De 1984 a 2019: a história da música eletrônica com tempero brasileiro

Três DJs de três gerações diferentes ajudam a contar como a música eletrônica nacional, em tradição antropofágica, tem absorvido a música brasileira
* Com colaboração, revisão e edição de Flávio Lerner

A primeira vez que DANNE experimentou a junção da música brasileira com a eletrônica foi em 2008, em um electrofunk (mistura de electro house com funk carioca). E pensou em pôr de lado os devaneios artísticos. Em um almoço com um amigo, queixou-se de não ter talento, não ver futuro nos sets… Ouviu do colega para insistir no caminho. Foi em uma versão house de “Berimbau”, de Vinicius e Toquinho, em 2016, que ele se deu conta de que as suas mixagens não eram mais “de brincadeira”.

“No meio do drop, esbarrei com um som que combinava. Fiz um synth, transcrevi as notas, mudei alguns acordes e coloquei em cima. Ficou sensacional!”, descreve. “Berimbau” está restrita ao SoundCloud; DANNE não conseguiu até hoje autorização da gravadora detentora dos direitos autorais para veicular a música em diferentes plataformas.

Vieram, no entanto, outras tracks, combinando vocais em português, cuíca, reco-reco, ganzá e o que mais tiver de raiz nacional, com o brazilian bass. Com hits de sucesso, com milhões de plays — como “16 Toneladas” e “Ela é de SP” —, DANNE é da geração de DJs que, há pelo menos seis anos, segue levando samples, releituras e remixes de música brasileira ao mainstream do país.

O carioca Meme foi um dos precursores, bem lá atrás, a agregar à música eletrônica a brasilidade e as letras em português. Lembra que o som da nova geração vem de um hit de Chemical Surf e ILLUSIONIZE com o conceituado DJ alemão Sharam Jey: “Bass”, lançado em 2014.

“Depois apareceu o Vintage Culture, com um bootleg de ‘Bete Balanço’, do Barão Vermelho, chamando a atenção do público, que já sabia a letra de cor, e dos DJs. Ele trilhou um norte e levou aos samples de vozes em português, em que apenas uma frase forte já criava um canto de guerra. Hoje, há múltiplas regravações de sucessos dos anos 80 sendo lançadas”, observa.

O norte de DANNE foram Patife e Marky, ícones do drum’n’bass, responsáveis por fazer a música eletrônica brasileira aterrissar na Europa nos anos 1990. “Quando ouvi o que eles produziam, falei: ‘caracas, até que enfim!’. Só que a música deles não era para o mainstream. E é o que decidi fazer, para quebrar o status quo e adubar a semente do vocal nacional”, empolga-se. Seu intuito é homenagear a MPB e dar a ela uma roupagem nova para a juventude.

O DJ paulistano cresceu ouvindo música eletrônica, mas também sertanejos clássicos e a rádio Nova Brasil FM, que a mãe e a madrinha escutavam todos os dias. “Os jovens vão entender que existe muito mais do que está no rádio ou na novela. Há um campo enorme a ser explorado”, continua DANNE, que no podcast Aquele Abraço apresenta seleções e mixagens de sonoridades brazucas e dance music.

A história do Brasil com a música eletrônica tem pelo menos 35 anos. “Antes da internet rápida, em 2001, não havia cenário algum. Em 1984, porém, eu, Iraí Campos, Grego e DJ Cuca dávamos os primeiros passos nos remixes nacionais, pressionando as gravadoras, já que o rock brasileiro explodia, fazendo todo o Brasil cantar em português”, rememora Meme, pioneiro em levar a música eletrônica para as rádios e a indústria. Até 1990, diversas bandas de sucesso — RPM, Capital Inicial, Biquini Cavadão, Legião Urbana… — foram remixadas para pista e rádio.

Com o dinheiro dos remixes, ele e os demais investiram em equipamentos que “dessem o shape e o som da música internacional”, uma vez que os engenheiros de estúdio no Brasil, segundo ele, não sabiam como fazer música de pista. O veterano destaca como “marco zero” da música eletrônica em português suas regravações com Iraí Campos, em 1989, no projeto Ponte Aérea, de covers de “Dancin’ Days”, das Frenéticas, e “Romance Ideal”, dos Paralamas do Sucesso

Quando as gravadoras começaram a “pedir remix de qualquer coisa”, perdendo audiência — Meme continua —, os DJs buscaram a experimentação e um som eletrônico próprio. A partir de 1990, surgiram tecnologias mais modernas, equipamentos mais baratos e novos produtores no país. E em 1995, o álbum Eu e Meme, Meme e Eu, de Lulu Santos, marcou outro boom da música eletrônica em português.

“O remix voltou a toda, trazendo novos artistas, remixers, DJs/produtores e selos brasileiros. [A extinta gravadora carioca] Spotlight lançou Gui Boratto que, mais tarde, em 2003, com Ramilson Maia (Kaleidoscópio), produziria o megahit ‘Tem Que Valer’.”

Os DJs aproveitaram a festa para conquistar um lugar ao sol no exterior, e a música em português adormeceu, conforme continua narrando Meme. A geração de DJs anterior à atual — com exceções, como Gabe — enterrara o português.

“Tentou de tudo para parecer internacional, mas acabou apenas fazendo warmup para os gringos no Brasil. Uma geração arrogante, que desdenhou o nosso idioma por achá-lo ‘pouco cool’, e que está desaparecendo. A turma nova não tem essa referência, voltando a fazer todo mundo cantar — com praticamente as mesmas canções, diga-se de passagem. O período de trevas acabou”, dispara o artista, que desde 2005, tem apresentações regulares nos verões europeus, além de ser residente em um clube na Itália.

História da música eletrônica no Brasil
Meme. Foto: Divulgação

Com um terço de seu repertório dedicado ao brasileirismo, Patife vivenciou a era dos remixes das bandas nos anos 1990 e diz que “já pegou tudo mastigado”. “Tinha Iraí Campos e Grego, com ‘Loura Gelada’; e o Dudu Marote, com Que Fim Levou Robin, um projeto todo para pista de dança, os integrantes vestidos de clubbers…”, conta.

“E começaram a vir, no final da década, mais samples de jazz brasileiros. A gente já estava bebendo de uma fonte consolidada. Só que, na época, não havia espaço para os DJs, considerados sonoplastas. Hoje, vejo com um pouco de exagero a imagem super explorada do DJ, enquanto que a música fica em último plano.”

História da música eletrônica no Brasil
DJ Patife. Foto: Divulgação

Patife vive entre Inglaterra e Portugal desde 2017, e salienta que lá fora a sonoridade brasileira tem um romantismo. O suingue e o groove são identificados com facilidade, ainda que dentro da house. O leste europeu é uma das regiões que mais a aprecia. Mas “ao mesmo tempo em que é cartão de visitas, o som brasileiro é uma barreira. É muito difícil uma rádio inglesa colocar no e-list uma música em português”, explica.

Até hoje, segundo ele, apenas três estiveram no Top 40: “Orgasmatron” (Sepultura), “Garota de Ipanema” em inglês, e “LK”, grande hit de Marky e XRS, com versos em inglês do MC Stamina e apenas um refrão em português sampleado de “Carolina Carol Bela” (Jorge Ben e Toquinho).

“Acontece o mesmo com qualquer outra língua, fora inglês e espanhol. O motivo é que não faz sentido tocar algo que eles não entendem, a não ser que se torne um hit mundial. Há também a influência das gravadoras e a própria política das rádios.” Patife esteve no topo das paradas na Inglaterra no início dos anos 2000, com o remix de “Sambassim”, cantado por Fernanda Porto, que abriu a pista de sua carreira internacional.

Mesmo entre os brasileiros, o uso do português nas músicas ainda gera estranhamento. “O único estilo com carta branca para mixar é a bossa nova”, atesta DANNE. Já foi pior, mas o preconceito ainda existe, e o DJ da nova geração o atribui ao pouco valor que o brasileiro em geral dá ao que é seu — principalmente o que vem da periferia e do subúrbio.

Em um trabalho recente, em parceria com um produtor, ele conta que chegou a sugerir o uso de vocais nacionais, e a resposta foi imediata: “Não combina, essa melodia é pra vocal em inglês”. A música vai sair, no final das contas, só com groove. Ainda assim, DANNE aposta no crescimento do gênero no Brasil e lá fora:

“O brazilian bass já está no mainstream internacional, com DJs famosos que viraram ídolos por aqui. Antes, eram só lá fora”. Falta, em sua opinião, um hit original. “Acho que o primeiro passo é fazer um híbrido, com características internacionais e vocal nacional, para entrar no mercado de vez”, reflete.

História da música eletrônica brasileira
DANNE. Foto: Divulgação

Patife considera o movimento positivo: gera mercado, parcerias, intercâmbio. “É um grande ganho. Independentemente de a música ser bonita ou não, o mercado está sendo fomentado. Independentemente do objetivo, isso vai levar pra frente. Não existe música ruim, existe público pra tudo”, ressalta. E dá seu recado aos novos DJs: “Música feita pelo oportunismo, pela onda, tem tempo de vida curto. Se você quer explosão rápida, tem um caminho. Se quer uma carreira longa e que a sua música fale com o coração, o caminho é outro”, argumenta. 

Meme, entretanto, vê nesse cenário de redescoberta da música brasileira a vontade de atender à audiência e também de lucrar. A tecnologia, analisa, fez surgir em maior número DJs “famintos pela fama”. Por outro lado, pontua que “a corrida ao pote de ouro serve como ferramenta para um desenvolvimento rápido e visível do trabalho”.

“Não consigo ver essa ideia vinda do coração de nenhum deles e, sim, da cabeça. O que não tira o valor da iniciativa. Já participei de reuniões em que DJs listavam nomes de hits antigos num papel para chegar a um consenso sobre qual deveriam regravar para ter sucesso. E ajudei a realizar alguns deles por trás das cortinas”, revela.

LEIA TAMBÉM:

No início dos anos 2000, Patife e XRS criaram o primeiro remix da música “Pra Você Lembrar”, de Max de Castro. “Eu escutava… A mente criava e o céu era o limite. Visualizei o piano em loop, o Carnaval como bordão, e o resto foi looking for the perfect beat. O pêlo do braço levantava, a nuca arrepiava…”, relembra.

Esse feeling, Patife diz não ver “na galera nova que bombou e tá no Tomorrowland”. Por outro lado, o público jovem, que movimenta os bares e casas noturnas, quer oba-oba. “Já deitei e rolei na Rua Augusta (SP), mas hoje lá é só funk, pancadão”, afirma. As gravadoras não o procuram, não é o DJ do momento.

Mas a carreira na Europa é estável, com nichos fiéis, e ele segue buscando a música como expressão, bebendo de todas as fontes, para além das brasilidades. No setup que montou em um trailer, ao lado de sua casa na cidade lusitana de Albufeira, há um ritual antes do trabalho: acender um incenso e pôr para tocar músicas que nada têm a ver com o trabalho do momento; Sade, Anita Baker, Vinicius.

Para onde a nova onda da música eletrônica brasileira vai levar? DANNE sugere que o sucesso pode estar no rastro do K-pop: “Eles mixaram com maestria o coreano com o inglês e virou música de exportação”. Patife, por sua vez, afirma que o Brasil ainda produz muito para pista de dança: “Assim não vai ter streaming. Por outro lado, acho que nada mais é underground. O gostoso é a conexão, e a influência latina é imensa”.    

Meme também vê tudo se misturando: “Quem imaginou que algum dia ouviríamos o termo afrotech? A partir daí, qualquer invenção pode ganhar nome e virar gênero”. E avisa que o mundo não precisa, necessariamente, de vocais em português.

“É ingenuidade, até porque isso já existe nas pistas de house há anos. O que dá certo é o bem feito e o que faz o povo sacudir, independentemente do idioma ou da qualidade de áudio. De minha parte, nunca houve um desvio musical, mesmo quando experimentei temperos diferentes. Meu papel sempre foi evoluir meu som sem mudar quem eu sou. Pode apostar que dá certo”, conclui.

E se eletrônica com cuíca dá samba, vamos dançar!

* Valéria Propato é repórter da Phouse.

Share on facebook
Compartilhar no Facebook
Share on twitter
Compartilhar no Twitter
Share on whatsapp
Enviar no Whatsapp

Quer aprender a produzir a sua própria música?

Compre agora o curso Make Music Now com 10% de desconto na inscrição e soundbank do Studio Tronnic para Sylenth1 grátis!.

PHOUSE MUSIC
SPOTLIGHT