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Go Festivals – Tomorrowland Winter Full

Como foi o primeiro Dekmantel em São Paulo

Flávio Lerner

Publicado em

13/02/2017 - 17:39

No fim de semana passado, dias 04 e 05, São Paulo recebeu uma injeção de cultura DJ e boa música através da primeira edição do conceituado festival Dekmantel fora de seu país-mãe, a Holanda. Apesar da crise, apesar do mau tempo, apesar do mau jornalismo difamatório, o festival foi um sucesso, que rendeu um sem-número de comentários positivos e sorrisos de satisfação. A crítica geral também foi muito boa, sendo praticamente unânime a avaliação de que o lineup foi certeiro e a estrutura impecável — bem como a ideia de que pequenos detalhes pontuais poderiam ter sido melhores, como a dificuldade de se enxergar os DJs no palco principal. Não à toa, diante de tantos acertos e poucos erros, a produção já confirmou uma segunda edição para o ano que vem.

No mais, o formato de festival para um público menor e mais nichado se mostra como uma alternativa interessante para contornar o momento econômico desfavorável, embora, claro, ele tenha um preço que não é barato: os ingressos custaram entre R$ 225,00 e R$ 400,00 [valores de meia entrada, também disponíveis para quem doasse um livro]. Houve streaming ao vivo dos palcos Gop Tun X Boiler Room e Na Manteiga x Red Light Radio, mas no momento esses vídeos não estão disponíveis; a expectativa é que em breve eles retornem online.

Pra entender melhor como foi o rolê, deixo vocês com as palavras do jornalista Jade Gola, que resenhou na semana passada o festival para o LOFT55 — blog no qual este colunista que vos fala é editor. O Jade esteve lá e nos contou como foi sua experiência, que replico aqui na íntegra:


LEIA TAMBÉM: A jovem pan e o “jornalismo” que atrasa a música eletrônica no Brasil


Quando você junta o melhor da dance music (do house ao techno, da disco ao afrobeat da moda) ao jazz e à música alternativa e experimental contemporânea, tudo num cenário simbólico da pujança e da beleza paulistana como o Jockey Club, com uma lista de artistas nacionais e estrangeiros de cair o queixo, São Paulo torna-se (por um fim de semana que seja) a capital mundial do boogie.

Essa foi a sensação bonita e orgulhosa que o festival Dekmantel deixou para todos após realizar sua primeira edição fora da Holanda, no último sábado (04/02) e domingo (05/02).

O palco principal, harmonioso com a imponência do Jockey, recebeu DJs como Nina Kraviz e lives de Nicolas Jaar e Juju & Jordash (Foto: Ariel Martini)

Um palco grandioso de tons terracota, à margem da pista de turfe do Jockey e com o skyline do rico bairro de Pinheiros, era o espaço principal, dotado de uma útil arquibancada coberta, pois a chuva estava presente. Aliás, a escolha do festival no ápice do verão chuvoso foi arriscada: sábado caiu um toró forte e breve, e, ainda bem, domingo só houve sol. Mas na segunda seguinte à festa choveu o dia todo; teria sido trágico e incômodo se fosse um dia antes. E faltou um telão no palco, pois ele era gigante e mal se via os artistas.

O público paulistano ainda não havia tido uma apresentação de gala da russa Nina Kraviz, que foi da house ao trance (Foto: Gabriel Quintão)

Foi na pista dos cavalos, com o visual mais bonito de São Paulo, uma lua crescente generosa e aviões cruzando o céu, que os headliners apresentaram sets animados (Kornél Kovács), velozes (Jeff Mills), dramáticos (John TalabotNicolas Jaar live), hipnóticos (Nina Kraviz) e sensuais (Moodyman), todos convivendo no palcão em harmonia e ilustrando como a música eletrônica é acima de tudo um amálgama de feelings, de sentimentos e parábolas sonoras mixadas e passíveis de muitas interpretações — a alegria foi uma das mais presentes, isso era notório.

Nicolas Jaar: cinematográfico, multinstrumental, explosivo e envolvente (Foto: Ariel Martini)

Ao lado, a pista Selectors trazia a ideia de “seletagem” com a nata das jovens revelações atuais, internacionais e também relacionadas à cena paulistana (como o duo Selvagem, que abriu o carnaval dançante na cidade). Young Marco, percussivo e africano, Hunee disco-master, a obscura e magnética Lena Willikens e a dupla elegante e divertida Ben UFO & Joy Orbison foram alguns dos destaques.

O holandês Young Marco veio percussivo e cheio de sons coloridos, mostrando a boa seletagem da cena atual de Amsterdão (Foto: Gabriel Quintão)

Escondida em um canto da arquitetura monumental dos prédios do Jockey estava a pista UFO, lar de live PAs que mostraram o lado de “academia” de um festival como o Dekmantel, em que o foco é a exibição da música eletrônica mais interessante do momento: o techno de Helena Hauff, os synths de Zopelar, o clima soft oitentista dos cariocas do 40% Foda/Maneiríssimo foram alguns dos nomes a torcerem botões e fazerem a pequena pista dançar.

Que mané lounge! A dupla Fatnotronic fez do espaço Na Manteiga/Red Light Radio uma baita pista (Foto: Ariel Martini)

Formando uma pequena praia paulistana, a parceira entre as webradios brasileira Na Manteiga e os holandeses da Red Light Radio criou um descolado lounge que não deveu nada às outras pistas: crédito nosso aos sets animados dos brazucas PaulãoFatnotronicBenja e da seleção 80s de Young Marco.

Entre shows e DJs, a pista Gop Tun era a mais bonita (Foto: Ariel Martini)

Por fim, um prédio com tons de palacete grego abrigou o espaço discreto de shows e sets intitulado pelo coletivo Gop Tun, galera da cidade que faz festas e é responsável pela parceria e pela coprodução do Dekmantel brazuca. Foi lindo ver a mistura do jazz fusion de veteranos nacionais como Azymuth e Hermeto Pascoal ser perfilado ao lado de novas e vivazes atrações da música dançante brasileira, como Bixiga 70, além de DJs de disco e sons mais orgânicos como Huerco S.Tom TragoPalm Trax e Awesome Tapes from Africa, projeto de um americano colecionador de fitas K7 do continente-mãe, e que colocou todo mundo para dançar sob o sol no começo do festival.

O veterano Hermeto Pascoal comandou jazz dançante e relaxado bradando por energia, amor e toda a positividade da música, bem o clima do evento (Foto: Ariel Martini)

O Dekmantel trouxe boa música e o destaque ao que se toca na contemporaneidade da cena global — destacamos o afrobeat, a brasilidade editada para pista, a mescla indefinível entre house e techno e, claro, techno, como sons de destaque. E trouxe também, meio sem querer, o tom político que as cenas culturais tem nos politizados tempos atuais.

Quem não teve muita paciência para as progressões de Nicolas Jaar foi brindado com o melhor da dupla inglesa Ben UFO & Joy Orbison, impecáveis no domingo (Foto: Gabriel Quintão)

Primeiro, fez uma bela RAVE cultural, inteligente e nada vulgar, ao contrário do que bradaram os caretas da Jovem Pan quando perceberam se tratar de um evento dançante e quiseram sabotá-lo com uma matéria maldosa. Segundo, com o destaque absoluto das mulheres nos palcos do festival. Ao ser divulgado o evento em 2016, as mulheres da cena paulistana bradaram por mais espaço para as meninas, algo que foi atendido e mostrou ser um pedido necessário, pois foi impressionante a exibição de tamanho talento feminino. Que esse destaque siga assim em 2017.

As imagens dos fotógrafos escalados para o evento ajudam você, caro leitor, a entender um pouco mais do Dekmantel SP. E ano que vem tem mais! (Foto: Ariel Martini)

* Jade Gola é jornalista, DJ e pesquisador de São Paulo; escreve há mais de dez anos sobre música eletrônica em portais do gênero e na grande imprensa.

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Review

“Pedra Preta”, o 1º álbum do Teto Preto, é um grito de resistência

O celebrado grupo do underground paulistano mostra sua maturidade artística em seu primeiro full lenght

Alan Medeiros

Publicado há

Pedra Preta
Foto do clipe de "Pedra Preta": Reprodução/Facebook

Nos últimos anos, São Paulo se transformou em um caldeirão cultural com uma chama multicolorida a iluminar um mar de ideias brilhantes. Nesse cenário, diversas mentes criativas surgiram, mostraram a que vieram e se tornaram referência para uma série de iniciativas que passaram a pipocar pelo país. No olho desse furacão, exercendo posição de protagonismo, lá estava a Mamba Negra e, consequentemente, o Teto Preto.

A relação entre festa e grupo é intrínseca. O Teto Preto nasceu na pista da Mamba e obviamente foi criado por frequentadores e entusiastas da festa. Nesse processo, o grupo foi decisivo para construção do perfil sonoro que tanto marcou a Mamba Negra frente ao seu público. Muito além da música, estamos falando de arte em diferentes camadas — estamos falando de representatividade. A festa representa a banda, a banda representa a festa. Por sua vez, o público se sente fortemente representado por ambos.

Os primeiros trabalhos do Teto Preto foram lançados pelo selo da Mamba, o MAMBA rec, em 2016. O EP Gasolina foi prensado em vinil com duas faixas extremamente marcantes: “Já Deu Pra Sentir” e “Gasolina”. O resultado? Dois hits históricos para jornada do grupo. Na sequência, um hiato de dois anos até “Bate Mais”, single em antecipação ao Pedra Preta, primeiro álbum de estúdio completo da banda, que chegou às plataformas digitais neste mês com oito faixas, sendo sete originais e inéditas.

 

Pedra Preta reflete a atual maturidade artística de seus compositores, mas não deixa a chama da ousadia e irreverência se apagar. Novamente, não se trata apenas de música: Laura Diaz (Carneosso), Loic Koutana, Pedro Zopelar, Savio de Queiroz e William Bica promovem um grito de resistência ao longo de todas as faixas que formam o full lenght. A atmosfera densa do disco dita o ritmo de uma narrativa longa e inteligente, que aborda assuntos como a tragédia do Museu Nacional neste ano.

Por falar em “Pedra Preta”, vale ressaltar que a faixa-título do álbum também ganhou um clipe. Lançado ontem, 22, e com duração de mais de oito minutos, o vídeo dirigido por Rudá Cabral, Laura Diaz e Joana Leonzini traz um storytelling denso e aberto a interpretações, mas com uma clara crítica ao conservadorismo da sociedade brasileira e honrosa menção ao perfil de público da Mamba Negra — o trabalho foi coproduzido pela MAMBA rec em parceria com a Planalto. Sem dúvida alguma, Pedra Preta é uma vitória importante para a sobrevivência da cultura eletrônica de vanguarda no Brasil.

  

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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ESPECIAL

Tha_guts e o som envolvente que rege o selo da Gop Tun

Produtor gaúcho é uma boa mostra do amadurecimento da Gop Tun Records

Alan Medeiros

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Gop Tun Records
Tha_guts. Foto: Divulgação

Neste mês de novembro, o coletivo paulistano Gop Tun celebrou seis anos de uma história construída muito em cima da seriedade com que o coletivo paulistano trata seus projetos artísticos, dentro e fora da pista. Referência na cena house/disco brasileira, o atual patamar do projeto permite que algumas de suas iniciativas sejam encaradas como formadoras de opinião.

Para isso, uma das principais ferramentas do núcleo é a Gop Tun Records, gravadora que possui um catálogo ainda enxuto em número de releases, mas que em 2018 e principalmente 2019, deve ser expandido através de uma intensificada no cronograma. Até então, cada ano tinha entre um e dois lançamentos. Neste ano, foi observado um aumento no fluxo, já que até aqui, três releases ganharam a luz do dia através da plataforma criada pelo coletivo paulistano.

+ Orgânica e ecumênica: uma história oral da Gop Tun

Atualmente, o time de artistas que compõe o quadro de lançamentos do selo é composto por residentes da Gop, por nomes de forte influência frente à indústria nacional (como Renato Cohen) e algumas mentes brilhantes de outras partes do mundo, como HNNY, Prins Thomas e Lauer.

Para os próximos meses, Bruno Protti (aka TYV) e Gui Scott, duas das cabeças pensantes da gravadora, contam que haverá uma expansão no time de artistas, com mais nomes brasileiros e sul-americanos entrando para o casting da label. Sem a pressão de obrigatoriamente pensar em vinil, a Gop Tun Records se mostra mais apta para apostas e ousadias em seu programa de lançamentos.

+ Um papo com os caras da Gop Tun, que estão trazendo o Dekmantel a São Paulo

O último EP da gravadora foi assinado pelo produtor gaúcho Tha_guts, um novo nome frente a geração atual de produtores brasileiros. Guto Pereira, mente por trás do projeto, entregou à Gop um release denso e repleto de referências distintas que se revelam ao longo das cinco faixas originais. O trabalho sucede Plastic Noise, disco que o revelou para o cenário da eletrônica brasileira. Após o full lenght lançado de maneira quase que independente, Guto decidiu se aproximar da música eletrônica de pista em suas jams de estúdio, e o resultado foi esse belíssimo trabalho lançado pelo selo do coletivo.

Ao ouvir as faixas de Mirror, é possível entender essa complexidade envolvente que tange o trabalho do coletivo paulistano em seus mais diversos projetos. Tal fato dá autoridade para que o núcleo e os artistas envolvidos em suas festas e seus releases possam se desenvolver de forma assertiva. Além das cinco faixas originais, Guto também assinou um futuro single com a gravadora, que deve ser trabalhado somente no segundo semestre de 2019. Enquanto isso não acontece, ouça na íntegra o seu mais recente lançamento:

  

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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LIFT OFF

Psytrance raiz: Mindbenderz lança álbum transcendental pela Iono Music

Review do debut do duo suíço-alemão é o primeiro texto da nova coluna da Phouse

Nazen Carneiro

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Mindbenderz
Foto: Reprodução
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Instalar foguetes, preparar motores, verificar comunicação, iniciar sequência de lançamento. Cinco, quatro, três, dois, um… LIFT OFF!

Estreamos aqui a coluna LIFT OFF, que, escrita por Nazen Carneiro, traz um olhar sobre a indústria fonográfica psytrance nacional e internacional — estilo da música eletrônica que se manifesta como uma cultura vibrante e com muitos adeptos no Brasil.

De tempos em tempos a cena eletrônica se transforma e, como um organismo vivo, cresce e se reproduz. Um de seus pilares, o psy se reproduziu e está mais presente do que nunca, com “astronautas” consagrados mantendo-se relevantes, assim como novos “cosmonautas” surgem, evidenciando uma realidade produtiva e frutífera para a criação musical.

Com o crescimento do público, as festas também se multiplicaram Brasil adentro, e os produtores passaram a ter mais espaço para caírem no gosto do público da terrinha e de além-mar. Hoje, o psy mantém viva sua cena underground, enquanto estica seus tentáculos a outros nichos, influenciando — e sendo influenciado — até mesmo pela EDM.

Sem mais delongas, confira o primeiro texto abaixo, sobre o novo álbum do Mindbenderz.

 

Formado pelo alemão Matthias Sperlich e o suíço Philip Guillaume, o Mindbenderz traz, sem dúvida, um dos principais lançamentos do ano no cenário psytrance. Os veteranos, que são muito respeitados na cena eletrônica individualmente como Cubixx e Motion Drive, juntos ficam ainda mais fortes. É o que se vê no álbum Tribalism, lançado em 31/10, pela Iono Music.

O álbum conta com nove faixas que somam mais de 75 minutos. A primeira, “A New Dawn”, traz desde o primeiro minuto muita energia e reflexão num som que conduz o ouvinte a outra dimensão. A segunda faixa dá sentido a expressão “lineup” numa ascendente contínua, revelando uma verdadeira jornada ao desconhecido que segue até meados da faixa seis — “Hybrids” —, causando aquele frio na espinha. Nesse momento de percepção cósmica, uma pausa reconecta o corpo e mente à nossa tribo, e há de fato uma sensação híbrida de se estar em ambas as realidades ao mesmo tempo.

A essa altura, o álbum apresenta suas três últimas faixas no ápice de uma jornada espiritual, e nos encontramos num momento épico em que as características sonoras do psytrance alcançam sua maior amplitude, com uma ampla gama de efeitos numa base transcendental. É puro trance. A mente processa essas informações e a energia flui na forma de dança.

Voltamos para a Terra, mas a memória do que acaba de acontecer permanece. Tontura; excitação… O reator psicodélico agora transforma a energia através de instrumentos humanos. A última faixa dá nome ao álbum. “Tribalism” une percussões especiais, agogô, psy, Ayahuasca e vocais de xangô. Todos no mesmo pitch, como uma onda. Algo nos une, nos traz ao dancefloor, tornando-nos verdadeiramente uma tribo.

Tribalism revela uma composição muito bem realizada, fruto de meses de trabalho e muito detalhismo. Cada segundo do álbum revela a ação do Mindbenderz em promover um som extraordinário e comprometido com aquele pegada tribal, sem deixar de lado os elementos mais futuristas.

No momento do fechamento deste artigo, o álbum ocupava a primeira posição no Top 10 de psy do Beatport, o que mostra a força desse som mais ligado às raízes do estilo entre os DJs e produtores.

Nazen Carneiro é colaborador da Phouse.

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