Aos mestres, com carinho: manifesto em homenagem ao dia do DJ

Produtor de logística, stage manager e produtor artístico no cenário Centro-Oeste, Salomão Augusto estreia sua coluna na Phouse com uma ode àqueles que fazem a magia acontecer

* Edição e revisão: Flávio Lerner

Hoje é o dia para se falar de uma das profissões mais difíceis do mundo: a do DJ.

Desde o seu surgimento sempre foi vista com olhos ou que condenam, ou que admiram, como em toda novidade. Tida como uma das profissões do futuro por ter surgido anos depois das tradicionais, como advogado, médico e contador, essa profecia aconteceu e hoje vemos o mercado ser preenchido e aquecido diariamente por pessoas que estão se alavancando por amor à música ou por amor à fama, grana e oportunidade.

A paixão que eu tenho pela profissão passou por duas fases: a de ser público/fã para a de profissional do meio. Não sou DJ, mas já tentei ser e não segui por não ter conseguido me encaixar. Por trabalhar no circuito da música eletrônica há alguns anos e no mercado do entretenimento, o outro lado dos DJs sempre me encantou, mesmo antes de conhecê-lo.

A maioria dos meus amigos hoje é DJ, e convivo com eles e suas batalhas diariamente. É de se admirar a força dos que estão pelo amor à música em romper com suas carreiras estáveis, se especializar cada vez mais, buscar novas referências e manter a sua irreverência, custe o que custar. Ao mesmo tempo, é muito ruim acompanhar e ver também quem entrou para o meio somente pela oportunidade de morder um pedaço do bolo milionário que representa esse nicho hoje, e poder se alimentar de uma fama momentânea, como uma droga.

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Como todo mercado, este não é diferente em concorrência e muitas surpresas. Uma dessas surpresas, infelizmente má, são os números atuais a respeito do quão afetada está a saúde mental dos DJs ao redor do mundo. Foi um dos principais temas tratado no último International Music Summit, e desde que ocorreram alguns episódios recentes de surtos e suicídios no meio, deu-se o play em um alerta global a respeito do tema.

A ansiedade é algo que já vem instalado nos nascidos deste século e está sendo constantemente contraído pelos que não são, através da tecnologia e do turbilhão infinito de informações que nos atropelam todos os dias. No palco, os DJs são enérgicos, pra cima e eufóricos. Mas antes de subir nele, muitos demonstram uma insegurança gigantesca quanto à própria personalidade e aceitação, pela imensa pressão imagética do mercado, até que o momento de subir as escadas acontece.

E como qualquer profissional de grande exposição, os DJs conhecem bem o sentimento de ter acabado de incendiar uma pista de dezenas de milhares de pessoas e encerrar a noite num quarto de hotel, sozinhos.

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Nos seus primórdios, o DJ era tido como o profissional que formava opinião musical e ensinava às pessoas o que ouvir de bom, através de uma pesquisa densa e intensa. É justamente por isso que ser DJ é uma das profissões mais difíceis do mundo: porque é a que mais se aproxima da de professor e que igualmente não tem o reconhecimento que deveria ter na maior parte do mundo. 

Não importa o que for tocado ou de qual estilo e vertente o DJ é, a principal ferramenta da profissão sempre foi traduzir o próprio sentimento em música, causando um mix de sentimentos nos que podem ter essa única oportunidade de poder ver e apreciar um bom set. Essa fórmula é muito mais complexa do que alguns imaginam. 

É como cantou David Bowie na música “DJ”, composta pela força da natureza em forma de pessoa chamada Grace Jones: “Eu sou DJ, eu sou o que eu toco”.

   
      Não é apenas apertar o play

      Não é apenas mixar

      Não é apenas pesquisar musica

      Não é apena viajar

      É sentir e ensinar música

Assim como qualquer profissional da área, o DJ é feito de música; a vive 24 horas por dia, ou pelo menos deveria. E por isso o respeito a ela deve vir em primeiro lugar — ela é a base da profissão. E ser DJ não se trata de apenas manipulá-la, mas de usá-la como instrumento de transformação na vida de quem ele encontra.

A todo momento, um DJ salva alguém de algum dia ou sentimento ruim em alguma pista ao redor do mundo, como salvou o pessoal do grupo americano Indeep em “Last Night a DJ Save My Life”.

Cuidemos melhor dos nossos DJs. Se não fosse por eles, ainda ouviríamos as mesmas coisas de sempre até hoje, sem experimentação, sem movimento e sem objetivo. Foram eles que me ensinaram o que eu sei e fizeram com que eu decidisse trabalhar e seguir carreira com o que trabalho hoje.

Obrigado e parabéns pelo seu dia, engenheiros de pista, cientistas do ritmo, administradores de vibe, advogados da boa música e médicos da alma.

Hasta la pista!

* Salomão Augusto não tinha melhor maneira para estrear sua coluna na Phouse.

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