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Warung Day Festival 2017: um dia inesquecível

Jonas Fachi

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Acesso, estrutura, organização, itens a serem melhorados e, claro, muita música: confira o review de Jonas Fachi deste Warung Day Festival.

A quarta edição do Warung Day Festival chegou e agora, alguns dias depois, parece que a sensação é de que ele poderia acontecer novamente na semana que vem. Como já havia mencionado em março, o Wday estava repetindo a fórmula de sucesso que o consagrou, com excelência em todos os aspectos que envolvem sua realização e o suporte de uma localização privilegiada, no coração de uma das cidades mais verdes e influentes do mundo. A Pedreira Paulo Leminski se tornou de fato um espelho do clube em Santa Catarina, ainda que com diferenças inquestionáveis. Porém, o que importava era transportar o clima de música em meio à natureza — e nesse ponto, ele foi irretocável.

Em minha primeira participação no Festival, tentei explorar todos os espaços e buscar primeiras impressões. Mesmo não tendo as edições anteriores como comparativo, procurei buscar referências como parâmetro.

Acesso e primeiras impressões: As doze horas de festa que tanto foram enfatizadas durante o processo de promoção do evento, infelizmente, foram para poucos. A grande maioria das pessoas — onde me incluo — chegou depois das 15h. Acessei o festival através do portão 3, destinado à imprensa, com enorme tranquilidade. Antes, estive no portão principal para conferir como estava o andamento da entrada. Solicitei informações sobre meu acesso e fui muito bem atendido. A passagem estava relativamente tranquila e, ao chegar na Pedreira, todo participante já era convidado a se dirigir à pista, que sem dúvidas é o coração do evento e estrategicamente a primeira coisa que se encontra no caminho. O Warung Stage se destacava por seu imponente soundsystem — mesmo fora da cobertura, era possível aproveitar e entender a mensagem do artista, sendo transmitida naquele momento pela DJ paulista Eli Iwasa.

Tendência musical: Está claro que o Warung Day busca personificar alguns artistas-chave do clube no festival, na busca de reviver momentos de magia do Templo em outro lugar especial, foi assim com a vinda de Dubfire, Sasha e agora com Hernan Cattaneo. A preservação da identidade é de extrema importância, porém, também é o propósito de grandes eventos proporcionar novas experiências ao público. Para isso é preciso variedade musical, e ela passa esssencialmente pela montagem dos horários. A ideia básica era sempre manter uma opção; enquanto se tinha uma sonoridade mais introspectiva no W Stage com Roman Flugel e outra mais rápida na pedreira com ANNA, por exemplo, o Garden apresentava no mesmo horário Leozinho e Conti jogando algo com balanço e dança. A pista do Garden demorou a encher, mas quando esteve completa foi uma importante válvula de escape com os DJs residentes do clube — afinal, tirando Hernan Cattaneo, quase todos os outros artistas tinham fortes inclinações ao techno, culminando até em um expoente dessa vertente: Chris Liebing, no encerramento da Pedreira.

Estrutura: A distribuição dos palcos se dava da melhor forma entre os 110 mil m² da Paulo Leminski. Considerando que se trata de um festival, onde normalmente precisa-se andar bastante entre os espaços, as três pistas do Wday eram próximas, cada uma tinha sua vida própria, e o mais importante, sem reverberação de sonoridades entre elas. O Warung Stage e a Pedreira Stage contaram com o impressionante sistema de som da marca francesa L-Acoustics, considerada a melhor para eventos de grande porte no mundo hoje. O Garden, com sua vista do lago, ganhou uma extensão neste ano para atender a expectativa de recorde de público. Ele tinha a vantagem de ser bem ao lado do banheiro e do caixa, porém era preciso se deslocar às outras pistas se desejasse algo do bar. Ao fundo ficava a Pedreira Stage, em uma área mais elevada, cercada pelo paredão de rochas da extinta usina de asfalto. Seu contraste com a vegetação e a vista do elevador por onde os artistas chegavam formava um clima diferente. Essa pista se destacou por sua estrutura metálica alta, dando a impressão de estarmos ainda ao ar livre. Ela fazia divisão com os camarotes e a área VIP do Warung Stage; as duas pistas formavam um L, e embaixo delas ficava, com uma importante discrição, a parte de camarins e o espaço de circulação dos artistas e do staff. Na parte central existia a área de descanso com outros serviços de parceiros do festival.

Parcerias: Estabelecer uma rede de parceiros dentro e fora do festival oferecendo produtos e serviços diferenciados, novamente, foi um dos grandes trunfos. Quando o pensamento não se fecha em si mesmo e se abrem conexões com outras empresas, a tendência é engrandecer a todos em uma relação ganha-ganha, principalmente para o público. Após o acesso principal existia um corredor com seis opções de food trucks; apesar de um pouco distante, era um espaço muito tranquilo. Existia algumas opções de bebida como o Whisky Johnnie Walker com o truck On The Road, o gim com estilo moderno Tanqueray, os drinks da Le Voleur de Vélo e um bar da Skol Beats junto da área central de descanso. Nesse mesmo local estava a loja de decoração de ambientes Bali Art, a loja Warung Store e o conceituado salão Torriton, que contou com um espaço para make e cabelo, e ainda uma parte de massagem assinada pelo Shishindo Signature Spas. Algumas parcerias externas de suporte foram o lounge montado no Park Shopping Barigüi, que teve festa preview com DJs residentes e um warmup oficial uma semana antes no Club Vibe. Pensando em auxiliar a ida das pessoas sem precisar usar cada um seu carro, foi oferecido translado da praça Oswaldo Cruz pela empresa Pedreira Bus. Os assinantes do Clube Gazeta do Povo puderam ter 50% de desconto na compra de até dois ingressos. O leque de opções girando em torno de um evento de doze horas foi louvável, porém vale ressaltar que todas essas parcerias merecem análise, pois algumas simplesmente não foram utilizadas pelos frequentadores.

Organização: Em colaboração com órgãos de fiscalização da cidade, a rua da Pedreira foi fechada, eliminando assim qualquer risco de acidente de trânsito. Existiam quatro portões fazendo um cinturão ao redor do local, cada um com sua finalidade específica e com seguranças a postos auxiliando em todo o processo. No lado de dentro, quem chegou um pouco mais cedo pôde tranquilamente comprar sua bebida praticamente sem filas. A organização dava a possibilidade de entrada desde o meio dia para todos poderem se ambientar e depois curtirem os artistas, mas parece que a grande maioria pensou da mesma forma — ir um pouco mais tarde para poder já estar próximo de assistir aos artistas internacionais. Isso teve um custo: o acúmulo de pessoas chegando a partir das 16h gerou incômodo. Considerando que muitas pessoas optaram pelo cartão de crédito ou débito na hora da compra, as filas no caixa inevitavelmente se acumularam; alguns amigos me relataram ter passado até quarenta minutos em espera. Para retirada, mesmo com todas as pistas cheias, era rápido tanto no Warung Stage como também na Pedreira. Os banheiros também foram renovados, contando com uma estrutura de contêineres, deixando para trás os inconvenientes banheiros químicos.

Problemas: Por volta das 16h a internet caiu, gerando transtornos. A chegada mais tarde de grande parcela do público somou para as filas dos caixas aumentarem. Outro problema que fugiu da previsão da organização foi a energia. Durante o live de Stephan Bodzin, infelizmente o som caiu por um ou dois minutos — foram momentos de tensão. Se considerarmos o tamanho de tudo, ter a estrutura 100% em sua funcionalidade é uma tarefa quase impossível, e frequentadores de festivais sabem disso. Por mais que se pense em tudo, sempre haverá algum imprevisto; a internet fugia do alcance da organização, e a energia é algo que merece um cuidado redobrado para 2018.

Artistas: Os primeiros nomes que assisti foram Albuquerque e Boghosian em backtoback — os savages estavam se revezando em uma linha um pouco forte pros meus ouvidos naquele horário. Na última meia hora, eles encontraram um ótimo ritmo cadenciado. Resolvemos ir para o Garden Stage perto das 17h para assistir a outro B2B: o primeiro residente do Warung, Leozinho, com um dos idealizadores de tudo, Gustavo Conti, pegaram uma pista tímida e em trinta minutos transformaram-na em um lugar vivo e animado, jogando um estilo que sempre foi reconhecível deles: house progressivo com muito ritmo.

Às 18h, finalmente pisei no Warung Stage para não mais sair. Após encontrar os amigos, nos dirigimos mais ao centro da enorme pista para apreciar a música do alemão Roman Flugel. Posso dizer que poucas vezes um artista me conquistou de maneira tão rápida. Em poucos minutos, estávamos todos envolvidos por seu techno levemente obscuro, cadenciado e mixado magistralmente. Roman mostrou que mesmo em uma pista de festival é possível fazer todos dançarem sem ter ritmo elevado, na contramão do que muitos DJs pregam; sua música ao entardecer foi perfeita.

Às 19h, entrou outro artista que estava debutando em minha lista: Victor Ruiz era uma curiosidade em um momento ideal para se sanar. Sua linha de techno com nuances bem progressivos nos últimos anos me agrada bastante. Seu set pode se resumir em BPM alto, intensidade e ótimas mixagens, porém após a primeira hora senti que sua música já estava totalmente previsível. Destacaria sua faixa “Nevermind” com remix de Oliver Huntemann como o momento mais interessante. Talvez a experiência lhe mostre que é possivel construir um set em festivais também — você não precisa ir direto ao fato. De qualquer forma, é muito bom ver mais um brasileiro produzindo a nível global.

Pelas 21h fomos conferir os foodtrucks e dar um tempo para o grande momento. Após experimentar uma das ótimas opções de comida, tive o privilégio de conhecer outro artista próximo ao backstage. Stephan Bodzin é uma lenda viva dos sintetizadores, e sua performace manipulando ondas sonoras analógicas ao vivo um show à parte; sua habilidade em colocar todos com as mãos para cima é impressionante. Minha ressalva seria a não deixar cair a todo o momento em breaks e build ups explosivos, e sim permitir à música correr por mais tempo, e assim a pista fluir.

Enfim, às 22h30 o maior responsável por me deslocar até Curitiba entra em cena, ovacionado por uma legião de fãs. Sua primeira atitude? Pedir para baixar as luzes do palco. Hernan Cattaneo inicia seu set com uma sonoridade meditativa de Udha & Maneesh, um chamado profundo para abandonarmos toda superficialidade e adentrarmos mentalmente no verdadeiro espírito do festival.

Durante todo o evento estive buscando momentos de introspecção total, e no fundo sabia que eles só viriam com ele. Em um clique, El Maestro fechou os olhos de toda uma multidão e pouco a pouco foi abrindo caminhos de obscuridade em um ritmo progressivo que só ele consegue aplicar. A meia hora seguinte foi dedicada a músicas dessa natureza, entre elas o remix do produtor paulista Luciano Scheffer para “Clearance” teve seu destaque. Na sequência até a primeira hora, Hernan tocou do jeito que mais gosta, sem necessitar de um BPM alto, apenas um conjunto de batidas lineares, balanço, mistério, muitos elementos soltos de bateria e percussão — tudo em meio ao sistema de iluminação mais incrível que já vi. Chegando na metade do set era hora de buscar inovação, e ela foi marcada por um clássico daqueles que ele costuma apresentar no final, mas que foi muito bem encaixado ali: Depeche Mode com remix de Patrice Baumel para “Where’s the Revolution?”.

“Onde está a revolução?” é uma indagação interessante que pode servir de reflexão em nosso país, e como toda pergunta precisa de resposta, Hernan responderia a si mesmo, mas somente no final. Após essa euforia, a volta traz ritmo inquebrável até começar a acelerar o jogo na segunda hora — uma sequência de “Push Too Hard” com remix de Guy Mantzur e a fantástica “Skywalker” de Guy J, até chegar em algo mais emotivo para dar um contraponto. Eu poderia destacar diversos momentos em seu maravilhoso set: como Hernan renasce para elementos emotivos de maneira sublime, estabelecendo uma relação de confiança, seja em um clube para quinhentos ou em um festival para cinco mil pessoas.

Porém, preciso me prender à estonteante abertura da parte final. “Flash Balls”, de Ruede Hagelstein, é uma daquelas escolhas da noite que fazem a pista despertar e soltar toda a energia que esteve sendo construída nas horas antecedentes. Uma música longa e desacelerante, que se perde no ínicio de um vocal sampleado que me fez colocar as mãos no rosto. Não poderia ser verdade: Charlie Chaplin proferindo o que é considerado por muitos o melhor discurso de todos os tempos em plena Pedreira Paulo Leminski, um palco lendário que agora estava recebendo a voz de uma das mentes mais brilhantes que a humanidade já viu. No filme O Grande Ditador, de 1940, Chaplin satiriza toda a insanidade da Segunda Guerra Mundial, e termina sua obra falando para um exército inteiro o porquê de as coisas serem como são. Sua voz vai ganhando energia em meio à pista, e todos parecem prestar atenção. Me vi dentro do filme, e exatamente como no final do seu discurso, todos se levantam em euforia para comtemplar a liberdade. Que momento! Uma mensagem que serviu perfeitamente pare responder à música de Depeche Mode, e que jamais será esquecida.

O fechamento vem com “Phases”, de Howling, um traço de contraste para colocar todos de volta ao chão e agradecer por tantas experiências em um dia que termina no meio da noite, mas que não poderia ser mais completo.

A mensagem do festival: Em uma era de invasão de consagrados festivais internacionais no Brasil, o Warung Day mostra mais uma vez sua força inovando em uma cidade que é uma das mais tradicionais e pioneiras no país na realização de eventos destinados ao gênero. Aguardamos por 2018!

* Fotos: Gustavo Remor

* Vídeos: Fernando Hauenstein, Alexandre Colleti, Michelle Schneider Luchtemberg

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Análise

O indie dance original respira com a volta do Friendly Fires

Flávio Lerner

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Friendly Fires
Foto: Reprodução
Depois de mais de seis anos sem lançamentos, o trio britânico que marcou os anos 2000 está de volta

Fundado em 2006, o trio britânico de dance-rock/indie danceFriendly Fires foi importantíssimo para uma guinada mais eletrônica e dançante à cena indie da década passada, que encontrava-se em sua era de ouro com a ascensão de bandas como The Killers, Franz Ferdinand, The Strokes e Bloc Party. Seu surgimento — somado à ascensão de grupos como Klaxons, Chromeo, Cut CopyMetronomy e o brasileiro Cansei de Ser Sexy — fez com que aquele cenário mais centrado nas guitarras passasse a ter um foco maior nos sintetizadores e nas batidas. O LCD Soundsystem não estava mais sozinho.

Comandando pelo carismático e rebolativo Ed Macfarlane — com suas dancinhas impagáveis ao vivo e nos videoclipes —, o Friendly Fires explodiu mesmo em 2008, com o primeiro e homônimo álbum, e desde então acumulou milhões de fãs no mundo inteiro. Nunca fizeram exatamente música eletrônica de pista, mas bebiam claramente de fontes como a house e o synth pop de grupos como New Order e Depeche Mode. E não só isso: a batida e a vibe ensolarada das músicas trazia muito da música brasileira. Singles como “Jump in the Pool” e “Kiss of Life” surgiram com fortes elementos de percussão de samba — e em 2008 e 2009, o grupo chegou a realizar apresentações em conjunto com uma escola de samba.

Em 2011, às vésperas do lançamento do segundo álbum, Pala, que se afastava ainda mais do indie rock, foram capa da conceituada revista inglesa NME, e tiveram a ousadia de dizer que preferiam escutar Justin Timberlake do que Morrissey — antigo líder do grupo The Smiths, que dominou a cena indie nos anos 80. Pra roqueiros britânicos que levam esse tipo de comparação muito a sério [o que, arrisco dizer, seja boa parte do público da revista], uma declaração do tipo soava como heresia.

O trio seguiu sua vida muito bem, obrigado. Pala também fez sucesso, e o FF seguiu apresentando-se em shows lotados no mundo inteiro nos próximos anos. Mas pararam de fazer música. Em 2014, deram um tempo de vez, e só foram voltar agora, quatro anos depois, com shows de retorno na Inglaterra realizados nas últimas semanas. E claro, novo single — o primeiro em mais de seis anos.

“Love Like Waves” foi lançada no último dia 05, e segue a linha do Friendly Fires que já estamos acostumados, sem grandes alterações na estrutura sonora. É uma canção boa e agradável, que resgata o saudosismo dos fãs e empolga pelas novas possibilidades, mas também não chega a ser dos melhores sons já feitos pelo trio.

Novos singles devem surgir nas próximas semanas, culminando, em breve, com o aguardadíssimo terceiro álbum. Se mantiver a qualidade dos LPs do passado, tem tudo para ser um dos grandes lançamentos de 2018.

Bóra relembrar outros grandes singles do grupo:

* Nota do Autor: Indie dance/nu disco, assim como progressive house e deep house, foi mais um dos estilos que caiu naquela salada de tags do Beatport, na década passada, e acabou passando a ser usado para se referir a uma sonoridade completamente diferente. Aqui, evidentemente, falo sobre o indie dance original, que vai de bandas como o Cut Copy a produtores como o Tensnake.

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Opinião

Carta aberta aos fãs de progressive house

Flávio Lerner

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Aos fãs de progressive house
Oi gente, tudo certo? Vamos conversar? Os ânimos tão meio exaltados por aqui.

Seguinte: o DJ e produtor Leo Lauretti assistiu à volta do Swedish House Mafia in loco e nos escreveu um texto com algumas reflexões. Quando eu vi que ele falou em progressive house para se referir ao estilo do trio sueco, minha reação imeadita foi a de substituir o termo. Isso porque aqui na Phouse — ao menos desde maio de 2017, quando assumi como editor —  usamos essa tag para falar sobre o gênero original: esse mesmo que vocês curtem, o de Sasha, Digweed, Hernán e companhia.

Sempre que eu recebia para editar qualquer texto usando o termo “progressive house” para se referir ao “prog house mainstream”, eu o substituia por algum outro nome — geralmente, big room ou EDM, para evitar a confusão que existe há cerca de dez anos, desde a época em que o Beatport permitia que as gravadoras se apropriassem das tags que quisessem. Mas no texto de Lauretti percebemos que nem big room e muito menos EDM serviriam para rotular o tipo de som a que ele estava se referindo. Os dois nomes se tornaram genéricos demais para caracterizar essa estética mais particular, que sim, traz elementos progressivos, mas em uma roupagem bastante pop e acessível às massas. A melhor solução encontrada foi aparentemente simples: vamos manter o nome “prog house” [evidentemente sem a intenção de ofender ninguém] que é como os fãs se acostumaram a rotular o som, e colocar uma nota ao final explicando o caso.

Apesar de o artigo ter tido ampla aceitação entre os fãs de Swedish House Mafia, nunca imaginei que fosse causar um desconforto desse tamanho nos fãs do progressive clássico. Ora, através do nosso colunista Jonas Fachi, sustentamos uma cobertura bastante rica dessa cena. Incontáveis reviews sobre apresentações de nomes como Hernán Cattaneo e Guy J, matérias sobre projetos novos que vêm impulsionando a cena prog nacional… Vocês o conhecem, não conhecem? Se não, leiam os textos dele. Vocês vão curtir. Agora, tudo isso passa a não valer mais nada porque usamos o mesmo termo para nos referir, em um momento específico, a outro gênero musical?

Certo ou errado, com boas ou más intenções, a confusão do passado entre as nomenclaturas dos gêneros já foi feita. Não é culpa nossa. Mundialmente, o estilo que consagrou o Swedish House Mafia é ainda fortemente referido por seus entusiastas como progressive house. Isso passou a pertencer a eles também, gostemos ou não. Aprendamos a dividir. Assim como o dubstep se transformou em algo diferente a partir da onda do Skrillex, no começo desta década. Assim como o deep house hoje é um termo guarda-chuva tão grande que já não tem praticamente nada a ver com o deep house clássico. Os fãs sempre chiam, mas é em vão. E a própria EDM não é unanimidade. Na Phouse, convencionamos o uso da sigla para nos referirmos ao som do mainstream, mas volta e meia alguém reclama que “EDM engloba todo o cenário da dance music”. Não está errado. O termo pode ser usado em mais de um sentido. É tão difícil aceitar isso?

Por um lado eu entendo vocês. Há alguns anos eu discotecava um estilo que gostava de classificar como nu disco ou indie dance. Graças à mesma confusão no Beatport, hoje indie dance/nu disco se tornou algo completamente diferente. O importantíssimo movimento acid house no Reino Unido não tocava apenas acid house. Entre Estados Unidos e Inglaterra, “garage” significa duas coisas diferentes. No Brasil, funk tem um sentido completamente diferente do que nos EUA. Vocês acreditam que o James Brown se importaria? Eu não. Em meu primeiro artigo aqui na Phouse, há três anos, já tinha escrito argumentação parecida: a cooptação é inevitável.

No fundo, é apenas um nome. Uma referência. Mas nunca uma verdade absoluta, objetiva, imutável, escrita em pedra. A música é o que segue importando. A comunhão na pista de dança. Dentro do contexto, todo mundo sabe quem é quem. Ninguém confude a cidade de São Paulo com o Estado de São Paulo, com o santo ou com o time. A palavra “lance” pode ser utilizada para descrever uma jogada em uma partida de futebol, um trecho de uma escadaria ou uma investida em um leilão. E creio que ninguém aqui corre o risco de tentar bater um suco com um mixer da Pioneer. Nem de ir numa noite do Warung esperando ver o Avicii.

Talvez, no artigo de ontem, a gente pudesse ter chamado o estilo de progressive house mainstream. Parece fazer bastante sentido. Mas vamos combinar que fica um nome feio e comprido demais. E talvez não fosse o bastante pra evitar as vaias. Não posso deixar de suspeitar que toda essa raiva que uma galera pegou pelo fato de Lauretti ter usado o termo “prog house” tenha a ver com um ranço, algum tipo de elitismo ou soberba cultural. “Como ousam usar o nome do MEU gênero para descrever essa reles música de playba?” Não consigo não lembrar imediatamente de toda a celeuma causada quando o Seth Troxler tocou um vocal de funk. Vejo muita semelhança entre os casos: uma histeria porque “profanaram minha casa”, “mancharam meu som impoluto”. Vamos lembrar que cada nicho e história tem seu valor para o seu público, e ninguém é melhor que ninguém por aqui — mesmo que, tecnicamente, um som possa até ser mais refinado que o outro.

A gente respeita muito o progressive house. Qualquer um deles. Assim como todos os outros gêneros musicais que dizem respeito ao universo da música eletrônica. E vocês são sempre muito bem-vindos aqui. Vamos combinar que tem espaço pra todo mundo, sem confusão? Sem ódio? Sem precisar diminuir ninguém?

Vamos mirar nossa indignação em coisas mais importantes?

* Flávio Lerner é editor da Phouse.

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Opinião

A volta do Swedish House Mafia e o retorno do prog house

Phouse Staff

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Swedish House Mafia progressive house
Um dos eventos mais importantes dos últimos anos no cenário eletrônico deve trazer consequências marcantes
* Artigo por Leo Lauretti

Swedish House Mafia fechou o Ultra Music Festival 2018, a 20ª edição de um dos maiores festivais de música eletrônica do mundo, e algumas coisas importantes vieram à tona. Durante o show, acompanhei a reação das pessoas nas redes sociais, e muitos falando bem da apresentação em si.

Primeiramente, me chamou a atenção todo o hype que foi levantado para essa performance, e deixo uma pergunta: será que a EDM/prog house* morreu mesmo, ou será que estamos vivendo um retorno desse estilo? Não acho que viveremos algo semelhante ao passado em questão de estrutura musical, mas me arrisco a dizer que algo novo pode surgir com moldes similares aos do passado. Adoraria saber o que vem por aí, e digo isso desde quando descobri, há 30 dias, que o Swedish House Mafia voltaria.

+ Swedish House Mafia “de volta pra valer”

Outro fato curioso é que o trio não tocou nenhuma música nova deles, senão as que fizeram até se separarem. Mesmo assim, as reações têm sido muito boas, o que me leva a questionar: por que músicas de seis, sete anos atrás continuam com o mesmo peso e força, enquanto vemos outras se perdendo em menos de meses? Temos aqui a resposta do que “matou a EDM” há uns anos. Hoje em dia, existem poucas músicas que emocionam como “Don’t You Worry Child”, que marcaram época. Seja agora, seja daqui a dez anos, esses sons continuarão a representar muito para quem vivia ouvindo a track durante o seu auge (2013/14). O low BPM surgiu como uma outra proposta de música para festivais, porém vejo muita saturação e “plasticidade” nos dias de hoje, e, por isso, um alerta.

Por último, o que acontecerá daqui pra frente? Como amante desse estilo do Swedish House Mafia, torço muito pela volta dele, mas muito mesmo. Isso significa que o low vai morrer? Vejo que PODE perder força, mas acho que não morrerá, uma vez que existe um público muito mais conscientizado sobre o assunto, o que possibilita ao gênero se manter em uma constante, ou com apenas uma pequena queda. Quanto ao prog, o futuro está nas mãos dos produtores, meios de mídia, público, e principalmente dos DJs que animam as festas acolherem esse “novo” estilo. Se alguém quiser mudar algo, são estes que podem começar!

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* Nota do Editor: Em face da confusão instaurada nesses últimos dez anos quanto ao termo progressive house — originalmente um estilo bem diferente deste capitaneado pelo Swedish House Mafia —, continuaremos chamando aquele de “progressive house”, enquanto este passa a ser referido como “prog house”, evitando o uso de um mesmo termo para se designar a gêneros diferentes.

** Leo Lauretti é colaborador eventual da Phouse.

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