A um oceano de distância: Fel e Guk falam sobre nova fase do duo

Prestes a se reunirem para o Rock in Rio, membros do Felguk relatam as vantagens e desvantagens da divisão em países diferentes
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Foto: Renan Piva/Divulgação

Há uma semana, Felipe Lozinsky (o Fel) explicou no Instagram do Felguk o motivo de sua mudança para Portugal há pouco mais de um ano: um episódio violento no Rio de Janeiro envolvendo sua família que o fez mudar de país em busca de segurança.

Desde então, o duo, que em 2019 completa dez anos, entrou em uma nova fase muito peculiar. Fel e seu parceiro Gustavo Rozenthal (Guk), que ficou no Brasil, estão produzindo as tracks do projeto à distância, em estúdios diferentes. Assim, Guk tem feito a maioria das apresentações no país sozinho, exceto em algumas gigs maiores — como a próxima edição do Rock in Rio —, enquanto Felipe representa o projeto em shows na Europa.

“Say Hi” saiu na última sexta-feira, pela HUB Records

Adotando uma identidade sonora diferente, que mescla o som electro house característico da dupla com o tech house atual de FISHER e cia, essa nova fase do Felguk vem em uma sequência de lançamentos consistente, que iniciou-se com “Take Control” e “Say Hi” (ambas lançadas pela HUB Records), e segue com a “Work That Body”, que sairá no próximo dia 14, pela Spinnin’ Deep, e “Gameboy”, que será lançada por outro selo internacional, ainda sem data definida.

Em entrevista exclusiva para a Phouse, os artistas falaram sobre como foi a adaptação para essa nova fase, as vantagens de ter membros em continentes diferentes e os planos de continuidade do Felguk para os próximos anos. Confira:

O que motivou essa separação de vocês? Foi uma decisão muito difícil de ser tomada, pensando em como poderia afetar o projeto?

Gustavo: Não existiu separação. A mudança do Fel para Portugal foi por conta de um episódio violento que aconteceu com ele e a família no Rio de Janeiro. Isso não afeta o projeto em nada, mesmo DJs que moram na mesma cidade por vezes produzem em estúdios separados.

Nos últimos tempos, vocês em algum momento cogitaram a possibilidade de dar uma pausa ou até mesmo descontinuar o projeto Felguk?

Gustavo: Nós não só somos muito amigos, como a gente se considera irmão da vida. Avaliamos todas as possibilidades e decidimos seguir com o projeto. 

Felipe: A gente pensou em tirar forças dessa situação, mas nunca em acabar com o projeto.

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Produzir tracks à distância prejudica de alguma forma o workflow de vocês?

Felipe: Não prejudica, apenas mudou a forma de produzir. A gente está sempre interagindo pela internet, o que não deixa nossa conexão mudar. A diferença é que um produz, o outro vê e comentamos em cima. 

Gustavo: Ficamos mais livres para criar e acaba criando um universo de possibilidades maior. No fim, acabamos tendo dois estúdios, não só um.

A maior parte do público, quando vê o nome “Felguk” em um lineup pensa logo no duo. Vocês recebem críticas por, muitas vezes, não estarem mais tocando juntos?

Gustavo: Nunca recebemos uma crítica direta, os fãs apenas têm curiosidade e buscam entender por que não estamos tocando juntos. A gente nota que os anos de estrada do Felguk e a interação com o público criaram uma marca sólida na qual as pessoas confiam quando veem um de nós no palco.

Felguk
Fel no Sunset Festival. Foto: Renan Piva/Divulgação

Felipe, você acredita que estar em Portugal te ajuda de alguma forma a acompanhar mais de perto a cena européia e as tendências do mercado da música eletrônica?

Com certeza, eu tô vivendo aqui agora, então tudo relacionado à cena da música eletrônica, eu tenho acompanhado, tenho participado de reuniões aqui. O pessoal da cena aqui em Portugal, DJs, empresários, trazendo o Felguk para cá e para a Europa… Se eu tô aqui, por que não fazer isso, entendeu?

Gustavo, nas primeiras vezes em que teve que se apresentar sozinho, você estranhou estar sem ele?

Foi algo que causou bastante apreensão no início, porque o Fel tem uma presença muito forte nos palcos durante os shows. Mas sem ele, eu consegui desenvolver um outro lado meu, o que hoje me faz estar confiante com ou sem ele.

Fora o fato de que virou um acontecimento toda vez que tocamos juntos. É como se encontrasse minha metade. Sinto muita falta dele nas viagens, mas a gente vai aprendendo a conviver. Nosso produtor, Renan Piva, está sempre comigo e me fez sentir essa confiança e nunca deixar a peteca cair.

Lançada em julho, “Take Control” é resultado da collab com o DJ e produtor mineiro Ingek

Quais as principais vantagens e desvantagens dessa nova configuração do Felguk?

Gustavo: A vantagem é poder estar presente em dois continentes ao mesmo tempo acompanhando as cenas, fazendo show. A gente já fez show no mesmo dia — ele na Austrália e eu aqui no Brasil —, e a parte ruim é de estar fisicamente distante do seu sócio, que é sua alma gêmea dentro desse projeto, né. 

Felipe: O projeto foi concebido pelos dois e a gente ficou dez anos juntos, sempre em todos os shows e no dia a dia fisicamente, né. E agora com essa distância fica mais difícil. A desvantagem é estar longe de quem você escolheu para ser seu companheiro na caminhada.

Esta situação de distância física, vocês encaram como algo temporário ou mais definitivo?

Gustavo: Já tem um ano e meio que o Felipe está morando na Europa. Não sabemos se no futuro eu vou para lá também, ou para outro lugar no mundo. Gostamos de viver com a realidade do momento e está sendo ótimo.

Felguk
Guk na última edição da XXXPERIENCE. Foto: Renan Piva/Divulgação

Nos primeiros anos de carreira vocês ficaram conhecidos pelas tracks de electro house, mas nos últimos tempos, têm explorado uma sonoridade diferente, que mescla esse electro com tech house. O que fez com que vocês fizessem essa mudança?

Gustavo: Então, música eletrônica é um som dinâmico e, ao longo de muitos anos, você pode criar uma identidade, mas com uma carreira longa é preciso se reinventar. Não só isso, mas você está muito sujeito a influências do meio. A gente sempre fica tentando traduzir o que está rolando e mesclar com o que a gente tem de assinatura e de identidade.

Sempre que rola essa transformação, a gente fica muito animado, porque a mudança no som renova as produções. No momento, o som que a gente tem absorvido do meio basicamente é esse do Chris Lake e FISHER, e a gente está misturando isso com as nossas raízes electro, criando uma sonoridade nova que a gente está curtindo muito. 

Felipe: Estamos entrando numa bateria agora de músicas instrumentais não cantadas e voltadas para pista. Acho que é sempre assim: quando a gente muda o som, a gente primeiro quer fazer as músicas de pista. Essa é a nossa natureza inicial. O público tem recebido muito bem, a gente assinou um single com a Spinnin’ que tem vários lançamentos aí agora. Estamos bem animados com essa mudança — está soando mais Felguk do que nunca.

Na avaliação de vocês, quais foram as maiores mudanças na cena eletrônica brasileira de quando vocês começaram até hoje?

Gustavo: Não só o som mudou bastante, a gente passou pela era da EDM, pela era do brazilian bass, do deep, e agora tá entrando talvez na onda do tech house. Mas mais do que isso, a cena cresceu muito muito e se profissionalizou bastante.

Quando a gente começou, o único aspecto da carreira do DJ era lançar música independente por selos independentes. Não tinha gravadora grande, não tinha rede social, não tinha nem empresário. Era isso e shows. E os shows eram muito mais restritos, eram só raves e alguns clubs. Agora tem muito mais opção, e as possibilidades e as proporções da cena aumentaram muito.

Qual a expectativa de vocês para o Rock in Rio?

Felipe: A expectativa é muito grande, até por ser um festival que é no Rio de Janeiro, nossa casa. A gente já teve o prazer de tocar em várias edições do Rock in Rio, inclusive até fora, em Las Vegas, e sempre é um espetáculo. A gente viu o palco eletrônico crescendo e isso é muito legal. 

Gustavo: Quando a gente toca a vibe é inacreditável. Isso rola nesses grandes festivais, as pessoas vão lá com um tipo de energia diferente. E é muito bom canalizar essa energia, fazer a galera dançar para caramba.

* Matheus Mariano é o novo colaborador da Phouse.

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