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Review

Mais relevante do que nunca, o Warung comemorou seus 15 anos com grandes perspectivas

Jonas Fachi

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Warung 15 anos review
Vivendo seu auge, o clube da Praia Brava recebeu Chris Liebing e um showcase da All Day I Dream no segundo dia de sua comemoração de aniversário.
Fotos por Gustavo Remor (à exceção da primeira)

Quantos clubs no mundo têm 15 anos de vida? Alguns poucos. No último dia 14, o Warung Beach Club alcançou essa marca estando mais relevante do que nunca. Ainda, se considerarmos que enfrentou todos os tipos de dificuldade que uma instituição poderia passar, ter chegado tão longe possivelmente é um feito único. E mais: conquistado completamente fora dos grandes centros geradores de conteúdo cultural eletrônico no mundo, mesmo assim, desde os primeiros anos o Templo recebeu reconhecimento da mídia internacional como um dos mais importantes do circuito global, algo inimaginável para o Brasil até então.

Porém, todas as pessoas que fazem parte dessa história — desde os DJs de todo o planeta que pedem para se apresentar a até quem o conheceu pela primeira vez na última festa — sabem que alguma coisa diferente acontece lá dentro. Desde o icônico título “Paradise Found”, concedido pela revista britânica DJ Mag em 2006, a “um dos lugares para se conhecer antes de morrer” (de outras publicações), o club reuniu noites e manhãs que poderiam ser facilmente recontadas em documentários ou livros, aqueles registros que irão permanecer na eternidade. Entretanto, não precisamos citar os diversos momentos emblemáticos ou fatos marcantes com algum DJ, afinal se tornaria algo injusto escolher um ou outro.

que é importante destacar é que estar fora do eixo global eletrônico nunca foi nenhum demérito para a região do litoral norte de Santa Catarina. Todos que vivem a avançada cena desenvolvida em mais de três décadas sabem que o que foi construído não se deve em nada para o resto do mundo. Alguns clubs como Baturité e Ibiza, em Balneário Camboriú, tiveram relevância fundamental para o surgimento do Warung e em tudo que veio a criar mais tarde. Por isso, este review especial de aniversario é uma oportunidade para fazer algumas considerações que julgo serem importantes na contextualização do evento mais longo do ano, com comemorações se iniciando ainda às 16h do dia 18 de novembro.

Warung 15 anos review

Uma das imagens mais famosas do club, usada como capa do álbum Warung Brazil 001, produzido por 16 Bit Lolitas, em 2008 (foto por Fábio Mergulhão)

O Warung foi idealizado para absorver um cenário local efervescente, porém sua história ao longo desses 15 anos de atividade conta que ele fez um pouco mais. Muito além de oferecer algo inédito em uma região com fortes tendências à cultura de pista, o Templo passou a ditar o ritmo não apenas local, mas de toda a região Sul do país. Hoje, é possível perceber o impacto social profundo por gerações de clubbers quando se descobre que pessoas alteraram escolhas fundamentais de vida em função de poder fazer parte do estilo cultural que o club apoia e representa. Isso é algo que talvez em nenhum outro lugar tenha acontecido de forma tão brilhante, fazendo tudo parecer ainda mais surreal.

+ Warung celebra seus 15 anos com duas festas no final de semana

Qual o segredo? Não existe apenas um. Como tudo na vida, uma carreira bem-sucedida ou um fato marcante, o Warung é resultado de uma série de acontecimentos que não estavam nos scripts, somados a caminhos pensados estrategicamente sobre uma alta dose de coragem, tudo isso sem possibilidade de voltar atrás. Para manter uma instituição relevante por tanto tempo é preciso mais do que planejamento, investimento e vontade; é preciso perceber os diversos pontos-chave durante a trajetória, em que várias novas situações surgem em cima da mesa e não se pode deixar passar.

Warung 15 anos review

Se hoje se tornou uma marca consolidada nacional e internacionalmente, realizando inclusive mais eventos fora do que em sua própria casa, é porque houve pessoas por trás que nunca deixaram de acreditar no potencial intrínseco que ela possuía. Um dos pontos mais admiráveis do relacionamento do Templo com o público é que em nenhum momento foi deixada transparecer toda a dificuldade que só quem trabalha na noite pode saber. A verdade é que a música sempre esteve acima de tudo.

Outro ponto de notoriedade é que, durante todos esses anos, a curadoria da casa fez e faz um trabalho excepcional. A busca por equilíbrio entre os estilos e a abertura por ouvir o que as pessoas desejam são fundamentais. Porém, o que chama atenção é a capacidade de sempre captarem o melhor timing para trazer os artistas, quase sempre alinhado com seus momentos de destaque no cenário global.

Pode parecer bobagem, mas em uma cena sul-americana, para uma casa trabalhar com a quantidade de artistas internacionais que o Warung apresenta quinzenalmente, não pode existir muitos espaços para erros. Como exemplo, por vezes é melhor você deixar algum nome fora por dois anos ou mais, para quando ele voltar, existir uma expectativa acumulada suficiente para lotar a casa.

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Quando observamos os artistas escolhidos para fazer parte da segunda noite de comemorações, fica evidente a tradição de captar o momento certo de cada um deles. Vamos pegar o caso de Lee Burridge. Ele fez parte dos primeiros anos do club quando esteve no seu auge, após a virada do século. Depois, passou um longo período distante de nossa cena, a ponto de os novos frequentadores nem saberem que já tinha se apresentado em outra era.

Lee renasceu em 2012 junto com Matthew Decay, iniciando uma nova era dos baixos BPMs. Seu estilo leve, tribal e emotivo foi impresso em músicas que serviram como ponto de partida, como “Für Die Liebe”, segundo lançamento da All Day I Dream, e “Lost in a Moment” — obra que ajudou a definir o estilo sonoro que Dixon apostaria para a Innervisions. De lá para cá, o inglês voltou à frente do cenário liderando um time de talentosos produtores que eram desconhecidos até então. Com eles, vem realizando eventos em diversas cidades, com maior destaque em Los Angeles e Nova Iorque, ajudando-as inclusive a reviver suas cenas locais. O mais legal é que Lee sempre liderou sua label/party lado a lado com seus produtores — prova disso é ter concedido o horário final do show case a YokoO, no Garden.

Warung 15 anos review

A proposta de iniciar o evento ainda à tarde para o clima estar totalmente de acordo com a ideia das festas day/night da ADID foi um pouco arriscada, visto que já houve outras tentativas por parte do club de iniciar mais cedo, sem adesão do público. Desta vez, porém, os protagonistas da música iriam estar desde o início, e o conceito da label convidada ajudou na atratividade.

Lee era um dos poucos lendários que ainda faltava riscar de minha lista. Quando adentrei o Garden às 18h em ponto, ele estava se aprontando para assumir o comando após Lost Desert. O dia havia sido marcado por uma intensa chuva pela manhã e o sol estava coberto por nuvens no fim da tarde; mesmo assim, a surpresa de já ter uma ótima pista curtindo a sonoridade única proposta por eles foi impressionante.

Warung 15 anos review

Sempre me entusiasmo quando ouço logo os primeiros minutos de set de artistas que pertencem à geração dos anos 90, como Burridge, em que mostram a sensibilidade na mixagem e um estilo de construção de set que só caras dessa época sabem fazer. A descontração por parte de todos e o clima mais próximo que ele estava criando, somados a seu carisma e a um sistema de som na medida, fizeram todos se esquecerem de que ainda era o começo da festa. Ninguém pôde se preservar, e o ritmo dançante do DJ fez todos vibrarem.

Na segunda hora, Lee entrou em uma onda inesperada, fugindo das melodias e pendendo para um lado sério e fechado, porém ainda com poderosos baixos e baterias tribais. Era talvez sua forma de “subir o ritmo”, não com a intensidade, mas dentro de um estilo que lembra sons destinados ao auge da noite. O interessante de ver um DJ desse nível é que você sempre pode esperar mais dele, pois em algum momento irá fugir um pouco do óbvio.

Primeira hora de set Lee Burridge, transmitida pela BE-AT.TV

Na terceira hora, seu set recebe maior introspecção e momentos de melodias cinematográficas ganham espaço. Era sua resposta diante da escuridão que havia chegado — um novo momento para os ouvintes. As decorações com flores por todos os lados perderam atenção para o sistema de leds pendurados na vertical, uma das iluminações mais criativas que já vi no club. Aliás, em noites comemorativas é tradição você encontrar decorações e iluminações diferentes. A felicidade estampada no rosto do artista dizia o quanto dessa proposta tinha dado certo, jogando luz sobre uma possibilidade de adaptação para o Warung no futuro.

Entrando na parte final de um set de três horas, mas que tranquilamente poderia ser de seis, é impossível não destacar a emoção de todos na faixa “Cocoon”, de Mirian Vaga, com uma reinterpretação fabulosa de Guy J — só poderia ser dele. Nas últimas faixas o ritmo estava estabelecido e YokoO parecia tranquilo para assumir o comando.

Quando você está prestes a assistir a um artista que só conhece pela qualidade das produções, é normal ficar um pouco reticente. Porém, o francês impôs um ritmo até mais rápido do que ocorria até então, talvez como uma forma de já quebrar o gelo em um ambiente novo. Aos poucos e com sabedoria, trouxe tudo novamente para o “estado ADID” de apreciar música. Quando falam que pegar um evento da label é uma verdadeira experiência musical, isso nada mais é do que a verdade. Guardadas as devidas proporções, é claro, entre os produtores que compuseram o lineup do showcase, você pode perceber que os seus elementos básicos, já citados aqui, sempre estarão presentes.

Warung 15 anos review

YokoO alternou entre momentos super emocionais e outros carregados de energia. Enquanto isso, Lee fazia questão de descer junto ao público atrás do palco para conversar, bater fotos e trocar experiências sobre sua música. Ele é o tipo de cara que faz amizade com todos, gosta de ouvir o que você tem para falar — são poucos os artistas que têm essa disposição. Um exemplo para a cultura de superioridade que muitos novos artistas tentam impor junto a seus públicos.

Começando a segunda fase das comemorações à meia-noite, resolvi tirar um tempo para descansar e conversar com amigos. O club — que ainda recebia Stephan BodzinRenato RatierVolkoderBoghosianFlow & Zeo — não estava lotado, com público na medida ideal para aproveitar qualquer um dos espaços. Subi ao Inside para assistir à hora final de Mind Against. O duo estava aplicando uma sonoridade de muita personalidade. Sabe aquele clima de aniversário, quando você acha algum artista no meio da noite e se surpreende? Era com eles. Após isso, voltei a atentar-me à música somente na entrada de Chris Liebing, às 04h. O lendário DJ alemão é outro caso de escolha do momento ideal — nesse caso, para finalmente fazer seu debut.

Warung 15 anos review

Nos últimos anos ele estabeleceu uma ótima relação com o país, e aplicou um set muito elogiado no Warung Day Festival neste ano. Estava pronto para assumir a eterna pista principal, e de quebra, em um momento tão importante. Que estava à altura, ninguém tinha dúvidas. Chris conquistou uma legião de fãs ao redor do planeta com seu talento particular em calcular a intensidade do seu techno que cada pista deve receber.

Desde o começo, a sensação era de que ele já conhecia o Templo há anos, com ritmo e momentos explosivos calibrados para enfrentar o restante da noite até o amanhecer. Com o dia novamente em posição, Liebing cadenciou suas ações por meia hora, e depois voltou a fazer a pista vibrar. Às 08h, eu já estava realizado em também lhe assistir pela primeira vez, então resolvi me retirar um pouco antes do final — algo que poucas vezes fiz em tantos anos frequentando a casa.

Talvez o sentimento de sair um pouco antes do termino fale algo sobre o que podemos esperar do Warung para os próximos anos e, principalmente, o que representam esses 15 de atividade. Foram muitos acontecimentos para se guardar, mas o sentimento ainda é de que se pode evoluir mais. É cedo para falarmos em legado, ainda que ele já exista.

Warung 15 anos review

Momento mais aguardado: o nascimento do sol em frente ao mar (imagem de alguma noite durante os 15 anos de club)

Em um futuro distante, a história do Warung vai ser descoberta por alguma nova sociedade na prateleira mais alta dos registros, onde, ao verem do que se tratava, sentirão inveja do quão felizes eram as pessoas que tiveram a chance de frequentar o espaço de madeira conhecido por desafiar tudo para se colocar entre os maiores de todos os tempos. Sabe o que é melhor nesse review de aniversário? É que não somos o futuro, somos o presente; estamos fazendo parte de tudo.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Opinião

Nos passos de Boratto? Remix de Cattaneo indica que BLANCAh pode explodir globalmente

Jonas Fachi

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BLANCAh Hernan Cattaneo
O remix do maestro argentino com o israelense Audio Junkies chega em fevereiro, em coletânea do sexto aniversário do selo de BLANCAh
* Com a colaboração de Flávio Lerner

Em 2006, Hernan Cattaneo vivia o auge de sua carreira em meio à apresentação de um dos discos mais aguardados daquele ano. Intitulado Sequential pela consagrada gravadora Renaissance, o CD continha faixas de artistas como Bushwacka, 16 Bit Lolitas e Way Out West. Entretanto, após o lançamento, outro nome acabou chamando atenção de todos. Com uma irreverente e distinta forma de arranjar elementos somados a timbres ainda não vistos na cena, sua faixa “Arquipélago” foi colocada de cara na abertura da compilação.

Era o tipo sonoro que colocaria todo o resto da construção musical sob ligação. Tratava-se do primeiro single do ainda desconhecido produtor brasileiro que mais tarde se transformaria em um dos mais respeitados do mundo. Gui Boratto teve um dos primeiros reconhecimentos através de um artista do primeiro escalão, pelos ouvidos afiados do DJ argentino. Fazer parte da compilação automaticamente colocou Gui diante de um público super atento e colecionador, um primeiro passo fundamental em sua carreira.

Doze anos depois, Cattaneo continua sua jornada artística única, porém agora carregando a frente de seu nome o titulo de “Maestro” das pistas de dança de todo mundo. Uma vez mais, parece que o ícone sul-americano tem seus ouvidos voltados para um artista brasileiro que vem despontando internacionalmente — não apenas apoiando suas produções, mas agora também estabelecendo uma parceria de estúdio que poucas vezes abriu em 30 anos de carreira.

Imagem do DJ argentino em seu estúdio em Buenos Aires cercado por sua coleção de discos (Foto: LA NACION/Juan Pablo Soler)

Ontem, a catarinense BLANCAh fez o anúncio oficial de que Hernan — em conjunto do talentosíssimo produtor israelense Audio Junkies — tinha remixado “Talus”, faixa que fez parte de seu aclamado EP Osso, lançado em agosto de 2017. Em postagem no Facebook, a artista escreveu:

“A alguns meses atrás convidei Hernan Cattaneo para remixar uma música minha e pra minha alegria ele aceitou no ato.
Depois de algumas sessões de estúdio com seu parceiro de produção Audio Junkies os dois me entregaram esse remix lindo da minha música ‘Talus’. Acho que eu nunca encontrarei as palavras certas que definam este exato momento da minha carreira, a felicidade que sinto por ter o suporte de um artista como Hernan, e muito menos o que senti ao ver o Mestre tocando o remix que ele fez pra mim no Templo Warung Beach Club.
Muchas gracias desde el fondo de mi corazón Hernan Cattaneo, Thank you so much Audio Junkies”.

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“Talus” irá ser lançada apenas em vinil, o que coloca ainda mais profundidade ao novo EP pela gravadora que BLANCAh tem como sua casa, a Steyoyoke. O disco — que chega no dia 15 de fevereiro — se trata da sexta compilação anual de aniversário do selo, que traz remixes inéditos de faixas lançadas pelos seus artistas durante a temporada. Além da música da brasileira com remix de Hernan e Audio Junkies, compõem o EP outros três trabalhos que foram destaque em 2017, também recebendo novas interpretações: “Overflow”, de Nick Devon, em remix de Simon Doty e Nairo; “Paramour”, do Soul Button, com remix de Martin Roth; e “Syndicate”, de Clawz Sg e Nick Devon, remixado por Township Rebellion (você pode ouvir uma prévia de cada música aqui).

“Recebi a incumbência de encontrar alguém pra remixar uma música minha pra esse projeto [compilação da Steyoyoke]. E aí por acaso eu tava na Argentina e num primeiro momento pensei em fazer uma conexão com artistas brasileiros, pra ver se alguém se interessava em fazer um remix. Contatei alguns, que não se interessaram em fazer parte do projeto, e aí eu pensei: quer saber? Vou sonhar um pouco mais alto. Vai que o Hernan aceita, já que ele andou dando suporte pra algumas das minhas músicas e já tinha declarado abertamente que era meu fã”, contou a artista, agora em contato com a Phouse. “Criei coragem, fui pro tudo ou nada — porque o ‘não’ eu já tinha — e mandei um e-mail pra ele, explicando a proposta. Em menos de 24 horas ele respondeu dizendo que seria um prazer. Eu fiquei mega feliz, quase morri, pensei que ele nem ia responder [risos]!”

Hernan Cattaneo tocando o remix de “Talus” no Warung

Alcançar a importância global que Gui conseguiu desde “Arquipélago” é algo difícil de fazer, porém, com a benção de um dos maiores DJs de todos os tempos e a atenção da enorme quantidade de fãs que o seguem ao redor do planeta, BLANCAh pode estar dando mais um grande passo em sua carreira para se tornar um artista global. E mais: em um nível talvez até mais importante do que participar de uma das famosas compilações do Maestro, afinal, poucos produtores até hoje tiveram uma faixa remixada por Hernan. No Brasil, é algo inédito.

A artista tem muito a comemorar, pois seu “voo” está cada vez mais supremo. Até onde ela vai chegar? Talvez o particular interesse de Hernan por seu trabalho diga algo sobre. Assim como com o Gui em 2006, o argentino percebeu que se trata de uma identidade musical nova, própria e sem seguir tendências — premissas básicas que ele carrega consigo.

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Vale lembrar — como já publicado na Phouse —  que a Steyoyoke está em tour inédita pelo Brasil nesses dias. Depois de passar pelo Terraza Floripa no último final de semana, o showcase da gravadora alemã chega nesta sexta ao D-EDGE, e encerra no sábado no clube Chakra, em São Bento, Santa Catarina. No mesmo dia, o Maestro, que cumpre tour pela América do Sul, também estará no Brasil, estreando no Laroc Club. A promessa é de longset.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Opinião

20 artistas do mainstream nacional para ficar de olho em 2018

Luckas Wagg

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20 artistas 2018
Liu é uma das nossas grandes apostas para 2018. (Foto: Yohan Augusto)
Uma seleção de nomes que têm tudo pra explodir no cenário eletrônico brasileiro nesta temporada

O ano está apenas começando, mas já dá pra trazer aqueles listões que todo mundo curte. Então selecionamos aqui 20 artistas da cena mais mainstream da música eletrônica que valem ficar de olho pra esta temporada.

São nomes que não necessariamente estão começando ou são promessas; parte deles inclusive teve um 2017 já de bastante destaque. Porém, são DJs em quem acreditamos que, justamente por já terem revelado bastante potencial em uma amostra recente, têm uma margem de crescimento bem alta a curto prazo, e devem vir agora com tudo pra emplacar definitivamente no cenário nacional.

Longe de ser qualquer tipo de ranking, a seleção abaixo é apenas um acervo de alguns dos muitos artistas que entendemos que chamaram a atenção pela sua música ou apresentação em eventos que marcamos presença em 2017.

Liu

20 artistas 2018

Longe de ser mais uma promessa, Cristian Liu já pode — e deve — ser considerado como uma das novas e grandes estrelas da dance music nacional. Apadrinhado por ninguém menos que Alok, o DJ/produtor de traços asiáticos ficou conhecido por sua track “Don’t Look Back”, e desde então vem fazendo shows pelos quatro cantos do país. Seu lançamento mais recente é “Coastline”, em parceria com o garoto prodígio WOAK. A faixa já atingiu mais de 3 milhões de streams entre Spotify e YouTube.

Kiko Franco

Com remixes oficiais para grandes artistas como ZHU e J Balvin, Kiko Franco ganhou notoriedade no mercado nacional e a cada dia vem surpreendendo mais e mais. Em 2016, o DJ ficou conhecido pelo seu remix com Kubski para “Panda”, do rapper americano Desiigner. A faixa caiu no gosto de gigantes do cenário, como EDX, Vintage Culture e muitos outros. Seu lançamento mais recente é um remix para a faixa do 1Kilo, “Deixe-Me Ir”, em parceria com WOAK.

SELVA

Com certeza você já ouviu alguma músicas desses caras. Só para refrescar sua memória, eles são autores dos sucessos “Why Don’t U Love” — em parceria com Vintage Culture e Lazy Bear — e “Make Me Wanna”, com Zerky. Além de DJs e produtores, Pelu e Brian Cohen também são instrumentistas, e têm como destaque em suas performances um live de bateria e guitarra. O mais recente lançamento da dupla é “O Amor Existe”.

Öwnboss

Formado por Mario Camargo e Eduardo Zaniolo, o projeto Öwnboss vem ganhando notoriedade no cenário da música eletrônica desde os seus primeiros lançamentos — “Stressed Out” e “Take Me Out”, com Bruno Be. Em 2017, o grande destaque da dupla foi um rework para a faixa “Intro”, de The xx, com ninguém menos que Vintage Culture.

Future Class

Autores de diversas tracks que hoje compõem sets dos principais artistas do cenário nacional, Igor Dantas e Allan Deckii vêm chamando a nossa atenção há muito tempo. Com um 2017 super agitado, os garotos se apresentaram nos principais clubs e festivais do país, como Kaballah, Lollapalooza, Só Track Boa, Green Valley e Laroc. O lançamento mais recente da dupla é “Shooting Stars”, com Vintage Culture.

RADIØMATIK

O projeto de música eletrônica que marca a união do DJ/produtor Diego Moura com o músico Mario Veloso é a mais nova bola da vez. Com pouco tempo de formação, o RADIØMATIK já lançou duas faixas e tem agenda cheia pelos quatro cantos do Brasil. Seu mais recente lançamento é “Too Close”, que ganhou destaque na playlist MINT, do Spotify.

Dubdogz

Os irmão gêmeos Marcos e Lucas Schmidt, que juntos formam o projeto Dubdogz, sem dúvidas não poderiam ficar de fora desta lista. Os paulistas foram grande destaque em festivais como Tomorrowland, XXXPERIENCE e Electric Zoo Brasil — para o qual, inclusive, compuseram o tema oficial de sua última edição, “Sunrise”.

KVSH

Autor do grande sucesso do verão “Sede Pra Te Ver”, KVSH também é presença obrigatória por aqui. Produtor de mão cheia, Luciano Ferreira tem conquistado o público dos quatro cantos do país. Seu lançamento mais recente é “Eu Não Valho Nada”, com a DJ Samhara.

Evokings

Frutos da escola de produção Make Music Now, os meninos do Evokings são mais do que uma promessa. Em 2017 emplacaram o hit “Gravity” com Cat Dealers, e em seguida “My Way”, que já conta com mais de um milhão de reproduções no Spotify.

Breaking Beattz

Formado por Lauro Viotti e Rafael Zocrato, o duo Breaking Beattz despontou no Beatport em 2017 com uma de suas tracks entre as mais vendidas do ano. A dupla é dona de diversas faixas que invadiram as pistas dos principais clubs e festivais do Brasil no último ano. Entre elas, “Perfect Exceeder”, com Gabriel Boni, “Let The Bass Go”, com FractaLL, e “Get Low”, com Sharam Jey e Chemical Surf; com o duo brasileiro, também tiveram seu mais recente som, “Don’t Stop”.

RICCI

Um nome que dispensa comentários, Gabriel Ricci é uma das nossas grandes apostas para este ano.
Dificilmente você não ouviu diversas músicas desse jovem hitmaker em 2017, que assinou música inclusive pelo selo de Steve Aoki. Entre seus maiores sucessos estão “Lost Generation” e “Later”, além de “Wild Kidz”, com Vintage Culture. Mais recentemente, participou de uma mistura inusitada com o duo Seakret e o rapper Rael, em “Tá Pra Nascer Quem Não Gosta”.

WOAK

De identidade ainda não revelada, WOAK tem apenas 16 anos e já está dando muito o que falar. Só no Spotify o jovem garoto acumula quase um milhão de ouvintes mensais. Entre seus lançamentos, podemos destacar “Coastline”, com Liu, e “Deixe-Me Ir”, com Kiko Franco.

Zebu

De uma maneira bem interessante, Zebu mistura em suas produções  o future bass com sertanejo, samba, funk e outros gêneros nacionais. Sem dúvidas, um dos artistas mais ousados que conhecemos no último ano.

rrotik

Com lançamento por importantes gravadoras como Armada Music, rrotik não poderia ficar de fora da nossa lista. O jovem mineiro tem ganhado a nossa atenção com seus lançamentos de low bass, como “MYNE” e “Talking Bass”.

Joe Kinni

Autor do grande hit “Carioca”, com Jakko e Bianca Chami, Joe Kinni continua mostrando seu lado versátil na produção musical. Em 2017, o artista lançou diversas faixas com pés dentro e fora da música eletrônica. Seu lançamentos mais recentes são “Moça” e “Mensagem de Amor”. Pra quem curte essa nova onda do eletrônico com vocais nacionais, vale muito a pena seguir esse cara.

JØRD

Não foi a toa que o famoso “Jordinha” conquistou uma legião de fãs pelo Brasil. Apadrinhado por ninguém menos que o mestre Felippe Senne, o jovem de Belém do Pará tem sido uma das grandes referências para a nova geração de produtores. Sem muitos comentários, tirem a própria conclusão com aquele “bass” inconfundível do garoto:

Santti

Autor do hit “Sober”, com Cat Dealers, Santti é mais um nome em nossa lista que dispensa comentários. O garoto tem demonstrado ser um grande hitmaker e está entre as nossas descobertas favoritas de 2017. Seu lançamentos mais recentes são “Sunshine”, com Cat Dealers e LOthief, e “Céu Azul”, com Vintage Culture.

LOthief

Produtor de mão cheia, Leandro Souza é outro grande destaque do Low Bass que não poderia faltar nesta lista. Sob o nome de LOthief, o jovem produtor mineiro de 23 anos vem chamando a atenção com suas produções e conquistando diversos fãs Brasil afora. Seu lançamento mais recente é “Sunshine”, com Cat Dealers e Santti.

LIVIT

LIVIT set comemorativo

Coautores do hit “On Fire”, lançado pela Phouse Tracks — e que já conta com mais de um milhão e meio de reproduções no Spotify —, o LIVIT vem sendo destaque em diversas playlists no Spotify. O lançamento mais recente da dupla é “Give Me All You Got”, pela Sony Music.

The Fish House

Uma das melhores surpresas de 2017 foi o hit “Menina”, de Rafa Gontijo com seu primo Breno. Lançada pela Deepink, a música chegou a ser uma das mais tocadas em Minas Gerais. Outro grande lançamento de destaque do projeto de Gotijo foi “Hey Hey Hey”, com Doozie. A faixa foi tocada em diversos festivais por expoentes como Alok.

BÔNUS: SCORSI

Por último, mas não menos importante: SCORSI. Somos suspeitos a falar deste cara (ele é um dos nossos A&R na Phouse Tracks). Porém, fica a dica: FIQUEM BEM DE OLHO!

Luckas Wagg é CEO da Phouse.

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Review

Hernan Cattaneo faz história com o primeiro “All Night Long” do Warung

Jonas Fachi

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Hernan Cattaneo All Night Long
Em seu tradicional set de fim de ano, El Maestro rompeu novas barreiras e se tornou o primeiro artista dos 15 anos de Warung a tocar pela noite inteira
* Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini
* Vídeos por Fernando Hauenstein e Sebastian Tallon

Não existe data mais simbólica do que o dia 28 de dezembro no Warung Beach Club. O dia é reservado e sinônimo do desembarque de Hernan Cattaneo à Praia Brava. É fácil entender o porquê. Devido a sua consistência ao longo dos anos, o maestro argentino se tornou um embaixador da música que ajudou a criar. Aqui, sua ligação se fez por sua “experiência musical” se tratar de nada menos do que a identidade sonora que mais se enquadra com as expectativas do club, se tornando assim uma noite imprescindível para qualquer um que esteja em busca da famosa “mágica do Templo”.

O final de ano é estratégico porque consegue reunir elementos importantes: primeiro pelo verão no Hemisfério Sul ser uma das marcas do beach club. Segundo, pela quantidade de argentinos que estão de férias no litoral catarinense, somando-se aos fãs brasileiros que moram longe e que podem estar presentes. Para finalizar, turistas e público novo buscando conhecimento. Tudo isso forma uma das pistas mais divertidas e democráticas do ano na casa.

Após se apresentar no feriado de Independência do Brasil — data que tem se tornado sua referência também —, Hernan retornava sob expectativas que nunca diminuem. Neste review, como sempre, tentarei desvendar as ideias musicais e sua construção de set a fim de que todos possam ao mesmo tempo relembrar momentos marcantes, mas também entender a proposta musical para a noite. Ainda, buscarei mostrar a importância que ambos, artista e club, têm um para o outro. Veremos que é algo único.

O maior destaque dos meses pré-evento foi o pedido exclusivo de Cattaneo para ter a noite só para si, desde a abertura até o final. Todos sabem que a forma como conduz a pista de dança por longas horas é uma de suas marcas registradas, e ele estaria vindo do embalo de um back to back de espantosas 20 horas com Guy J no Canadá, em um club que mencionarei mais à frente.

Hernan Cattaneo All Night Long

Seu longset no Warung é considerado um clássico, porém para que tantas horas de música sejam bem-sucedidas, deve-se passar fundamentalmente por quão ambientado está o público antes de o artista principal iniciar. Hernan sabe tão bem disso que ele mesmo se propôs ao warmup dessa noite.

Tocar nesse ritmo de abertura é algo que ele adora, e fazia esse modelo de apresentação no início da carreira, quando a música eletrônica mal existia na América do Sul. Ao longo dos anos o Warung proporcionou ótimas aberturas a ele; nomes como Daniel Kuhnen, Leozinho e Danee são constantemente elogiados. Porém, Catta busca sempre ir além, se dispondo a fazer o que ninguém faria, e isso tem um motivo que entenderemos adiante.

Hernan Cattaneo All Night Long

Acertadamente, o club previu a abertura dos portões para as 21h, podendo assim deixar os mais interessados chegarem, se ambientarem e esperá-lo da melhor forma possível. Entretanto, o protocolo imaginado foi quebrado por volta das 21h25, quando ao chegar no club e ver que já havia pessoas a sua espera (cerca de 30), Hernan não hesitou e resolveu antecipar os trabalhos, sendo a primeira boa surpresa da noite.

O sistema de som ainda era tímido; ele propôs uma levada de deep house dançante com BPM bem baixo. Foi recebendo o público aos poucos, como se estivesse tocando na sala de casa. Que honra! Nesse começo, é impossível não destacar duas musicas de duas bandas eletrônicas icônicas. A primeira é “Damage Done” de Moderat, em um remix que não consegui descobrir, mas que seria algo aproximado com o do produtor Silinder. A segunda é nada menos que “Dream On”, do Depeche Mode — daquelas que você lembra pelo vocal inconfundível, em mais um remix não identificado. A partir das 23h, o sistema de som ganha seu devido ganho, e a pista que já estava cheia reage com a primeira euforia da noite. Agora era pra valer! Tocar desde o início é uma atitude que o público do Warung jamais esquecerá por duas razões: era algo que nunca havia ocorrido com um artista em 15 anos, e porque ficou evidente que o título de melhor warmup para o maestro já feito no club só poderia ser dele mesmo.

Hernan Cattaneo All Night Long

Se você está se perguntando se existe um motivo maior para esse pedido e desejo em abrir a própria noite, está correto. Vamos a ele. Existem certos clubs e eventos especiais na extensa carreira do argentino, alguns já extintos, outros ainda em atividade. A Stereo em Montreal, o Woodstock 69 em Amsterdã, a Moonpark e o Clubland (seu club formador) em Buenos Aires, o Cream de Liverpool e o Yellow de Tóquio são alguns dos quais Hernan tem registros de longsets históricos — como o de 12 horas no encerramento do club japonês em 2008.

Nesses “clubs para clubbers profissionais”, como ele costuma falar, criou laços mais profundos do que apenas apresentações marcantes de um DJ internacional para o público local. Porém, quando falamos de Warung, que é um desses lugares onde o frequentador recebe uma graduação musical, parece existir algo que transcende a todos e que honestamente não sei explicar.

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Pode parecer imprudência alguém fazer tamanha afirmação sem ter experimentado experiências musicais com ele nos lugares citados. Porém, olhando através de seu comportamento quando está dissipando o que tem de melhor na pista do Templo, arrisco dizer que em nenhum outro lugar sua música foi e tem sido recebida por um período tão extenso com tanta singularidade. Hernan tem sua figura tão em conformidade com a cabine, que a sensação de todos ao vê-lo ali em cima sob completa sintonia, repetindo os mesmos movimentos corporais e mentais necessários para se colocar músicas em sequência, é de que estamos diante algo mítico. O DJ que vemos no Warung parece ser daquele jeito somente ali.

Toda essa conexão ao longo do tempo gerou um resultado que poucos alcançaram dentro de toda indústria musical eletrônica: ser a figura central da criação de uma comunidade em torno do estilo musical que acredita e propaga desde quando ainda só ouvia discos de bandas de rock progressivo que suas irmãs colocavam para rodar. É claro que no final de tudo estamos tratando de entretenimento, porém com um nível de interação que é capaz de moldar ideias e visões das pessoas que decidem participar, e então colocá-las em união. Esse seu interesse em fazer o algo a mais, em tocar o máximo de tempo possível, é um tipo de realização que não se apaga tão fácil — ao contrário, se perpetua nas lembranças mais profundas dos participantes.

Hernan Cattaneo All Night Long

Considerações feitas, voltamos à música, e ela estava se desenvolvendo com toques viajantes moderados, temas com pequenos recortes emotivos e tribais, tudo bem cadenciado, sem exagero. Após a 01h, tive a sensação de que tínhamos atingido a velocidade de cruzeiro. Em navegação, é comum se falar sobre a relação da velocidade ideal e o perfeito equilíbrio do motor com o casco, ou seja, máximo desempenho aliado a maior economia. Hernan é especialista em estabelecer uma faixa sonora dentro da qual não se força a pista de dança, mas que nela atua naturalmente e em perfeito desempenho. O “ponto de cruzeiro” dessa relação é quando a música inserida pelas mãos do artista é capaz de extrair o máximo de cada individuo, mas sem que eles se desgastem antes do término.

Estava esperando mais alguma faixa para reconhecer, e então ouço uma melodia inconfundível para meus ouvidos. Procuro alguém para compartilhar a emoção de estar ouvindo “Take My Away”, de Fefo e Dario Arcas —  um dos melhores lançamentos da Sudbeat já feitos. Em 2010, ela marcou o décimo lançamento da gravadora de Hernan, recebendo inclusive um remix esplêndido do boss com Soundelixe. A faixa ainda fez parte de sua compilação The Masters Series – Parallel, para a Renaissance no mesmo ano. Novamente, se tratava de um edit que não consegui identificar.

Após isso, a construção musical começa a ganhar sua verdadeira cara, entrando em um tom mais dramático e infernal. Menos elementos, mais intensidade, e claro, as indispensáveis linhas de baixo aterrorizantes cortando e balançando toda a pista. No vídeo abaixo, que capturou momento próximo das 03h, está um daqueles sons que eu provavelmente não esquecerei até encontrar. Analisando o set inteiro, essa faixa seria uma espécie de previsão do que ele iria jogar nas horas que viriam.

Para mim, sempre foi impressionante como Hernan consegue ter amplitude musical dentro do seu estilo particular. Você pode dizer que esse é um dos papéis fundamentais de um DJ, porém conseguir executá-lo sem perder a essência é um dos grandes desafios da atualidade. Seguindo, outra faixa impressionante: “Robot Funk”, com remix de Phuture Phunk, fez todos entrarem em imersão. Essa música nada mais é que um ripping de “On The Run”, da banda Pink Floyd, adicionada a um baixo poderoso, um arranjo de bateria e um kick forte. Trata-se na verdade de um excelente remix, podendo ter sido apresentado pelo produtor Framewerk como tal, mesmo que não pudesse comercializá-lo.

Às 04h, entrou em ação “Strand”, de Stephan Bodzin — uma faixa com efeito progressivo e hipnótico, espécie de ponto de amostragem do que ele estava apresentando. A intensidade aumentava mais do que de costume. Comecei a imaginar que ele estava tocando por um bom tempo no mesmo ritmo para chegar em algo especial. Em meia-hora houve a quebra, não de ritmo, mas de sintonia. “Sirens”, remixada magistralmente por Patrice Bäumel, foi a escolhida para esse momento clássico dos sets de Hernan. Ele cantava sua maravilhosa letra tranquilamente enquanto todos ainda estavam se dando conta de que era um momento de pôr os pés no chão, mas só por uns minutos.

Hernan Cattaneo All Night Long

A partir das 05h, a sonoridade estava reta e nivelada, caracterizada pela maior altitude possível de energia e velocidade rítmica que El Maestro gosta de trabalhar, entregando para a pista de dança a melhor relação entre pessoas, ambiente e música. Sempre comento sobre esse momento do set até as 06h, que mostra o quão bem pensada e elaborada é sua construção. Havia nesse momento alguns aspectos mais obscuros, e sequência sem descanso.

Entramos na fase do amanhecer e era hora de algum clássico. A escolha foi por um que eu aguardava desde quando assisti ao vídeo dele o soltando no club Mamacas, em Atenas 2012. Tratava-se de “Eterna”, de Slam; uma faixa atemporal, produzida em 1991, e que recebeu um remix fantástico de John Digweed e Nick Muir 21 anos depois.

Próximo de chegar à fase da última hora, uma daquelas músicas que parecem já nascer clássicas. Seu vocal emitido como um mantra lembrou-me de um momento especial que tive em 2010, quando quase no mesmo horário, Hernan soltou “Love Stimulation”, de Humate, em remix de Tom Middleton — um momento que guardo até hoje de minha primeira experiência com o maestro. De alguma forma, isso surgiu em minha mente e tudo parecia ter voltado no tempo, reavivado por “Chanjira”, de Stuart King em remix de Mongo. Que momento!

Essa última hora é uma mistura de sentimentos. A já tradicional paradinha das 07h20 foi calculada com um lindo trabalho de um dos melhores produtores argentinos da atualidade: Kevin Di Serna, com “Horizons” — um arranjo limpo de piano, leves baterias e uma mensagem no vocal do break. Depois da calmaria, a volta é novamente cheia de intensidade, o sprint final para esgotar as últimas energias. A finaleira voltou-se novamente para o lado emocional com “Sofia” remixada por Guy Mantzur e, para minha maior surpresa, o encerramento veio com uma música que me fez pôr as mãos no rosto e apreciar sem querer que acabasse.

Eu já perdi as contas de quantas vezes assisti ao filme Inception. Além de elenco e direção brilhantes, ele tem uma das melhores trilhas sonoras da última década. E quando se fala em trilha sonora, hoje ninguém está no nível de Hans Zimmer. Sua composição chamada “Time” para o longa é algo que não se deve colocar em palavras. Felizmente, ela recebeu uma versão à altura para as pistas de dança, por Deeparture. A saudação mútua de agradecimento estava acontecendo junto do sentimento de maratona musical mais do que cumprida.

Hernan Cattaneo All Night Long

Escrevendo este review, pesquisando e relembrando faixas que foram apresentadas, notei que havia outras dezenas de detalhes especiais ainda para serem mencionados. Dar-me conta de que eu poderia simplesmente excluir tudo que tinha escrito e mesmo assim teria outras tantas coisas incríveis para contar, foi como uma cortina que se abriu em minha frente. Até onde vai a dedicação e o interesse de um artista para trazer ao seu público uma narrativa musical tão rica? Minha saída foi aceitar que algumas coisas vão e devem ficar apenas na lembrança.

Em 28 de dezembro, Hernan Cattaneo fez uma espécie de volta para casa, como quando ainda jogava no extinto Clubland de Buenos Aires. Agora, contudo, essa outra casa que ele descobriu e ajudou a formar tem um sentido diferente — afinal, seria como voltar, mas ainda estar jogando em um dos maiores palcos do planeta, um Camp Nou brasileiro, com sua grama (soundsystem) lisa, molhada, e um fundo de campo que parece não ter fim (mar). Seu conjunto musical estava nos dizendo isso o tempo todo: o Warung é um palco vivendo seu melhor momento, moldado por anos de uma identidade sonora inconfundível, onde, claro, só existe um camisa 10.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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