Sasha retorna ao Warung para um longset repleto de memórias

Alguns acontecimentos podem se tornar lendas, desde que pessoas de determinada cultura social acrescentem uma simbologia que torne o fato relevante para suas vidas, e assim sobreviva em suas memórias ao longo do tempo. Todas as culturas possuem lendas e a clubber não é diferente, alias, está repleta delas. Ouvimos dos resistentes noturnos relatos que marcaram o desenvolvimento em determinado momento do cenário, moldando pessoas, cidades e até mesmo toda uma geração. Exemplos como o The Hacienda e seus frequentadores do movimento pós-punk do Reino Unido buscando liberdade de expressão, até acontecimentos miraculosos em salas escuras do industrial club Berghain em Berlim, povoam o imaginário popular e aumentam o entusiasmo quase fantasioso de se colocar junto aquilo.

Sabe quando você ouve tantas vezes sobre algum acontecimento e se encanta a cada vez até sentir que realmente fez parte daquilo? Desde que comecei a escrever para Phouse, dentre os diversos temas que me inspiravam a contar sobre, um deles esteve em segundo plano esperando seu momento ideal. Comecei a frequentar os clubes do litoral catarinense e por consequência o Warung Beach Club ouvindo de frequentadores mais antigos com quase unanimidade qual foi a noite mais impressionante já testemunhada ao longo da história do clube, e os olhos sempre me brilhavam ao se falar do set de 10 horas de  Alexander Coe logo em sua aguardada estreia no carnaval de 2006. Um domingo guardado quase que de forma religiosa por parte daquelas felizes almas que lá estiveram presentes, e agora, 10 anos e alguns meses depois um leitor que provavelmente é ativo hoje, pode-se perguntar, ‘’ok, 10 horas de set é algo que não acontece a muitos anos no Warung, isso por si é especial, mas o que mais aconteceu? Por que alguém ainda se prende a escrever sobre esse dia? Deve haver um contexto mais profundo e simbólico nisso tudo.’’ De fato, existe, e esse texto é uma pequena tentativa de alcançá-lo, com a ajuda de memórias distantes através de convidados que sobreviveram para contar e principalmente no intuito de despertar os interessados do futuro um sentimento de expectativa capaz de deixá-los no mínimo inquietos, pois Coe, ou simplesmente Sasha, tem presença confirmada entre as últimas datas no calendário de 2016, e vem de longset!

Para entendermos porque a repercussão desse dia sobrevive até hoje devemos considerar um conjunto de fatores externos e internos. Os externos podem ser avalizados olhando para o passado e entendendo o momento em que o artista vivia na época, mas isso vamos deixar para depois. Os internos, somente quem esteve presente no dia e pode ver a apresentação de Alexander, é que consegue nos trazer luz para entendermos sua importância. Uma das figuras essenciais na história do clube sem duvidas é Fabio Mergulhão. Sua capacidade e leitura de momento fizeram registrar através de sua lente algumas das fotos mais emblemáticas já feitas, e que hoje dão possibilidade de ilustrar o entendimento dessa matéria. Ele pode de forma até inesperada ter uma visão muito próxima junto a cabine da relação simbiótica que estava se iniciando ali, entre artista e publico:

‘’O Manager dele não queria ninguém na cabine, e o Sasha deixou que eu ficasse com ele o tempo todo. Minha namorada, atual mãe dos meus filhos, me mandou um SMS as 09:00 hrs, não existia WhatsApp, a mensagem era: Já deu, né! Eu, Zagonél, Sasha e sua mulher fomos até a casa do Conti na caçamba de uma saveiro, e minhas fotos foram usadas na página do Sasha na internet na época, incrível. ‘’

Daniel Waltrick acompanhou o clube da praia brava desde os primeiros anos, o influenciando a hoje ser um dos Djs mais respeitados do sul do Brasil, a importância de estar nesse dia de carnaval em sua decisão de se tornar um DJ foi fundamental:

‘’Para mim foi muito marcante porque como DJ, esse foi um dos momentos cruciais que ajudaram a nortear minha carreira desde então, a soma de musicalidade, técnica e carisma em um mesmo artista.. eu realmente estava muito impressionado e sabia que estava presenciando algo muito especial.’’

Danee hoje compõe regularmente line-ups do clube e é solicitado pelos frequentadores por sua enorme capacidade de interpretar o que a pista precisa, e isso só pode ser feito por alguém que absorveu experiências únicas antes de passar para o lado de cima da pista:

‘’Frequento o clube há mais de 10 anos, e fico tranquilo em fazer uma afirmação assim: foi um dos melhores Warungs da história! Um momento tão ímpar que até hoje muitas pessoas (da velha guarda) comentam sobre esse dia, pelo set em si, a energia da pista e a maneira que o Sasha se expressava no palco, dava pra ver que era muita coisa ao mesmo tempo tendo seu brilho, o club, o artista, o público, o sol nascendo… ‘’

Gustavo Conti, uma das mentes por trás da concepção do templo, viu os primeiros pilares sendo erguidos em meio a mata e em frente ao mar, trazendo para o Brasil um conceito e ideia musical totalmente nova, sua ideologia e amor pela música mudaram a vida de muitas pessoas. Depois da vinda de nomes como Danny Howells, Hernan Cattaneo, John Digweed, Lee Burridge, Timo Maas e alguns outros expoentes do estilo que dominava o mundo, praticamente só faltava ele, trazer Sasha era um sonho, e ele se tornava realidade. Mais que um set, mais que conseguir contratar o artista mais requisitado daquela época, foi como tudo aconteceu, Sasha veio para quebrar as regras e mudar conceitos, pois a partir de então, os longsets vivaram rotina e desejo de todos os convidados a se apresentar:

‘’Enfim chegava a grande noite, a mais aguardada, não só para mim mas também por todos que me acompanham desde a Rave (clube de Curitiba) e claro uma legião de fãs que o acompanham por todo planeta.

Jamais imaginei que ele, meu ídolo, poderia tocar em algum club meu.
Tínhamos como bússola o projeto ‘’Nothern Exposure’’ que era um novo universo abrindo diante de nossos olhos.’’

A série de compilações Northern Exposure de Sasha e John Digweed lançada em 1996 e 1997 influenciou pessoas de todos os cantos do planeta, foram 4 Cds que direcionaram toda a cena eletrônica por um mesmo caminho e fizeram algumas destas desejar trazer aquele estilo para suas respectivas realidades, e assim, a ideia de se fazer um clube que pudesse educar as pessoas com esses artistas no comando, foi um dos motivadores de se iniciar um projeto sem qualquer garantia, mas diferente de tudo:

‘’Já tinha visto Sasha tocar algumas vezes, mas ver aquele semblante em estado de graça foi inacreditável.
Quando me perguntam como foi essa noite, apenas repito as palavras do próprio: “it was a legend ” e acrescento ainda escrito em ouro para que nada e ninguém possa apagar aqueles momentos mágicos de nossas mentes.
Acho que a estória da caçamba você já sabe…
Depois ele continuou tocando na sala da minha casa, pode imaginar isso??
Só tenho a agradecer, meu ídolo virou meu amigo! ‘’

É importante salientar que 2006 foi um ano ímpar nas histórias de Sasha e do Warung. Apesar de a década de 90 o ter levado ao estrelato, sendo o primeiro Dj a conhecer o interior de um jato particular e receber mais de 50 mil dólares por duas horas de show, ele teve seu auge na década seguinte. A eleição como número 1 da DJ mag em 2000, o primeiro álbum autoral em 2002, indicações ao Grammy, o início da série involver e depois do seu projeto live, Sasha chegava ao templo apresentando sua melhor versão. Como nenhum outro grande DJ jamais tinha se aventurado a pensar, criou sua própria controladora (Maven) que lhe permitia desconstruir as músicas ao vivo com o suporte de um do Imac G5 e o software ableton por quanto tempo quisesse. No lado do templo, com um público interessado, emotivo e fiel, abraçados por um amanhecer ilustrado pelo sol, o clube tinha sido eleito como um dos 3 melhores do mundo pela revista inglesa mixmag, todos tinham seus olhos voltados para aquele triângulo de madeira e o Brasil finalmente tinha um ponto de parada obrigatório para qualquer DJ que quisesse estar em um dos melhores.

Essa soma de fatores internos e externos estava em ebuluição, e alguma coisa iria acontecer. Em seus longsets, Sasha traça uma linha tênue entre a sutileza em que te deixa confuso no começo, até a imposição de um ritmo intenso, inquebrável e paradoxal de sua verdadeira capacidade estarrecedora de alinhar elementos em sequência, no decorrer da noite desdobra loops, efeitos e recortes de vocais misturando varias faixas ao mesmo tempo até despertar sua mais profunda energia, formada por uma explosão emocional, e quando você se der conta, já se passaram varias horas.

Naquele dia, Sasha inverteu o senso comum e atravessou a noite para o dia surpreendendo e emocionando música após música, eu não estive lá, mas os depoimentos ainda apaixonados de todas as pessoas com quem falei e as oportunidades de te-lo visto em suas vindas nos últimos anos me mostram isso. Estou conformado de que nunca nada vai ser como aquele set, a expectativa da primeira vez é insuperável, e a possibilidade de escolher quando parar é imbatível. Ainda assim, Sasha está novamente em uma grande fase, seu ultimo álbum o colocou em mais um degrau, se é que ele tem limites de onde pode ir, e mais, o dia 28 é o mesmo de 2006, ele terá 5 ou 6 horas (mais?) para trabalhar, vai estar em sua pista favorita, e promete transcender uma vez mais os horizontes de todos que estiverem presentes. Espero que esse texto possa de  alguma forma aliviar a dúvida dos que se criaram em outro momento, e desperte novamente os sentimentos perdidos daqueles que vieram desse estilo de entender música. A todos, Sasha nos aguarda!


Acompanhe os contatos do artista. Fotos em crédito: Fabio Mergulhão

https://www.facebook.com/events/1742080039391519/

http://www.djsasha.com/

https://www.residentadvisor.net/dj/sasha

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