Entrevista

Com 3 anos, o coletivo Trip to Deep ajudou a consolidar a cena catarinense

Trip to Deep
Entrevistamos Luís Henke, idealizador de um dos projetos mais importantes da cena eletrônica de Florianópolis
Fotos por Masiero Santos e Ronei Junior; vídeo por Thiago Machado

Há pouco mais de dez anos, o auge da cena eletrônica no norte catarinense atingia seu ápice. Na época, todos se perguntavam o que acontecia em Balneário Camboriú e região para conseguirem ter um movimento noturno tão intenso e diversificado, com dezenas de clubs abrindo de segunda a segunda durante todo o ano. Paralelamente, a capital do Estado central sulista praticamente vivia dias de miséria, onde até existia uma cena comercial de verão, porém muito superficial, sendo levada por um público jovem interessado em outros tipos de vida noturna.

Ouvia-se que Florianópolis possuía muito mais potencial do que a cidade dos ainda não tão famosos prédios mais altos do país, por ter uma infraestrutura viária boa, aeroporto considerável para os padrões do Sul e universidades recebendo muitas pessoas novas todos os anos — e que supostamente buscavam lugares para se divertir. Mas principalmente por ser uma ilha, faziam-se comparações com certa outra espanhola. Diversos pilares para potencializar o surgimento da música eletrônica estavam ali, porém o título de “Ibiza brasileira” era concedido a BC.

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Mas então, o que estava faltando? O turismo de verão sempre foi um dos mais rentáveis do país, com possíveis espaços para realização de eventos bem mais amplos do que em outros pontos do litoral. No mais, você sabe, capital é capital — historicamente sempre foi onde os movimentos surgiram, desde música e arte até política. De fato era uma situação difícil de entender na época, parece que simplesmente não rolava. Tudo começou a mudar quando o complexo de clubs em Jurerê Internacional — praia mais badalada e requisitada da cidade — recebeu o Terraza Music Park.

Aos poucos, o club resistiu através da soma de ótimos DJs residentes e uma curadoria que sempre buscou autenticidade diante do que o público poderia entender. Foi a faísca que faltava para colocar a cidade como referência no país e, hoje, no mundo. A partir disso, parece que a roda da música dita como “underground” começou a girar e, como seria de se esperar, diversos outros núcleos menores surgiram buscando atingir outros tipos de movimento dentro da cultura eletrônica, como o Sounds in da City.

Trip to Deep

Uma cena só é possível de se estender quando consegue sempre estar se inovando com determinada quantidade de pessoas dispostas a entrar nesse processo. Entre essas viradas, há três anos surgiu a Trip to Deep, evento inicialmente itinerante, que veio a se estabelecer mais tarde em um club no centro da cidade. A ideia frontal de seu mentor era mixar música experimental — mas que funcionasse para pista —, resgate cultural da cidade, interação social, e principalmente a promoção de uma ideia de comunidade como forma de evolução pessoal. Isso tudo tendo como ancora música de qualidade.

Aos poucos, até projetos sociais foram introduzidos e a marca ganhou respeito e admiração dos frequentadores da noite em Floripa e região. Histórias como essa, de como cenários não conseguem surgir mesmo em ambientes propícios, são ótimos exemplos de como é difícil ainda promover música eletrônica em nosso país. Porém, nossa amostragem hoje é de algo que vem dando certo, e que revela que a formalização de ideias que fazem parte do imaginário coletivo e estão no anseio da sociedade contemporânea, pode ser uma das chaves que venha a sustentar pessoas ao entorno de uma marca.

A Trip to Deep é resultado de criatividade e espírito inovador que tem feito Floripa ser um dos polos da dance music em toda a América do Sul. Para entender um pouco melhor como essa engrenagem funciona, fomos conversar com Luís Hencke — artista que buscou criar seu próprio espaço, e tem sido peça fundamental dessa consolidação.

Luís, conte-nos de onde vem suas influências para idealizar a Trip to Deep, e como ela aconteceu nos primeiros eventos.

A Trip to Deep surgiu de viagens a fundo pela música. Momentos assim me fizeram despertar e compreender as infinitas possibilidades e sensações que a música tem o poder de proporcionar.

As primeiras sementes foram plantadas com bastante carinho.  Desde sempre usamos a música como forma expressão e união — já fizemos eventos nos mais variados formatos, todos sem perder a essência e o propósito do projeto.

O quão importante é o perfil cultural da cidade para do sucesso de um evento como o seu?

Além do privilégio de estar em uma região repleta de riquezas naturais e pontos turísticos, a diversidade cultural que encontramos em Floripa é uma característica que reflete e impulsiona positivamente o todo.

A cidade abraçou verdadeiramente a música eletrônica e aprendeu como viver junto a ela.

De certa forma, a Phouse também é resultado do crescimento da cena em Floripa. Apesar de a revista focar no Brasil inteiro, as bases foram estabelecidas na capital catarinense. Hoje são diversos DJs e artistas que escolhem viver na cidade pela importância que tem. Como você tem visto essa evolução?

Tudo evoluiu rápido demais. Hoje são muitas as pessoas de fora que realizam o sonho de morar e tentar a vida aqui. Estamos no centro de uma ilha paradisíaca, que se consolidou como uma das principais rotas de importantes artistas e labels da música eletrônica nacional e internacional.

Eu sou muito novo e acompanhei apenas parte dessa evolução, mas vejo que importantes marcas como a Phouse e o Alataj fizeram um excelente trabalho para a disseminação da música eletrônica e o amadurecimento do cenário regional.

A personalidade musical da Trip to Deep parece ter tendências experimentais, algo importante dentro do contexto de um cenário maior. Você enxerga o evento como um ponto de início de novos adeptos à música eletrônica ou daqueles que já estão buscando um algo a mais?

Para nós, a música é livre de rótulos. O que estamos fazendo em Floripa é quase um ponto fora da curva. Na festa, atualmente frequentam pessoas ecléticas e outras que já estão familiarizadas às sonoridades eletrônicas. O mais importante é que sempre reunimos um público enérgico e curioso, que está em constante busca por novas descobertas musicais.

Trip to Deep

O live da Mari Hezner foi atração de uma das edições da Trip to Deep

Nesses quase quatro anos de existência, você destacaria algum artista ou momento em que o público mais se identificou?

Desde o início do projeto nos identificamos, arrepiamos, dançamos e curtimos diversos artistas inspiradores. Seria impossível citar apenas um, mas entre os destaques estão L_cio, Finnebassen, WyroMari HerzerEXZ, Shadow Movement e Nicolas Pera. Além, claro, dos nossos residentes, Alaikke, Aspeckt, Danee, Marqs, Mezomo, Spaniol e Marcelo Oriano.

Um dos destaques da Trip é a busca por interações sociais do publico. Quando a música transcende o objetivo fundamental e propõe ações que refletem em toda sociedade, é algo notório. É nesse sentido que você incluiu o projeto de arrecadação de brinquedos?

Exatamente. O coletivo busca, sempre, fazer a sua parte em relação à sociedade e o universo. Além dos 500 brinquedos arrecadados nas últimas semanas, somente neste ano foram doadas mais de mil peças de roupas (agasalhos e cobertores) e mais de 500kgs de alimentos, chocolates e materiais escolares para crianças carentes.

O que tem acontecido neste semestre e o que vem por ai na programação?

Neste semestre muita coisa boa aconteceu, como a estreia dos residentes Alaikke e Danee. Também rolaram parcerias com agências e núcleos como Plusnetwork, D.Agency, Carlos Capslock, Sunset Sessions, Mamba Negra, Sonido Trópico e Detroitbr.

Para o fim de ano já temos confirmado: Apoena, L_cio, Tessuto, Gerra G, Shadow Movement e Entropia Entalpia (Mamba Negra).

Como artista integrante da marca, como tem percebido o reflexo da sua festa em seu próprio entendimento sobre música?

O reflexo é surpreendente e positivo. Educar um público que até então conhecia muito pouco sobre determinadas sonoridades requer persistência e planejamento. O caminho escolhido para isso não poderia ter sido melhor. Devagar e sem pular etapas, respeitando as pessoas e todas as dificuldades do cenário.

Para o futuro, idealizamos o lançamento da nossa gravadora, que levará o mesmo nome da festa. O primeiro VA já é uma realidade e conta com a participação de diversos artistas, inclusive citados nesta entrevista. Estamos bastante ansiosos para apresentar o resultado.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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