“Sem solidez, sem profundidade, não há futuro”; uma entrevista com o lendário DJ Meme

Flávio Lerner bate um papo maroto com o “pai da house music brasileira”, o impagável DJ Meme

Falar sobre Marcello Mansur, o DJ Meme [pronuncia-se Memê], em poucos caracteres é das tarefas mais difíceis. O DJ e produtor musical — produtor mesmo, no sentido de dirigir outros artistas, não apenas como produtor de dance music — tem uma das histórias mais ricas e é um dos caras mais pioneiros da nossa cultura de pista brasileira, sendo considerado o DJ brasileiro mais famoso no exterior. Já se apresentou nos quatro cantos do mundo, foi um dos precursores da house music e da remixagem no Brasil, trabalhou em rádio, discoteca desde os 11 anos em bailinhos do Rio de Janeiro, fez parceria profissional e amizade com gente do calibre de Frankie Knuckles, David Morales, Dimitri From Paris, Gilberto Gil, Lulu Santos [uma de suas mais notáveis parcerias] e Roberto Carlos [o cantor, não o lateral esquerdo] e foi considerado responsável pela explosão internacional da Shakira, graças a seu remix para Estoy Aqui.

Mas não é apenas o passado glorioso que o diferencia; Meme é um dos raros artistas veteranos que está sempre em busca da renovação, trabalhando para manter-se contemporâneo. Mais recentemente, lançou seu primeiro selo, a Memix Recordings, que está usando, em um primeiro momento, para soltar tracks suas sobre diferentes pseudônimos — assinou como Mansur em Sun of a Gun, o primeiro release da label, que lançará no dia 23 Disco Knights, desta vez como Meme.

Com uma história tão rica, é natural que a conversa com ele fosse render — e como rendeu! O papo que você lê abaixo é uma das maiores entrevistas já feitas para a Phouse, mas não se intimide com o tamanho, pois, garanto, cada palavra vale a pena. E isso que esta não é toda a conversa! Há ainda toda uma outra parte da minha prosa com o Meme — que, enquanto publicamos esta matéria, está em Amsterdã, comandando dois workshops dentro do ADE — na qual focamos mais no seu passado, que sairá em breve no LOFT55.

O set mais recente de Meme é de sua gig no RiR, com Kerri Chandler, Barbara Tucker e DJ Q

Oi Meme, como vai? Você segue dormindo todos os dias depois das 06h? Eu, com 25 anos, já não consigo mais fazer isso, fico imprestável no dia seguinte.

Comecei essa vida noturna aos 15 anos. Nunca mais parei. Meu metabolismo nasceu para a noite e eu nem discuto mais. Meus horários são outros.

E como anda a rotina em estúdio? Quando vamos ter aquele segundo lançamento da Memix Recordings? Você assina dessa vez como Meme, não é mesmo?

Sim. Depois que criei o selo parece que tirei uma rolha da criatividade que nem eu mesmo sabia que existia. Fiz três músicas inteiras em uma semana. O próximo lançamento já esta na agulha para este mês. Chama-se DJ Meme – Disco Knights.

O que define um lançamento como Meme de um como Mansur ou outro pseudônimo seu?

A diferença na linha musical. Sou da house desde que ela surgiu, como todos sabem, mas da mesma forma que gosto de jazz, gosto também de bossa nova, drum’n’bass e techno. Dou-me ao direito de explorar e arriscar o que eu quiser dentro de qualquer coisa que me agrade, mas percebi com a minha experiência que o público e a crítica tendem a botar uma etiqueta em você, relacionando-o com este ou aquele estilo musical. Alguns artistas que não conseguem lidar com isso morrem no meio do caminho quando tentam mudar, pois ninguém os aceita, entende? Se você marcou sua carreira com um tipo de sonoridade especifica, a expectativa dos outros sobre o seu trabalho é sempre fechada naquele gênero, e mesmo se a música for ótima, mas não estiver dentro do que esperam de você, a tendência geral é estranhar e repelir.

A experiência lançando uma música como Mansur foi excelente. Cheguei ao 1º lugar em vendas no Traxsource, o maior site de venda de house music no mundo. Mesmo não sendo tão distante do que eu faço, havia diferenças sutis entre Mansur e DJ Meme, e quem nunca ouviu falar de mim saiu aplaudindo Mansur como um artista novo. Meu foco é a música e não o meu nome.

Com samples da clássica Pump of the Jam, Sun of a Gun é o primeiro release da Memix

Cara, o que você acredita que lhe tornou um DJ e produtor musical tão consagrado? Isto é, sem contar a parte do amor pela música, porque isso uma cambada de gente também tem e não faz um trigésimo do seu sucesso…

Primeiro, muito trabalho. Minha energia para a musica despertou aos 11 anos de idade, quando descobri que eu podia controlá-la de alguma forma e usá-la para mudar as coisas à minha volta. Desde então meu entusiasmo é o mesmo. Não houve nenhuma razão ou frustração para me tirar do caminho.

Em segundo lugar, acho que a quantidade de oportunidades que eu tive me deu uma experiência que nenhum DJ no Brasil ainda alcançou: comecei na década de 70 tocando disco underground; parti para a house quando ainda era underground e nem as rádios tocavam; fiz bailes de subúrbio nos anos 80, quando o funk eletrônico ainda nem existia. Depois veio a etapa “adulta”, quando entrei para rádios enquanto ao mesmo tempo ainda segurava pistas.

Aprendi sobre música pop e simultaneamente tive programas de rádio de vanguarda que tocavam o que nenhum outro programa tocava, mostrando a house music via satélite para todo o Brasil. Depois, por conta da soma do meu aprendizado em rádios com pistas, acabei ganhando a oportunidade de ser um dos pioneiros do remix no Brasil. Eu e mais quatro pessoas abrimos as portas dessa arte para todos, antes mesmo de existir o termo “DJ/Produtor”, e justamente por ser remixer na década de 80 e aprender sobre estúdios antes de todos, o som que eu fazia nos remixes encantou artistas e gravadoras, que me chamaram para produzir discos a partir do zero. Dei a sorte de ter discos que venderam milhões e aprender mais ainda com gente grande dentro de estúdio. Quando “estou” produtor de música brasileira, vou de A à Z. De Gil a Roberto Carlos. De Shakira a Lulu Santos. De Gabriel o Pensador à Paula Lima.

Enquanto nascia a cena eletrônica brasileira na década de 90, lá estava eu ajudando a construí-la. Criei junto com Iraí Campos o primeiro curso para DJs do Brasil; participei dos primeiros Skol Beats; fui do casting da nossa primeira agência de DJs, a Hypno. No início do ano 2000, com o surgimento da internet, conectei-me às gravadoras do exterior e comecei a fazer remixes e lançar músicas fora do Brasil por selos que eu mesmo idolatrava, como a Defected e a Soulfuric, e virei o jogo sendo artista deles, também colocando uma música em 2º lugar na DJ MAG Hype Charts, a parada mais importante naquele momento em 2004. Esse acontecimento gerou um interesse mundial da cena house pelo meu nome, e caí na estrada iniciando idas e vindas para tocar em outros países que queriam ouvir o som daquele cara que fez aquela track que deu certo. Hoje vou da Colômbia à Coreia, de Nova Iorque a Bali, e volto para tocar em Maringá no fim de semana seguinte.

Todo esse aprendizado é único e certamente me deu uma bagagem que não se compra e não se aprende em cursos, e pode ter certeza de que eu a uso muito bem.  Fatidicamente isso me coloca com certa vantagem em relação à “cambada de gente” que você citou, até porque algumas dessas oportunidades jamais existirão de novo, pois o mundo mudou e as experiências hoje são mais fugazes e menores. É a ordem do século 21.

Pegue isso tudo e faça uma limonada. Eis a resposta à sua pergunta!

dj meme

Assim como nomes como Mau Mau, Magal e Marky, você leva muita fama e reconhecimento por ser um dos pioneiros da dance culture no Brasil. Atualmente, a maioria esmagadora dos DJs consolida suas carreiras pela produção musical. Não parece que um DJ, para fazer sucesso, sempre precisa se destacar em algo além dos seus DJ sets?

Bem, que um DJ precisa ter um hit próprio para se destacar, isso todo mundo já sabe. É um caminho sem volta e não adianta espernear, mas concordo com você que é triste ver que quanto mais importantes ficaram os DJs, menos importante ficou a música. Isso é de doer.

Hoje, os DJs estão mais preocupados com seus aftermovies do que com seus sets. O que ainda não perceberam é que já chegamos num ponto em que todos os aftermovies estão iguais, com a mesma fórmula. É o momento EDM do aftermovie. Cada vez que eu faço um, fico me perguntando se deveria ter feito mesmo, mas faz parte. Não sou eu que dito regras, mas procuro segui-las de maneira bem diferente. O meu destaque estará aí. Não sou de obedecer a regras quando tratamos de arte.

De quando você começou a tocar aos dias de hoje; o que melhorou e o que piorou na cena DJ mundial e na brasileira?

Olha, não sou saudosista. Não sou de discutir se “DJ de verdade toca vinil” ou se “a cena está cheia de coxinhas”, mas acho que a tecnologia é o ponto alto da discussão, pois suas vantagens são benéficas e maléficas ao mesmo tempo. Ela permitiu que eu melhorasse muito a minha técnica e facilitou para que eu tivesse mais rapidez e maior acesso a músicas que antes não eram possíveis de conseguir. Isso mudou a minha vida e me deu um supergás para tocar, mas essa vantagem em mãos erradas pode causar desastres. Pense que um dia o preço de uma Ferrari vai ser igual ao de um Corsa e que todos poderão tê-la em suas garagens. Certamente os bons motoristas vão ficar melhores, mas os ruins vão bater no primeiro poste porque vão achar que já são fodas. É o que vem acontecendo.

No momento em que as facilidades aparecem, o cara que antes não virava DJ por nunca conseguir juntar uma batida com outra compra um laptop vagabundo, bota um programa que junta os beats, leva 30 músicas de sucesso para duas horas de set e sobe ao pódio como se fosse o Tiesto — e como esses caras são muitos e em maior número, tal fato acaba por gerar uma imagem pública errada do DJ. No momento em que um palhaço que não sabe tocar tem a brilhante ideia de comer alguém famoso e subir na mesa pra rebolar e levantar os braços — e todos como ele vêm atrás —, o público começa a cobrar a mesma coisa dos bons DJs, e aí o establishment muda. O foco muda. Outro dia fui cobrado por uma menina por estar “desanimado” na cabine, somente porque eu não estava bebendo champanhe no gargalo ou levantando o braço junto com a música. Vai pá porra, né?

Uma pequena seleção entre os mais de 150 remixes já produzidos pelo DJ

Fala-se muito também sobre esse lance de música comercial e EDM… Vendo de fora, a gente tem a impressão que você respeita, mas não gosta dessa esfera mais farofeira da música. Ao mesmo tempo, como você mesmo diz, aprendeu com a rádio a formatação da música pop. Como se dá pra você esse equilíbrio entre música enquanto arte e enquanto produto?

Acredito no equilíbrio. Essa é a chave para diversas culturas e métodos coexistirem. Eu procuro usar no meu trabalho medidas diferentes para objetivos diferentes de tudo o que eu aprendi. Se fui comissionado por alguém para fazer um remix para rádios, vou usar uma porção pop um pouco maior. Caso esse remix seja para pista, uso outros ingredientes. Caso seja algo para o exterior, também já peso tudo em outra balança. Nesse momento é que vale a experiência e o bom uso dela, mas claro, isso não quer dizer que eu acerte sempre, né?  Ninguém tem a fórmula.

Você vê muita gente de sucesso pensando mais no dinheiro do que na arte?

Ô! Mas isso não é exclusivo da nossa cultura clubber, né? O dinheiro move o mundo e também empurra a arte. Ainda bem que nem todo mundo pensa somente no dinheiro. Os que mudam o mundo são chamados de loucos antes de serem chamados de gênios. Sorte é ver que muitos desses loucos continuam mantendo suas visões artísticas depois que ganham dinheiro.

Na fanpage da Phouse, li esses tempos um comentário certeiro, que me marcou: “brasileiro tem que começar a apreciar melodia, não só grave depressivo e sombrio”. Como apreciador nato de melodia, você concorda que, estranhamente, ela está em baixa na nossa cultura clubber?

Neste momento acho justamente o oposto. Vejo as melodias voltando. Vejo cada vez mais músicas cantadas e o povo levando isso pra casa. Antes, você saía de um club e não conseguia lembrar porra nenhuma do que havia tocado. Era uma briga por quem vestia mais roupa preta — que eu amo — ou tocava mais estranho. Hoje vejo tudo voltando às melodias. Até o house mais cabeçudo esta trazendo isso de volta. Sempre tem uma melodiazinha “pra você e eu e todo mundo cantá juntoooo”.

De 2005, Chanson Du Soleil (Sun is Coming Out) é um dos maiores hits do DJ Meme

Li no blog do amigo Carlinhos Kunde que você tava curtindo muito o Claes Rosen, e fiquei felizaço porque eu também gosto bastante — já cansei de tocar Tortuga por aí… Que mais você tem curtido de bom?

Incrivelmente no momento ando tocando e aplaudindo nossos conterrâneos que estão arrasando e fazendo bonito — alguns nas pistas daqui e outros já chegaram lá fora. Chemical Surf, Dakar Carvalho, Keskem e o casal Nana Torres e Glen fazem a minha cabeça agora.

Ficou famoso o episódio em que você “defendeu o Alok”, chamando-o até de herói nacional. Tem essa safra da nova geração que vem bombando por aí — Alok, Fabo, HNQO, Vintage Culture —, mas também parecem ser sempre os mesmos nomes e o mesmo tipo de som. Como você enxerga isso?

Defendi o Alok não pelo som dele, até porque eu não conheço a música que ele faz, mas porque como todos no País eu me senti atingido por aquele babaca do Amine Edge e, além disso, naquele exato momento o Alok representava um ponto de referência na nossa cena local que precisa sim de heróis nacionais para dividir a babação pelos gringos.

Quando eu recebi o prêmio RMC Personalidade Do Ano, em 2011, eu fiz meu discurso de agradecimento aproveitando que todos os donos de club estavam ali. Alertei a todos para que começassem a aumentar os nomes dos nossos DJs no flyer e valorizassem um pouco mais o que temos aqui, pois no dia em que alguma coisa impedi-los de trazer os gringos, o público não teria conhecimento dos nossos próprios DJs, que estão sempre com nomes menores. Não deu outra. O dólar tratou de fazer isso agora.

Quanto ao produto brasileiro, como eu já disse, bato palmas para quem é de verdade. Aos que ao invés de gerar música preferem focar mais no corte da barba, nas fotos e nos aftermovies, eu infelizmente prevejo dificuldades pela frente. O público que ama isso não é fiel, e muda instantaneamente para o outro lado da rua quando algo novo aparece. Sem solidez, sem profundidade, não há futuro. Só existe um ingrediente que faz um artista cair, levantar e subir de novo. Chama-se talento… E pra isso, não há plugin.

Pra finalizar, o que podemos esperar do Meme para o final deste ano e para 2016?

Que eu consiga dormir um pouquinho mais [risos].

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