Análise

Conheça o Altar das Intenções, o projeto brasileiro para este Burning Man

Baseado em estudos sobre a água de pesquisador japonês, o projeto dos Brazilian Burners para 2017 mistura arte, ciência e espiritualidade.

O Burning Man 2017 está chegando aí, e já existe muita curiosidade sobre todos os detalhes dos projetos que farão parte de Black Rock City neste ano. Como já é de conhecimento dos fãs, o evento não é nada parecido com a ideia tradicional de um festival, pois não se trata apenas de uma estrutura com vários palcos e artistas alocados, mas de uma cidade que é levantada e desmontada em sete dias — sendo que o evento vem acontecendo há mais de 20 anos.

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Black Rock City já possui o status de cidade temporária reconhecido pelo governo dos Estados Unidos, e durante seu período de funcionamento é uma das maiores do Estado de Nevada, constando inclusive no Google Maps. Dentro dela, as pessoas se organizam em acampamentos, que aglutinados se tornam vilas, e a organização do evento os distribui no formato de um relógio, cujo centro é o grande homem de madeira que queima ao final do sétimo dia.

Em 2009, o artista plástico e curador de arte mineiro Daniel Strickland foi o primeiro brasileiro a participar com uma instalação, a DNA, e em 2015 foi um dos responsáveis pelo Projeto Mangueira. Neste ano, como parte ativa do grupo Brazilian Burners, realiza o projeto Altar das Intenções. O Brazilian Burners é uma organização (um dos “camps” do Burning Man) que, apesar de carregar o nosso país no nome, é feita por gente do mundo todo, sendo atualmente composta por cerca de 125 pessoas, de 12 nacionalidades.

+ RELEMBRE AQUI como foi o Projeto Mangueira

Cada acampamento, ou camp, deve ter um projeto, afinal, tudo só acontece através de colaborações voluntárias e trocas entre as pessoas. “Muita gente me procura querendo ir para o Burning Man, aí eu informo sobre os custos e o funcionamento do camp. A pessoa responde: ‘mas eu não preciso de um camp, porque eu vou de motorhome [trailer]’”, narra Strickland. “Mas pense bem: se todo mundo for para Black Rock City do mesmo jeito que você quer ir, o Burning Man acaba; a cidade só acontece porque seus habitantes proporcionam alguma interação para ela”. Daniel, inclusive, caracteriza esse tipo de participante como um pirata, pois ele usufrui de todas as interações proporcionadas, mas não propicia nada em troca.

O artista me conta que desde muito jovem mostrava interesse por física. Com o passar do tempo, foi desenvolvendo projetos artísticos e se envolveu com uma cena embrionária da música eletrônica no Brasil, participando da realização de palcos em eventos como Universo Paralello e Transcendence, além de trabalhos de consultoria em arte e design. Seu trabalho acabou evoluindo para focar na mescla entre a ciência e a arte, sendo que desde 2009 ele vem estudando a água. A água, afinal, corresponde a 70% dos nossos corpos e também a boa parte do planeta; é um elemento onipresente, que compõe praticamente toda matéria orgânica existente, além das propriedades sugeridas nos estudos do pesquisador Masaru Emoto — uma das grandes influências de Daniel.

+ Assista ao documentário sobre a primeira instalação de arte brasileira no Burning Man

Strickland soube das experiências realizadas pelo doutor japonês, que supostamente revelaram como a água seria capaz de captar intenções e sentimentos emanados pela consciência coletiva e individual. Emoto aliou uma técnica de fotografar os cristais da água com o auxílio de um microscópio a testes específicos. Primeiramente, os cristais de amostras de água limpa e de água suja eram totalmente diferentes. A água limpa formava cristais geométricos, cristalinos e sólidos, enquanto a água suja formava cristais disformes, pouco consolidados e de cor escurecida.

Em um segundo momento, submeteu garrafas d’água a diferentes sons — como Mozart, “Imagine”, de John Lennon e heavy metal —, concluindo que músicas calmas ou com mensagens positivas formavam cristais como o da água limpa, e músicas ruidosas, como o metal, formavam cristais como o da água suja.  Isso causou no doutor a impressão de que a água estaria captando a mensagem da música. Finalmente, ele escreveu em garrafas mensagens positivas, como “amor”, e negativas, como “ódio”, e diariamente se voltava para cada uma, emanando os respectivos sentimentos escritos. Da mesma forma, os pensamentos positivos formavam cristais límpidos, enquanto pensamentos negativos formavam cristais turvos.

Foi a partir da linha de pesquisa de Masaru Emoto que o Daniel baseou a arte que centraliza o projeto dos Brazilian Burners neste ano. Trata-se de uma adaptação do vortex d’água que montou em sua casa, em 2009, com uma chama de fogo no centro da espiral. Ali, diversas pessoas depositavam suas intenções positivas da maneira que entendessem melhor: através de orações, lembranças, sentimentos… Com o passar dos dias, tais ações se tornaram um hábito na casa, quase como um ritual de canalização de pensamentos bons.

O vortex, segundo Daniel, “é um movimento natural, uma espiral que puxa tudo para o centro, e esse movimento suga para o centro as intenções ali presentes”. O mineiro conta que foi naquele ano que sentiu toda a força das descobertas do japonês — “uma presença no local”.

Vortex de água e fogo feito por Daniel Strickland em 2009

O Altar das Intenções é, portanto, uma grande instalação com água e fogo em um cilindro ao centro, que reproduzirá o movimento do vórtice espiralizando a água. Por ali, os habitantes de Black Rock City passarão durante seis dias depositando suas intenções da maneira que acharem melhor — seja meditando, tirando um minuto de silêncio, relembrando de seus antepassados…

Com essa ideia, Daniel quer literalmente levar a água para o deserto, posicionando-a de maneira artística, justamente para que o projeto tenha mais impacto nas pessoas. “Uma coisa é te mostrar uma garrafa d’água, outra coisa é te mostrar uma garrafa d’água com um tornado dentro”, brinca. O local onde seu camp ficará só será descoberto na hora, mas foi solicitado que a instalação ficasse próxima ao templo da cidade. Por ser distante de lugares com música ou grandes aglomerações, o templo é o espaço ideal para as pessoas poderem refletir com calma e transmitir suas mais sinceras intenções.

Simulação gráfica do Altar das Intenções

A experiência do Altar das Intenções pretende mostrar como nossas intenções e nossos pensamentos têm uma influência no meio em que vivemos — afinal, segundo os ensinamentos de Emoto, a água está ali captando tudo e se modificando de acordo. Isso obviamente não explica o todo, nem define conceitos subjetivos como o bem e o mal, mas aproxima o ser humano de uma compreensão mais aprofundada de sua interação com o meio, e de como pode exercer influências positivas ou negativas nele.

Ao sétimo dia, quando o “Man” queima, a água do Altar será coletada e depois enviada para Berlim, em um laboratório do Instituto Masaru Emoto. Ali, serão fotografados os cristais das amostras, para revelar o produto final de toda essa empreitada — esse resultado final será divulgado posteriormente. Além disso, os Burners também pretendem fazer um documentário sobre o Altar, que irá trazer todo o contexto da obra, sua execução e seu resultado.

Aguardamos ansiosamente pelos resultados dessa experiência única. O Burning Man começa na próxima segunda-feira, 28, e vai até o dia 5 de setembro.

* Castelan é colunista da Phouse; leia mais de seus textos.

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