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Conhecimento

História e cultura da música eletrônica: Camilo Rocha ministra curso em SP

Flávio Lerner

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História da música eletrônica
Curso inédito no Brasil, “O SOM DO FUTURO PASSADO” busca explorar as raízes e o legado da cultura das pistas de dança em nossa sociedade
* FOTO: O pioneiro Giorgio Moroder em seu estúdio futurista, nos anos 70

Passa longe de ser novidade o fato de que a música eletrônica mais do que cresceu e explodiu nos últimos anos, no Brasil e no mundo. Cada vez mais ela se funde com outros gêneros, penetra na cultura pop e dita novos padrões de estética e de consumo. Mas o quanto todos os fãs apaixonados por essa cultura, e mesmo os DJs e produtores, refletem sobre suas raízes e seu papel na sociedade? O quanto essas pessoas conhecem de sua história e de seu legado?

É pensando nessas e em outras questões que o DJ-jornalista Camilo Rocha está inaugurando o curso O SOM DO FUTURO PASSADOCultura eletrônica e sociedade. Hoje repórter especial do Nexo Jornal, o Camilo foi o primeiro jornalista no Brasil a escrever sobre a cena eletrônica e a cultura dos DJs com a seriedade que ela merece, nos anos 90. E se atualmente ele não tem nesse nicho de mercado o seu principal ganha-pão, segue discotecando e, principalmente, sempre ligado no que vem rolando por aí. Por isso, naturalmente, é uma das pessoas mais indicadas a ministrar algo desse calibre.

“O curso vai girar em torno da história da música e de suas relações com a sociedade. É uma mistura desses eixos, pensado em ampliar repertório e fazer conexões entre períodos e manifestações diferentes. Por exemplo, qual foi o contexto em torno dos primeiros experimentos com instrumentos eletrônicos na década de 50, ou como a música eletrônica foi a trilha para a expressão de minorias como a comunidade LGBT e negros”, explicou o Camilo, em contato com a coluna.

“A parte histórica, de origem e desenvolvimento, tem um peso grande. Seja Alok ou L_cio, todos compartilham as mesmas raízes.”

As aulas começam no próximo dia 09 e se estendem por todo o mês de novembro, sempre nas quintas-feiras à noite, no Birô Espaço Compartilhado, em São Paulo. Serão, portanto, quatro encontros semanais de duas horas, em que o jornalista vai passar um pouco do seu conhecimento e convidar à reflexão sobre temas como “A música eletrônica e a diversidade”, “Onde está a arte no trabalho do DJ?”, “Qual a diferença entre techno e house?”,Kraftwerk é mais importante que Beatles?”, “O papel da rave na infância da internet”, “Como a tecnologia barata criou novos gêneros musicais”, “A influência de conceitos como minimalismo, remix e sampling”, “A música eletrônica ainda é a música do futuro?” e “Como a queda do Muro de Berlim influenciou a pista de dança”.

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Nesses encontros — que também vão contar com participações especiais de personalidades da cena — a proposta é de explorar “décadas de história musical e seu impacto social por meio de aulas expositivas”, através de bate-papos e muita análise de faixas, discos e DJ sets. Como diz parte do release: As músicas serão o fio condutor: faremos audições de faixas e trechos, em áudio e vídeo. A partir destas, virão explicações sobre os artistas, contexto social e cultural, análise musical e seu papel na história. […] Alunos serão estimulados a pensar sobre aquilo que ouvem, a perceber detalhes e nuances.

“A parte histórica, de origem e desenvolvimento, tem um peso grande. Seja Alok ou L_cio, todos compartilham as mesmas raízes”, continuou me contando o Camilo, destacando a importância de se conhecer a história da cultura DJ. “Também trabalharemos com muitas variantes de cada gênero musical. No último dia, vamos falar de máquinas e equipamentos para que os alunos entendam como se cria música eletrônica, para que servem e como operam equipamentos e softwares, mas não de maneira técnica. Sinto que muita gente simplesmente não faz ideia de como essa música acontece.”

“Sinto que muita gente simplesmente não faz ideia de como a música eletrônica acontece.”

Por mais que o foco seja no universo da cultura eletrônica e da arte da discotecagem, Rocha também deixa claro que pessoas que não atuam diretamente nesse nicho cultural são algumas das que mais podem ter a aprender: “Muita gente tem buscado o conhecimento extra, para além do escopo de sua área profissional. Por exemplo, se trabalho com direção artística de eventos, às vezes preciso saber mais sobre certo período histórico ou estético. Se minha área é cinema, às vezes aparece um trabalho que tenha envolvimento de música ou arte”, concluiu.

Volte no tempo e reviva raves históricas

Os interessados podem conferir mais detalhes e ver todo o cronograma de aulas no evento do Facebook. São apenas 20 vagas disponíveis, e para se inscrever basta entrar em contato através do e-mail contato@obiro.com.br. O pacote sai por R$ 400,00 à vista ou duas vezes de R$ 220,00.

Fica a expectativa para que a iniciativa dê certo, e estimule, além de novas edições e novos módulos, outros tipos semelhantes de debate, estudo e reflexão. A cena eletrônica brasileira agradece.

Flávio Lerner é editor da Phouse; leia mais artigos de sua coluna.

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Na Inglaterra, Sasha retorna com seu aclamado live orquestrado

Jonas Fachi

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re-Fracted
O lendário DJ e produtor galês volta com seu aclamado re-Fracted: Live em três shows na Inglaterra.

Sasha, juntamente de diversos músicos e uma orquestra independente, desembarca hoje para mais uma rodada do re-Fracted: Live, em parceria com a label Late Night Tales. A segunda temporada é uma resposta a uma demanda esmagadora após o sucesso de seus shows em maio de 2017, no emblemático Barbican de Londres, quando quase quatro mil ingressos foram vendidos em 90 minutos — um recorde na história do teatro.

Hoje (16) e amanhã (17), as apresentações serão realizadas no também londrino Roundhouse, originalmente construído em 1847 pela London & North Western Railway. No domingo (18), como um show extra devido à grande procura por cadeiras, o live vai a Manchester no Bridgewater Hall.

Imagem do último ensaio, nesta semana

re-Fracted: Live é um show eletrônico realizado por Sasha e músicos convidados, juntamente com cordas e vocais ao vivo, proporcionando uma experiência imersiva apaixonante de algumas de suas produções mais famosas. O produtor galês toca ao vivo, em piano e teclado, partes de arranjos das músicas ao lado de sua principal equipe de produção, composta por colaboradores de longa data como Charlie May (Involver e Invol2vr), Spooky, Dennis White, Thermal Bear e Dave Gardner — além de um conjunto de cordas de oito peças, um percussionista e vocalistas ao vivo.

Em 2017, o produtor John Graham, aka Quivver, subiu ao palco para cantar “Rooms”, faixa que fez parte do álbum Scene Delete, último de Sasha, lançado em 2016. Outras faixas que fizeram parte da tracklist foram “Wavy Gravy” (Airdrawndagger, 2002), “Battleships” (Involv3r, 2013) — em que subiu ao palco a cantora Abigail Wyles —, e a mais aguardada de todas, apresentada no encerramento: “Xpander”, single de 1999 que marcou a carreira do produtor e é considerado uma das dez maiores músicas eletrônicas de todos os tempos, segundo votação popular da revista Mixmag.

“No momento em que descemos do palco no Barbican, estávamos dizendo: temos que fazer isso novamente”, disse o DJ em um comunicado para a imprensa. “Nós não tínhamos realmente um plano na hora. Não tínhamos ideia de que a resposta a esses shows seria tão incrível. Então, esta é a segunda rodada, estamos começando a tocar em dois lugares dos mais emblemáticos do Reino Unido. Nós estamos pensando em mudar o show um pouco para incorporar algumas músicas novas e fazê-los tão especiais e únicos quanto os de Barbican em maio. Mal podemos esperar!”

Em Manchester, será uma volta na história para Sasha, pois foi onde iniciou sua carreira ainda nos anos 80. Na época, a cidade respirava a cultura underground eletrônica, pós o movimento punk. O Bridgewater Hall, que fica no centro da cidade, recebe em média 250 apresentações por ano e é considerado um dos mais modernos da Europa. Com um custo total de 42 milhões de libras, o teatro realizou seu primeiro concerto em 11 de setembro de 1996, sendo inaugurado oficialmente em 04 de dezembro pela Rainha Elizabeth II, ao lado do Duque de Edimburgo.

O Hall foi uma das várias estruturas construídas na década de 90 que simbolizavam a transição para uma Manchester nova e moderna. Apenas alguns meses após a abertura, a sala de concertos ganhou o prêmio RIBA North West.  Em 1998, ganhou o Civic Trust Special Award, que é dado a um edifício que melhorou a aparência de um centro de cidade.

Levar música eletrônica a um espaço como esse é uma grande conquista para a cultura eletrônica, além de mais uma mostra de todo o pioneirismo de Sasha. Artistas como Pete Tong e Jeff Mils também já se apresentaram em teatros, porém receber datas em alguns dos maiores espaços para concertos do Reino Unido é algo único.

Os shows no Barbican viraram Blu-Ray com vendas esgotadas de todos os CDs pela Late Night Tales, e os ingressos para os três shows deste final de semana estão esgotados. Ainda não há previsão para novos shows. Existem pedidos para uma tour pela Europa, porém no momento não há nada anunciado para os próximos anos.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Review

Sete anos para rever o mestre; como foi a volta de Laurent Garnier no Warung

Jonas Fachi

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Laurent Garnier
Um set do mais alto nível para um time de clubbers do mais alto nível
* Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini

16 de novembro de 2017. Um dia após a data que marcava os 15 anos de vida do Warung, o Instagram oficial do beach club anunciava a sequência de sua programação com um calendário para janeiro repleto de grandes artistas. Entretanto, em cima de um deles parecia haver um brilho especial, aquele nome que quando anunciado, os mais experientes já sabiam que seria a noite do verão. Porém, talvez os anos de hiato em nossa cena tivessem apagado um pouco da memória que, se tratando de Laurent Garnier, no mínimo deveria ser aguardado como uma das melhores noites dos últimos anos — o que de fato viria a acontecer.

Foi difícil esperar tanto tempo por seu retorno. A maioria dos que se fariam presentes, mesmo aqueles com alguns anos de pista, ainda não tinham recebido uma experiência musical com o francês. A meu exemplo, ter perdido seu live em 2011 foi um golpe duro. Sua primeira passagem havia sido em 2008, quando se apresentou no Templo em pleno aniversário de seis anos — portanto, não havia chances de deixar passar novamente o momento de receber a condecoração máxima.

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Mesmo quando se vive na era da internet e da corrida desenfreada pelo marketing a todo custo — em que seria obrigação de qualquer um que frequente uma cena conceitual e tenha o mínimo de interesse, saber em qual prateleira o nome de Laurent Garnier deve ser colocado —, ficar sem dar as caras em nosso país por sete anos foi suficiente para o público se renovar várias vezes. E se tratando de uma cena ainda em formação, muitos não conseguiam ter a verdadeira dimensão de quem e do que estavam por presenciar. Nesse ponto, vale destacar a quantidade de pessoas que são influenciadoras no cenário ajudando os mais novos através de matérias, vídeos e postagens, a entenderem a importância de se fazer presente em uma noite como essa.

Na semana do evento, Laurent havia cumprido datas no Rio e em São Paulo. No anúncio dos horários, a primeira surpresa: ele assumiria o Inside somente às 03 horas. Mesmo com vários comentários solicitando por pelo menos uma hora de antecipação, não houve mudança. Nessas situações, visto que por parte do club quase sempre há interesse em deixar a atração principal tocar o máximo de tempo possível, só poderia se tratar de um pedido do próprio francês. De qualquer forma, nada iria atrapalhar a felicidade de assistir ao artista que considero um dos cinco maiores que a cena eletrônica já produziu. Então, esperar por sua aparição ao palco foi algo extremamente gratificante.

Para abrir a casa e construir um set capaz de ser digno do warmup para Garnier, a curadoria depositou todas as fichas em um de seus melhores residentes. Paulinho Boghosian é detentor de uma vasta experiência, já dividiu cabine com grandes nomes e entre os residentes, possuía o perfil que mais poderia fazer a pista ficar bem ambientada até o momento mais aguardado. Antes disso, assisti à última meia hora do debutante da noite, Nezello. O Garden estava com ótimo público e o DJ estava aplicando uma sonoridade extremamente dançante e tribal. Esses adjetivos são comuns, porém o tipo de música que ele apresentava com essas caracteristicas não se ouve com frequência. É sempre bom ver novos artistas de nossa cena mostrando personalidade musical.

Após um tempo para rever e conversar com amigos, subi as escadas do Templo determinado a não mais descer. À 01h, Paulinho já havia ultrapassado o sempre difícil momento de receber o público e controlava com certa tranquilidade uma pista repleta de clubbers do mais alto nível. Com sua tradicional classe variando de house a techno, Boghosian era rápido até onde poderia ir. Cada minuto que passava, mais aumentava aquele sentimento de finalmente poder ver o francês surgir à frente do dragão e da bandeira de nosso país. Um sentimento de ter a certeza de que tudo estaria bem com a sua presença. E foi justamente assim que me senti quando o ícone surgiu na cabine.

Garnier é a personificação do artista completo, que é quando a genialidade está presente tanto no estúdio quanto no comando de uma pista de dança — dois mundos distintos, criação e execução sublime da mesma arte por um mesmo ser. Pontualmente, ele inicia seu set abrindo uma porta por onde se passava uma enorme quantidade de energia. Não havia espaço para alguma introdução; o ótimo warmup lhe permitia impor ritmo intenso junto de sua musicalidade única. Na primeira hora, já se percebia o ambiente completamente envolvido e entusiasmado. Minha atenção ficou em evidência quando ouvi uma das faixas do momento: “Singularity”, novo single de Sasha, encaixou perfeitamente no contexto inicial, formado por algo meio nebuloso e levemente viajante.

A pista não estava completamente lotada. Estava quase na medida para se apreciar sem incômodos a construção musical de Garnier. Não demorou muito para eu notar ao meu redor todos somando energias para mostrar-lhe a força da alma latina; sim, nós poderíamos estar à sua altura. Em contrapartida, Laurent atuava como se tentasse extrair sua melhor versão, de dentro para fora, onde cada música antes de passar pelos cabos, tivesse de dar uma volta por dentro de suas veias para então chegar nas caixas de som e reverberar em ondas sonoras a ponto de fusão.

Mesmo sendo um exímio DJ de longsets, após a segunda hora entendi que não havia mais qualquer motivo para queixar-me de ele não ter entrado mais cedo. Claro que vê-lo tocando mais devagar seria maravilhoso, porém sua musicalidade era estarrecedora em diversas frentes, indo direto ao ponto. Comentei antes que havia clubbers do mais alto nível porque nunca havia visto um ambiente com tamanha diversidade de gostos dentro da cena conceitual, reunidos na mesma sintonia. Talvez nenhum outro artista tenha tamanho poder para isso, apenas um verdadeiro diplomata da música eletrônica global seria capaz de juntar gostos advindos de variadas frentes ou estilos conceituais. Desde o seguidor do techno de Berlim, passando pelo balanço da house de Chicago, até os gostos pelo progressivo do Reino Unido poderiam se identificar com sua música. Ao longo dos anos, de alguma forma Garnier alinhou seu estilo a uma identidade própria capaz de beber de todas essas fontes, sendo impossível de classificá-lo. A quem gosta de introspecção, ele entrega; a quem gosta de movimentos lineares e intensidade, ele propõe.

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“Domino” de Oxia, uma faixa muito tocada nos últimos dois anos, e considerada já ultrapassada em seu momento “clássico”, surge às 05 horas, entretanto, ganhando nova oxigenação e soando tão interessante como se fosse ouvida pela primeira vez. Acelerando o tempo, Garnier liderava de olhos fechados sua sinfonia, fazendo-nos vibrar como nos velhos tempos, resgatando uma energia do Templo que parecia haver diminuído ao longo dos anos, mesmo o club vivendo, no quesito quantidade de público e reconhecimento, seu melhor momento.

Sua música estava calibrada até o limite, marcada por momentos de pura acidez até outros repletos de introspecção, e assim ele continuou até próximo ao amanhecer, quando nas duas últimas horas iria nos mostrar toda sua capacidade técnica e sonora. Quando todos já estavam extasiados, ele ainda traria um algo a mais. Tudo começa às 06h30: “Wir Reitem Durch Die Nacth”, do DJ Hell, em remix de Coyu atravessou a todos. O que mais havia no jogo? Sua discografia poderia ser colocada à mostra por muitas horas. “Jacques In The Box”, delirante, o que mais? Vamos, não parem, o que vocês querem? Ah, sim, não poderia faltar “1-4 Doctor C’Est Chouette” de seu aclamado EP Tribute para a Kompakt — que momento!

Tanta inspiração era de certa forma até constrangedora, pois seu amor pela música é algo tão profundo que te faz sentir que ainda não sabe de nada. Por dentro de seu transe sonoro, demonstrava uma conexão sem fim para o que vem se dispondo a fazer desde a metade dos anos 80, quando deixou Paris para fazer história na efervescente cena pós-punk de Manchester.  “Our Futur” me fez lembrar o icônico vídeo de sua performance no Templo em 2008, quando de forma bilateral mixou “Chinasse Massage”, de Rocket & Ponies, com “Everything in Its Right Place”, do Radiohead, em pleno amanhecer. Dois clássicos distintos unidos de forma tão singular que seria um pecado algum dia tentar-se repetir. Os olhares para o lado de incredulidade — “você também está presenciando isso?” — eram constantes, e claro, antes de tudo não poderia acabar sem sua maior obra prima, a música que se fosse um quadro, estaria certamente exposto na sala mais nobre do Musée du Louvre: “The Man With a Red Face” parecia estar sendo tocada ao vivo diante de nossos olhos.

Para finalizar, chegando próximo das 08 horas, em uma virada desconcertante, ele libera uma espécie de samba eletrônico, introduzindo as boas vindas ao famoso Carnaval brasileiro. Por mais que o Sul não tenha qualquer ligação com esse tipo de música, àquela altura, vindo de suas mãos, tudo parecia fazer sentido.

Os aplausos emotivos para sua performance e seu sorriso de volta nos davam a sensação de que Garnier parecia alguém muito próximo. Cada indivíduo na pista de dança sentia-se compelido a se conectar com sua personalidade, sua forma de agir e tocar; entretanto, talvez sua maior mensagem seja a de que não se pode querer ser como ele. Seria muita ousadia. Seu recado à frente da cabine é justamente o contrário — sem mestres, sem líderes, apenas dê tudo o que puder de si; seja você mesmo, construa sua própria história.

Assistir a Laurent Garnier é como obter uma das últimas graduações que se pode receber enquanto ouvinte em uma pista de dança.  Assistir a Laurent Garnier ao menos uma vez na vida é a passagem para o lado dos profissionais, o entendimento supremo do que é a verdadeira arte da discotecagem.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Entrevista

EXCLUSIVO: Depois de 14 anos como DJ, Dre Guazzelli se lança como produtor musical

Flávio Lerner

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Dre Guazzelli produtor
Com quase uma década e meia de estrada como DJ e agitador cultural, o paulistano agora se diz pronto para lançar as próprias músicas; escute os primeiros remixes!
* Atualizado em 02/02/2018, às 19:31

Dre Guazzelli traz grandes novidades para 2018. Depois de uma longa e sólida trajetória de 14 anos como DJ e agitador cultural, o paulistano está lançando agora sua carreira como produtor. Apesar de já ter uma faixa lançada em seu SoundCloud [“River Ray”, disponibilizada há cerca de um ano], ele considera que agora é o momento de começar de fato a soltar suas próprias músicas — algo que, na última década, se tornou uma das principais chaves para o sucesso de um artista no universo da dance music.

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“É neste ano que começa de verdade! Depois de 14 anos como DJ, recolhendo informações e sensações de diferentes pistas, festas, festivais, Ibiza, Burning Man, vou começar a produzir muitas músicas. Pegar e transformar um pouco do nosso Brasil musical é uma vontade antiga!”, revelou, em contato com a coluna. “Eu sempre sonhei em produzir, mas queria antes criar uma base sólida como DJ, uma segurança e experiência artística de dentro para fora, e assim chegar no momento certo, que é o de agora. Já fiz inúmeros cursos nos últimos anos, já tinha feito algumas músicas, mas precisei realizar algumas tarefas antes de poder chegar, sentar no estúdio e ter um ecossistema funcionando.”

Assim, em primeira mão, Dre compartilhou conosco os primeiros sons que marcam esse novo desafio. São dois remixes: um para “A Folha de Bananeira”, música de 2007 do cantor e compositor recifense Siba, e outro para o onipresente hit “Que Tiro Foi Esse”, da funkeira Jojo Maronttinni. Ambas as faixas foram pensadas em um primeiro momento para serem tocadas nas pistas, e por isso, ainda não têm previsão de um lançamento oficial.

Dre conta que o remix de “Que Tiro Foi Esse” foi pensado para o Carnaval: sua marca de festas “Dre Tarde” terá seu primeiro bloco no próximo dia 17, em São Paulo; ele vai do Pirajá até o Largo da Batata, com concentração a partir das 15h30, e saída entre às 17h e 18h. A faixa já está disponível para download gratuito, e existe a expectativa de que em breve ganhe um lançamento oficial.

Já sobre “A Folha de Bananeira”, o paulistano explica que o seu remix já foi testado e aprovado nas pistas baianas do Universo Paralello e do AWÊ, festa de Réveillon produzida em Caraíva pela sua própria empresa, a INNER. Este som, porém, não está disponibilizado para download — Dre explica que as negociações com o Siba estão bem adiantadas, e é bastante provável que a produção seja lançada oficialmente em breve.

Apesar de apresentarem propostas bem diferentes — uma é mais pop, voltada a um hit que está na boca do povo; a outra, numa proposta mais “cult”, traz uma roupagem mais orgânica e melódica, mantendo a essência dos ritmos tradicionais nordestinos —, é possível detectar nos dois remixes uma espinha dorsal de deep house fundida à música brasileira, o que deve ser a tônica dos seus próximos lançamentos. “Sim, vou seguir nessa pegada: melodia, instrumentos, elementos étnicos e orgânicos. Minhas influências são infinitas: MPB, Bob Marley, Bob Moses, Thievery Corporation, Kruder & Dorfmeister, Sasha Funke, Paul Kalkbrenner, progressive trance, techno, ambient, trip hop e tudo que faz o coração sorrir”, brinca, antes de introduzir o que deve vir por aí.

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“Estou com mais ou menos dez músicas prontas, e agora vou pensar em lançamentos e parcerias com selos — e inclusive com uma agência de DJs, coisa que nunca tive nesses 14 anos —, assim como em collabs com nomes que eu admiro e tenho como exemplo. Acredito que agora a produção vai aproximar meu som de pessoas que não me conhecem, além de aumentar o relacionamento com músicos que eu gosto. Mais do que nunca, vou me tornar um artista de dentro para fora!”, conclui, com empolgação.

Antes do seu bloco de Carnaval, o Dre Guazzelli toca neste sábado, no Carnauol; no domingo, no Chilli Beans Fashion Cruise; e no dia 11, no Laroc Club, onde abre para o jovem DJ francês Kungs. No dia 24, encerra as gigs do mês com o primeiro Sábado Dre Tarde do ano, com seus tradicionais long sets de sete horas.

* Flávio Lerner é editor da Phouse; leia mais artigos de sua coluna.

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