é só um acessório. Se for gostosa, vai ser objetificada pra atrair os moleques punheteiros, mas se essas gostosas tão de roupa curta, aaah, só podem ser umas vadias, não são pra casar. E se pedirem respeito ou não se dobrarem aos homens, obviamente são feminazis xexelentas com pelo no suvaco, umas recalcadas por falta de rola ou vitimistas mimizentas.

É hipócrita celebrar um dia da mulher com flor e bombom e depois perpetuar convenções machistas; a gente precisa respeitar as minas sempre, e entender que são tão merecedoras de liberdade e direitos quanto nós, homens. Liberdade de usar sua sensibilidade ímpar pra produzir música profunda e etérea e ganhar o RMC de produtor revelação, como a BLANCAh; ou de escolher o país onde morar, fazer um puta nome lá e depois ganhar o RMC de melhor DJ no país natal, como a ANNA. Ou ainda de fazer o único livro já escrito sobre a história do DJ no Brasil e se consolidar como uma autoridade no jornalismo de pista, como a Claudia Assef — livro este que traz relatos da pioneira Sônia Abreu, DJ da São Paulo dos anos 70, que começou tocando em uma época em que não havia mulheres dejotas. “Imagina como os outros DJs ficavam putos. Eu tinha 20 anos, era loira, bonita e tinha o melhor horário […]. E meu som era diferente: tocava hits da disco, mas misturava com uns sons instrumentais bem loucos. Tive que aguentar muito aluguel”, disse a Sônia pra Claudia no famoso livro Todo DJ Já Sambou.

A trilha sonora deste artigo não poderia ser outra: 55 faixas de 35 mulheres, lendas da música eletrônica, selecionadas e costuradas pela artista francesa Arandel para o podcast da InFiné

Parece estranho ter que falar isso, mas as mulheres têm tanta capacidade de ser DJs, produtoras, jornalistas, policiais, taxistas, empresárias quanto os homens. Claro, nós temos algumas características genéticas que nos diferem, e uma das teorias pra se ter tão menos mulheres DJs é a de que os homens teriam, teoricamente, mais propensão a ser colecionadores obsessivos [isto é, nerds] do que as mulheres — o que, convenhamos é um requisito bem importante pra ser um disc jockey. Mesmo assim, não podemos negar a problemática da falta de incentivo a garotas DJs; a falta de modelos, de minas que chegam lá, se destacam e fazem, mostrando que a cultura DJ e produção eletrônica não são só “coisa de menino”. Claro, temos vários exemplos pontuais ao longo da história: da tecladista do New Order Gillian Gilbert ao duo de drum’n’bass Kemistry & Storm; da musicista transsexual Wendy Carlos à Nina Kraviz; da techneira Ellen Allien à sensacional Black Madonna. Mas ainda assim é muito pouco, sobretudo no cenário EDM, em que a norma exige DJs homens, brancos e atléticos. Mulheres lá de vez em quando pra fazer uns vocaizinhos ou pra ficarem seminuas nos clipes do David Guetta. O mundo ainda aceita isso muito naturalmente e, sobretudo, não desafiar esse status quo é bem lucrativo, então pra que mudar, né?

Felizmente, as garotas estão se mexendo e chutando muitas bundas misóginas por aí. O babaca que queria contratar DJs atraentes num grupo feminista e foi detonado virtualmente é um exemplo, mas a melhor resposta vem com muito trabalho sério e dedicado, que faz os caras respeitarem à força. Festas como a paulistana Mamba Negra, comandada pelas DJs Cashu e Laura Diaz [que é voz do live Teto Preto, com Zopelar e L_cio], coletivos como o estadunidense Discwoman e escolas de música eletrônica para mulheres como a Lower Eastside Girls Club e a Women’s Audio Mission têm lutado pra reverter essa situação de que, comprovadamente, há muito menos mulheres nos lineups dos grandes festivais e clubs pelo mundo todo — isso sem falar em premiações como o infame ranking da DJ Mag, que traz pouquíssimas mulheres.

Sim, as coisas vêm melhorando, mas este ainda é um mundo bem machista, e a cena eletrônica é apenas mais um dos campos em que esse machismo se manifesta. E é pra trazer reflexões como as deste texto que o 8 de março é o Dia Internacional da Mulher.

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