Análise

BLANCAh disseca ave e perde quilos para seu novo EP; escute “Osso”

* Atualizado em 21/08, às 14:20

Uma das raras artistas da cena eletrônica nacional que levam sua arte ao limite.

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Uma das produtoras mais conceituadas dessa safra ascendente de techno etéreo/melódico/prog — ou como mais você preferir rotular —, BLANCAh está voltando com um novo EP. Chamado Osso, o disco acaba de ser lançado pela Steyoyoke [ouça abaixo], e corresponde ao primeiro lançamento da artista desde seu álbum de estreia, Nest, de setembro. O EP — o quinto de sua carreira — é formado por faixas profundas e levemente lisérgicas: a menor delas tem duração de sete minutos e meio, o que leva a uma viagem musical de duração consideravelmente maior que a média de um disco padrão de quatro músicas.

Em contato com a coluna, a BLANCAh explicou algumas particularidades do novo trabalho, e contou sobre a necessidade de mudar os planos: com Nest — como já havia me revelado na época —, a ideia era colocar um ponto final no que ela chama de “ciclo dos pássaros”. Todos os outros EPs lançados anteriormente carregam esse conceito em torno de aves, e a própria artista se definiu como “um pássaro que aprendeu a voar em queda livre”. A ideia, a partir dali, era iniciar um novo ciclo, com uma nova identidade musical: um techno mais grave, seco e soturno. As coisas, porém — e como é natural da vida —, acabaram tomando um caminho inesperado. A Patrícia Laus compreendeu que ainda não era o momento de fazer essa mudança, e parou de tentar forçá-la.

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“A ressaca foi longa. Passei um período bem longo de silêncio e estúdio fechado. Eu acordava, ia pra lá, ligava tudo e nada saía, nenhum acorde. Tinha em mente que queria fazer musicas mais fortes, talvez até subir o BPM pra atingir a pista em cheio, já que no álbum não assumi esse compromisso. Então eu sentava para compor e buscava timbres que me remetessem ao ‘technão’ e que pudessem representar a ideia do osso — da carne aberta e do corpo exposto. Era pra ser grave, pungente”, revelou a Patrícia. “Nada me agradava. Por mais que eu começasse uma ideia mais ‘pesada’, logo me via viajando em melodias, breaks longos e BPM baixo. Foi aí que percebi algo que no fundo sempre foi claro. Eu estava lutando contra minha essência, tentando fazer algo que não me representava como produtora. Foi só quando eu parei de insistir nisso que minhas músicas fluíram e voltei a compor. Parei de buscar por aquela ‘pressão’ sonora e voltei pra poesia.”

“Percebi algo que no fundo sempre foi claro: eu estava lutando contra minha essência.”

O conceito dos pássaros, portanto, segue bastante vivo em sua obra — ao menos liricamente vivo. Pra arte do EP e até pra ajudar ao processo de composição, a BLANCAh disse ter dissecado um passarinho, encontrado morto no quintal de uma amiga. “Passei um tempo refletindo sobre esse conflito que eu mesma criei, entre querer chegar em um resultado musical que talvez não fosse exatamente o meu reflexo. Tem produtores que fazem isso com muita facilidade, né? Mudam de estilo com destreza, entendem das fórmulas. No meio desse processo eu dissequei um passarinho morto. Foi uma experiência bem… diferente. Com a ajuda de uma amiga que estuda medicina veterinária, eu o abri; raspamos, quebramos os ossinhos, limpamos as penas e a carne. Esse processo foi muito significativo, principalmente no tocante a encarar a fragilidade das coisas. Aceitar essa fragilidade. Ter na minha mão aquele corpinho morto, molinho, de algum jeito me libertou e me ajudou a aceitar que o ‘osso’ seria osso de passarinho, poesia de ossinho — leve, levinho. Seria o que sempre foi BLANCAh.”

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Além de a música manter imaculada a identidade que conhecemos em sua criadora desde 2014, outra característica muito particular salta aos olhos nesse processo de produção: o compromisso integral com a arte. A Patrícia sempre fez questão de trabalhar não apenas na sua música, mas nas outras formas artísticas que circundam o universo da BLANCAh. Desta vez, se não desenhou a arte da capa, comprometeu-se a emagrecer consideravelmente para a sessão de fotos do disco, a ponto de seus ossos saltarem à vista.

Osso foi lançado nesta segunda-feira, pela Steyoyoke. Você pode ouvi-lo na íntegra, no player acima.

Flávio Lerner é editor-assistente na Phouse; leia mais de suas colunas.

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