Um ano revolucionário: como a Base ajudou a reconstruir a cena de Porto Alegre

Depois de uma década sem perspectivas, a cultura eletrônica foi resgatada na capital gaúcha graças a núcleos alternativos de house e techno como a Base, que completa um ano.

Foto: Felipe Gaieski

A cena clubber de Porto Alegre começou promissora. Com casas como o Fim de Século e DJs como Fabrício Peçanha, a capital gaúcha vivia um período dourado, sem deixar de conversar com o mundo ou devendo pra São Paulo. Contudo, na virada do milênio ela minguou e teve uma década deprê: o público envelheceu e não havia nenhum club de música eletrônica, apenas algumas bravas iniciativas e outras tantas tentativas frustradas por falta de público e estrutura. Era unânime: música de pista no Rio Grande do Sul, por dez anos, significava interior e Serra Gaúcha — exceção feita para alguns clubes premium, que se mantinham com a eletrônica comercial.

Nos últimos tempos essa maré começou a virar, e 2016 foi um ano-chave. Inspirados por coletivos como a VOODOOHOP, em São Paulo — um dos núcleos recentes mais influentes da cultura de pista alternativa no Brasil, responsável por catalisar em 2014 o movimento das festas de rua —, muitos jovens de POA começaram a batalhar pelo resgate da cultura DJ. Alguns deles integravam o coletivo Arruaça, um grupo que promovia shows e festas nas ruas do centro da cidade, de graça; a música de pista começava a dar novamente as caras.

Foto: Fabio Alt

Os pisteiros da Arruaça passaram a construir outras festas, que foram influenciando o surgimento de outras. Em 2015, já era possível se animar e perceber que, mesmo sem um clube decente, as coisas enfim estavam mudando, mas existia ainda um gap entre a geração nova e os veteranos. Faltava uma festa que unisse todas as tribos, como foi o Norvana. Em janeiro de 2016, os DJs da Arruaça Gabriel Bernardo [GB] e Ana Paula Posada se juntaram aos amigos Ezequiel [hoje em Berlim] e Hotto [de Passo Fundo] com esse intuito, produzindo um projeto no Anexo B — uma boate pop. Surpreendentemente, a noite de techno foi muito bem recebida, juntando o público jovem da casa com pessoas de praticamente todos os nichos da cena “underground”, e aquela primeira edição da Base tornou-se um marco desse novo movimento. Hoje, apesar de ainda ter muito chão pela frente, já se pode dizer que há uma cena clubber sustentável na capital, e a Base foi uma das iniciativas protagonistas para isso.

Porém, a linha de ascensão não foi progressiva. Mesmo trazendo sempre grandes nomes do Brasil — como a Cashu, da Mamba Negra [SP], e o carioca Manara —, houve muitas intempéries. O Anexo B se transformou em OBRA, um clube temporário que vislumbrava a possibilidade de ser, enfim, o tão sonhado reduto da música de pista da cidade, mas fracassou. O público e o retorno financeiro caíram. “O nosso pior momento foi o calote que levamos do OBRA após a edição de junho. Isso nos fez atrasar o pagamento dos parceiros, nos deixou dois meses sem fazer a festa”, conta o GB.

Foto: Felipe Gaieski

Mais uma vez tendo a influência de projetos de São Paulo, como a ODD, a Capslock e a própria Mamba Negra — além da Vorlat, outra personagem dessa retomada gaúcha —, a solução encontrada foi dispensar os clubes, assumindo o formato de squat parties que guiou toda a cultura raver europeia dos anos 90. Depois de um breve hiato, a Base retornou em setembro, em um prédio comercial desativado. O sucesso voltou. “A grande virada foi quando precisamos sair do clube. Isso nos permitiu ousar mais, o que produziu o crescimento que rolou nos últimos meses”, segue o DJ. “Em setembro, ocupamos o prédio comercial na [Avenida] Osvaldo Aranha, com lotação máxima e mais de 200 pessoas de fora. Teve a edição de outubro com duas pistas, completamente lotada também, e em novembro rolou no estacionamento, no meio do centrão; e a última foi em um galpão na Zona Industrial da cidade, um horizonte que sempre tivemos.”

Neste sábado, a Base completa seu primeiro aniversário, e traz como atração o DJ Márcio Vermelho, expoente paulistano e um dos produtores da ODD, ao lado de Davis e Zopelar. A balada rola a partir das 23h e, como de praxe, o lugar só será revelado no dia. A expectativa é por uma noite de diversão e escapismo, mas também de ativismo, já que o núcleo entende que dançar é um ato político. “Não existe ação no mundo que seja neutra, sempre que agimos nos posicionamos. E um ponto bem interessante de pensar que ‘dançar é um ato político’ é a profanação da ideia que se tem de política, de que seria algo sério, frio.”

Foto: Pedro Braga

Com um público crescente, o GB, a Posada e o Hotto vislumbram um 2017 ainda melhor. Há um intercâmbio forte entre eles e núcleos similares de São Paulo e Minas Gerais, o que definitivamente ajuda a estabelecer Porto Alegre no mapa nacional e seguir fomentando a cena. A esperança é de que surja uma nova era dourada como a do passado — algo que há dois anos parecia muito distante. “Uma característica importante desse novo momento da cena brasileira é a vontade de construir junto, em rede, algo bem colaborativo mesmo. Essa triangulação Porto Alegre–Belo Horizonte–São Paulo está demais! Me lembra as histórias sobre o início da cena de música eletrônica no Brasil, quando a galera usava o MIRC pra construir a rede”, continua o GB. “A ideia pra 2017 é seguir crescendo. Nós começamos a festa em janeiro e até o meio do ano com público médio de 250 pessoas — nas últimas quatro edições tivemos entre 400 e 500. Queremos trazer mais gente, até pra viabilizar outros artistas. Estamos com uma ótima expectativa pra este ano, acho que vai dar bom! Nós recém começamos…” ~

* Flávio Lerner é colunista da Phouse e editor do LOFT55; você pode segui-lo no Twitter.

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