Um mal necessário chamado cooptação

Reality show de Simon Cowell é um bom exemplo do fenômeno que explica a exploração mercadológica de determinado estilo de vida

Qual o fã que nunca passou pela sensação de revolta ao sentir que “estão roubando” o seu estilo ou artista preferido? Sobretudo na adolescência, em uma fase em que somos tão maduros quanto bananas verdes, é normal ficarmos putos da cara quando aquele gênero que a gente sacou antes de todo mundo e passou a definir o nosso caráter começa a atingir um sucesso cada vez maior, fazendo com que aquele pessoal palha que vivia nos zoando no colégio de repente se apropriasse do nosso segredinho.

A falta de maturidade juvenil, contudo, não basta para explicar esse fenômeno. Parece razoável, mesmo pra caras barbados e moças feitas, certa indignação quando aquilo que a gente acredita começa a gradualmente perder os seus valores. A maturidade, nesse caso, vem com o entendimento de que esse fenômeno específico, chamado cooptação, é absolutamente natural e, pior, é necessário.

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Estamos cada vez mais perto de termos a estreia do “Ultimate DJ”, o reality show de DJs do Simon Cowell, e esse talvez seja um dos mais novos exemplos de cooptação da dance music que podemos observar — tendo em vista que ele faz parte de uma cooptação maior, que é a própria EDM. Duvida? Então vamos lembrar que a cultura DJ, grosso modo, começou em uma Nova Iorque dos anos 1970 a partir da disco music, que nada mais era do que um grito de liberdade de negros e homossexuais, que tinham direitos negados pelo Estado. Assim como a disco saiu desse gueto alternativo e se popularizou globalmente, a EDM é o ápice da popularidade da música eletrônica de pista, agregando a ela um valor de mercado jamais imaginado nas décadas anteriores. Para isso, evidentemente, ela teve que se adaptar às convenções sociais vigentes, sacrificando, então, boa parte da sua profundidade, omitindo o seu discurso político de rebelião e fazendo um som muito, mas muito mais acessível — o que não é necessariamente ruim. Aliás, uma provocação: você consegue pensar em algum DJ da EDM negro ou assumidamente gay?

Simon Cowell, esperto que é, é mais um a mamar das tetas dessa fonte gigantesca de dinheiro. Agora, pense nas cenas musicais que você apreciou ao longo da vida: quais delas não passaram por essa exploração e venda a um mercado maior? O rock? O hip hop? O samba? O funk? O indie? E quer um exemplo melhor de cooptação do que a do estilo de vida punk, que surgiu como uma crítica visceral à sociedade e acabou virando produto embalado em boutiques de grife? Do modo como o nosso mundo ocidental e capitalista funciona, essas subculturas têm apenas dois caminhos: crescer e se permitirem ser sugadas pelo mercado e pela cultura de massa, tornando-se um produto palatável e inofensivo, ou morrer em si mesmas. O punk, o rock, o indie, o rap e agora a música eletrônica só não teriam sido cooptados se não tivessem feito sucesso consistente em seus nichos, e ali teriam suas trajetórias encerradas. Tendo êxito em uma amostra menor, o mercado naturalmente entende o potencial dessas subculturas para públicos maiores, e aí faz a sua mágica.

Claro, a gente segue tendo dificuldade em explicar pros nossos tios que a disco é muito mais que Abba e Village People, ou que o nosso trabalho como DJ não se resume a ser um bocó pulando no palco com a língua pra fora animando festinhas. As boas notícias são que: [1] cada cooptação tem vida curta — o marketing suga um estilo de vida até o talo e depois parte pra outra; [2] os pioneiros, os valores e a arte genuínos são eternos; e [3] um mercado pop forte desenvolve, como reação natural, um underground mais forte.

Por essas e outras, podem vir Simon, Zac Efron ou o Beatport, que insiste em catalogar tracks deprês e sem groove de nu disco; não importa, o que é de verdade transcende modismos.

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