Voa alto, passarinho; como o primeiro álbum da BLANCAh pode ser um divisor de águas pra cena eletrônica nacional

Com Nest, que será lançado no dia 30 pela Steyoyoke, a BLANCAh prova que dance music pode ir muito além de apenas música pra se consumir nas pistas de dança; pode ser poesia.

Quem vem acompanhando a cena eletrônica 4×4 no Brasil ao menos desde o ano passado dificilmente não tem deparado com ela, Patrícia Laus, a artista catarinense que chutou o balde depois de 14 anos como DJ de música comercial pra se lançar como BLANCAh, um dos projetos mais sólidos da nossa atualidade. Integrante do selo berlinense Steyoyoke, ela passou a se destacar cada vez mais não apenas por sua música, mas também por todas as outras narrativas midiáticas que complementam a sua persona. As fotografias, os desenhos [feitos por ela] ajudaram a construir uma identidade muito forte — “um pássaro que aprendeu a voar em queda livre”, como ela mesma me revelou em uma entrevista no ano passado.

Esse conceito do pássaro estava presente de alguma forma em todos os seus lançamentos até então, e agora chegou ao seu ápice, seu voo mais alto — seu último e mais poderoso ato. O álbum Nest [“Ninho”, em tradução livre] será lançado nesta sexta-feira, 30, e comprova que, de fato, a BLANCAh não está pra brincadeira. Com dez faixas, o LP apresenta uma consistência e uma profundidade que dificilmente vemos nos artistas da cena eletrônica nacional, normalmente mais preocupados com os hypes do momento e com suas posições nos charts do Beatport. Nest faz verdadeiramente jus à proposta de álbum, que, assim como um DJ set, é um pacote fechado, uma história com começo, meio e fim; uma experiência que precisa ser vivida por inteiro e na ordem em que está disposta para fazer sentido.

Por enquanto, é possível ouvir o disco no player acima em forma de set mixado, e com um diferencial: em algumas transições, temos declamações do poema de Zeina Samy, que o escreveu como resposta à audição de Nest — uma reação que apenas música com alma é capaz de provocar

“Eu sempre tive convicção de que um álbum é um momento muito especial, principalmente do nosso nicho musical onde os EPs são a forma mais popular  de apresentação. Já vi alguns LPs por aí que não passavam de coletâneas em que o artista juntou músicas de contextos fragmentados da sua carreira e chamou de álbum”, disse a Patrícia. “No meu caso, cada música que compus foi pensada pra fazer sentido no contexto da história que eu queria contar. A minha gravadora me aconselhou a fazer umas 20 faixas, para depois enxugar e ficar apenas com as melhores. Eu disse não! Expliquei que meu processo não é tão mecânico e que eu não funciono desse jeito. E deu certo!”

Assim, a BLANCAh mostra que existe um outro caminho a ser seguido — a possibilidade de, no contexto da música de pista de dança, se fazer arte, no seu sentido estrito. A exemplo de outras figuras consolidadas do nosso cenário, como o Gui Boratto, a moça abre caminho e, espero, influenciará novas gerações a optarem pelo caminho da Música, com “M” maiúsculo, em vez de contentarem-se apenas com tentativas de hits sazonais que não carregam consigo muito mais do que hedonismo vazio.

Regido pelo seu característico techno etéreo e gelado, mas sempre intenso e dinâmico, baseado na repetição de loops com camadas de sintetizadores arpeggiados, Nest também aponta pra uma versatilidade maior da sua criadora, que agora lança mão de um leque mais amplo de sonoridades, como eletrônica, downtempo e o trip hop, que já marca território desde a faixa-título. O clássico trio Portishead, aliás, foi confirmado pela Patrícia como uma de suas principais influências pra fazer esse disco, ao lado de Faithless e James Blake. O LP tem no seu começo o seu ponto mais alto, e seu principal defeito, talvez, seja a prolixidade; mesmo com apenas dez músicas, ele é bastante longo, e em determinado momento pode se tornar um pouco cansativo; não me parece ser o tipo de álbum que você escuta sem parar, mas que, pelo contrário, requer que você dê um tempo de maturação entre uma audição e outra.

Ao final, porém, ele surpreende, encerrando com a primeira canção de BLANCAh em português, “Queda do Ninho”, que dá um ponto final no que ela batizou de “ciclo dos pássaros” — isto é, toda a imagética que permeou seu projeto até hoje. “Essa é uma metodologia criativa que adotei pra minha carreira, criar ciclos bem definidos. É um meio de estar sempre me motivando e reinventando, porque nesse meio da criação é importante estar sempre faminto. Os pássaros me ajudaram muito. Eles me nortearam nos meus processos de mudança e eu os transformei na minha poesia. Eu prefiro fechar de forma consciente a correr o risco de me tornar repetitiva, cansativa”, contou, afirmando já ter uma ideia do conceito a ser abraçado daqui pra frente — que só será revelado na hora certa.

Pra encerrar de fato esse ciclo, está nos planos um live mais intimista, tocando “sentada no chão, pra poucos convidados”. A Patrícia está agora mesmo na Europa, onde faz quatro apresentações do lançamento do LP entre os dias 7 e 15 de outubro, passando por Bélgica, Líbano, Suíça e Tunísia. Quando chegar o momento, a BLANCAh precisará passar por novas provas de fogo, como o famigerado desafio do segundo álbum, e saber se reinventar sem perder a sua essência. Acompanharemos na expectativa de que ela siga se desenvolvendo, confirmando-se cada vez mais como uma das artistas mais interessantes da cena eletrônica brasileira, mas, até lá, temos bastante tempo pra ouvir e decifrar a poesia de Nest.

Tracklist:

01. Nest 
02. Urutau
03. Swan
04. Higher Ground
05. Harpia
06. Learning To Fly
07. Learning To Fall
08. Albatroz
09. Apuim
10. Queda Do Ninho

Abaixo, você confere também o que disseram outros expoentes da cena sobre Nest:

“Não tem uma faixa sequer que não tenha me tocado. Gosto de absolutamente tudo, e principalmente do quanto eleva o nível da nossa produção nacional. Sou fã da BLANCAh e esse álbum já é sem dúvida muito inspirador pra mim. Destaque para as faixas ‘Swan’, ‘Learning to Fall’, ‘Albatroz’ e ‘Queda do Ninho’, que fecha lindamente o álbum com letra em português, arranjo muito sofisticado de muito bom gosto. Incrível ver como BLANCAh desenvolveu com maestria e delicadeza diversos gêneros da eletrônica mantendo uma identidade super marcante. Sou fã!” — Pedro Zopelar  – Músico/DJ [In Their Feelings/ODD].


“Acredito que Nest é um candidato ao hall dos grandes álbuns já produzidos dentro da cena brasileira. Em todas as faixas é possível observar um sutil traço pessoal da autora, mesclando escolas e estilos que particularmente sempre me atraíram muito na música eletrônica — faixas cheias de melodia e hipnóticas, como que numa releitura do house progressivo clássico. Minha favorita é ‘Learning to Fly’” — João Anzolin – Hot Content [Revista Warung].


“BLANCAh me surpreendeu, é original desde a capa à escolha do nome das faixas e a ordem delas. Conseguiu criar uma viagem envolvente do começo ao fim, com músicas atemporais, e não focadas na pista de dança. Gosto muito dos vocais que vêm com um tom suave, mas poderosos. Me conquistou também pelas melodias com atmosfera de suspense e espaciais.  Minhas faixas preferidas são ‘Learning to Fly’, ‘Apium’ e a poética ‘Queda do Ninho’” — Monique Dardenne – ex-label manager Skol Music e Boiler Room Brasil/Manager/Booker [MD/Agency].


“Um trabalho primoroso, delicado e repleto de movimento. Em Nest, BLANCAh parece nos pegar pela mão e nos levar por uma viagem pela dialética da vida. Uma viagem de arrepiar. Lindas canções, numa harmonia e conexão que tocam a alma. Um disco pra se ouvir de novo, de novo e de novo… Obrigada pela experiência, BLANCAh” — Luciane Chiodi – Jornalista/DJ [Rádio Jovem Pan Itajaí].


“É um lindo álbum, muito bem produzido, e nota-se que BLANCAh dedicou-se muito a ele. Eu gostei muito das duas primeiras músicas, que fogem um pouco do compromisso com a pista e são mais experimentais e livres. Pude sentir maturidade, muita emoção e ouvi texturas belíssimas.  Parabenizo a artista pelo excelente trabalho e desejo que o álbum lhe traga ainda mais sucesso em novos horizontes!” — Priscila Prestes – Label Manager [24 Bits].

Você pode saber mais sobre o conceito dos pássaros e a trajetória da artista lendo “Um pássaro que aprendeu a voar em queda livre; conheça o universo da BLANCAh”, matéria que escrevi para o LOFT55 em outubro de 2015.

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