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Entrevista

Experiência dentro e fora das pistas: Diogo Accioly fala sobre a carreira

Alan Medeiros

Publicado em

17/11/2017 - 14:41
Diogo Accioly
Agenciado por duas marcas expressivas dos cenários nacional e internacional, o paulistano vive hoje uma das melhores fases de sua longa trajetória

Mais de 15 anos de carreira e uma bagagem de peso adquirida através de apresentações em alguns dos principais países do cenário eletrônico deram ao paulistano Diogo Accioly o know how necessário para encarar com eficiência diferentes tipos de pista. Dentro e fora dos palcos, seu trabalho de grande relevância e cuidado já proporcionou momentos marcantes para a dance music brasileira, seja através de sets em clubs como Warung, Beehive e D-EDGE, ou acompanhando tours de caras como Marco Resmann, Matthias Meyer e Phonique.

Atualmente, Diogo é agenciado pela D.Agency, no Brasil, e pela W-Agency em toda Europa. Isso representa uma forte ligação com dois dos principais clubs do mundo: D-EDGE e Watergate, respectivamente. Em suas últimas apresentações, Accioly tem caminhado cada vez mais em direção a atmosferas ligadas ao techno com raízes em Berlim e Detroit. Isso é um reflexo de seus recentes trabalhos no estúdio (ele fala mais sobre assunto abaixo) e o contato com grandes artistas do gênero em meio a suas viagens em turnê.

Aproveitando o excelente ano de Diogo (somente em 2017 foram duas passagens interessantes pela Europa), trocamos um papo exclusivo sobre sua vida e carreira. Confira:

Você chegou há pouco da sua segunda tour na Europa neste ano, certamente cheio de novas experiências. O que você pode destacar pra gente a respeito desse período?

Este ano foi muito especial, porque foi o primeiro que fiz a minha tour representado pela W-Agency. Além de Europa, passei por Marrocos e Jordânia, pude trabalhar em estúdio com alguns amigos e tive gigs incríveis! Cada temporada é uma experiência diferente.

Na minha última apresentação antes de voltar por Brasil, toquei por 11 horas e meia no Sisyphos, em Berlim, com meu grande amigo Marco Resmann. Foi com certeza um dos pontos altos da tour.

Aqui no Brasil você é representado pelo D.Agency, enquanto na Europa quem cuida de seus bookings é a W-Agency, agência do Watergate. Quão importante é ter duas marcas tão poderosas gerenciando a sua carreira?

A minha história com os dois clubs é antiga e somos uma grande família. Os nomes D-EDGE e Watergate são muito fortes no cenário mundial e isso só me faz querer trabalhar ainda mais. Tenho uma sintonia muito grande com o pessoal de ambas as agências e vejo que eles estão sempre trabalhando pra fazer o melhor para minha carreira.

Percebemos que seu set tem caminhado cada vez mais em direção ao techno. É possível dizer que isso tem uma relação direta com as marcas e os artistas que você tem trabalhado recentemente?

De certa forma, sim. Eu tenho buscado tocar faixas que me surpreendem de alguma maneira e sempre busco referências de artistas que eu admiro. D-EDGE e Watergate sempre me proporcionaram um intercâmbio de ideias com esses artistas, sejam eles do techno, da house ou da disco. O interessante pra mim é pegar essas referencias e transformar em algo com a minha cara, na cabine do club ou no estúdio.

Com sua experiência de mais de uma década no dancefloor, como você observa o atual momento do cenário underground no Brasil, e quais são os próximos passos a serem dados na sua opinião?

Cada vez mais, eventos que buscam trazer um pouco mais de diversidade e cultura musical vêm surgindo, e isso só vem a acrescentar. Vejo principalmente núcleos do Sul do país e de São Paulo acreditando em novos formatos e trazendo artistas que, de repente, não participam daquele circuito habitual. Acredito que quando a arte vem em primeiro lugar, o cenário só tende a crescer.

Quais são seus planos referentes à produção musical? Há algo para sair nos próximos meses?

Tenho passado bastante tempo no estúdio ultimamente. Eu e o Marco [Resmann] trabalhamos num EP para o selo do D-EDGE e tenho algumas outras faixas a serem lançadas por outros selos, que por enquanto não posso falar [risos]. Algumas surpresas estão por vir!

Você tem trabalhado com alguns dos nomes mais interessantes que vêm para o Brasil ano após ano. Como tem sido essa troca de experiências?

Tenho muitos amigos que são artistas que sempre admirei. Essa intimidade me proporciona conhecer o trabalho de cada um deles um pouco mais a fundo ou simplesmente conversar sobre a cena. O Brasil vem cada vez mais se destacando e chamando a atenção no mundo da música e isso reflete no trabalho deles também.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. Qual é o seu grande objetivo de vida enquanto DJ?

Eu gosto de me apresentar e sair em turnês. Acho que viajar e conhecer o maior número de lugares possíveis, lugares que eu jamais imaginaria conhecer se não fosse DJ, é o meu objetivo principal. Diferentes culturas e pessoas me inspiram.

Alan Medeiros é colaborador eventual da Phouse.

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Entrevista

Cat Dealers revelam novos planos e curiosidades sobre parceria com Cleo Pires

Phouse Staff

Publicado há

Cat Dealers Cleo
Foto: Reprodução
Dupla remixou uma das primeiras canções de Cleo na nova carreira

Na semana passada, como você viu aqui na Phouse, os Cat Dealers se destacaram com um remix para “Jungle Kid”, música da cantora Cleo — mais conhecida como a atriz global Cleo Pires, que lançou recentemente sua carreira paralela no mundo da música. A original é a faixa-título de EP lançado em março, com outras quatro faixas.

Mas como será que pintou essa inusitada parceria entre um dos duos de maior sucesso do cenário eletrônico brasileiro e uma das celebridades mais famosas do país? Pra responder a essa e a outras perguntas, Lugui e Pedrão tiraram um tempinho na agenda para contar à Phouse um pouco dos bastidores do remix — e ainda prometem novidades para o futuro breve com a artista! Leia abaixo:

Como surgiu a oportunidade para remixar a música?

Tivemos o prazer de receber o convite da Cleo e da equipe dela, que já conheciam e curtiam muito o nosso trabalho — incluindo nossa amiga BIAN, que é DJ, compositora e produtora musical, e também foi uma das compositoras da “Jungle Kid”. Ficamos super honrados e animados com essa produção.

Como foi o contato que tiveram com a Cleo no processo de produção do remix? Vocês já a conheciam pessoalmente?

Tanto nós quanto a Cleo temos uma rotina muito corrida. Além da carreira musical, ela está gravando a novela das sete, e estávamos nos preparando para a nossa tour na Ásia. Tivemos um contato à distância, mas intenso e produtivo para trocar uma ideia e alinhar a parceria. Graças à tecnologia, isso é possível e funciona (risos). Fizemos contato por telefone, whatsapp e por aí vai. E, no fim, quando mostramos o resultado final, ficamos muito felizes com a reação dela.

Já nos cruzamos em alguns eventos, antes mesmo de surgir o convite para fazer o remix, mas pessoalmente mesmo deve acontecer em breve. Estamos combinando novos projetos juntos, e esse encontro deve acontecer logo. Fiquem ligados, porque virá acompanhado de novidades!

+ Tiësto, Justice, Camelphat, Cat Dealers… Confira os novos sons do final de semana!

Quais foram os principais desafios para remixar “Jungle Kid”?

O principal desafio foi transformar a “Jungle Kid”, que tem uma pegada bastante diferente do que costumamos fazer, em um remix que encaixasse também na nossa sonoridade. O BPM original da música, por exemplo, era mais lento, mas conseguimos aumentar sem deixar a vibe incrível da original se perder. Estávamos sempre tocando o remix nos shows, e a resposta tem sido ótima. Inclusive nossos amigos DJs sempre vinham perguntar o nome da track, se era alguma cantora gringa ou algo do tipo.

Como é participar dos primeiros passos na música de uma estrela global já consolidada?

Nós ficamos muito felizes pela confiança que tiveram na gente. Poder participar desse início de carreira musical da Cleo foi uma oportunidade incrível e, por isso, tivemos o máximo cuidado nessa produção, principalmente por ela já ser uma artista consolidada, com uma grande trajetória.

Se tivessem que dar uma dica musical para a Cleo na nova carreira, qual seria?

A nossa maior dica, não só para ela, mas para todos, é se manter rodeada de pessoas do bem, que possam ajudar nessa jornada, e de se manter fiel a si mesma, às suas produções e aos seus instintos. Não há nada melhor, tanto para a artista quanto para os fãs, quando a música vem da alma, com verdade.

* Além desse papo, entrevistamos o duo sobre a festa Cat House, cuja próxima edição rola em 04 de agosto, em BH. Assista aqui.

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Entrevista

Catarinense se reinventa e atrai olhares de gigantes do progressive house

Nayara Storquio

Publicado há

ZAC
Foto: Divulgação
Depois de 13 anos no mercado, Thiago Zacchi explode como ZAC
* Com a colaboração, revisão e edição de Flávio Lerner

A cena underground catarinense parece ter um novo destaque: o DJ e produtor Thiago Zacchi, que vem ascendendo meteoricamente desde que lançou seu projeto ZAC. Com a vantagem de ter nascido próximo a um dos maiores polos brasileiros de dance music, o DJ natural de Mondaí, interior de Santa Catarina, já conta com 13 dos seus 30 anos de vida na profissão, mas foi nos últimos nove meses que começou a chamar a atenção dos principais expoentes do progressive house global.

Thiago iniciou sua trajetória em Chapecó, tocando em festas fechadas aos 17 anos, onde descobriu sua paixão. “Depois de ir na minha primeira festa de música eletrônica, decidi que queria ser DJ. Comprei um CDJ 100 e mixer e ficava o dia todo em casa mixando — era como jogar videogame. Comecei tocando em festas privadas, que chamávamos de ‘privates’. Na época eu tocava sozinho a noite toda, além de ajudar na montagem e desmontagem do som”, destaca o artista, em papo com a Phouse.

Set na Levels, em Porto Alegre

Depois de ter se estabelecido profissionalmente dentro do mercado catarinense, tornou-se sócio do famoso Amazon Club, na mesma Chapecó. Thiago acredita que ser parte do clube por quase dez anos tenha lhe trazido muita aprendizagem e oportunidades, porém ele não vincula o sucesso de seu novo projeto a ele.

“Meus êxitos como parte do clube não têm nada a ver com o que tenho feito como produtor musical e DJ. O Amazon me ajudou, mas de resto essa imagem ligada a ele me prejudica, porque às vezes as pessoas lembram do clube e acabam não escutando a minha música, que é o que realmente importa. Tive a felicidade de conhecer grandes nomes ali, ter contato com muitos artistas bons, mas o que impulsionou meu nome na cena global foram as músicas que produzi, as horas dentro do estúdio, e realmente fazer a música que amo.”

Faixa que agradou Cattaneo, “Crystal” ficou por 30 dias no Top 100 de progressive house do Beatport; ZAC a considera um divisor de águas na sua carreira

Thiago cria suas produções buscando incorporar elementos bem brasileiros — algo que era raro no cenário nacional, mas que vem crescendo. O produtor admite que carrega, de fato, uma forte veia progressiva, mas não gosta de se limitar a essa vertente. “Minhas faixas são carregadas de melodias progressivas, que é o estilo que mais me inspira. Ao mesmo tempo, elas têm percussões e baterias dos ritmos brasileiros. O samba, a rancheira, o maxixe, o maracatu, o candomblé, o calango e outras mais. Gosto de tudo que traz sensualidade”, continua.

O rapaz também acredita que parte do seu segredo está em justamente não pensar em fazer sucesso, além da experiência de anos como clubber. “O ZAC nada mais é que a verdade sobre mim mesmo — a mistura de todas as influências que recebi ao longo da minha vida musical. Eu faço som pra tocar. Não tô preocupado se algum selo vai lançar, se tá agradando os outros DJs… Eu quero agradar a mim mesmo. Sou um cara que veio da pista, e quando vou nas festas eu fico dançando e admirando o trabalho do DJ. São muitos anos discotecando, e essa leitura de pista ajuda muito na hora do show.”

Hernán Cattáneo tocando “Crystal” no Warung

Com muita dedicação, foco e originalidade, ZAC vai colhendo frutos expressivos em pouco tempo de atividade. Além de acumular sets em rádios internacionais, como BBC Radio 1, Beat FM e Progressive Beats, o cara já fez passou pelo crivo de alguns dos maiores peixes do cenário. No Warung Beach Club, ninguém menos que Hernán Cattáneo tocou sua música “Crystal”, com Gabriel Carminatti, além de tê-lo incluído três vezes no seu podcast no Resident Advisor.

O DJ acredita que foi o suporte de Hernán que fez com que ele passasse a atrair mais olhares e ser mais conhecido. “Foram quatro suportes seguidos em quatro meses, sendo que quando ele tocou a ‘Crystal’ no Warung, o clube simplesmente veio abaixo”, segue. Outro big name que o deu muita força é o alemão D-Nox, que já chegou a convidá-lo para um B2B surpresa.“Ganhei a admiração do D-Nox tocando em uma festa em Lages, fazendo warmup. Ele ficou vendo e disse que eu tocava boa música. Ele é uma lenda, eu tremia e fiquei muito nervoso para tocar junto com ele, mas no final deu tudo certo.” 

Trechinho do B2B com o D-Nox

De acordo com relatos de amigos, Marco Carola também tem tocado algumas de suas faixas. Mas mesmo com tudo isso, Zacchi destaca que o mais importante é sua relação com o público. “Principal para mim é ter saído de uma condição de um DJ de festas privadas, chegar ao Inside do Warung, tocando numa noite de Carnaval, com um lineup recheado de gringos, e escutar as pessoas dizendo que estavam ali pra me assistir, que viajaram quilômetros de distância pra ouvir meu set… Esse é o maior feito da minha carreira: conquistar fãs.”

Mas como um artista ainda no começo da sua carreira consegue atrair atenção dos gigantes? Segundo ZAC, a resposta está na persistência: “Eu realmente mandei as faixas para esses artistas, depois de conhecê-los pessoalmente. Para outros, mando sons por e-mail, Facebook, Instagram… Sou insistente, brasileiro, não desisto nunca”, brinca. Esse sucesso, entretanto, tem o seu preço. “Eu praticamente não tenho nenhum dia de folga. Segunda-feira, que é pra ser o day-off do DJ, pra mim não existe. Eu gosto de acordar, fazer um café e revisar as músicas que toquei no final de semana, e fazer alguns ajustes que julgo necessário”, disse ele, que ao lado de sua agência 4 Fly, também participa de sua rotina de agenda e administração da carreira.

Microdocumentário sobre sua gig no Carnaval do Warung

Assim, Zacchi vai acumulando performances em pistas expressivas pelo Brasil e a América Latina. Além do Warung, já tocou em clubes e festivais de peso como TribalTech, Creamfields, Colours, Levels, Beehive, Cultive, D-EDGE e Lotus (em Montevideo, no Uruguai). No caminho certo e com todos esses anos de experiência e visão privilegiada no mercado, o músico confia no seu taco, e garante que tem alma internacional.

“O futuro do ZAC acredito que está a caminho. Eu tenho muita música que está explodindo na pista e nem foi lançada ainda. Cada dia que passa fico mais otimista, porque o envolvimento dos fãs tem sido incrível. São pessoas de todo o Brasil e o mundo me chamando, dizendo palavras de motivação e me colocando pra cima. Fico feliz porque eu tô fazendo a música que amo, sem rótulos, sem preconceito. Quando vou tocar, me sinto a melhor pessoa do mundo — a troca de energia com a galera tem sido o combustível para tudo!”

Nayara Storquio é colaboradora da Phouse.

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Entrevista

Ney Faustini: “Estude música, mais do que você já estuda”

Rodrigo Airaf

Publicado há

Ney Faustini
Foto: Gabriel Quintão/Divulgação
Às vésperas de tocar no Caos, Ney Faustini fala sobre presente, passado e futuro
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Pesquisador musical ávido, discotecário premiado e produtor aclamado por nomes que vão de Ben Sims a Rainer TrübyNey Faustini é um cara habituado a seguir o fluxo do que manda seu coração em quaisquer etapas de sua vida. Como DJ, começou na cena de drum’n’bass. Antes disso, já participava de campeonatos de Kart, paixão herdada do seu pai, piloto da Stock Car nos anos 80 e 90.

As corridas continuam até hoje, mas isso nunca o impediu de curtir e absorver tudo o que a música eletrônica tem a oferecer, fosse nos anos 2000, com os eventos memoráveis como Skol Beats e clubs mitológicos como o Lov.e e o Overnight — fez parte da história destes dois últimos nas cabines, inclusive —, seja como um dos DJs e produtores mais experientes e musicalmente vorazes da atualidade. Hoje costuma carimbar sua presença tanto nos principais clubs atuais brasileiros, como o D-EDGE, onde realiza uma residência muito benquista, quanto em turnês no exterior.

Em uma conversa inspirada e pautada em aspectos do passado, presente e futuro, batemos um papo com o DJ paulistano às vésperas de sua apresentação no Caos, club de Campinas onde vai se apresentar durante três horas nesta sexta-feira, dia 15 de junho, ao lado de Chris Liebing e Victor Ruiz

No maior estilo “somos a média das cinco pessoas com quem mais convivemos”, você se lembra de pessoas, momentos, gestos, crenças ou cenas específicas do seu passado que ficam até hoje marcadas na sua memória como turning points para o desenvolvimento do Ney Faustini como o profissional que conhecemos hoje?

Posso dizer que vivi muitas experiências, algumas boas e outras nem tanto, que me influenciaram diretamente na minha formação como artista nesses quase 20 anos de discotecagem. Falando pelo lado bom, experiências de pista, entre festas, clubs e festivais, são sempre especiais. Lembro bem da primeira vez que ouvi o DJ Marky tocando em uma rave no interior de São Paulo, ainda antes da residência dele no Lov.e, e como aquilo me influenciou a querer tocar drum’n’bass. Da primeira edição do Skol Beats, em 2000, que foi o primeiro festival de música eletrônica que frequentei, e onde pude ouvir vários dos DJs que eu já acompanhava. Das primeiras vezes que vi o Laurent Garnier se apresentando em São Paulo. Dos inúmeros DJs e live acts que pude presenciar nos clubs que mais frequentei na vida, D-EDGE e Lov.e. Sem querer ser nostálgico demais, o meu conceito do “ser DJ” teve base nessa época, final dos 90 e início dos 2000.

Profissionalmente, algumas ocasiões estão marcadas na memória como se tivessem acontecido ontem: minha primeira vez tocando no Lov.e em 2001, abrindo a noite pro Marky; a primeira gig na Freak Chic em 2010, no D-EDGE; a apresentação no primeiro Boiler Room no Brasil, em 2013; mais recentemente, tocar pela primeira vez no Rock in Rio no palco Eletronica, e abrir o palco do Dekmantel em São Paulo, no mesmo dia em que o Jeff Mills o fechou, foram experências fantásticas. Saindo um pouco da discotecagem, lançar meu primeiro disco em vinil, o Sleepless, em 2012 pela Foul & Sunk, foi um divisor de águas pro meu amadurecimento como produtor. Uma lembrança puxa a outra, mas essas foram as primeiras que vieram à cabeça.

A maturidade é algo natural na vida de qualquer pessoa — ainda bem! Como artista, qual o conselho essencial que você daria para o Faustini de uns 20 anos atrás e por quê? 

Eu diria “estude música, mais do que você já estuda”. Eu sempre tive muito prazer em pesquisar, frequentar lojas de disco, descobrir músicas e artistas novos, independentemente de estilos. Esse sempre foi meu foco como apreciador de música, além de DJ. Porém, mesmo começando a produzir, lá por 2009, eu nunca tive uma real formação musical e não me aprofundei no estudo de nenhum instrumento. O que eu sempre tive comigo era o que eu gostava de escutar, meu repertório, e dali eu buscava minha inspiração pra produzir. Estudar a música mais profundamente, mergulhando ainda mais na parte teórica, além de toda diversidade cultural e histórica, é algo que venho fazendo mais recentemente e gostaria de ter feito antes.

“Sinto falta do tempo em que as pessoas se preocupavam mais em aproveitar o momento do que ficar registrando tudo no celular.”

Você é considerado um DJ mais próximo das sonoridades da house music, mas pra esta sexta você foi escalado para um lineup mais techno, ao lado de Chris Liebing e Victor Ruiz. É possível que com esse “empurrãozinho” veremos um lado musical seu ainda mais amplo em Campinas?

Eu naturalmente tenho uma preparação muito particular pra cada situação, e nesta noite não será diferente. Eu evito me rotular e, dentro do possível, gosto sempre de variar, especialmente em sets mais longos. Mas também gosto desses casos, em que existe um foco mais específico. E afinal, Detroit é uma das minhas maiores influências musicais, então a expectativa em abrir uma noite mais voltada ao techno com um set de três horas é enorme. Estou separando várias músicas especialmente pra esta ocasião.

Explorando um pouco mais este seu lado “techneiro”, conta pra gente quais foram as descobertas mais incríveis deste gênero que você realizou ultimamente? 

Além das referências de Detroit e Berlim, tenho escutado também muitos artistas e gravadoras holandesas, francesas, suecas… A Delsin sempre foi uma das minhas gravadoras favoritas e segue firme numa extensa agenda de lançamentos com velhos e novos artistas, assim como a também holandesa Clone. Taapion é um selo mais jovem e que apresentou um time francês de produtores que gosto muito, encabeçado pelo Shlømo. De uma maneira geral, estou sempre acompanhando gravadoras como Echocord, ESHU, ARTS, Tikita, Ilian Tape, Curle, Mistress, Suchitech, The Corner, Non Series, Skudge, entre tantos outros.

Foto: Divulgação

É difícil barrar a energia da noite de SP. Aliás, do dia também. Mas quais são as outras cidades brasileiras onde você já tocou e sentiu também uma energia singular no público ou na forma como consomem cultura e arte?

Os três estados do Sul estão com festas e projetos muito consolidados, mas acho que tenho uma relação mais próxima com Floripa, por conta da minha residência na Troop, e é sempre incrível tocar por lá. O que me impressiona no Sul, além do que rola nas capitais, é o interesse de um público cada vez maior por música eletrônica underground em cidades do interior.

Momento nostalgia: sua bagagem data desde o fim dos anos 80. Você fez parte de momentos históricos do cenário. De quais características da cena clássica você mais sente falta hoje? 

Eu tento não ser tão saudoso com situações e cenários de antigamente, porque dentro das inúmeras opções que existem de festas hoje, sempre dá pra achar alguma com a qual você se identifique. Dito isso, sinto falta do tempo em que as pessoas se preocupavam mais em aproveitar o momento do que ficar registrando tudo no celular. Nada contra fazer pequenos registros, eu gosto de relembrar alguns momentos também, mas rola um exagero hoje em dia.

“Temos que aproveitar as facilidades que o mundo moderno oferece à profissão, mas não se atinge um trabalho sólido e autêntico através de atalhos.”

Muitos DJs chegam ao sucesso de repente, às vezes já perto de um auge que pode acabar igualmente rápido. Mas você é de uma geração em que a maioria segue uma curva longa até um reconhecimento mais sólido. Que aspectos de uma longa carreira você acha impossíveis de serem adquiridos por DJs “fast-food”, e que realmente fazem falta para um artista? 

A quantidade de “novos DJs” que entram na profissão por motivos não tão musicais cresceu bastante de uns anos pra cá. Gente em busca de sucesso rápido e que nunca teve real interesse pela música e pela arte em si. Ser DJ exige alguns sacrifícios e muito amor, algo que vai bem além das ferramentas de marketing e redes sociais. Vi muita gente da minha geração, e da anterior também, abrindo mão de muita coisa na vida pra poder comprar vinil e equipamentos. Temos que aproveitar as facilidades que o mundo moderno oferece à profissão, mas não se atinge um trabalho sólido e autêntico através de atalhos, e acho que isso vale pra tudo na vida. Repertório e feeling de pista, por exemplo, são aprendizados longos e continuos, só pra citar dois aspectos essenciais.

Passarinhos me contaram que você tem algumas novidades pro futuro próximo, de internacionalidades ao vinil. Confirma pra gente?

Neste ano quero dar um foco maior aos meus trabalhos autorais, já que acabei fazendo mais remixes nos últimos três anos. O último que terminei, pro japonês Tominori Hosoya, deve sair em agosto pela Bucketround, gravadora espanhola de deep house que lança apenas vinil. Incluo nessa fase atual de trabalhos novas colaborações com meus amigos do Fractal Mood e com o sueco Sean Dixon. Pro segundo semestre também estou planejando uma tour em algumas cidades da Europa.

Foto: Divulgação

Uma cor, um filme, um movimento, um sentimento, uma ação, uma reação… O que mais pode te inspirar além do som?

Cidades são sempre inspiradoras, e essa relação de amor e ódio com São Paulo é uma influência constante. Em 2011 decidi passar dois meses em Berlim só pra experimentar a sensação de viver uma rotina, ou a falta dela, por lá. Eu tento sempre absorver um pouco de cada lugar que eu vou, a trabalho ou a passeio. Se tiver arte, museus pra visitar e lugares históricos, melhor ainda. Situações mais extremas de sentimento, de felicidade ou tristeza, também são muito inspiradoras.

Você já tocou algumas vezes no Club 88, mas será a primeira vez no Caosdos mesmos sócios. E estreia logo em, como já foi dito, noite grande de techno. Quais são as suas expectativas para o dia 15 de junho?

Toquei uma vez no Club 88, quatro anos atrás. Conheço a Eli Iwasa desde os tempos do Lov.e Club, e vinha acompanhando toda a montagem do Caos com a expectativa de que seria um club pra se tornar referência no interior de São Paulo. Vi fotos e vídeos de algumas das festas que rolaram nos últimos meses, e já deu pra sentir um pouco de como é a atmosfera por lá. O Chris Liebing é uma lenda, e imagino que vá rolar uma peregrinação partindo de várias cidades pra essa noite. Nada como experimentar a sensação de tocar em lugar novo com a casa cheia, e pegando essa energia de começo de festa. A ansiedade é enorme!

* Rodrigo Airaf é colaborador eventual da Phouse.

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