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Entrevista

Protagonista carioca, Leo Janeiro fala sobre RMC, Warung, D.O.C. e parcerias

Jonas Fachi

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Uma das mentes por trás de Rio Music Conference e Warung Records, Leo Janeiro conversou conosco durante sua tour pela Europa. No papo, ele revela as pretensões do RMC e de seu lançamento pela D.O.C., com remix de um dos produtores mais emblemáticos do cenário atual.

Pode-se dizer que Leo Janeiro transformou sua paixão pela house music em uma marca nacional. Protagonista da cena eletrônica na cidade que leva parte de seu sobrenome, o carioca conquistou residência em alguns dos principais clubs do país, como Warung e Beehive. Porém, uma de suas facetas mais prósperas se revela em sua dedicação as coisas que ultrapassam a pista de dança. Incansável, Leo tem promovido ao longo dos anos o que é feito no Brasil para o mundo através da sua habilidade legitimamente carioca para entender os bastidores da cena. Um dos responsáveis pelo Rio Music Conference e pela curadoria do Warung Records, o artista teve uma conversa descontraída conosco via Whatsapp, enquanto se mantém excursionando com apresentações em alguns dos eventos mais quentes do velho continente.

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Leo, como foram as primeiras datas aí na Europa? Ouvi falar que Barcelona está mais quente que o normal…

Está indo tudo dentro do esperado, correria e jetlag [risos]! Sim, Barcelona tem um clima bem quente nesta época; amanhece cedo e o sol vai muito tarde. Berlim também estava assim, mas por lá ainda tem o ventinho da noite… Sobre as gigs, todas foram muito bacanas, a festa junto com o Watergate foi muito especial, porque os dois clubes estão comemorando quinze anos. Legal que os dois têm filosofias parecidas, como dar suporte aos seus residentes. O mais importante é que essa parceria é bem positiva para ambos e tem muita coisa boa vindo!

Lembra o primeiro ano que esteve aí para se apresentar como artista? Tem sentido as mudanças do cenário?

Hum… 2011! Eu já toco há alguns anos e as coisas vêm mudando, até porque a música que era feita cinco anos atrás já está sendo feita de outra maneira. A forma de promover também sofreu muitas mudanças. Legal poder senti-las para melhor, e com o surgimento de novos talentos.

E o que dizer do Sónar? Quais artistas mais te impressionaram?

Eu vi alguns artistas no Sónar… O novo show do Justice é bacana, The Black Madonna legal… No OFF Sónar gostei de poder ver o Berhouz novamente, set muito bom. Os lives do Todd Terje, ScharzmannRodriguez Jr. no rooftop do hotel Diagonal com a vocalista Liset Alea, incrível… E o DJ set do [John] Talabot também foi ótimo!

Falando em Rodriguez, ouvi seu álbum Baobab, está maravilhoso. Nos bastidores se fala em um remix dele para você…

Sim, ele fez um remix para um EP meu que vai sair pela D.O.C. em outubro. Ele está muito bem mesmo.

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Como surgiu o convite, vocês já se conheciam?

Na verdade, o Rodriguez é um cara que eu já me dava muito bem, já conhecia ele por nós termos tocado algumas vezes juntos, e acabamos criando uma amizade. Ao mesmo tempo eu estava no estúdio com o Gui [Boratto] formatando esse EP, e tinha comentando que gostava muito dele. O Gui ainda não o conhecia pessoalmente, mas tinha admiração pelo trabalho… Eu até brincava que os dois tinham muitos pontos em comum, e então começou um namoro, de tentar chamar ele.

Tínhamos outros nomes também, mas eu acho que o Olivier [Rodriguez Jr.] é um cara que tem a ver com a gente, com a nossa maneira de pensar, e nós queríamos alguém que nós gostássemos do trabalho de verdade. No fim, acabou dando certo. Ele é uma pessoa muito, muito boa, não está tendo esse sucesso todo à toa. Fez um remix maravilhoso, a música se chama “Moodisco”. Agora estamos correndo para fazer o vinil, na sequência vamos ter o digital… Enfim, a estratégia é bem legal. Acho que tudo conspirou a favor.

Muito legal a história, mas tem outras coisas antes disso, certo?

Sim, antes desse tem algumas coisas. Agora em julho sai um EP meu pelo Warung Records junto com os meus brothers talentosos do Mumbaata e remix do HNQO, que está matador! Vou te falar que é um dos melhores remixes que ouvi nos últimos tempos. O Henrique [HNQO] é um cara que eu gosto muito, superconectado. Também tem um remix de um amigo aqui de Barcelona, o André Buljac. Ele é do núcleo da Fact aqui, e fez um remix muito bacana numa outra onda… É isso, estamos tentando fazer as coisas acontecerem.

Existe algum critério para escolha dos artistas para o W Rec?

Sim, primeiro a música tem de ser boa. O estilo acaba sendo o que trabalhamos no Warung: house, deep, disco, tech house, techno, progressive. Criatividade e qualidade também levamos em conta, é importante sempre nivelarmos por cima para termos um resultado bacana de feedbacks — até porque a label é um espelho musical do clube. O objetivo é estimular novos artistas e criar mais possibilidades e intercâmbio. O Albuquerque divide comigo esta função de A&R, então sempre é importante dividir as opiniões com o time do Warung.

Todos sabem da importância do RMC para a nossa cena se fortalecer. Existe a edição de Curitiba, mas olhando para toda a representatividade que existe em SC na música eletrônica nacional, nunca se pensou trazer novamente uma edição para o Estado?

Em 2012 houve em Floripa, 2011 Porto Alegre. Na verdade, o RMC tem dez anos, você imagina o quando já andamos por aí… É realmente uma boa pergunta, nós precisamos chegar em outros lugares importantes. O interior hoje, por exemplo, é um grande responsável por uma parte do mercado, tanto financeiro como artístico.

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Eu gostaria que em Balneário Camboriú acontecesse uma edição — incluindo a região do litoral norte e o Vale do Itajaí, que juntos formam algo bem grande. Quando rolam os vídeos, transmissão ao vivo, o pessoal daqui sempre assiste, superinteressados.

Sim, estamos investindo nisso. Sabemos que é possível chegar em mais pessoas com as transmissões. Sobre SC, é uma boa ideia. Nosso maior problema é investimento, sem isso é cada vez mais complicado. Nós fazemos em Curitiba, pois temos apoio. Com essa crise ficamos sem um patrocínio forte, mas eu acho que sempre é importante trazermos essa discussão. Mas você tem razão, completando dez anos vamos fazer muita coisa legal.

Pode falar mais disso?   

Nos dez anos do RMC, queremos fazer uma programação diferente do ponto de vista da curadoria. Vamos tentar fazer o melhor em 2018. Por conta de poder usar essa tecnologia, sabemos que é possível chegar em mais pessoas com as transmissões. A temporada de preparativos começa agora.

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O que podemos esperar ainda do Leo Janeiro para 2017?

Em agosto sai outro EP pela Not For Us. Vai se chamar Creator e tem uma parceria com o Keskem e um remix do meu grande brother e superprodutor Andre Salata.

Também estou fazendo uma compilação chamada Cocada, pela Get Physical Music, em parceria com o RMC, que vai sair no final do ano, início de dezembro. Ela vai ter basicamente artistas sul-americanos, na sua grande maioria do Brasil. Nós vamos poder abrir uma oportunidade para muitos artistas novos, e também já estabelecidos. A ideia é realmente conectar os produtores do Brasil com um selo gigante como a Get. Podemos criar de uma maneira legal, estou bem contente, porque o projeto tem como objetivo também ser uma plataforma para artistas divulgarem seu trabalho.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Hernán Cattaneo estreia concerto sinfônico com clássicos da dance music

Jonas Fachi

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Concerto
Foto: Hernán Zenteno/La Nación
Performance inédita será no teatro Colón, em Buenos Aires

Nunca antes a música eletrônica esteve exposta em um palco tão importante. Hoje (22), às 19h e às 22h, o lendário DJ argentino Hernán Cattaneo desembarca, juntamente de artistas convidados e uma orquestra com 50 músicos, no teatro Colón de Buenos Aires.

O projeto foi anunciado há alguns meses como parte do festival “Únicos”. Automaticamente, o movimento de seus fãs em toda América do Sul foi intenso por mais informações. Em dezembro as vendas foram abertas, e em poucas horas os dois horários tiveram ingressos esgotados.

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Vale lembrar que o Colón possui espaço para mais de duas mil pessoas sentadas. Com a demanda muito superior ao esperado, a organização do festival cedeu a Hernán mais um horário no dia 23, às 19h. Novamente, com os tickets esgotados, outro horário foi colocado à disposição no dia 26.

Com tamanho sucesso, a imprensa argentina ficou simplesmente de boca aberta, buscando saber um pouco mais do que havia por trás do nome que fez ter quatro funções esgotadas no icônico e respeitado teatro. Jornais como La Nación e canais de TV procuraram Hernán para entender melhor do que se tratava. Imagine no Brasil Gui Boratto sendo entrevistado pelo Fantástico. É mais ou menos isso que Hernán tem vivido nos últimos dias em Buenos Aires, sendo o centro das atenções na mídia da cidade.

Entrevista para o canal Telenoche

Para os argentinos, o Colón é uma espécie de Maracanã cultural, com mais de cem anos de construção e arquitetura que remete à história da cidade. É um cartão postal e um espaço de muito orgulho para o país, pois é considerando internacionalmente como um dos cinco mais importantes do planeta. Após o anúncio, algumas pessoas de perfil mais conservador se mostraram intrigadas sobre o que iria se passar com um DJ e “música eletrônica” no templo que é dedicado à música clássica, ballet e peças líricas.

Hernán, porém, em todos os momentos deixou claro que se trata de um concerto sinfônico, não de um show de música eletrônica comum. Nas suas palavras, “o que difere de um concerto de Mozart ou Beethoven é apenas que os músicos da orquestra irão reinterpretar faixas da dance music, que fazem parte de minha história enquanto artista”. Entre as escolhidas, terão clássicos de bandas e DJs como Depeche Mode, Chemical Brothers, Massive Attack, Underworld, Way out West (com Nick Warren como convidado), Moby e Frankie Knuckles — que foi o DJ que inspirou Hernán a tocar —, além de músicas autorais não divulgadas. Haverá ainda uma quinta apresentação gratuita ao ar livre no dia 3 de março, no famoso parque destinado a shows da avenida Figueroa Alcorta y Pampa, bairro de Palermo.

Mural feito por um artista da cidade com imagem do DJ argentino em Palermo (Foto: Seba Cener/La Nación)

O festival Únicos conta com apoio do poder público da cidade. O novo ministro da cultura portenã, Enrique Avogadro, declarou que “a abertura de Colón a novos públicos é um debate interessante e que precisa ser feito”. Comentou também, em matéria trazida pelo La Nación, que “hoje se vive um ciclo em que já não existe mais a lógica de uma cultura superior à outra”.

O festival reúne diferentes gêneros para propor sinfônicas de música popular. Uma das preocupações dos guardiões da sala maior do teatro e artistas do ambiente lírico foi em nome da famosa acústica do teatro, em que ofereceram resistência quanto ao uso de amplificadores. Sobre isso, Hernán explicou ao La Nación suas intenções:

Hernán Cattaneo se apresentou na Catedral de Liverpool em setembro de 2012 (Foto: Hernán Zenteno/La Nación)

“Me contaram que no Twitter estavam falando que eu queria ultrapassar o limite de 90 decibéis [permitido no local]. As pessoas de Colón falaram que há um nível de decibéis. Não vi nenhum contrato, mas se falarem 70, serão 70, e se decidirem 90, serão 90. Como que vou querer impor minhas regras ao teatro? Não sou um herege, não venho profanar um cenário. Isso é uma vez na minha carreira, uma oportunidade, um convite impossível de recusar e estou feliz. Não vejo a hora de chegar esse dia”.

Em outro momento da entrevista, Hernán conta como tudo começou: “Darío Lopérfido nos contatou, conversamos sobre as opções de apresentações e começamos a trabalhar. Depois ele saiu do Colón, e o projeto não deu em nada, mas eu já tinha a programação na cabeça, com Oliverio Sofía e Paul Baunder [produtores que trabalham com Hernán], e já havíamos avançado. Então em meados do ano passado, Gerardo Gardelín, o diretor da orquestra, nos contou sobre a possibilidade de participar do festival Únicos, um contexto bastante lógico para nós. Então seguimos: por um lado, Gerardo fazendo as versões sinfônicas de todas as canções, e Oliverio, Baunder e eu com as versões eletrônicas. Tudo ia e voltava constantemente”.

Vale lembrar que após as cinco mortes durante o festival Time Warp, em Buenos Aires, em que foi declarado que houve negligencia por parte dos organizadores pela superlotação e poucos espaços para descanso e hidratação, o governo da cidade, fortemente pressionado pela grande mídia, resolveu cancelar todos os alvarás para grandes festivais. Eventos importantes para a economia, como o tradicional Creamfields, não foram mais realizados desde então. De certa forma, apenas três anos depois de sofrer uma grande discriminação, a música eletrônica parece estar dando a volta por cima.

Chegar com tamanha representatividade em um palco tão importante culturalmente é um passo enorme para fazer a mídia e o poder público começarem a ter um olhar diferente sobre o gênero. Todo o respaldo da carreira exemplar de Hernán em mais de 30 anos, sendo o maior DJ que a America do Sul já produziu, ajuda a tudo convergir para anos de maior integração e evolução da cena pioneira da cidade e do país. Hernán, desde os 15 anos de idade, fez sua escolha. Foi o primeiro DJ sul-americano a se tornar verdadeiramente global, e hoje continua a quebrar barreiras que pareciam inatingíveis — só poderia ser ele.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Na Inglaterra, Sasha retorna com seu aclamado live orquestrado

Jonas Fachi

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re-Fracted
O lendário DJ e produtor galês volta com seu aclamado re-Fracted: Live em três shows na Inglaterra.

Sasha, juntamente de diversos músicos e uma orquestra independente, desembarca hoje para mais uma rodada do re-Fracted: Live, em parceria com a label Late Night Tales. A segunda temporada é uma resposta a uma demanda esmagadora após o sucesso de seus shows em maio de 2017, no emblemático Barbican de Londres, quando quase quatro mil ingressos foram vendidos em 90 minutos — um recorde na história do teatro.

Hoje (16) e amanhã (17), as apresentações serão realizadas no também londrino Roundhouse, originalmente construído em 1847 pela London & North Western Railway. No domingo (18), como um show extra devido à grande procura por cadeiras, o live vai a Manchester no Bridgewater Hall.

Imagem do último ensaio, nesta semana

re-Fracted: Live é um show eletrônico realizado por Sasha e músicos convidados, juntamente com cordas e vocais ao vivo, proporcionando uma experiência imersiva apaixonante de algumas de suas produções mais famosas. O produtor galês toca ao vivo, em piano e teclado, partes de arranjos das músicas ao lado de sua principal equipe de produção, composta por colaboradores de longa data como Charlie May (Involver e Invol2vr), Spooky, Dennis White, Thermal Bear e Dave Gardner — além de um conjunto de cordas de oito peças, um percussionista e vocalistas ao vivo.

Em 2017, o produtor John Graham, aka Quivver, subiu ao palco para cantar “Rooms”, faixa que fez parte do álbum Scene Delete, último de Sasha, lançado em 2016. Outras faixas que fizeram parte da tracklist foram “Wavy Gravy” (Airdrawndagger, 2002), “Battleships” (Involv3r, 2013) — em que subiu ao palco a cantora Abigail Wyles —, e a mais aguardada de todas, apresentada no encerramento: “Xpander”, single de 1999 que marcou a carreira do produtor e é considerado uma das dez maiores músicas eletrônicas de todos os tempos, segundo votação popular da revista Mixmag.

“No momento em que descemos do palco no Barbican, estávamos dizendo: temos que fazer isso novamente”, disse o DJ em um comunicado para a imprensa. “Nós não tínhamos realmente um plano na hora. Não tínhamos ideia de que a resposta a esses shows seria tão incrível. Então, esta é a segunda rodada, estamos começando a tocar em dois lugares dos mais emblemáticos do Reino Unido. Nós estamos pensando em mudar o show um pouco para incorporar algumas músicas novas e fazê-los tão especiais e únicos quanto os de Barbican em maio. Mal podemos esperar!”

Em Manchester, será uma volta na história para Sasha, pois foi onde iniciou sua carreira ainda nos anos 80. Na época, a cidade respirava a cultura underground eletrônica, pós o movimento punk. O Bridgewater Hall, que fica no centro da cidade, recebe em média 250 apresentações por ano e é considerado um dos mais modernos da Europa. Com um custo total de 42 milhões de libras, o teatro realizou seu primeiro concerto em 11 de setembro de 1996, sendo inaugurado oficialmente em 04 de dezembro pela Rainha Elizabeth II, ao lado do Duque de Edimburgo.

O Hall foi uma das várias estruturas construídas na década de 90 que simbolizavam a transição para uma Manchester nova e moderna. Apenas alguns meses após a abertura, a sala de concertos ganhou o prêmio RIBA North West.  Em 1998, ganhou o Civic Trust Special Award, que é dado a um edifício que melhorou a aparência de um centro de cidade.

Levar música eletrônica a um espaço como esse é uma grande conquista para a cultura eletrônica, além de mais uma mostra de todo o pioneirismo de Sasha. Artistas como Pete Tong e Jeff Mils também já se apresentaram em teatros, porém receber datas em alguns dos maiores espaços para concertos do Reino Unido é algo único.

Os shows no Barbican viraram Blu-Ray com vendas esgotadas de todos os CDs pela Late Night Tales, e os ingressos para os três shows deste final de semana estão esgotados. Ainda não há previsão para novos shows. Existem pedidos para uma tour pela Europa, porém no momento não há nada anunciado para os próximos anos.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Sete anos para rever o mestre; como foi a volta de Laurent Garnier no Warung

Jonas Fachi

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Laurent Garnier
Um set do mais alto nível para um time de clubbers do mais alto nível
* Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini

16 de novembro de 2017. Um dia após a data que marcava os 15 anos de vida do Warung, o Instagram oficial do beach club anunciava a sequência de sua programação com um calendário para janeiro repleto de grandes artistas. Entretanto, em cima de um deles parecia haver um brilho especial, aquele nome que quando anunciado, os mais experientes já sabiam que seria a noite do verão. Porém, talvez os anos de hiato em nossa cena tivessem apagado um pouco da memória que, se tratando de Laurent Garnier, no mínimo deveria ser aguardado como uma das melhores noites dos últimos anos — o que de fato viria a acontecer.

Foi difícil esperar tanto tempo por seu retorno. A maioria dos que se fariam presentes, mesmo aqueles com alguns anos de pista, ainda não tinham recebido uma experiência musical com o francês. A meu exemplo, ter perdido seu live em 2011 foi um golpe duro. Sua primeira passagem havia sido em 2008, quando se apresentou no Templo em pleno aniversário de seis anos — portanto, não havia chances de deixar passar novamente o momento de receber a condecoração máxima.

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Mesmo quando se vive na era da internet e da corrida desenfreada pelo marketing a todo custo — em que seria obrigação de qualquer um que frequente uma cena conceitual e tenha o mínimo de interesse, saber em qual prateleira o nome de Laurent Garnier deve ser colocado —, ficar sem dar as caras em nosso país por sete anos foi suficiente para o público se renovar várias vezes. E se tratando de uma cena ainda em formação, muitos não conseguiam ter a verdadeira dimensão de quem e do que estavam por presenciar. Nesse ponto, vale destacar a quantidade de pessoas que são influenciadoras no cenário ajudando os mais novos através de matérias, vídeos e postagens, a entenderem a importância de se fazer presente em uma noite como essa.

Na semana do evento, Laurent havia cumprido datas no Rio e em São Paulo. No anúncio dos horários, a primeira surpresa: ele assumiria o Inside somente às 03 horas. Mesmo com vários comentários solicitando por pelo menos uma hora de antecipação, não houve mudança. Nessas situações, visto que por parte do club quase sempre há interesse em deixar a atração principal tocar o máximo de tempo possível, só poderia se tratar de um pedido do próprio francês. De qualquer forma, nada iria atrapalhar a felicidade de assistir ao artista que considero um dos cinco maiores que a cena eletrônica já produziu. Então, esperar por sua aparição ao palco foi algo extremamente gratificante.

Para abrir a casa e construir um set capaz de ser digno do warmup para Garnier, a curadoria depositou todas as fichas em um de seus melhores residentes. Paulinho Boghosian é detentor de uma vasta experiência, já dividiu cabine com grandes nomes e entre os residentes, possuía o perfil que mais poderia fazer a pista ficar bem ambientada até o momento mais aguardado. Antes disso, assisti à última meia hora do debutante da noite, Nezello. O Garden estava com ótimo público e o DJ estava aplicando uma sonoridade extremamente dançante e tribal. Esses adjetivos são comuns, porém o tipo de música que ele apresentava com essas caracteristicas não se ouve com frequência. É sempre bom ver novos artistas de nossa cena mostrando personalidade musical.

Após um tempo para rever e conversar com amigos, subi as escadas do Templo determinado a não mais descer. À 01h, Paulinho já havia ultrapassado o sempre difícil momento de receber o público e controlava com certa tranquilidade uma pista repleta de clubbers do mais alto nível. Com sua tradicional classe variando de house a techno, Boghosian era rápido até onde poderia ir. Cada minuto que passava, mais aumentava aquele sentimento de finalmente poder ver o francês surgir à frente do dragão e da bandeira de nosso país. Um sentimento de ter a certeza de que tudo estaria bem com a sua presença. E foi justamente assim que me senti quando o ícone surgiu na cabine.

Garnier é a personificação do artista completo, que é quando a genialidade está presente tanto no estúdio quanto no comando de uma pista de dança — dois mundos distintos, criação e execução sublime da mesma arte por um mesmo ser. Pontualmente, ele inicia seu set abrindo uma porta por onde se passava uma enorme quantidade de energia. Não havia espaço para alguma introdução; o ótimo warmup lhe permitia impor ritmo intenso junto de sua musicalidade única. Na primeira hora, já se percebia o ambiente completamente envolvido e entusiasmado. Minha atenção ficou em evidência quando ouvi uma das faixas do momento: “Singularity”, novo single de Sasha, encaixou perfeitamente no contexto inicial, formado por algo meio nebuloso e levemente viajante.

A pista não estava completamente lotada. Estava quase na medida para se apreciar sem incômodos a construção musical de Garnier. Não demorou muito para eu notar ao meu redor todos somando energias para mostrar-lhe a força da alma latina; sim, nós poderíamos estar à sua altura. Em contrapartida, Laurent atuava como se tentasse extrair sua melhor versão, de dentro para fora, onde cada música antes de passar pelos cabos, tivesse de dar uma volta por dentro de suas veias para então chegar nas caixas de som e reverberar em ondas sonoras a ponto de fusão.

Mesmo sendo um exímio DJ de longsets, após a segunda hora entendi que não havia mais qualquer motivo para queixar-me de ele não ter entrado mais cedo. Claro que vê-lo tocando mais devagar seria maravilhoso, porém sua musicalidade era estarrecedora em diversas frentes, indo direto ao ponto. Comentei antes que havia clubbers do mais alto nível porque nunca havia visto um ambiente com tamanha diversidade de gostos dentro da cena conceitual, reunidos na mesma sintonia. Talvez nenhum outro artista tenha tamanho poder para isso, apenas um verdadeiro diplomata da música eletrônica global seria capaz de juntar gostos advindos de variadas frentes ou estilos conceituais. Desde o seguidor do techno de Berlim, passando pelo balanço da house de Chicago, até os gostos pelo progressivo do Reino Unido poderiam se identificar com sua música. Ao longo dos anos, de alguma forma Garnier alinhou seu estilo a uma identidade própria capaz de beber de todas essas fontes, sendo impossível de classificá-lo. A quem gosta de introspecção, ele entrega; a quem gosta de movimentos lineares e intensidade, ele propõe.

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“Domino” de Oxia, uma faixa muito tocada nos últimos dois anos, e considerada já ultrapassada em seu momento “clássico”, surge às 05 horas, entretanto, ganhando nova oxigenação e soando tão interessante como se fosse ouvida pela primeira vez. Acelerando o tempo, Garnier liderava de olhos fechados sua sinfonia, fazendo-nos vibrar como nos velhos tempos, resgatando uma energia do Templo que parecia haver diminuído ao longo dos anos, mesmo o club vivendo, no quesito quantidade de público e reconhecimento, seu melhor momento.

Sua música estava calibrada até o limite, marcada por momentos de pura acidez até outros repletos de introspecção, e assim ele continuou até próximo ao amanhecer, quando nas duas últimas horas iria nos mostrar toda sua capacidade técnica e sonora. Quando todos já estavam extasiados, ele ainda traria um algo a mais. Tudo começa às 06h30: “Wir Reitem Durch Die Nacth”, do DJ Hell, em remix de Coyu atravessou a todos. O que mais havia no jogo? Sua discografia poderia ser colocada à mostra por muitas horas. “Jacques In The Box”, delirante, o que mais? Vamos, não parem, o que vocês querem? Ah, sim, não poderia faltar “1-4 Doctor C’Est Chouette” de seu aclamado EP Tribute para a Kompakt — que momento!

Tanta inspiração era de certa forma até constrangedora, pois seu amor pela música é algo tão profundo que te faz sentir que ainda não sabe de nada. Por dentro de seu transe sonoro, demonstrava uma conexão sem fim para o que vem se dispondo a fazer desde a metade dos anos 80, quando deixou Paris para fazer história na efervescente cena pós-punk de Manchester.  “Our Futur” me fez lembrar o icônico vídeo de sua performance no Templo em 2008, quando de forma bilateral mixou “Chinasse Massage”, de Rocket & Ponies, com “Everything in Its Right Place”, do Radiohead, em pleno amanhecer. Dois clássicos distintos unidos de forma tão singular que seria um pecado algum dia tentar-se repetir. Os olhares para o lado de incredulidade — “você também está presenciando isso?” — eram constantes, e claro, antes de tudo não poderia acabar sem sua maior obra prima, a música que se fosse um quadro, estaria certamente exposto na sala mais nobre do Musée du Louvre: “The Man With a Red Face” parecia estar sendo tocada ao vivo diante de nossos olhos.

Para finalizar, chegando próximo das 08 horas, em uma virada desconcertante, ele libera uma espécie de samba eletrônico, introduzindo as boas vindas ao famoso Carnaval brasileiro. Por mais que o Sul não tenha qualquer ligação com esse tipo de música, àquela altura, vindo de suas mãos, tudo parecia fazer sentido.

Os aplausos emotivos para sua performance e seu sorriso de volta nos davam a sensação de que Garnier parecia alguém muito próximo. Cada indivíduo na pista de dança sentia-se compelido a se conectar com sua personalidade, sua forma de agir e tocar; entretanto, talvez sua maior mensagem seja a de que não se pode querer ser como ele. Seria muita ousadia. Seu recado à frente da cabine é justamente o contrário — sem mestres, sem líderes, apenas dê tudo o que puder de si; seja você mesmo, construa sua própria história.

Assistir a Laurent Garnier é como obter uma das últimas graduações que se pode receber enquanto ouvinte em uma pista de dança.  Assistir a Laurent Garnier ao menos uma vez na vida é a passagem para o lado dos profissionais, o entendimento supremo do que é a verdadeira arte da discotecagem.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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