[Ainda] precisamos falar sobre a EDM

Você ainda se empolga com a infame sigla ou não aguenta mais o assunto?

Seja aqui na Phouse ou no resto da mídia sobre dance music, temos dado muita importância sobre o que os artistas acham sobre a EDM. Já lemos muitos comentários de alguns de vocês que justificam que a sigla não pode ser considerada um gênero musical, pois significa Electronic Dance Music e, portanto, englobaria toda a música eletrônica dançante. Embora eu quisesse que assim o fosse tanto quanto vocês, a verdade é que EDM tornou-se um rótulo para toda aquela música eletrônica dançante extremamente popular, que ocupa atualmente os palcos e horários principais de festivais, de Las Vegas a Tóquio. O som predominante vinha sendo o big room, barulhento e onipresente; agora, porém, esse estilo já saturou, e o “furacão EDM” partiu em busca de estéticas novas pra se apropriar. Mas até quando?

Ontem, o colega Thiago Fadini trouxe lamentações de Gareth Emery sobre o “gênero”; semana passada, o Fatboy Slim também se manifestou; e mais anteriormente, expliquei aqui, em minha primeira coluna, sobre como funciona esse processo de cooptação, que transforma o que era “só nosso” em algo para as massas — e mais! —, como esse processo é um mal necessário, que pertence à sociedade contemporânea há décadas.

Pra vocês verem como estamos em sintonia com o que vem sendo discutido cada vez mais, saiu agora nova matéria do mesmo thump, que mostra pequenas declarações, a diferentes veículos, de DJs veteranos e mais associados ao underground sobre o tema. Em quase todas elas, podemos fazer associações com o que falei há pouco tempo no texto sobre a cooptação. Vejam só:

thump: “O EDM passou a ser associado à música estereotipada, à cultura de massa grosseira e seu apelo mainstream — tudo o que a cultura da música eletrônica pretendia ser contra.” 

Bassnectar: ” Tem sido difícil assistir algo tão especial para mim ser diluído e apropriado e se tornar esse tipo de carnaval sem vergonha, barato e fake. Nesse aspecto, eu odeio o EDM. Tenho receio de ele estar arruinando a autenticidade da cultura da discotecagem… Mas você não pode odiar as 30 mil pessoas que estão curtindo muito.” [THUMP, 2014]

Phouse: “Parece razoável, mesmo pra caras barbados e moças feitas, certa indignação quando aquilo que a gente acredita começa a gradualmente perder os seus valores.”

Reid Speed: “A dance music enquanto cultura underground costumava ser um porto seguro para quem não se enquadrava no mainstream, lá estava um refúgio para a nossa esquisitice. Agora, a maior parte da dance music é composta pela galera de quem nós queríamos fugir.” [YourEDM, 2014]

Phouse: “[…] é normal ficarmos putos da cara quando aquele gênero que a gente sacou antes de todo mundo e passou a definir o nosso caráter começa a atingir um sucesso cada vez maior, fazendo com que aquele pessoal palha que vivia nos zoando no colégio de repente se apropriasse do nosso segredinho.”

John Digweed: “Se eu for tocar no palco principal, as pessoas vão querer algo que lhes é familiar e eu não posso oferecer isso. Preferia estar num lugar onde a plateia quer ouvir o que vou tocar. Não daria certo para mim tocar depois de um DJ de EDM; não tenho aquela energia na minha música, nem se eu tocar a faixa mais rápida e enérgica.” [THUMP, 2014]

Phouse: “Para [alcançar um sucesso maior], evidentemente, [a dance music] teve que se adaptar às convenções sociais vigentes, sacrificando, então, boa parte da sua profundidade, omitindo o seu discurso político de rebelião e fazendo um som muito, mas muito mais acessível.”

Entre as dez citações pinçadas agora pelo thump, duas das minhas favoritas agregam ainda outras perspectivas: “Não posso condenar o EDM ou a música pop piegas se as pessoas decidiram, de forma democrática, que é isso que elas querem. Isso pertence a elas. Pessoas que têm os mesmos interesses não fazem guerras e matam uns aos outros. É difícil matar alguém quando vocês têm valores semelhantes” [disse Ricardo Villalobos à Crack Magazine]; e “[O EDM] é bem estereotipado; as pessoas sabem que se seguirem aquela fórmula irão parar nas rádios ou descolar uma turnê. Enquanto no Reino Unido é bem mais fácil ser um pouquinho mais original se você quiser. Não estou falando que o EDM é grotesco, mas se você quer ser mais rebuscado em termos de esforços criativos, você pode fazer isso e ser ovacionado em uma plataforma mainstream” [declarou Annie Mac ao Insomniac].

É fato que não adianta chorar, pois é assim que as coisas funcionam e seguirão funcionando, e também é fato que essa bolha, logo, logo, vai estourar. Os oportunistas enchem o rabo de grana e partem pra outra [ou para o ostracismo] e os artistas genuínos seguem sua luta por reconhecimento e — ao menos relativamente — pouco dinheiro. Claro, também não podemos generalizar, pois há muita arte verdadeira na EDM, assim como não é preciso fazer algo tão raso para ser popular, como bem frisou a Annie Mac — Michael Jackson, Daft Punk, Justin Timberlake, Pharel e até mesmo o Zedd são bons exemplos.

Para ler o restante das declarações, acesse a matéria original.

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