“Persistência é a palavra de ordem”: Claudinho Brasil fala sobre trajetória e concurso de remixes

Um papo com um dos expoentes do prog trance no Brasil

* Por Danilo Bencke

** Edição e revisão: Flávio Lerner

Cláudio Perrini, mais conhecido como Claudinho Brasil, é uma das figuras mais carismáticas da cena eletrônica, e revolucionou o prog trance com suas apresentações performáticas, o que lhe rendeu o título de showman da música eletrônica.

Músico profissional atuante desde 1994, o DJ e produtor é graduado em música pela Faculdade de Artes do Paraná e há 14 anos atua no cenário das raves. Seus shows são um verdadeiro espetáculo com percussões, vocais, efeitos e a surpreendente interação com o controlador do Wii em tempo real. Apaixonado por seu país, ele faz jus ao Brasil que carrega no nome, misturando elementos tipicamente brasileiros em seus shows, já tendo inclusive feito uma apresentação com uma orquestra de maracatu no TribalTech 2006.

“Mamma Mia” é o remix de Claudinho Brasil e Harmonika para “Bohemian Rhapsody”, do Queen

Com passagem em diversos dos maiores eventos do cenário nacional (Creamfields, Universo Paralello, Kaballah, entre muitos outros), e também com agenda internacional, Claudinho se destaca por seus remixes de clássicos do rock, como “Bohemian Rhapsody”, do Queen, “Enter Sandman” do Metallica, “Metamorfose Ambulante” do Raul Seixas, e “Manguetown”, do Chico Science. Ele mistura esses clássicos populares com o trance para criar o estilo que ele chama de “pop trance”, que inclusive dá nome à sua gravadora.

Em 2015, alcançou a primeira posição do chart global de psytrance do Beatport, com a track “O Fortuna”, em parceria com o projeto “Harmonika”. Outro hit de destaque foi “Se Permita”, o primeiro trance do mundo lançado em 2017 em três idiomas, que ainda conta com a participação do locutor do Waze.

Agora, Claudinho Brasil, AIMEC e a empresa francesa Arturia estão promovendo um concurso de remixes desse sucesso, em uma grande oportunidade para produtores brasileiros ou do exterior mostrarem o seu trabalho em escala mundial. O vencedor poderá tocar seu remix no show do próprio Claudinho em um grande evento (ainda a definir), além de ganhar uma licença do Arturia V Collection 7 e ter sua track lançada pela Poptrance Records, em EP com mais três remixes, assinados por Raz, Pimp Chic e Sidewave (você pode saber mais sobre o concurso aqui).

Com sua carreira indo de vento em popa, Claudinho tocará em 04 de outubro no palco New Dance Order, do Rock in Rio, onde promete realizar um espetáculo autêntico e empolgante. Por tudo isso, fui conversar com o artista, que contou várias histórias e curiosidades sobre sua carreira, que você confere a seguir.

Claudinho, você tocou bateria e cantou durante oito anos na banda de rock Sexofone. Quando resolveu migrar para a música eletrônica?

Tudo começou em março de 2005, quando eu fui na minha primeira rave. Eu já tinha oito anos de carreira — comecei a tocar profissionalmente em 1997 com a Sexofone, que era uma banda de rock setentista, e com a qual gravamos dois discos. A gente tocava no Empório São Francisco, bar bem badalado de Curitiba, todas as quartas e sábados. Só que depois de oito anos eu percebi que ia ser difícil expandir o nosso som para o resto do Brasil.

Em 2005 eu também já era formado em música, já sabia da importância da música eletrônica e, inclusive, já palestrava sobre o tema desde 2002, mas o curioso é que eu só conhecia a música eletrônica na teoria. Foi quando me permiti ir a uma rave, e imediatamente a ficha caiu e tudo fez sentido. Percebi que através desse estilo eu poderia crescer muito musicalmente e artisticamente, expandir meus horizontes e de fato conquistar caminhos maiores, o que sempre foi minha pretensão.

Fale um pouco sobre seu livro, A Modernização da Música Primitiva.

As palestras que eu ministrava na época acabaram virando esse livro. Ele saiu em 2007, mas os estudos sobre o tema se iniciaram na faculdade em 2002. O livro faz a relação dos rituais primitivos com a música eletrônica e festas rave. Ainda conta com a participação de mais cinco especialistas, cada um na sua área, e um CD com todas as minhas produções musicais da época — assim como a gravação de índios que fiz no meu próprio home studio em Curitiba.

“Quando os haters aparecem, é sinal de que você está no caminho certo. É aquela velha história: prego que se destaca leva martelada.”

Você foi aluno, professor e chegou a ser sócio da AIMEC. Qual importância da escola na sua carreira?

Assim que eu voltei daquela primeira rave, resolvi me planejar e fiz um cronograma disciplinado de nove meses: três meses para me equipar, três meses para aprender a mexer no software e três meses para produzir meu primeiro live. Como eu já tinha formação musical, o desafio maior seria a parte de produção. Então eu resolvi fazer o curso de produção musical da AIMEC.

Primeiro fiz o curso de Cubase e depois de Ableton, e assim, como estava no meu planejamento, logo já estava com o meu primeiro live pronto. Março de 2005 foi a primeira rave que eu fui, e em dezembro de 2005, exatamente nove meses depois, eu fiz minha primeira apresentação live.

Logo em seguida, fui convidado para lecionar na AIMEC, e lá trabalhei até o final de 2008, quando recebi uma proposta para tocar em um projeto conceituado no Rio de Janeiro. Eu precisava dar esse passo na minha carreira e segui em frente.

Eu sou muito grato à AIMEC. Eles que me deram todo o suporte e conhecimento que eu precisava, também valorizaram muito o meu trabalho e me orientaram no mercado. Sem contar com a oportunidade e experiência que tive em lecionar. Me orgulho em fazer parte dessa história.

Como você fez para começar a tocar e ser reconhecido no resto do Brasil?

Eu acho que o divisor de águas na minha carreira para de fato começar a receber propostas para tocar em todo o Brasil foi ter tocado no Universo Paralello e no 303 Festival, onde, depois de quatro anos ralando muito, eu consegui um bom horário para me apresentar. Lá consegui fazer uma ótima apresentação e gravar um vídeo que me trouxe muitos frutos. A partir daí comecei a receber, de fato, propostas para tocar no Brasil todo e o meu sonho começou a se realizar. Eu nunca tive a pretensão de tocar pelo mundo, mas naturalmente, os convites também começaram a surgir.

Outro fato marcante é que em 2006, seis meses depois da estreia do meu live, já fui convidado para tocar no TribalTech, onde me apresentei com uma orquestra de maracatu para aproximadamente 12 mil pessoas. Eu sempre quis levar a percussão brasileira, coisas diferentes, performances, para o meu show… De lá para cá as coisas foram acontecendo, entre altos e baixos, como qualquer carreira. Acho que persistência sempre foi a palavra de ordem para mim. 

Que tipos de desafios você enfrentou na sua carreira?

Depois desse TribalTech eu lembro que os haters chegaram com tudo. Hoje eu sei que quando os haters aparecem, é sinal de que você está no caminho certo, fazendo algo relevante de verdade. É aquela velha história: prego que se destaca leva martelada.

Mas na época lembro que foi difícil para mim. Infelizmente o ser humano é dotado de muito preconceito. Mesmo a galera da faculdade de música falava que música eletrônica era coisa de gente estúpida. Um absurdo. Mas quando temos um sonho, devemos escutar nossa voz interior, a voz do coração e não se deixar levar por comentários assim. Na verdade, os desafios na vida nunca acabam e o prazer está na superação de cada um deles, dia a dia.

Epifania pós-sexo e amizade com locutor do Waze: Claudinho Brasil explica como criou “Se Permita”

Como surgiu a ideia de criar a Poptrance Records?

Eu criei minha label despretensiosamente, apenas com intuito de lançar os meus bootlegs. E acabou dando super certo. Meu remix de “Bella Ciao”, por exemplo, em um mês e meio ultrapassou um milhão de plays no YouTube. Aí percebi que o negócio valia a pena e aproveitei também para legalizar minha obra, pagando pelo uso do fonograma da original.

O nome da label também é autoexplicativo: nasceu da minha vontade de produzir um trance mais pop, que é o que eu venho fazendo também com as minhas releituras. E agora, com o remix contest de “Se Permita”, estamos abrindo essa oportunidade para produtores mostrarem o seu trabalho em escala mundial, e ainda terem sua track lançada oficialmente. “Se Permita” participar!

Você lançou no seu canal do YouTube um vídeo falando sobre as curiosidades do “Se Permita”, mas eu gostaria de saber como surgiu a ideia da “Oração do Trance”, que está na versão disponível no SoundCloud

Essa história foi assim, eu lembrava que há mais ou menos 15 anos eu tinha lido uma oração que adaptaram o “Pai Nosso” para a realidade do trance. Aí pensei em resgatá-la. Só que como eu ia fazer uma música cem por cento autoral, eu não quis copiar, e resolvi escrever a minha própria versão. Eu achei que casou perfeitamente com o tema da track: o mantra “Se Permita” com a “Oração do Trance”.

Danilo Bencke assina a coluna da AIMEC na Phouse.

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