Danny Oliveira: do techno ao trance, do Rio a São Paulo

O experiente produtor carioca fala sobre seu novo álbum, "Bent", projetos paralelos e viagens físicas e sonoras

* Edição e revisão: Flávio Lerner

Trafegar naquela tênue linha imaginária do crossover pode parecer complicado para aqueles que se preocupam muito com rótulos ou fórmulas, já que as regras sempre precedem o que mais importa, que é a música. Mas no caso de produtores experientes como Danny Oliveira essa façanha é algo trivial, pois sabem que os rumos são dados pelo horizonte e não pela estrada.

E com a mirada firme naquilo que se desdobra adiante sem perder de vista os caminhos que o trouxeram até aqui, o produtor carioca — que começou sua carreira aos 17 anos, em Miami, ao final dos anos 90 — lançou recentemente seu mais novo álbum, Bent, que chegou às lojas em fevereiro (ouça abaixo).

Após uma batelada de poderosos lançamentos que alcançaram os catálogos de selos como Anjunadeep e tantos outros, ele retornou com uma “tour de force” que é tanto uma prova de amor aos seus afetos passados quanto uma de fé a suas esperanças futuras, resgatando sonoridades que o formaram e apontando os rumos que sua musicalidade seguiu depois de tantos anos sendo apurada e depurada.

E isto tudo ainda no rescaldo de uma extensa turnê por diversos países do sul e sudeste asiático, nos quais pouquíssimos brasileiros podem se gabar de já haver se apresentado.

Conversando conosco logo após a chegada do álbum a todas as plataformas, Danny Oliveira fala acerca disso tudo, passando por passado, presente e futuro para nos prover uma prismática perspectiva do fazer musical no Brasil desta nova década.

Danny Oliveira, DNYO, Danny Loko… projetos abundam, mas o que distancia e aproxima cada um deles? Quais as diferenças, semelhanças e nuanças entre a sonoridade de cada um?

Como Danny Oliveira, lancei meus primeiros discos de techno bem no começo: 2003, 2004. Mas me destaquei no trance com produção na mesma época, só que sempre que eu tocava techno, eu soltava uns tech-trance no meio e vice-versa. O Oliveira sempre foi tech.

Depois veio o Loko, que, pelo nome, foi uma época muito doida e a ideia era criar um som diferente, longe do histórico do Oliveira. Foi daí que surgiu o som que saiu na Anjunadeep. Era um som mais dentro do house, era um tipo de progressive mais “pra cima”. Portanto, logo em seguida veio o DNYO. Eu queria utilizar tudo que aprendi e aplicar em um som super underground dentro do progressive house e chegar nos caras principais do estilo.

Hoje eu posso dizer que cada som tem o seu mundo por completo. Cada som tem sua sonoridade e as pessoas que os curtem. O Danny Oliveira fica no techno, um mundo mais sombrio, e às vezes aparece de vez em quando diante da luz do sol. O DNYO viaja mais pelo house, pelas melodias e melancolias mais profundas e também com pitadas de tech. Mas não vai pro techno porreta. É como se o projeto pudesse passear pelo house e fazer um progressive techno. Mas não é techno. Já o Loko precisa de outros ares totalmente diferente dos dois acima. Som mais jovem, mais “chiclete”, podemos dizer. 

E quanto ao Daniel de Oliveira? Como ele administra tudo isso e como a música entrou na vida dele? Ele a encontrou ou ela encontrou ele primeiro?

Nasci num lar com muita música. Nos dois lados da família. Meu avô e tios sempre faziam cantorias, sempre tinha um violão em algum lugar nos encontros. Música era sempre presente. Mas minha vida mudou quando ao ir para o ponto de ônibus a caminho da escola, encontro um cd no chão, peguei e virei: Tranceport, Paul Oakenfold. Coloquei no meu CD player e não entrei no ônibus. Escutei o primeiro minuto e pausei a vida.

Matei aula, fui dar uma volta pela cidade, peguei o trem e fui até Miami — foi um dia inesquecível. Nunca mais olhei pra trás. Larguei todos os meus interesses para me dedicar e viver aquilo, aquele som, dentro e fora dele. Foi onde eu me achei, onde eu me sentia realmente feliz. Hoje em dia, cuidar dos projetos está bem mais natural. Não deixa de ser um baita corre, mas com os projetos mais definidos sonoramente e com uma demanda de público ao DNYO, eu tenho como entender a dimensão e o limite das coisas.

Single do projeto Danny Loko, lançado pela conceituada Anjunadeep em 2011

Ele também vive entre duas das metrópoles mais ricas do mundo, cada uma imbuída de uma beleza bastante particular, seja ela natural ou cultural. Viver nessa ponte aérea lhe inspirou até aqui de alguma forma? Essa dualidade informa seus trabalhos em algum nível?

Pontes aéreas fazem parte dessa vida. Não consigo ficar muito tempo em ambas cidades e é isso que ajuda. Apesar do 021 ter melhorado em algumas coisas, 011 sempre faz bem pra barriga ou tem uma bela noitada na cidade, coisa difícil no Rio. Mas o aspecto natureza ainda temos no 021 de forma mais acessível. Viajar é o que mais me inspira nessa vida.

“Aquatika/Belvedere” foram feitas em temática inspirada pelo 021; já o álbum propriamente dito nasceu de noites mais frias no 011. Essa dualidade é muito boa. Vejo que, quando estou no Rio, procuro mais o house, por conta das noites mais calorentas e dos dias longos, já em São Paulo me sinto mais pilhado com a noite e o concreto.

Você completou recentemente uma bela turnê que passou por dois extremos do mundo, e ter tocado no Oriente é um mérito de apenas uma nata dos artistas nacionais até aqui. Como foi que tudo rolou para que isso acontecesse?

Eu recentemente descobri que tinha alguns fãs nesse lado do mundo. Venho trabalhando com alguns selos na área, preparando bons lançamentos. Um dia um amigo me disse: “você precisa vir pois tem uma galera que quer te ouvir e te conhecer aqui”. Foi muito gratificante viajar em distâncias tão grandes e conhecer pessoas que tinham algo pra me contar e como conheceram minha música.

Depois de rodar quatro cidades, fiquei bastante emocionado, pois ali eu tinha chegado pela música, pelos projetos que apostei darem certo com as pessoas certas. Tem coisa melhor que isso? Você mexe com as pessoas pela música e logo elas querem pôr uma cara naquela música que tanto escutam. Oloco, foi emocionante. 

O EP Flare, do projeto DNYO, foi lançado em 2019, pela Juicebox Music

Quais foram as paradas que compuseram a jornada como um todo? 

Hyderabad, Bangalore e Goa [cidades da Índia] foram amor à primeira vista. Aquela sensação de noite urbana, cidades grandes e uma galera mais ligada no som DNYO. Já em Goa, imagina, eu cresci ouvindo gravações de sets de tantos mestres da música lá na ilha, que é um lugar como nada nesse mundo.

Claro, cada uma tem seu caráter único e se torna marcante de modo bem singular, mas houve especificamente algumas que lhe chamaram a atenção de modo mais profundo? Quais que mais lhe impressionaram ou surpreenderam no geral?

Cara, a Índia me surpreendeu. Me sentir em casa assim não é sempre que acontece. Cada lugar é muito diferente do outro em tudo. Mas Hyderabad e Bengaluru me impressionaram pela diversidade cultural, pela luta das gerações mais novas por uma vida mais ideal sem desmerecer e desrespeitar as gerações anteriores e suas crenças e costumes. São batalhadores verdadeiros, com fome de música, de cultura e de conhecimento. E isso sem falar da comida meu amigo — ah, aquela comida! Ainda não subi ao norte, mas minha jornada só começou ali. Muito trampo à frente!

Agora há um álbum aí que acaba de ser lançado. O que foi que ensejou este projeto e como ele foi conduzido até aqui em termos de método e objetivo? Quanto tempo levou ficar prontinho?

Bent foi um processo interessante. Eu precisava desenhar um som dentro do techno. Mas eu não ia parar de desenhar até a hora em que eu pudesse sentar na cadeira e começar algo do zero, e em pouquíssimo tempo eu pudesse ter um som saindo de forma natural e com alguma semelhança aos anteriores.

Depois que entrei nesse modo, quase um ano, daí comecei a gravar o disco. Peguei um pouco de cada horizonte do gênero que fez parte da minha vida crescendo como amante do estilo e agreguei, temperando um pouco ali e aqui. O disco saiu em quatro meses de trampo com pausas apenas para sessões de meditação e respiração, duas a três vezes durante as gravações. Objetivamente, é uma forma de poder me apresentar para o público que curte o estilo e dizer que eu também não vivo sem esse som na minha vida.

Bent, de Danny Oliveira, também saiu no formato de set mixado

Também há outra faceta sua que é a de engenheiro de som, certo? Quais os trampos que você faz e como isso se tornou parte da sua vida profissional e artística?

Verdade! A Konker Audio em fevereiro vai fazer quatro anos. É um projeto de muito orgulho. Eu atendo selos e artistas independentes que têm um alvo a alcançar. Então meu trabalho é bem personalizado, nisso eu aprendo demais com eles. É uma escola de aprendizado constante pra mim, pois são estilos e ideias diferentes.

Selos como Terminal M, Timeless Moment, Not Another, ODD, Slideways. Recentemente tenho trabalhado com Uncloak, Bayma, Strober, Awka, Tim Penner, Felix Engage, Sondermon, Rich Curtis. Alguns são mais ativos que os outros, alguns são independentes, outros não, só trabalham com digital, e outros somente com vinil.

Imagine que o Danny de hoje pudesse encontrar o Danny de qualquer momento da vida dele e dizer algo. O que seria? Uma bronca, um conselho, uma dica, um direcionamento?  Tem algum momento da carreira que foi crucial e que hoje acha que poderia ter feito diferente, ou chegou até aqui sem grandes arrependimentos?

Não me arrependo de nada, mas, eu poderia ter sido mais marqueteiro depois da época em que eu estava tocando bastante. Me reinventei no som algumas vezes, mas a diferença fez lá fora, e não aqui. Quem sabe hoje as pessoas saberiam mais ao meu respeito, e eu pudesse desfrutar mais da cena no Brasil, conquistar mais o espaço, contribuir para algo muito maior. Experiência pra isso eu sei que tenho.

E quanto a esta nova década que se descortina em breve, além de um álbum e um novo momento na sua trajetória, o que mais podemos esperar do Danny e ele de nós?

Esperar é complicado (risos), mas nunca é tarde! Gostaria muito de novas parcerias e oportunidades aqui no Brasil. Muita gente ainda acha que sou gringo, ou que não vivo aqui. Comecei muito cedo, mas às vezes me sinto um peixe fora d’água no país.

De mim, agora é implementar essa techneira do disco em formato ao vivo pra sacudir mais ainda as apresentações, e sem dúvida o primeiro álbum do DNYO, que já está vindo há um baita tempo. Lançamentos em ambos selos meus, Konstrukt e DSR, com amigos e colegas durante o ano. E sem dúvida algo bem especial para meditação e respiração — um santo remédio na minha vida —, e quero muito ajudar outras pessoas com cura sonora.

Chico Cornejo é colaborador eventual da Phouse.

CONFIRA TAMBÉM:

SIGA A PHOUSE:
INSTAGRAM | TWITTER | FACEBOOK | SPOTIFY

Share on facebook
Compartilhar no Facebook
Share on twitter
Compartilhar no Twitter
Share on whatsapp
Enviar no Whatsapp