Análise

Tecnoxamanismo no tecido urbano: Tantša e a força de um ritual comunal

Tantša
Conheça a Tantša, festa que apresenta outra face do techno em meio a rica cena alternativa de São Paulo.
* Fotos por Image Dealers

Após um período inicial de posicionamento entre pares de peso em São Paulo, a itinerante Tantša se estabeleceu como uma das alternativas mais empenhadas curatorialmente com uma conexão estética entre a cena paulistana e o universo do techno transatlântico. Não que isto a tenha limitado esteticamente ou muito menos se estabelecido como um tipo de horizonte intransponível, mas foi exatamente esse comprometimento conceitual que colaborou diretamente para seu momento atual como um dos mais confiáveis centros de celebração corporal e nutrição cerebral em torno do gênero.

Itinerante desde sua primeira edição — em setembro do ano passado —, ela é a materialização dos anseios de um par de amantes da música eletrônica oriundos de cidades cuja vida cultural guarda pouca semelhança com a metrópole, mas cuja visão se projetou sobre um cenário urbano e musical auspicioso no momento certeiro. Madu e Victor viram uma fresta justamente onde sentiam que seus gostos não eram exatamente contemplados na já consideravelmente ampla oferta musical na vida noturna da cidade. Foi daí que surgiu o ímpeto de criar um evento que, segundo eles, “desse a experiência que buscávamos”.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
...

Um início comum a tantas outras iniciativas que hoje pontuam a vida noturna da capital paulista, mas que no caso deles, se materializou através de um conceito muito bem definido daquilo que o gênero pode significar: “Techno para nós é um som para dançar… até cansar. O homem contemporâneo e o homem das cavernas não são muito diferentes. Há milhares de anos eles se reuniam em tribos, pintavam seus corpos e dançavam ao ritmo de tambores em cavernas escuras. Hoje nos encontramos em clubes e galpões abandonados, tatuamos nossos corpos e dançamos até o amanhecer ao som do bumbo que reverbera das caixas de som. O instinto é o mesmo, é atemporal. Tantša significa ‘dança’ em SeSotho, um dialeto sul-africano”. Uma ideia original bastante irrepreensível em sua intenção que a dupla buscou tornar impecável em sua execução.

O DJ ucraniano Etapp Kyle já teve faixas lançadas por selos como Klockworks e Ostgut Ton, e é um dos curadores da Tantša

As diretrizes que guiaram cada edição se mantiveram firmes, muito por conta destes princípios e das preferências musicais comuns deles — elementos que guiaram as escolhas de headliners por um campo percussivo, futurista e industrial que ressoou no interior do público amante do techno local de forma poderosa. E foi assim que, após inícios discretos, nos quais apostaram em artistas que atrairiam o tipo de conhecedor com o qual eles mesmos se identificavam, cimentaram sua reputação entre um nicho que pudesse comportar nomes como Dubspeeka e Acronym, partindo em seguida para Cleric, Lewis Fautzi, Ettap Kyle e Answer Code Request, estendendo o convite a outros mais amplamente conhecidos, como Perc e Radio Slave, mais recentemente.

Tantša

Além disso, o projeto ofereceu desde seus primeiros momentos uma forte presença visual e autenticidade linguística, que pautaram sua identidade em meio a uma variada fauna festiva. Nessa linguagem, cada iniciativa procura se distinguir através de idiomas cifrados e propostas plásticas exuberantes em sua comunicação. Para eles, a o papel desses componentes é integral ao conceito: “Somados à dança, essas três expressões artísticas formam o alicerce conceitual da Tantša. Todas representam um conjunto de relações sintético-orgânicas dos seres humanos. Gostamos de dizer que é um olhar do presente para o passado, e deste para o futuro”.

O duo paulistano Lacozta (formado por L_cio e Daniel Cozta) foi atração da Tantša em março

E é com um senso de pertencimento a este momento fértil da noite paulistana que sua proposta vicejou, e ambos estão bem cientes de que o caminho que trilham foi pavimentado por uma sequência de esforços que construíram o momento atual. “O momento atual da música eletrônica em SP é fruto dessas iniciativas, então indiretamente somos parte dessa prole. Enxergamos um ambiente mais propício a ‘coopetição’ — ou seja, cooperar com um senso de competição, que faz todos subirem a régua e serem melhores para si e para o público.” E aqui eles expressam um sentimento que certamente é benéfico para toda a comunidade, mantendo sua coesão e fazendo a sua pujança atual.

Tantša

Este é o contexto da Tantša hoje em dia: prenhe de um imenso potencial que de pouco valeria se não fosse a visão de seus timoneiros, uma que parece estar bem fixada no futuro de seu empreendimento e do mercado em que ele se insere. É assim que eles agregam perspectivas musicais, visuais e profissionais a uma já prismática gama de projetos que colorem a noite da metrópole e, no processo, se consolidam como uma referência dentro do seu cenáculo pelo mundo todo. Metonímia pelo método e pelo efeito.

* Chico Cornejo é colaborador eventual da Phouse.

LEIA TAMBÉM:

Método na loucura e olhos no horizonte: conheça o trabalho da LAUD

Famoso edit de clássico de Chico Buarque ganha lançamento oficial

Fotógrafo da Image Dealers narra sua trajetória e dá dicas para o sucesso na área

Lúdico, subversivo e impactante: conheça o universo de Carlos Capslock

Para curador, Tribaltech vai se consolidar como “evento-postal” de Curitiba

Deixe um comentário

No Comments Yet

Comments are closed