No fim de semana passado, dias 04 e 05, São Paulo recebeu uma injeção de cultura DJ e boa música através da primeira edição do conceituado festival Dekmantel fora de seu país-mãe, a Holanda. Apesar da crise, apesar do mau tempo, apesar do mau jornalismo difamatório, o festival foi um sucesso, que rendeu um sem-número de comentários positivos e sorrisos de satisfação. A crítica geral também foi muito boa, sendo praticamente unânime a avaliação de que o lineup foi certeiro e a estrutura impecável — bem como a ideia de que pequenos detalhes pontuais poderiam ter sido melhores, como a dificuldade de se enxergar os DJs no palco principal. Não à toa, diante de tantos acertos e poucos erros, a produção já confirmou uma segunda edição para o ano que vem.

No mais, o formato de festival para um público menor e mais nichado se mostra como uma alternativa interessante para contornar o momento econômico desfavorável, embora, claro, ele tenha um preço que não é barato: os ingressos custaram entre R$ 225,00 e R$ 400,00 [valores de meia entrada, também disponíveis para quem doasse um livro]. Houve streaming ao vivo dos palcos Gop Tun X Boiler Room e Na Manteiga x Red Light Radio, mas no momento esses vídeos não estão disponíveis; a expectativa é que em breve eles retornem online.

Pra entender melhor como foi o rolê, deixo vocês com as palavras do jornalista Jade Gola, que resenhou na semana passada o festival para o LOFT55 — blog no qual este colunista que vos fala é editor. O Jade esteve lá e nos contou como foi sua experiência, que replico aqui na íntegra:


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Quando você junta o melhor da dance music (do house ao techno, da disco ao afrobeat da moda) ao jazz e à música alternativa e experimental contemporânea, tudo num cenário simbólico da pujança e da beleza paulistana como o Jockey Club, com uma lista de artistas nacionais e estrangeiros de cair o queixo, São Paulo torna-se (por um fim de semana que seja) a capital mundial do boogie.

Essa foi a sensação bonita e orgulhosa que o festival Dekmantel deixou para todos após realizar sua primeira edição fora da Holanda, no último sábado (04/02) e domingo (05/02).

O palco principal, harmonioso com a imponência do Jockey, recebeu DJs como Nina Kraviz e lives de Nicolas Jaar e Juju & Jordash (Foto: Ariel Martini)

Um palco grandioso de tons terracota, à margem da pista de turfe do Jockey e com o skyline do rico bairro de Pinheiros, era o espaço principal, dotado de uma útil arquibancada coberta, pois a chuva estava presente. Aliás, a escolha do festival no ápice do verão chuvoso foi arriscada: sábado caiu um toró forte e breve, e, ainda bem, domingo só houve sol. Mas na segunda seguinte à festa choveu o dia todo; teria sido trágico e incômodo se fosse um dia antes. E faltou um telão no palco, pois ele era gigante e mal se via os artistas.

O público paulistano ainda não havia tido uma apresentação de gala da russa Nina Kraviz, que foi da house ao trance (Foto: Gabriel Quintão)

Foi na pista dos cavalos, com o visual mais bonito de São Paulo, uma lua crescente generosa e aviões cruzando o céu, que os headliners apresentaram sets animados (Kornél Kovács), velozes (Jeff Mills), dramáticos (John TalabotNicolas Jaar live), hipnóticos (Nina Kraviz) e sensuais (Moodyman), todos convivendo no palcão em harmonia e ilustrando como a música eletrônica é acima de tudo um amálgama de feelings, de sentimentos e parábolas sonoras mixadas e passíveis de muitas interpretações — a alegria foi uma das mais presentes, isso era notório.

Nicolas Jaar: cinematográfico, multinstrumental, explosivo e envolvente (Foto: Ariel Martini)

Ao lado, a pista Selectors trazia a ideia de “seletagem” com a nata das jovens revelações atuais, internacionais e também relacionadas à cena paulistana (como o duo Selvagem, que abriu o carnaval dançante na cidade). Young Marco, percussivo e africano, Hunee disco-master, a obscura e magnética Lena Willikens e a dupla elegante e divertida Ben UFO & Joy Orbison foram alguns dos destaques.

O holandês Young Marco veio percussivo e cheio de sons coloridos, mostrando a boa seletagem da cena atual de Amsterdão (Foto: Gabriel Quintão)

Escondida em um canto da arquitetura monumental dos prédios do Jockey estava a pista UFO, lar de live PAs que mostraram o lado de “academia” de um festival como o Dekmantel, em que o foco é a exibição da música eletrônica mais interessante do momento: o techno de Helena Hauff, os synths de Zopelar, o clima soft oitentista dos cariocas do 40% Foda/Maneiríssimo foram alguns dos nomes a torcerem botões e fazerem a pequena pista dançar.

Que mané lounge! A dupla Fatnotronic fez do espaço Na Manteiga/Red Light Radio uma baita pista (Foto: Ariel Martini)

Formando uma pequena praia paulistana, a parceira entre as webradios brasileira Na Manteiga e os holandeses da Red Light Radio criou um descolado lounge que não deveu nada às outras pistas: crédito nosso aos sets animados dos brazucas PaulãoFatnotronicBenja e da seleção 80s de Young Marco.

Entre shows e DJs, a pista Gop Tun era a mais bonita (Foto: Ariel Martini)

Por fim, um prédio com tons de palacete grego abrigou o espaço discreto de shows e sets intitulado pelo coletivo Gop Tun, galera da cidade que faz festas e é responsável pela parceria e pela coprodução do Dekmantel brazuca. Foi lindo ver a mistura do jazz fusion de veteranos nacionais como Azymuth e Hermeto Pascoal ser perfilado ao lado de novas e vivazes atrações da música dançante brasileira, como Bixiga 70, além de DJs de disco e sons mais orgânicos como Huerco S.Tom TragoPalm Trax e Awesome Tapes from Africa, projeto de um americano colecionador de fitas K7 do continente-mãe, e que colocou todo mundo para dançar sob o sol no começo do festival.

O veterano Hermeto Pascoal comandou jazz dançante e relaxado bradando por energia, amor e toda a positividade da música, bem o clima do evento (Foto: Ariel Martini)

O Dekmantel trouxe boa música e o destaque ao que se toca na contemporaneidade da cena global — destacamos o afrobeat, a brasilidade editada para pista, a mescla indefinível entre house e techno e, claro, techno, como sons de destaque. E trouxe também, meio sem querer, o tom político que as cenas culturais tem nos politizados tempos atuais.

Quem não teve muita paciência para as progressões de Nicolas Jaar foi brindado com o melhor da dupla inglesa Ben UFO & Joy Orbison, impecáveis no domingo (Foto: Gabriel Quintão)

Primeiro, fez uma bela RAVE cultural, inteligente e nada vulgar, ao contrário do que bradaram os caretas da Jovem Pan quando perceberam se tratar de um evento dançante e quiseram sabotá-lo com uma matéria maldosa. Segundo, com o destaque absoluto das mulheres nos palcos do festival. Ao ser divulgado o evento em 2016, as mulheres da cena paulistana bradaram por mais espaço para as meninas, algo que foi atendido e mostrou ser um pedido necessário, pois foi impressionante a exibição de tamanho talento feminino. Que esse destaque siga assim em 2017.

As imagens dos fotógrafos escalados para o evento ajudam você, caro leitor, a entender um pouco mais do Dekmantel SP. E ano que vem tem mais! (Foto: Ariel Martini)

* Jade Gola é jornalista, DJ e pesquisador de São Paulo; escreve há mais de dez anos sobre música eletrônica em portais do gênero e na grande imprensa.

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