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Entrevista

Alec Araujo: “O progressive house de hoje é bom demais para ser ignorado”

Jonas Fachi

Publicado em

11/08/2017 - 14:35

Em entrevista com Jonas Fachi, Alec Araujo fala sobre a estreia de seu programa mensal na Frisky Radio, de Nova Iorque — uma das rádios mais respeitadas do planeta.

Como artista, Alec Araujo alcançou altos níveis de reconhecimento e apoio, dos quais muitos produtores só sonham. De suporte de DJs como Hernan Cattaneo, Nick Warren, Paul Oakenfold e Dave Seaman a feedback positivo da icônica banda alemã Kraftwerk, Alec já conseguiu muito em sua carreira. Um dos pioneiros da cena eletrônica no Sul do país, ele ajudou a construir as bases de um movimento cultural que explodiu durante a primeira década do século 21 no Rio Grande Do Sul, e que agora está novamente circundando as mentes da nova geração de clubbers no país — o house progressivo.

+ Por que Guy J pode ajudar a escrever uma nova página na cena gaúcha

Sua dedicação à música por quase duas décadas de carreira é refletida através de poderosos sets, que compartilham de uma perspectiva única e atingem ouvidos afiados por novos talentos. A capacidade elevada em construir mixagens com energia e atmosfera são aclamadas em toda América do Sul, levando-o a ser convidado para se apresentar em clubs com Warung e D-EDGE, além de podcasts para diversos programas de todo mundo. Agora, a Frisky Radio — uma das rádios eletrônicas mais respeitadas do planeta, que recebe mixes e faz curadoria exclusiva há quase 20 anos de grandes expoentes, como Nick Muir, 16 bit Lolitas, Robert Babicz, Quiver, Martin Garcia e Miss Nine — ganha um novo integrante. Pelo podcast Fenix Sessions, Alec será o segundo brasileiro a fazer parte do disputado roster da Frisky, que dispõe de quase 40 artistas. Nesta entrevista, ele nos conta como conquistou seu espaço na consagrada rádio de Nova Iorque, além de referências, produções, insights sobre a cena nacional, e claro, detalhes do seu show mensal que vai ao ar na próxima segunda.

Alec, conte-nos: como surgiu o convite da Frisky?

Há anos que recebo convites para sets na Frisky. O time da rádio sempre me apoiou, e a afinidade entre eles e minha música só cresceu durante esse tempo. Há algum tempo eu já amadurecia a ideia de ter meu próprio show, e acredito que o convite veio no momento certo — um momento em que me sinto maduro na minha carreira. Acredito que os trabalhos realizados durante esses anos de relacionamento só favoreceram para que o Fenix Sessions se tornasse real, e no momento adequado.

O nome escolhido para o seu programa é Fenix; parece que existe um simbolismo por trás dessa escolha.

Quando eu residia em Porto Alegre, diversos amigos sempre me questionavam quando eu iria ter minha própria festa, pois éramos uma turma enorme de pessoas que gostavam de um mesmo estilo, o progressive house — e não era normal escutar esse estilo em clubs. Naquela época, resolvi que teríamos que criar uma festa, com algo novo musicalmente. O nome “Fenix” veio da ideia de “renascer das cinzas”, da renovação esperada por todos em relação à música tocada, e pegou. Tenho um carinho especial pelo seu significado, e não poderia fazer diferente [com o nome do podcast]. Também pelo conceito nostálgico criado pelas pessoas em relação à festa, resolvi que manteria o nome no show.

“Fenix” também significa o novo. Por isso, fiz questão de trazer artistas que o público não conhecia para cada evento, e também produções deles para meus sets. Continuarei fazendo sempre isso nos shows mensais. Há musicas em que o propósito é diferente de tocar ao vivo, mas no show elas serão encaixadas no momento merecido, juntamente com sons que já funcionam nas apresentações. Quero fazer o diferente do meu jeito.

“Eu sempre acreditei que a cena é você quem faz.”

Você atualmente vive em São Paulo, mas é do Rio Grande do Sul, onde foi pioneiro. Em que época foi isso, e como você vê a cena do seu Estado de origem?

De 2000 a 2012 foram os anos em que mais toquei naquela cena. Era uma festa melhor que a outra. Eu amo meu Estado e tenho uma consideração enorme por todas as pessoas que, de uma forma ou de outra, ajudaram a construir a minha carreira. O RS realmente tem um público maravilhoso. Eu fico feliz de ver hoje artistas gaúchos como o Fran Bortolossi, produtor da Colours, fazer não só sua festa como a sua carreira de DJ um sucesso. Produtores como o Do Santos, que é meu conterrâneo, se destacarem não só no Brasil como no mundo com suas músicas é incrível.  Ouvi sets do Mezomo (Santa Maria) com excelente repertório. O PoSher, que é um DJ novo, é um artista dedicado e com gosto e técnica musical incríveis. Tem o Ednner Soares aka Zipman, que é um produtor e técnico de áudio dos melhores — o Marco Carola e o Stefano Noferini tocam músicas dele. O Cesar [Funck, do Sonic Future] já é para mim um dos maiores produtores mundiais. O Rodrigo Moita também, sempre foi um batalhador: mora hoje em SP e é sócio da Entourage, um dos maiores empresários do ramo no Brasil.

Estes são somente alguns de um leque de talentos inefáveis do meu Estado. Festas como a Levels contribuem a cada edição com excelentes atrações e público bonito em seus eventos, isso sem contar com clubs como a Beehive, que mantêm uma tradição em qualidade em seus lineups. Eu sempre acreditei que a cena é você quem faz, então acredito que as pessoas que trabalham com amor e dedicação com a música eletrônica estão colhendo bons frutos atualmente por lá.

Você também foi pioneiro na produção musical no país. Recentemente, sua faixa pela Global Underground foi relançada em uma série comemorativa da gravadora. Qual o sentimento em ter lançado por uma marca tão importante no cenário global?

A faixa “Baghdad” foi feita em parceria com meu amigo e irmão de produção de muitos anos, o Fernando Goraieb. Para a gente, é sempre uma surpresa com alegria quando lançamos em um label como o GU. A nossa parceria se estende até hoje e somos amigos dentro e fora do estúdio; duas crianças grandes. O legal de lançar em um label expressivo, ao menos para mim, é a questão de os olhos lá focarem no Brasil como um lugar que tem, sim, produtores esforçados e com grande talento para a música.

Ouvi também sobre sua parceria com o Wolfgang Flur, um dos membros da lendária banda eletrônica Kraftwerk. Como aconteceu isso?

O Wolfgang curtiu um remix do Kraftwerk que fiz para o Hernan Cattaneo tocar. Falou que havia amado o trabalho, e perguntou se eu poderia enviar a ele uma cópia, juntamente com os canais do remix abertos para que ele fizesse sua própria versão. Fiquei lisonjeado com tudo isso. Em seu livro  I Was A Robot ele citou meu nome — achei muito gentil e educado. A partir disso, a amizade estreitou, e recentemente recebi dele uma proposta para um novo trabalho, um novo remix.

Atualmente, como está sua carreira? No que tem trabalhado?

Estou contente com as produções recentes, oportunidades e apresentações que têm surgido. Neste ano tive músicas lançadas nos labels Clinique e Nube Music.  A convite da Hot Cue Music, produzi um remix da faixa “Smyrna”, do Nightboy, que já tem o suporte do Hernan Cattaneo, e outro remix para a gravadora Chief Rouge Records. Há faixas também que serão lançadas por 3XA, Astrowave e Varona Label. Recentemente retornei de Santa Catarina, onde pude tocar no InProgress Showcase. Público lindo e vibe inacreditável. Santa Catarina possui uma energia pura e próxima com o progressive, e senti isso com muito mais intensidade desta vez.

Também estou muito contente pela oportunidade de mostrar meu trabalho no D-EDGE no dia 27, juntamente com um time de amigos e DJs que admiro. Aproveito para deixar o meu agradecimento pessoal ao clube pela recepção do Progression, e a todo o pessoal pelo empenho e trabalho já realizados. Faremos uma grande festa. Dia 14 de outubro retorno ao RS para tocar em Garibaldi, no Freedom Music. Eventos como este são importantíssimos para o crescimento da música eletrônica, pois são feitos com muito foco, determinação e principalmente amor — e o público é quem mais ganha com isso.

“Os clubs precisam abrir as portas para a boa música, independentemente do estilo.”

Existe um movimento que tenta inserir o house progressivo em São Paulo. Por que agora a cidade e até clubs importantes, como o D-EDGE, estão abrindo as portas para o estilo? Sabemos que o techno sempre predominou por aí…

Acredito no amadurecimento da música e das pessoas como um todo. Há o momento certo para as coisas acontecerem. Aqui em SP, o núcleo da Unik ID está fazendo um trabalho bonito dentro da cena progressiva, trazendo Darin Epslon e Cid Inc para a sua primeira edição — quer dizer, o movimento está mais forte. Progressive house é um estilo bonito de se tocar e de se mixar. Há toda uma técnica por trás, as músicas são mais trabalhadas, as harmonias mais intensas e os breaks das produções atuais são explosivos e completos. O que está acontecendo atualmente dentro desse estilo é bom demais para ser ignorado. Minha opinião é que os clubs precisam abrir as portas para a boa música, independentemente do estilo.

Quais são os produtores que têm frequentado sua playlist ultimamente? E você poderia nos adiantar algo sobre o set de estreia na próxima semana?

A lista é enorme. Tenho um respeito gigante pelo talento de cada um deles. Estão em outro nível nas produções e são pessoas incríveis. Vou citar alguns: Nicolas Rada, Ezequiel Arias, Lucas Rossi, Emi Galvan, Subconscious Tales, SHFT, Dmitri Molosh, Christian Monique, Martin Gardoqui, Franco Tejedor, Guhus, Ignacio Torne, Clyde Rouge, Santo Adriano, Bablak, Antrim, Michael A, Eze Ramirez, Sebastian Busto, Ewan Rill. No Brasil: Luciano Scheffer, Fer J, Danilo MorttaguaAndré Sobota e André Salata têm feito trabalhos com suporte de muito artista grande. Mas há vários ainda no anonimato, e não vejo a hora de ver a música deles em alguma edição do Fenix Sessions.

Quanto ao set, tenho recebido músicas que são verdadeiras histórias para se ouvir, e vai ser ótimo poder contá-las durante os 60 minutos do show. Vou trabalhar para ter uma obra prima a cada mês para oferecer a quem puder ouvir. O Fenix Sessions terá o que tenho de melhor, de mais novo, e também tudo o que aprendi nesses anos como DJ e produtor, em técnica e estudo musical. Não é para ser um simples set. É um trabalho para fazer parte da vida de alguém.

Estreando no dia 14, o Fenix Sessions vai rolar na Frisky Radio nas segundas segundas-feiras de cada mês. Você pode conferir a programação e o link para ouvir o lançamento do programa aqui.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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7 fatos que mostram que o Caos é um dos clubs underground mais legais do ano

Clube campineiro celebra seu primeiro aniversário nesta sexta-feira

Phouse Staff

Publicado há

Caos 1 ano
Foto: Bill Ranier/Divulgação
* Por: Pollyanna Assumpção
** Edição e revisão: Flávio Lerner

Contradizendo todas as previsões pessimistas de alguns amantes da música eletrônica, 2018 foi um super ano para a cena brasileira. Mesmo com a perda de alguns festivais, como o Ultra Music Festival, ganhamos e crescemos em outros, como Dekmantel, DGTL e Time Warp, e tivemos o boom do dito underground nos principais festivais brasileiros, que fizeram questão de caprichar em estrutura e lineup. Pra quem também é fã de um lifestyle clubber, tivemos momentos incríveis, e o nascimento do Caos, em dezembro do ano passado, em Campinas, é um dos pontos altos do ano.

Seguindo o modelo de uma abertura mensal para o público da música eletrônica, o Caos teve um 2018 grandioso, trazendo alguns dos maiores nomes do techno e da house mundial, parte deles vindo com exclusividade. Além disso, o club ainda fez parte do processo de revitalização da noite de Campinas e arredores, se unindo a outras festas e clubes e transformando a área em um expoente da noite eletrônica do Brasil.

Em dezembro, a casa de Eli Iwasa e companhia comemora um ano de existência e sucesso com Ben Klock, o famigerado residente do Berghain, no dia 07. Por isso, listamos abaixo sete fatos que provam que o Caos foi um dos clubs underground mais legais do ano no país.

Foto: Bill Ranier/Reprodução

1 – Atrações imperdíveis e exclusivas

Poucos foram os clubes que trouxeram nomes tão grandiosos e consistentes como os que vieram ao Caos. Logo na sua inauguração, Carl Craig apresentou seu techno de Detroit cheio de influências. Marco Carola e Laurent Garnier fizeram as honras no verão. No inverno teve Chris Liebing, Ellen Allien e Speedy J. Também passaram por lá Nina Kraviz, Marcel Dettmann, Modeselektor, Recondite, Tijana T., Ryan Elliott, Efdemin e Guy J.

Houve uma abertura da casa 100% feminina comandada pela ucraniana Nastia, para uma edição que foi do pôr do sol ao seu nascer. E na última festa, em novembro, trouxe a multi-instrumentista italiana Giorgia Angiuli, que produz ao vivo, canta e transforma objetos aparentemente inúteis em verdadeiras máquinas de fazer música (como você viu aqui). Além disso o club confia no talento dos brasileiros, trazendo nomes como Gui Boratto, ANNA, L_cio, Renato Ratier e Gromma — além da própria Eli Iwasa, claro.

Foto: Image Dealers/Reprodução

2 – A festa nunca acaba — ou pelo menos, segue até o after

Construído em um belíssimo galpão revitalizado na área industrial de Campinas, o Caos não tem pressa de fechar as portas. Já houve festas que começaram ao entardecer e terminaram às 08h da manhã. Mas teve dias que também terminaram ao meio-dia, como na festa que Dixon comandou. Normalmente não se sai de lá antes das 10h. Devido à estrutura do galpão, é possível dançar e ver o amanhecer pelas janelas gigantes. Os próprios DJs ficam tão encantados com a vibe que se recusam a parar de tocar para aproveitar o momento. Só quem amanhece na pista e ama ver o Sol nascer com música boa ao fundo sabe que essa energia é inimitável.

Foto: Bill Ranier/Reprodução

3 – Qualidade do som e acústica perfeitos

Todo mundo tem aquele amigo que fica procurando o melhor lugar na pista pra ouvir o som, e se você não tem esse amigo, provavelmente essa pessoa é você. Não tem coisa pior do que ter que escolher entre ouvir a música perfeitamente ou ficar confortável no rolê. Pra quem gosta de dançar com espaço, é essencial que o som esteja bom em todos os cantos da festa, algo fácil de acontecer com um sistema tão bom — o L’acoustics —, a disponibilidade das caixas e a expertise da CPro, empresa que foi fundamental para proporcionar a experiência sonora que é o Caos.

Foto: Bill Ranier/Reprodução

4 – Iluminação

A sincronização das luzes com a música e o posicionamento delas no Caos muda a cada abertura, o que faz com que cada experiência seja realmente única, e cria uma atmosfera sempre muito comentada pelo público. De bastões de LED a jogo de holofotes e projeções, você sente que o trabalho foi cuidadosamente planejado por todos os envolvidos — a casa e o DJ. E não tem sensação melhor do que perceber que todos estão preocupados em fornecer a melhor experiência possível pro público.

   

5 – A identidade visual

Tem coisa mais legal que se sentir provocado visualmente? É assim que o Caos faz. O conteúdo de divulgação do club pode ser considerado uma instalação artística. Desde o início, o conceito da casa foi pensado de forma inédita, sugerindo sempre debates atuais. Por um tempo, o Estúdio Muto produziu peças criativas e imersivas. Agora, quem assume a comunicação visual do club é o coletivo esponja e Yusuf Etiman, trazendo sua visão aprofundada já para a próxima abertura da casa, que contará com instalações especiais e homenagens a Campinas.

Foto: Bill Ranier/Reprodução

6 – A verdadeira experiência underground

Estamos em uma era de grande atenção para os festivais, mas frequentar um club que sabe o que está fazendo tem igual valor ou até mais para alguns. Sair de uma pista com a sensação de “esse club é incrível” é bom demais. As longas horas da abertura dentro do Caos parece que voam, mesmo sendo uma pista só. O DJ parece estar mais próximo do público, que pode vê-lo tocando de frente ou de costas, já que a estrutura do palco permite que o frequentador tenha uma experiência meio Boiler Room. Além de tudo, o público que conhece e aprecia o som é o aspecto mais importante. Mais uma questão de energia que foi fundamental para o sucesso do Caos.

Foto: Bill Ranier/Reprodução

7 – A vibe warehouse do galpão revitalizado

A casa comporta tranquilamente uma média de mil pessoas em um ambiente bonito, mas sem firulas. Embora não seja pomposo, o local é grandioso, confortável e muito bem ventilado. Com bares super bem decorados, eficientes e sem filas, um fumódromo espaçoso, banheiros limpos e projeções nas paredes, o Caos em si já é um bom motivo para ser considerado um lugar maravilhoso de se frequentar. O cuidado com a imagem está perceptível em cada detalhe.

Foto: Image Dealers/Reprodução

BÔNUS – A atitude

Tem mais uma coisinha que não só transforma o Caos em um club verdadeiramente underground como um dos mais legais do Brasil. A atitude de toda a equipe e o posicionamento que a casa toma frente a assuntos importantíssimos, como a homofobia e o machismo. De reuniões frequentes com os seguranças a mensagens de conscientização nas redes sociais (e dentro do próprio club, como você pode ver na foto acima), o club nos lembra a cada abertura que o respeito deve imperar — e de onde a nossa música veio.

O primeiro aniversário do Caos rola nesta sexta, a partir das 23h, com Ben Klock, Caio T, Eli Iwasa e Lucas Freire.

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ENTREVISTA

“Achava que dance music era vulgar e fácil de se fazer, mas eu estava errada”

Uma das artistas mais interessantes do cenário techno atual, Giorgia Angiuli fala sobre o visual, a turnê no Brasil e o seu primeiro álbum solo

Flávio Lerner

Publicado há

Giorgia Angiuli
Foto: Divulgação

* Com a colaboração de Alan Medeiros

No cenário eletrônico, artistas que trazem uma bagagem de referências musicais plural, e que buscam fazer arte em vez de se contentar apenas com sons funcionais para as pistas, costumam ir além e se destacar em meio à massa. É o caso da italiana Giorgia Angiuli, que nos últimos anos explodiu no underground internacional.

Além de uma formação musical rica e de ter experimentado diversas vertentes como artista, a multi-instrumentista e cantora se destaca por um estilo muito particular: no cenário do techno, em que a norma é vestir preto e ser blasé, Giorgia usa roupas infantis e transforma brinquedos e chaveirinhos do Pikachu em controladores de som. Misture tudo isso com um talento grande pra compor, tocar e transmitir uma profundidade artística rara, e você consegue entender um pouquinho por que a garota faz tanto sucesso.

Neste final de semana, Angiuli estreia sua turnê sul-americana no Caos, em Campinas, onde toca nesta sexta, 09, e no dia seguinte já parte para Porto Alegre, onde toca na Warung Tour/Levels. Dali, na véspera do feriado volta a São Paulo, desta vez na capital, em mais uma data da turnê do Warung: dia 14, no Aeroporto Campo de Marte. Saindo do Brasil, encerra a turnê no Sónar Bogotá (17) e no clube The Atlantic Room, em San Juan, Porto Rico.

“Nothing to Lose” é um dos singles já conhecidos de In a Pink Bubble

No dia 23, lançará In a Pink Bubble, seu primeiro álbum solo, que segundo a própria, mistura indie eletrônico e techno melódico. Com 12 faixas, o LP é encarado como um dos lançamentos mais especiais do conceituado selo alemão Stil Vor Talent — e podem apostar que estará em boa parte das listas de melhores do ano.

Com tanta coisa importante rolando ao mesmo tempo, não poderíamos deixar passar a oportunidade de trocar uma palavrinha com ela. No papo que você lê abaixo, conhecemos mais sobre sua trajetória, relação com a música brasileira, descobrimos por que ela adota esse visual “kawaii”, que contrasta com o techno, e que por trás de toda essa aura fofa, seu primeiro álbum é marcado por uma história sombria.

Live incrível gravado em Ibiza, pela Cercle

Giorgia, após duas passagens bem interessantes pelo Brasil, com qual sentimento você chega para essa nova tour?

Vocês não imaginam o quanto estou feliz por estar de volta! Amo esse país, pois você pode respirar energia positiva em qualquer lugar. Amo as pessoas, a comida e a sua natureza!

Como enxerga o Brasil e o cenário cultural/eletrônico brasileiro?

Acho que os brasileiros têm música no sangue, tenho muito respeito pela sua cultura. Ontem à noite aproveitei um show de samba. Também gosto de bossa nova, no carro dos meus pais havia apenas CDs do Caetano Veloso. Adoro a sua intensidade e o seu charme.

Um dos principais instrumentos da música brasileira é o violão, e eu estudei violão, então é um som que também faz parte de mim. Sobre eletrônica, minha produtora preferida no momento é daqui, a ANNA. Adoro o seu techno poderoso e elegante, as produções dela são brilhantes.

“Amo brinquedos e roupas fofas. Com uma roupa preta e um equipamento simples as coisas poderiam ser mais fáceis, mas não quero mudar pelas regras do mercado.”

Ao Alataj, você falou há um ano que a cena eletrônica na Itália era complicada, com um mercado limitado e muitas restrições aos clubs. Isso continua assim? Você tem feito sua carreira mais fora de seu país do que na sua terra natal?

Amo a Itália e acho que é um país cheio de grandes artistas, mas, infelizmente, o governo não apoia a cena clubber. Na Itália, os clubes devem fechar no máximo às 04h da manhã. Não há muitos festivais, mas espero muito que as coisas mudem em um futuro próximo. Neste momento, estou tocando fora do meu país, porque amo viajar e tenho curiosidade em conhecer novas culturas.

Você tem uma trajetória bem interessante no meio musical. Conta melhor pra gente como foi a construção da sua carreira.

É difícil para mim falar sobre música e carreira e manter as coisas separadas. Sempre vivi com e pela música, então pra mim fazer música é natural e é uma necessidade para que eu me sinta bem.

Estudei música clássica, toquei rock e new metal, depois indie eletrônico, e comecei a trabalhar na cena techno há poucos anos. Tento ser sempre eu mesma e tudo aconteceu de uma forma natural. Isso é o que gosto na minha jornada, e ainda por cima, trabalho com uma equipe de amigos — meu booker e meu manager são, acima de tudo, meus amigos.

Assinei meu primeiro álbum no selo da Ellen Allien, Bpitch Control, com meu projeto anterior, We Love, e comecei meu projeto solo há cinco anos. Agora, vou lançar meu primeiro álbum pela Stil Vor Talent.

“O que eu realmente gosto da dance music é a reação do público — você consegue sentir imediatamente o que eles estão achando do seu som. É sobre reações instintivas e sentimentos, então se eles dançam, significa que estão gostando.”

E quais foram os principais desafios que você enfrentou ao começar a trabalhar com música eletrônica? Por vir de um universo diferente do usual, você não se sente um peixe fora d’água nesse cenário clubber?

Sim, às vezes me sinto um pouco como um peixe fora d’água, mas isso também é divertido. Não sei onde vou estar em cinco anos, talvez tocando com uma banda novamente. Amo música em todas as suas formas, e no momento estou apenas nadando em um novo oceano.

Na verdade, quando eu estudava, tinha muito preconceito com dance music. Achava que era algo vulgar e muito fácil de se fazer. Mas eu estava completamente errada, toda música tem suas próprias dificuldades. O que eu realmente gosto da dance music é a reação do público — você consegue sentir imediatamente o que eles estão achando do seu som. É sobre reações instintivas e sentimentos, então se eles dançam, significa que estão gostando.

Como foi que você decidiu usar brinquedos como controladores de som em seus lives? Foi uma alternativa que você encontrou para contrastar com o techno, que normalmente carrega essa aura de um som sério, rígido?

Coleciono brinquedos há muitos anos. Sei que muitas vezes as pessoas olham para o meu setup de uma forma estranha, mas eu não me importo. É quem eu sou: amo cores, adoro brinquedos, roupas fofas, essa onda “kawaii”… Até me sinto um pouco como uma garota japonesa. Sei que com uma roupa preta e um equipamento simples as coisas poderiam ser mais fáceis, mas não quero mudar pelas regras do mercado.

“A música me salvou de um estado de depressão.”

Você também tem falado sobre sinestesia em algumas de suas entrevistas. Você acha possível que, algum dia, seus shows possam apresentar uma experiência multissensorial? Como se daria essa relação de misturar música com cheiros em seus lives?

Quando comecei a tocar música eletrônica, eu costumava tocar em lugares muito pequenos, então eu sempre levava uma pequena máquina de fragrâncias. Tenho muitos sonhos, e um deles é construir um órgão e ligar uma fragrância a cada nota. Considero todas as linguagens artísticas conectadas entre si, e a arte tem o forte poder de nos conduzir a outra dimensão. É por causa disso que acho que todos deveríamos tentar explorar e aproveitar essa experiência o máximo que pudermos.

O que você pode nos contar sobre o processo criativo do seu primeiro álbum solo, que logo, logo está chegando?

Tudo aconteceu muito rápido e sem um plano próprio. Eu produzi o álbum inteiro em oito meses, trabalhando muito enquanto viajava, até mesmo nos voos. Não foi muito fácil encontrar tempo para me concentrar no estúdio. Senti uma forte necessidade de compor música, transmitir nos sons as minhas emoções, e decidi colocar todas essas músicas em um long play.

Este tem sido um ano muito especial para mim: minhas primeiras gigs pelo mundo, a descoberta de muitos países e a perda do grande amor da minha vida, minha mãe. A música me salvou de um estado de depressão. Percebi esse álbum como um presente para minha mãe, e eu agradeci a música por me fazer me sentir melhor, me dar energias para continuar.

Acompanhada por todas essas emoções, senti como se estivesse em uma bolha rosa [“pink bubble”, o título do álbum]. Compus quase todas as faixas no avião, coletando minhas ideias no Ableton, e depois gravei tudo no estúdio, no tempo que sobrava entre minhas turnês. Gravei minha guitarra, minha voz e meus synths preferidos: Moog Sub, Juno 106, OB-6 e Korg MS2000.

Flávio Lerner é editor da Phouse.

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Entrevista

“Queremos saber o que o mundo acha do Rooftime”

Trio que chegou chegando na cena brasileira explica de onde veio e para onde vai

Flávio Lerner

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Rooftime
Gabriel Souza Pinto, Rodrigo Souza Pinto e Lisandro Carvalho formam o Rooftime. Foto: Lufre/Divulgação
* Com a colaboração de Lucio Morais Dorazio

Ter seu primeiro lançamento pela Spinnin’ Records e em parceria com um dos maiores nomes do seu país é um sonho praticamente inalcançável para muitos. Não para o Rooftime. O trio, formado pelos irmãos Gabriel e Rodrigo Souza Pinto (25 e 21 anos, respectivamente) com o amigo Lisandro Carvalho (21), fez sua estreia no final de setembro com “I Will Find”, collab com o Vintage Culture.

Pouco se sabe sobre o projeto, que não só nunca havia lançado uma música oficialmente, como também ainda não fez nenhuma apresentação ao vivo, nem no formato DJ set. Os caras, portanto, são novos não só na idade, como também estão chegando agora na cena — e dá pra dizer que já chegaram sentando na janelinha.

Além de ultrapassar um milhão de plays no Spotify e chegar a quase quatro milhões de visualizações no YouTube em questão de semanas, e de ser escolhida como música tema do Réveillon John John Rocks 2019 — que rola na praia de Jericoacoara, no Ceará —, a track indica uma sonoridade e um caminho repletos de potencial a serem seguidos pelo grupo.

Assim, entramos em contato com os rapazes, naturais de Itatiba–SP, para entender melhor de onde vieram e para onde vão daqui pra frente.

O clipe de “I Will Find” foi gravado em Jericoacoara, no cenário do John John Rocks

Contem pra gente um pouco sobre as origens de vocês e o primeiro contato com a música. Como surgiu o Rooftime?

Gabriel: Sempre fomos apaixonados pela música, mas sem grandes perspectivas. Eu já tinha acabado a faculdade de Administração com foco em Comércio Exterior na PUC–Campinas, havia trabalhado na área recentemente, mas não era o que me motivava. Nunca deixei que a música saísse da minha vida, então mantinha sempre o projeto com algumas bandas, junto com o Rodrigo todas as vezes.

Rodrigo: Na época, eu estava no segundo ano da faculdade, fazendo o mesmo curso que o meu irmão fez, mas também sentia que não era aquilo que eu queria. Sendo filhos de artistas, nós dois convivíamos com música desde o berço, então sabíamos que esse seria o nosso caminho também. Mas o grande problema era nos acharmos no meio musical e criar algo diferente.

Lisandro: Eu sempre tive essa preocupação também, porque comecei a produzir desde muito cedo, e queria encontrar algo totalmente fora da caixa. Tive um projeto antes, mas eu ainda sentia que não era o melhor em que eu poderia chegar. Tudo isso mudou quando eu conheci o Rodrigo na van, indo pra faculdade. Na época, eu fazia o mesmo curso de Administração. A gente começou a conversar sobre música, e todas as ideias bateram muito rápido!

Rodrigo: Não demorou muito para gente se reunir em casa, onde nos juntamos com o meu irmão. Isso foi no começo de 2017, no mês de maio, se eu não me engano. Afinamos o violão e saíram as primeiras melodias. Começamos na brincadeira, sem compromisso, como um hobby mesmo, sem muita ideia do que poderia acontecer. Desde então, a gente se reúne quase que diariamente pra fazer música, que é o que a gente ama fazer de verdade.

O nome “Rooftime” tem uma origem bem interessante. Contem melhor essa história pra gente.

Gabriel: No começo, não tínhamos um lugar reservado em casa pra poder criar. A gente se reunia no último andar de casa que, através de uma janela, dava acesso ao telhado. Subir lá, naquela época, era uma aventura, um mundo paralelo que encarávamos como um refúgio criativo, onde o mais importante era criar e ter ideias. Aos poucos isso foi se tornando rotina, e sempre que surgia alguma coisa nova, a gente dizia: “hora de subir no telhado”. Assim surgiu o nome “Rooftime”.

+ “I Will Find”, de Vintage Culture e Rooftime, é lançada pela Spinnin’

Quais são as maiores inspirações musicais de vocês?

Lisandro: Cada um de nós traz um pouco das nossas referências, mas pra compor nossa sonoridade, escutamos muita house music, indie rock, funk americano, soul, jazz e folk. Estamos sempre em busca de artistas novos e atentos a vários estilos, mas nossas inspirações hoje são Solomun, David August, RÜFÜS DU SOL, Claptone, Jan Blonqvist, Fatima Yamaha, Drake, Karmon, Milky Chance, Tube & Berger e alguns outros.

Podemos esperar que “I Will Find” seja uma boa amostra da identidade sonora do projeto? Uma coisa meio synth pop, mesclando elementos da house e do blues/rock — algo na linha do Elekfantz, mais ou menos?

Rodrigo: A “I Will Find” é o melhor cartão de visitas possível. Nela, todo mundo pode ouvir e sentir a nossa intenção dentro da música eletrônica, com uma pegada acústica e sempre muito original. Acho que essa mistura de synth pop com um pouco da nossa essência é o que define nosso som, pois sempre sentimos que as faixas saem diferentes, mas também muito carregadas de emoção. Cada um dos três deposita tudo o que sente em cada música que criamos juntos, e acho que isso foge de qualquer denominação de estilo musical.

Rooftime
Foto: Lufre/Divulgação

Vocês nunca se apresentaram publicamente, mas sempre produziram. Como se dá esse processo de produção do trio?

Lisandro: A gente sempre tenta fazer algo com a nossa identidade, e na maioria das vezes o processo é bem orgânico, criativo e espontâneo. Não existe uma regra. Tudo começa no improviso: criamos juntos a harmonia, melodia e ritmo independente da aptidão musical de cada um. Temos bastante afinidade e as ideias acabando surgindo naturalmente.

Como surgiu a oportunidade de coproduzir com o Vintage Culture, logo no primeiro lançamento?

Gabriel: A “I Will Find” foi a primeira música que produzimos logo depois de nos conhecermos. Mal tínhamos um projeto formado, nem sequer um nome. Assim que terminamos, queríamos um feedback. Mandamos a música para o Lukas e ele abraçou a track na hora. Foi um ano de espera e de muita ansiedade, e agora, vendo a repercussão, não poderíamos estar mais felizes!

“Hoje conseguimos nos ver dentro do mundo musical de outra forma, muito diferente de antes, quando a única coisa em comum entre nós era um sonho” — Gabriel Souza Pinto.

E por que esperar um ano para esse lançamento? Foi uma estratégia de debutar o projeto já com o pé na porta?

Lisandro: Quando soubemos do interesse do Lukas pela faixa, tomamos a decisão de focar todos nossos esforços em produzir mais. Nem pensávamos mais na “I Will Find”, estávamos preocupados em consolidar nosso estilo musical e ficarmos cada vez mais entrosados no nosso processo criativo. Então, passamos todo esse tempo criando muitas outras músicas, trabalhando forte todo dia, muitas vezes até a madrugada, para que tivéssemos a certeza de que era o caminho certo.

Gabriel: Acho que tudo veio a calhar na hora certa. Por mais longa que tenha sido a espera para mostrar nosso trabalho para todos, sabemos que tudo foi muito proveitoso e necessário. Hoje conseguimos nos ver dentro do mundo musical de outra forma, muito diferente de antes, quando a única coisa em comum entre nós era um sonho.

Agora que o projeto foi lançado oficialmente, dá pra imaginar que vocês tenham já muitos outros lançamentos e gigs agendados pra logo mais. O que vem por aí?

Lisandro: Estamos nos preparando para lançar nossa segunda música, e a ansiedade não para de aumentar. Queremos lançá-la ainda neste ano, e estamos trabalhando forte nisso. Mas temos faixas preparadas para além do ano que vem, então tem muita coisa vindo por aí!

Gabriel: Também estamos estudando algumas possibilidades de gigs. Queremos ter certeza de nos apresentarmos na hora certa. Não podemos confirmar nada por enquanto, mas quem sabe no final do ano não surge alguma coisa?

Rodrigo: Estamos muito ansiosos pelo que está por vir. Temos colaborações com grandes artistas da cena a caminho, mas basicamente queremos que a nossa música ultrapasse as fronteiras e atinja um público cada vez maior. Queremos saber o que o mundo acha do Rooftime!

Flávio Lerner é editor da Phouse.

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