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Dos primeiros discos ao lançamento pela Innervisions de Dixon; uma entrevista exclusiva com Davis

Jonas Fachi

Publicado em

16/11/2016 - 18:23

‘’A devoção à arte é uma premissa fundamental para alguém que se chama um artista.’’ É com essa premissa que o DJ, produtor e incitador cultural paulista Davis caminha para fechar mais um grande ano em sua carreira.

Um dos responsáveis pela democratização da noite eletrônica na maior cidade do país e um dos DJs mais requisitados em nossa cena atualmente, ele conta nesta entrevista exclusiva para Phouse um pouco do início da sua carreira, o lançamento de sua label com Zopelar, experiências em dos clubes mais respeitados da Europa e sua grande conquista no ano, lançando pela consagrada gravadora de Dixon, a Innervisions.

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Você ganhou evidência nos últimos anos na cena eletrônica e rapidamente conseguiu se estabelecer como um dos DJs mais respeitados do Brasil. Obviamente essa é uma visão externa e não retrata toda sua trajetória anterior, bem como o tempo que passou até se destacar, como foi?

Eu nasci e cresci na Zona Leste de São Paulo, rodeado de música, onde minha maior diversão na adolescência era sair com meus amigos para dançar e assistir meus DJs favoritos nos clubes da região, como Toco, Contramão e Overnight. Ainda carrego comigo a memória da primeira vez que entrei num clube, vi aquela massa de gente dançando ao som de um DJ numa mega cabine, um enorme show de luzes … foi especial. E, então, foi daí que nasceu meu interesse em discotecar. Naquela época juntava grana do lanche da escola para poder pagar a entrada nos clubes. Sendo assim, eu não tinha grana suficiente para comprar muitos discos, nem tampouco um toca-discos decente. Mas mesmo assim eu arriscava gravar, no aparelho de som do meu pai,  fitas K-7 para meus amigos e para poder tocar nos nossos “bailinhos” na garagem, era uma mistura bem tosca, composta de músicas da minha ampla coleção formada de 6 discos e algumas faixas que gravava de programas de rádio (lógico que com aquelas vinhetas bizarras de programas de rádio), mas era muito gratificante ver a reação dos meus amigos quando as ouviam.. Os salários dos meus primeiros empregos (office-boy, atendente de locadora, entre outros) serviram para comprar discos (Vinis e CDs).  Enfim, por diversas razões eu não segui com a discotecagem, mas não deixei nem um instante de colecionar música.

Daí, em 2000, após uma grande perda na minha vida, fui buscar na música uma motivação, um forma de equilibrar minha vida. Passei a comprar discos novamente, comprei um par de toca-discos, fui praticando, contando com a ajuda de outros amigos DJs (como André Ribeiro, Maurício UM e Ronald Pacheco) que me incentivavam a  tocar, sempre elogiando meu gosto musical.

Poucos anos depois, em meados de 2004 comecei a fazer as minhas próprias festas, criando assim uma impressão muito boa para o público e para outros artistas que tocaram comigo. Uma hora arrumava um puteiro desativado, noutra ocupava espaço de um bar, enfim, tudo muito pequeno, mas com muito amor pela música. E, assim, foi me tornando conhecido no cenário alternativo de São Paulo até chegar a tocar nos clubes de maior prestígio na cidade.

Você é visto como um artista que está sempre buscando ajudar o desenvolvimento da cena em que está inserido, certo? Ser um ‘’agitador cultural’’ daquilo que acredita hoje pode ser visto como um diferencial tão importante quanto produzir e tocar?

Sim, gosto colaborar com o desenvolvimento do ambiente musical. Porém, eu prefiro acreditar que tocar e produzir é o mais importante. Gosto muito de me envolver na concepção de uma experiência de dança, em propor uma imersão e oportunidades para outros artistas se expressarem com liberdade. Por exemplo, na ODD, os artistas tem uma situação que é muito mais memorável e atraente do que a maioria dos clubes. Isso lhes permite tocar música mais interessante e fazer uma maior impressão em seu público.

Como você tem visto a nova geração de produtores em São Paulo, nomes como L_cio e Zopelar são talentos inquestionáveis. Fale sobre suas colorações com eles e a label com o Pedro.

 Os meus queridos e talentosos amigos, Zopelar e L_cio, já não são tão novos assim … rsrs. A amizade com o Pedro nasceu em meados de 2006, de nossas vontades de trabalharmos juntos, pois ambos temos essa facilidade de trabalhar com outros artistas. E, como temos características complementares, conseguimos superar alguns limites, e construir uma forma muito particular. E foi assim que nasceu o In Their Feelings, da nossa enorme vontade de apresentar a música que melhor nos representa, em diversos formatos, em diversas vertentes, mas com a nossa cara. Onde nossos padrões são muito elevados, tanto para a seleção dos artistas, como a arte da capa, mixagem, masterização e distribuição.

O selo está prestes a completar um ano de existência, e colhemos um grande aprendizado, uma lista de excelentes artistas nos apoiando (Axel Boman, Jennifer Cardini, Dixon, The Drifter, Mano Le Tough, Seth Troxler, Âme, Cleveland, entre outros), destaque em lojas e na mídia internacional.

Nos últimos 3 anos temos observado o que pode-se chamar de ‘’flexibilização’’ da noite paulista, novas opções culturais e eventos como a ODD, que você ajudou a criar. Qual a sua visão sobre essa nova fase da cidade?

Prefiro denominar este momento  como a democratização da noite, onde a queda de uma monopólio era iminente. Veja que os cidadãos agora estão explorando a cidade da melhor forma e acredito que isto é irreversível. É gratificante ver um congloremado de gente comum criar uma noite enfervescente para cidade, oferecendo uma maior gama de arte, de opções de diversão à população, uma maior quantidade de oportunidades para os artistas se apresentarem. Enfim. O cidadão tem o direito de ter acesso a maior oferta de cultura bem como escolher onde se divertir na cidade onde mora.

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Em suas apresentações internacionais você teve a oportunidade de se apresentar em alguns dos clubes mais importantes do mundo, teria algum que gostaria de relatar a experiência?

Sim, um das mais marcantes foi minha apresentação em março deste ano no Robert Johnson. Foi uma noite da Innervisions, comigo, Dixon e Kristian (Âme). Fiz o warm up para Dixon que se revezou com o Kris por algumas horas, e depois ao final tocamos os 3 juntos, por longas horas. Foi muito especial pois recebi excelentes feedbacks do público, conheci muita gente nova e tive meus melhores amigos comigo na viagem. Foi inesquecível.

Lançar uma música pela Innervisions, uma das gravadoras mais respeitadas do momento, foi sua grande conquista neste ano?

Foi uma das maiores conquistas da vida, com certeza, mas é apenas o começo. Desde o primeiro EP na gravadora eu admirava muito a proposta musical da Innervisions, a estética do selo, a conduta dos artistas. Quando conheci o Dixon no Sónar em 2007, eu imaginava como seria se um dia eu lançasse música no selo … então dá para imaginar o quanto esse lançamento representa para mim.

Conte-nos como foi o processo criativo desta faixa e a parceria com Cameo Culture.

O Dave (Cameo Culture) se tornou um grande amigo desde sua primeira vinda ao Brasil. Sempre falávamos em dedicar tempo a uma colaboração, e assim começamos trocando remixes. Mas foi numa  segunda visita dele ao Brasil, ano passado, que começamos uma jam session (Davis, Cameo e Zopelar) que nasceu a Blind.  A primeira versão surgiu sem vocal, com uma levada bastante hipnótica, mas  foi quando ele voltou para Nova Iorque que me mandou uma nova versão com o vocal. Eu fiquei muito bem impressionado, mas cheguei a testar um vocal feminino naquela ocasião, mas optei por manter a voz original. Foi então que comecei a testar a faixa na pista, mas antigamente eu tinha muita restrição de tocar minhas próprias músicas, foi quando o Marcus Worgull me mandou email dizendo que tinha amado a faixa e que se poderia remixá-la bem como me encorajando a mandar a faixa para o Dixon. Naquela época eu já mandava tudo o que fazia para ele. Mas com a Blind, eu tive esse bloqueio momentâneo, pensava que a música não se encaixaria na Innervisions. Daí veio a surpresa, ele não só escreveu pedindo para assinar a música, como logo em seguida me disse para segurar a ansiedade pois a música estaria no Essential Mix em algumas semanas. Foi muito legal ver a faixa ser a mais procurada durante esses 6 meses mundo afora e agora vê-la no topo dos charts das lojas e recebendo suporte de artistas em todos os cantos.

A sua relação com Dixon e o pessoal da Inner já tem algum tempo, como foi que isso começou? Emendando, conte-nos também como tem sido a parceria da festa Lost In A Moment no Brasil, rolou inclusive uma edição em plena final de copa do mundo no Brasil, como foi?

Sim, como falei, conheci o Steffen em 2007, no Sónar, mas nossa relação foi se tornando mais próxima durante suas apresentações no Brasil onde tocamos juntos na maioria delas. Houve uma identificação e admiração recíproca pela música e pelas condutas. Foi assim que nos unimos para realizar as festas da Innervisions e Lost in a Moment no Brasil durante a Copa do Mundo.

Apesar do tropeço do Brasil perante a Alemanha, o famoso 7 x1, tive momentos muito especiais com meus amigos. Eu não sabia o amor que eles têm pelo futebol, expressado da forma alemã, sabe? Uma mistura de orgulho e alegria por terem vencido mas a dureza na hora de comemorar, rsrsrs. Eu brincava com eles, falando, “porra, vocês acabaram de ganhar a copa do mundo e não sabem comemorar”, “olhem, os brasileiros estão comemorando mais do que vocês”.

As festas foram um sucesso, sold out, muita diversão, ou seja, comemoraram do melhor jeito alemão, com muita festa e música boa. 

Teve uma foto de vocês no Maracanã na final onde a Alemanha foi campeã, certamente foi um dia especial…

Como mencionei acima, foi muito especial ver a Alemanha campeã e ver os amigos chorando de alegria, se abraçando, vibrando pela conquista. Foi emocionante para mim como para eles.

Quais são os planos para 2017, algum lançamento ou tour em construção?

Bem, tenho muitos planos mas prefiro guardá-los para depois. O que posso falar agora é que acabaram de anunciar um EP meu e do Zopelar na Connaisseur Recordings para 2017. E as tours seguem normais, a todo vapor.

Sempre tem aquelas músicas que os artistas acabam não conseguindo tirar do set por um bom tempo, por sempre funcionar, qual ou quais a sua no momento? 

Tenho várias, mas a faixa do momento é a House-Hole do duo My girlfriend is programming the roland tr909 making a house beat.

Você pode saber mais sobre o Davis no SoundCloud e no Resident Advisor

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Entrevista

Adam K: “Se você trabalhar duro o suficiente e tiver um pouco de sorte, seus sonhos se tornarão realidade”

Produtor veterano virou destaque no cenário brasileiro depois de parceria com o Vintage Culture

Phouse Staff

Publicado há

Adam K
Adam K com o Vintage Culture. Foto: Divulgação
* Por Toni Gobatto
** Edição e revisão: Flávio Lerner

Adam K é uma das pessoas mais comentadas na música eletrônica brasileira atual — tudo isso por causa da sua sólida parceria com o Vintage Culture. “Pour Over” foi lançada recentemente através de uma parceria entre os dois e, futuramente, outras tracks ganharão vida pela mão da dupla.

Antes disso, entretanto, o produtor canadense de 38 anos traz uma bagagem de muitos sucessos, como o hit “Twilight”, com Soha, que atingiu o primeiro lugar no iTunes Dance do Canadá e dos Estados Unidos em 2008 — resultado alcançado também com “Raining”, lançada em 2010. Em 2012, mostrou sua versatilidade ao bater o primeiro lugar do chart de trance do Beatport com “Tomahawk”, que saiu em parceria com BT, via Armada Music.

   “Twilight” foi lançada em 2007, via Rebirth

Adam K se tornou uma referência em produção musical; sua visão, paixão pelo que faz e técnica aguçada o mantém como um profissional de alta visibilidade no mercado da música. Ele também é fundador da Hotbox Digital, label responsável desde 2007 por mostrar novos talentos da house music no Canadá.

Agora, em contato com a Phouse, o artista fala conta mais sobre sua trajetória, relação com o Vintage e o Brasil, artistas em que está de olho e fecha tudo com um conselho valioso para quem sonha em ser um produtor de sucesso. 

Já “Tomahawk” foi ao mundo em 2011, pela Armada

Há quanto tempo você está no mercado musical, e como começou a produzir?

Eu componho desde os 15 anos de idade, mas só passei a trabalhar com música aos 21. Comecei produzindo depois de ir a uma rave de drum’n’bass em 1995. Depois da festa, eu voltei para casa e perguntei ao meu amigo Nynex, pelo IRC (plataforma onde o deadmau5 cunhou o seu nome artístico), como ele produzia música. Ele me passou dois programas: Rebirth e FastTracker 2. Eu comecei e nunca mais parei.

Quantas vezes você já esteve no Brasil, e o que você mais gosta no país?

Eu já vim ao Brasil umas 15 vezes, e toda vez que venho, fica melhor. As pessoas são receptivas e a comida é uma perfeição. Eu também tenho lembranças da minha festa favorita, produzida pelos meus amigos — a Kaballah em Curitiba. Eles mantiveram a festa aberta por duas horas a mais para eu poder continuar tocando. Foi um dos eventos mais incríveis que já fui no país.

Pela sua própria Hotbox Digital, “Into The Light” é um dos singles mais recentes do Adam K

“Pour Over” é um enorme sucesso já, com mais de cinco milhões de plays no Spotify e 12 milhões de visualizações no YouTube. Como você conheceu o Vintage Culture?

O Lukas e eu nos conhecemos pelo Instagram e começamos a trocar ideia. Descobrimos uma conexão de gostos e musicalidade, e estou curtindo muito escrever canções com ele desde então.

Sei que você tem um próximo lançamento com o Vintage Culture, chamado “Save Me”. Vocês estão trabalhando em mais músicas?

Nós sempre estamos trabalhando juntos em músicas, mas nem tudo o que produzimos será lançado. Alguns sons são só para as pistas, e outros são ideias que acabamos descartando. “Save Me” é uma parceria entre eu, Lukas e Floki, uma cantora e compositora canadense. O Lukas também
está trabalhando em outra canção com ela, chamada “Taking Over”.

“Raining” saiu pela Ultra Records, em 2010

Que produtores você tem mais curtido atualmente?

Funkin MattBruno BeFISHERChris Lake… Diversas músicas boas estão vindo desses artistas.

Muitos produtores jovens que estão iniciando a carreira agora estão lendo esta entrevista. Qual conselho você daria a eles?

Se você quer fazer música, você fará música. Se você parar, é porque você não quer o suficiente. Siga seus sonhos, e se você trabalhar duro o suficiente e tiver um pouco de sorte, eles se tornarão realidade.

* Toni Gobatto é colaborador da Phouse.

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Ashibah: “O Brasil é o meu sonho e eu sempre conto os minutos até voltar”

Artista fala sobre relação com o Brasil, collab com o Mumbaata e abre detalhes do novo álbum

Nazen Carneiro

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Ashibah
Foto: Divulgação
* Edição e revisão: Flávio Lerner

A DJ, produtora e cantora egícpcio-dinamarquesa Ashibah está retornando ao Brasil para nova tour no início de outubro. Com o sucesso de sua última passagem pelo Brasil, em julho, e o lançamento do EP She Knows (ao lado do duo carioca Mumbaata) pela conceituada gravadora alemã Get Physical, a artista se aproximou ainda mais do público do país e tomou as pistas — e as rádios — com suas músicas fortes, profundas e muito dançantes.

Em meio ao intenso trabalho de estúdio do seu próximo álbum, Ashibah conversou com a Phouse sobre esse momento especial da carreira, sua relação com o Brasil, como rolou a collab com o Mumbaata, deu dicas de músicas e abriu detalhes sobre o seu próximo álbum. Confira na entrevista abaixo!


Suas composições e seu vocal são tão cheios de paixão pela música. E você tem essa versatilidade, que vai de Michael Jackson e Tracy Chapman a instrumentos musicais tradicionais egípcios. Por gentileza, conta pra gente o que você tem ouvido, e o que mais te influencia hoje?

Alguns dos meus favoritos recentes incluem “Kiss of Life”, da Sade, o remix de Dennis Ferrer para “The Cure and the Cause”, do Fish Go Deep, “Girl”, de The Internet, “For My Lover”, da Tracy Chapman, e “Can You Feel It”, do Mr. Fingers.

No meio disso tudo, afro house também tem se destacado. Nunca é o suficiente (risos) [no original, “I Just Can’t Get Enough”, um trocadilho com a música do Michael Jackson].

Recentemente você lançou o EP She Knows, junto com o duo brasileiro Mumbaata, pela gravadora alemã Get Physical Music, que é um dos selos mais renomados e respeitados em todo o mundo. Esse EP é muito forte e feito para a pista de dança, além de ter uma história completa para contar…

O lançamento desse EP pela Get Physical foi um dos destaques deste ano. Eu sempre tive o desejo de lançar por esse selo. Conheci o Mumbaata em uma festa no Brasil e combinamos que deveríamos fazer uma sessão de estúdio, e então eu fui ao Rio e nos encontramos. A vibe e a energia entre nós foi muito inspiradora, e fizemos tudo que eu queria. Quando o pessoal da Get Physical disse ter gostado, pensamos em fazer mais um som e criar um EP, e eles adoraram. Foi uma experiência incrível.

“Uma das coisas que eu amo no Brasil é a abertura das pessoas para ouvir algo novo. É o lugar perfeito para testar novas pistas, novas ideias e eu adoro isso. Os brasileiros são pessoas de coração, e eu acho que é por isso que eu os amo tanto: porque eu sou do mesmo jeito.”

Você tem uma relação muito especial com o público brasileiro, e sua última tour por aqui foi um sucesso completo. Comente alguns detalhes que você considerou especiais nessa tour.

Minha última passagem pelo Brasil foi algo para se registrar. Vocês sempre encontram novas maneiras de me surpreender. Uma das coisas que eu amo no Brasil é a abertura das pessoas para ouvir algo novo. É o lugar perfeito para testar novas pistas, novas ideias e eu adoro isso. Os brasileiros são pessoas de coração, e eu acho que é por isso que eu os amo tanto: porque eu sou do mesmo jeito.

O amor que recebo toda vez que eu toco me dá muito fôlego, sabe? As pessoas dançam, elas cantam e elas estão lá. No Park.Art, em Curitiba, por exemplo, eu toquei para quase 15 mil pessoas, e mesmo assim pude sentir a energia de cada um — cada pessoa com uma energia diferente, bonita e inesquecível. Todos os locais são especiais e marcantes, como as noites intermináveis da Privilège, em Búzios, onde a festa nunca para e o amor é infinito é alucinante. Como artista, isso é um sonho. O Brasil é o meu sonho e eu sempre conto os minutos até voltar.

Você tem tomado conta dos programas de rádio por todo o país. O EP com o Mumbaata chegou a tocar em oito Estados e teve, inclusive, estreia nacional no programa Dance Paradise, da Jovem Pan FM. Toda essa exposição foi estranha de alguma forma, ou você considera natural?

O maior desejo de todo artista é que isso aconteça. Criar algo que realmente vem do coração e sentir essa resposta imediata é algo que me mantém querendo criar mais e mais. Está fluindo de forma natural e sou muito grata por isso.

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Você ainda se sente nervosa antes de um show?

Sempre. Você tem que estar nervoso, porque você ama isso. E se você parar de ficar nervoso, talvez precise de novos desafios. São as borboletas [no estômago] que mantêm você em pé.

Ok! Agora essa pergunta é muito importante: qual a melhor bebida brasileira? (Risos)

Ah, não vale! Essa é difícil, foram muitas (risos), mas com certeza a caipirinha de maracujá na praia de Búzios, no lindo bar à beira mar do Brothers Groove, marcou bastante.

Foto: Divulgação

Você acha que o público brasileiro gosta mais quando você canta mais sexy ou aquele vocal forte e poderoso?

Eu acho que eles amam ambos. O público gosta dos contrastes.

Você está prestes a terminar seu novo álbum, certo? Estamos todos curiosos, e eu preciso que você conte mais sobre ele aqui na Phouse!

Meu álbum está saindo do forno já há algum tempo, e estou muito animada, claro, mas muito nervosa ao mesmo tempo. O que vocês podem esperar desse novo trabalho sou eu, em diferentes perspectivas. Adianto aqui que o álbum será dividido em três partes, com os três EPs. Será uma verdadeira jornada. Não posso revelar mais agora, mas tudo o que posso dizer é para esperar profundidade, vocais, emoções, força total e crocância (risos).

+ Mumbaata e outros artistas brasileiros revelam os bastidores da “Cocada”

Incluirá colaborações? Algum artista brasileiro?

Sim, com certeza. Posso adiantar que Mumbaata e Jean Bacarreza estarão nesse álbum. Também alguns artistas egípcios.

Você tem uma turnê brasileira confirmada para outubro. O que vem por aí?

Primeiro de tudo, mal posso esperar para voltar! Estou com um novo show e novos elementos ao vivo. Iremos nos apresentar em locais inéditos onde pretendo mostrar materiais em primeira mão para o público brasileiro curtir e se divertir muito comigo!

* Ashibah está de volta ao Brasil nesta semana, onde apresentará algumas de suas novas faixas. Veja as datas abaixo!

Ashibah
Arte: Divulgação

* Nazen Carneiro é colaborador da Phouse.

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Entrevista

Sócia do Caos, Eli Iwasa fala sobre curadoria, cena e sonho realizado

Celebrando a diversidade, casa recebe Modeselektor, Zegon e Mau Mau neste final de semana

Rodrigo Airaf

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Caos Club
Eli Iwasa. Foto: Divulgação
* Edição e revisão: Flávio Lerner

É em um galpão industrial completamente reformado em Campinas que acontece uma vastidão de apresentações antes pouquíssimo prováveis de rolar na região. Desde sua inauguração, em dezembro, abrindo no máximo duas vezes por mês e rolando por longas horas, o Caos reverberou uma jornada sonora das mais recompensadoras, trazendo desde nomes majestosos como Laurent GarnierCarl CraigChris LiebingSpeedy J Marco Carola, até nomes de grande destaque na atualidade, como Nina KravizReconditeANNA e Nastia. Por falar em artistas imponentes, foi lá a apresentação única da alemã Ellen Allien no Brasil — fato que vai se repetir com o gigante Dixon, em outubro.

Tendo como filosofia a diversidade tanto de público quanto de som — você pode encontrar numa mesma noite tanto a disco music de Eric Duncan quanto o techno pulsante de Tijana T, por exemplo —, há projetos como a Wolf, voltada ao público LGBTQ+, e a Groove Urbano, que fomenta o hip hop, ambos com histórico de eventos no Club 88 (do mesmo grupo que criou o Caos). Por esses eventos passam expoentes fora do circuito usual, entre eles Linn da QuebradaEmicida e Gabriel o Pensador.

Voltando aos beats eletrônicos, até mesmo Fisher, febre mundial da cena tech house mais comercial, apresentou-se no club na última semana, em uma noite explosiva em parceria com a festa paulistana Michael Deep.

Caos
Caos, em sua inauguração com Carl Craig, em dezembro de 2017. (Foto: Bill Ranier/Divulgação)

A próxima loucura que o Caos vai aprontar está logo aí, na madrugada de sexta para sábado: um after com ModeselektorZegon e Mau Mau, a partir das 04h. Pode ser maluco para alguns unir o poderoso e eclético duo alemão a um difusor da bass music e um pioneiro do techno brasileiro na mesma noite (tudo isso logo depois de uma festa de hip hop), mas não é maluquice para o Caos — e certamente não para sua sócia-fundadora Eli Iwasa.

É com ela que conversamos agora, para que nos ajude a entender o porquê de o Caos ter se tornado um projeto tão único e tão importante para o interior de SP em menos de um ano, além de explorar um pouco a proposta da casa através de sua visão e experiência de duas décadas no cenário eletrônico.

Caos
Eli Iwasa na cabine do Caos, que possui um amplo espaço ao redor do DJ. (Foto: Reprodução/Facebook)

Eli, o lineup do after que vai rolar no próximo sábado é curioso, e parece ser bem especial: Zegon, que é conhecido na cena bass; Modeselektor, duo gringo muito querido por quebrar barreiras de estilos musicais; e por fim, Mau Mau, deuso do techno que vem com um set de clássicos. Como e por que o lineup foi montado assim?

O Modeselektor é conhecido por não se prender a rótulos, por sua imprevisibilidade, então por que também não fazer algo fora do óbvio? Tanto o Zegon quanto o Mau Mau são artistas com uma baita bagagem musical, e pedi para cada um deles que fizesse um set especial para que pudessem mostrar um pouco a mais de suas próprias histórias.

O Zegon, além de ter sido DJ do Planet Hemp, faz parte do N.A.S.A. e do Tropkillaz, então pode ir do hip hop ao eletrônico, e tudo mais no meio, com a maior facilidade. Quando fechei o Modeselektor, a primeira pessoa que pensei em chamar para fechar a festa foi o Mau, fazendo um set de clássicos. Ele, que ajudou a construir tudo isso que temos agora, que tem um papel fundamental no desenvolvimento da música eletrônica no Brasil, e que também é figura central da minha própria história na cena, não poderia ficar de fora.

Em sua comunicação, o Caos deixa claros seus princípios de inclusão, posicionando-se contra preconceitos e barreiras sociais, convergindo diversos públicos. Como isso se traduz nos lineups da casa?

Quando começamos a pensar no que gostaríamos no Caos, resgatamos a ideia de como eram os clubs importantes em nossa formação, como o Lov.e e o Kraft. Uma das coisas mais significativas daquela época era justamente a mistura de públicos: o “playboy” e o “mano”, as “bees”, as trans, a turma do som e os que caíam de paraquedas, encarando seus próprios preconceitos e aprendendo na democracia que uma pista de dança deveria ser.

Aqui nem todo lugar é assim. O que parece absurdo pra muita gente é uma realidade na região. E queríamos reunir os amigos e clientes de universos backgrounds diferentes num só lugar. É um processo de aprendizado constante e um desafio também, porque Campinas ainda é uma cidade bem conservadora em muitos sentidos. 

Caos
“Sem sexismo, sem racismo, sem capacitismo, sem ageísmo, sem homofobia, sem gordofobia, sem transfobia, sem ódio”, diz banner instalado perto da porta. (Foto: Reprodução/Facebook)

Durante a fase embrionária do projeto, já havia a expectativa de reconhecimento em tão pouco tempo?

Nunca! Nem nos meus sonhos mais loucos (risos)!

O que tem por trás do trabalho de curadoria que o público em geral não vê?

Um grande desafio é alinhar a visão de uma casa noturna com o momento do mercado e com o que o seu público espera, e não deixar seu propósito se perder diante de todas as mudanças que a cena e seu próprio club sofrem ao longo dos anos. Lidamos com muita coisa no Brasil: alta do dólar, uma carga tributária gigantesca, a falta de apoio dos órgãos oficiais, e a toda hora precisamos nos lembrar por que escolhemos ter um club, pois nem sempre é fácil.

Tem muita festa acontecendo, a concorrência é grande e isso faz com que muitas agências de talentos acabem pedindo ofertas inviáveis ao produtor brasileiro. Ao mesmo tempo, estamos sofrendo com esse momento econômico e político no país, o que refletiu no ticket médio e na frequência com que as pessoas saem — muita gente gasta com cautela e escolhe uma festa no mês em vez de sair todas as semanas.

Do nosso lado, existe um cuidado ainda maior na hora de investir em um artista internacional, o esforço de não bater datas com outros eventos, e tudo isso reflete na curadoria: ora você se arrisca mais artisticamente, ora você toma decisões de resultados mais certeiros. 

A agência Muto é responsável pela comunicação audiovisual do Caos, trazendo vídeos conceituais a cada edição.

Então pra escolher os artistas, nem sempre a paixão fala mais alto?

Nossas decisões são bem emocionais. Pensamos muito na experiência e nos momentos que podemos proporcionar através dos clubs. Não é exatamente a maneira certa de gerir um negócio (risos), mas é a maneira que é certa para nós. Sempre fomos assim, muito intuitivos, com a paixão falando alto.

A experiência também permite que tomemos decisões certas mesmo sem fazer muitas contas, porque com o tempo você aprende o que funciona e o que não, quais dias são melhores para seu club… Muito importante falar também que manter-se atualizado com o que acontece na cena é fundamental; o público se renova constante e rapidamente, assim como estilos musicais e artistas.

Imagino que várias datas do Caos foram lindas e que seja difícil fazer uma escolha, mas em qual delas você realmente sentiu uma sinergia perfeita entre o lineup, a resposta do público, a conexão entre os artistas, e pensou: “o resultado está literalmente do jeito que imaginei”?

A inauguração do Caos fez muita gente chorar entre toda a equipe e público, porque sentimos que algo muito significativo estava acontecendo ali. Já sobre a noite com Laurent Garnier, pessoalmente, queria há anos booká-lo para algum dos meus clubs em Campinas, mas nunca sentia que era a hora. Quando abrimos, sabia que estávamos prontos para recebê-lo aqui, da maneira que ele merece.

Eu nunca vou esquecer o momento em que o Laurent entrou na cabine e o Toca, um dos meus sócios, veio até mim, super emocionado, porque só a gente sabe o tanto de dedicação que foi preciso para chegarmos ali e abrirmos a casa. A ficha caiu que tudo que vivemos e aprendemos nos trouxeram até aquele momento, com todos nós colocando nosso potencial em prática para fazer o Caos ser uma realidade.

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O Caos é realmente para todos… Até mesmo pra Paçoca, filha da Eli Iwasa. (Foto: Reprodução/Facebook)

Como você enxerga a noite de Campinas em relação ao cenário nacional atualmente?

Vejo que o Caos e o Club 88, junto com o Laroc, que são nossos amigos e fazem um trabalho incrível, estão realmente fomentando a cena da região e a transformando em um destino para quem gosta de música eletrônica. Sempre existiu o fluxo de público de Campinas para São Paulo, e hoje, finalmente, existe também o fluxo de São Paulo, cidades ao redor, Sul de Minas para esses clubs.

Vale lembrar que esse trabalho não é de hoje. O interior de SP sempre contou com clubs muitos importantes, como Kraft e Anzu, além de festivais como Kaballah, Tribe e XXXPERIENCE, que realizam seus eventos por aqui.

Pra fechar, o que é um bom curador pra você?

Um bom curador é aquele capaz de traduzir a visão de um club ou evento através da música, dos artistas e das experiências que compartilha e proporciona.

Rodrigo Airaf é colaborador eventual da Phouse.

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