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Entrevista

DJ, produtor e professor, Andre Salata vive um dos principais anos da carreira

Alan Medeiros

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Em papo com Alan Medeiros, o respeitado Andre Salata fala sobre a entrada para a D.AGENCY, lançamentos por selos gringos importantes e o que tira de aprendizado como professor de produção musical.

A palavra revelação, segundo o dicionário, reflete o ato ou efeito de revelar. No mundo dos negócios e esportes em geral, ela é utilizada para tratar de um profissional cujo crescimento captou atenção da crítica e do público em determinado período. Na música eletrônica brasileira, Andre Salata pode ser considerado uma das revelações de 2017, embora tal consideração soe bastante inadequada ao analisarmos sua longa história na música eletrônica e suas incontáveis contribuições técnicas e acadêmicas relacionadas à produção nacional — área que tem Salata como referência de qualidade, também por seu trabalho como professor de mixagem e masterização na Universidade Anhembi Morumbi.

O sucesso e a visibilidade conquistados em 2017 são justificáveis por conta de seus últimos lançamentos. Logo no começo do ano ele emplacou um EP de originais na gigante Get Physical, com remix do aclamado dubspeeka. Posteriormente, voltou a lançar pelo selo alemão, remixando o também alemão Agent!. Além disso, assinou boas colaborações com Noir Music e Not For Us, e passou a integrar o casting de artistas da D.AGENCY.

Maduro, consciente de seu lugar no mercado e sedento por novas pistas, Andre Salata apresenta-se como um profissional capaz de explorar ao máximo seus conhecimentos em prol da evolução de sua personalidade artística. Assim, aproveitamos o momento importante de sua carreira para um bate-papo exclusivo.

Andre, a recente entrada para o casting da D.AGENCY marca um importante momento de transformação na sua carreira. O que você espera dessa parceria?

Sou frequentador do D-EDGE desde sua abertura em São Paulo, em 2003, e sempre gostei dos projetos do club. A agência é mais uma parte que eu aprecio. Trabalhar com eles tem tudo a ver com o som que produzo e discoteco, então acredito que esse encontro renderá bastantes frutos.

Você possui uma respeitada carreira como profissional de áudio aqui no Brasil. Em algum momento, já chegou a pensar em focar todo seu tempo nisso e deixar a discotecagem de lado?

Não pensei em fazer isso em nenhum momento, mas confesso que tem semanas em que isso automaticamente acontece, pois a agenda do meu estúdio anda bem concorrida — então muitas vezes sobra pouco tempo para pesquisar, gravar sets e mesmo produzir meu som. O que tenho feito é alocar horário na agenda pra mim mesmo. Agora, largar a discotecagem é pouco provável, mesmo porque os horários em que o estúdio funciona não colidem com os horários em que eu geralmente me apresento.

“Como professor, você sempre está aprendendo. Aprendo muito como interpretar cada pessoa, cada dúvida ou cada dificuldade. Isso mostra que ninguém é igual a ninguém.”

O que mais te encanta na relação aluno/professor? O que você tira de melhor do aspecto humano dessas experiências?

O que me encanta é que você percebe que sempre está aprendendo. Não digo isso tecnicamente, apesar de muitas vezes eu pesquisar pra responder algumas questões de alunos, mas aprendo muito como interpretar cada pessoa, cada dúvida ou cada dificuldade. Isso é um aspecto bastante humano que te faz parar pra pensar, e sempre mostra que ninguém é igual a ninguém e que devemos nos atentar sempre a isso em qualquer processo.

Como aconteceu seu primeiro contato com a Get Physical? Quão importante tem sido o apoio e suporte do selo para o impressionante crescimento que sua carreira tem tido em 2017?

O primeiro contato que tive foi no RMC, edição carioca em 2016, quando estava participando de um painel em que você mostrava suas demos. Apresentei “Magnetism”, e um dos convidados era o [dono do selo] Roland Leesker, que na hora veio falar comigo para assinar a faixa. Dali em diante fui conhecendo as outras pessoas que trabalham por lá — tudo via e-mail. Naquele ano, também no RMC, o [A&R] Matt de Plesis veio, e o conheci pessoalmente, uma pessoa incrível. Em junho, na tour europeia, conheci finalmente todos do escritório, e a galera tem uma vibe incrível, super família. Eles têm me ajudado bastante, principalmente em sugestões de como direcionar meu som e minha carreira, e parece que tem dado certo!

Você sente que as pistas europeias compreendem melhor seu estilo de som, ou nesse ponto nosso público já está equiparado com o europeu?

Bom, eu tive apenas quatro gigs por lá, então talvez seja pouco para poder comparar com pistas do Brasil. A princípio não senti muita diferença na questão de compreenderem o som. O que me chamou a atenção foi tocar no Watergate e no Sisyphos, ambos em Berlim, onde não é permitido utilizar o celular. Isso parece que conecta muito mais o público com o som que você está tocando. É algo que podíamos ver acontecendo em alguns clubs e festas no Brasil, há mais ou menos uma década.

Recentemente você lançou bons remixes: um para o alemão Agent!, pela Get Physical, e outro para o Leo Janeiro, via Not For Us. Como é pra você trabalhar na posição de remixer? Esse formato de produção te limita ou expande suas ideias?

Eu gosto muito de remixar, principalmente quando os áudios enviados no pacote são bacanas, porque aí consigo dar uma visão própria para os elementos e a track em si. De maneira alguma sinto que limita minhas ideias, mesmo porque acredito que quando te pedem um remix, apreciam teu estilo de produção — e nada mais legal do que fazer sua leitura de uma faixa, não é? Para mim, o remix sempre deve remeter à faixa original de alguma forma.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. Qual é o seu grande objetivo com a música?

Meu grande objetivo é continuar produzindo um som que mostre minhas emoções e, ao mesmo tempo, emocione as pessoas que estejam ouvindo, seja lá de qual forma isso ocorrer!

* Alan Medeiros é colaborador eventual da Phouse.

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Entrevista

Aninha fala sobre a carreira e anuncia nova residência

Jonas Fachi

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Aninha
Expoente da cena nacional, a DJ veterana, especialista em warmups e residente do Warung, revela o próximo clube em que promete fazer história

Uma das artistas mais queridas e respeitadas do cenário nacional há quase 20 anos, Aninha é reconhecida por seus warmups compostos de uma verdadeira aula de bom gosto e técnica. Com agenda sempre repleta de shows de norte a sul do país, além de turnês internacionais, uma das residentes mais antigas do Warung Beach Club soma apresentações históricas ao lado de gigantes da cena internacional, que frequentemente rasgam elogios ao seu talento inquestionável, construído por anos de personalidade musical própria.

Em uma era de artistas trocando de estilo constantemente, a DJ com base em Curitiba é uma das maiores referências sul-americanas de consistência sonora sem seguir tendências. Contudo, sua carreira ainda transcende a vida atrás dos decks através da liderança nos bastidores do mercado, ajudando a catapultar novos artistas e realizando seus próprios eventos.

Dona da AIA Records e sócia da Seas — label party que conquistou Balneário Camboriú por ser uma das últimas resistências de vida noturna da Barra Sul —, a DJ em breve lançará sua nova empreitada: a festa “Cr/se” (leia-se “crise”), em parceria com HNQO e Fabø. O projeto promete uma experiência única e revitalizadora para a cena. Além disso, Aninha nos contou em primeira mão que é a mais nova residente do Terraza Music Park, em Floripa.

Nesta entrevista exclusiva, ela nos conta detalhes sobre a carreira, os desafios do mercado e fala sobre sua nova residência.

Em tantos anos de carreira você coleciona uma série de apresentações emblemáticas, sempre relembradas pelos seus fãs. Poderia contar-nos sobre algum momento em especial ao longo de sua trajetória?

É difícil contar apenas um momento nesses 16 anos. Mas diria que tocar no Skol Beats SP (2006), antes do Loco Dice, tocar no Circoloco DC10 Ibiza (2006) antes de Tania Vulcano, abrir para a Magda no Warung (2013) — onde precisei estender meu set devido a problemas técnicos no laptop dela — e tocar antes do Villalobos, também no Warung (2011). Todos esses momentos foram desafiadores, de grande crescimento e claro, muito especiais.

Esta é uma pergunta recorrente em entrevistas com artistas que já possuem anos de estrada, porém gostaria de saber sua opinião também. Quais são as principais diferenças e os desafios de um DJ que está iniciando uma carreira hoje em relação ao artista de dez anos atrás?

A tecnologia é a principal delas. No meu caso, tocava com vinyl, mas não havia internet rápida para ouvir as músicas. Precisava ligar para as lojas ou passar cerca de oito horas pesquisando com internet discada — depois da meia noite, pra não atrapalhar minha família. Hoje está tudo tão fácil e mastigado, com todos os recursos à mão da galera, os melhores equipamentos, riders cumpridos [risos]. Naquela época não havia toca-discos na maioria das cidades, então precisava transportar sozinha a case de discos e as MKs. Não havia também tanto cuidado com logística, marketing e posicionamento, no entanto, não dávamos tanta importância, já que o principal objetivo era levar sua música para o número maior de cidades e pessoas que pudesse. Hoje o desafio é se manter interessante para esta geração que não se preocupa somente com a música, mas com o conjunto do artista.

Você sempre se destacou na importante e imprescindível função de preparar a pista para outros artistas. Parece que novos DJs têm dificuldade de assimilar como se deve comandar uma pista nos primeiros horários. Como você tem observado gente nova nessa função?

Isso não acontece apenas com os novos artistas, é algo geral. Mas será que eles gostam de ter essa função? Ou usam daquele horário para mostrar seu talento para ser no futuro o artista principal? Ou quem sabe não havia espaço no lineup para encaixá-lo da melhor forma? Vejo que muitos artistas tocam as mesmas músicas que tocariam como headliners com o BPM baixo, mas não podemos julgá-los, já que muitos passaram anos tocando seus estilos da melhor forma. Cabe ao promoter ter a sensibilidade na hora de definir seu evento e ao artista tentar ser sempre flexível para escolher músicas que encaixem para determinado horário. Enfim, “N” motivos. Por outro lado, conheço outros tantos que fazem o warump com maestria, e que se destacam em qualquer horário de uma festa.

No último ano você protagonizou importantes noites em horários avançados. Como você tem conseguido adaptar seu set para atender a um momento da noite que exige mais energia, sem perder sua identidade? Você tem pensando em trabalhar mais vezes nessas fases da noite?

Sempre toquei em horários de mais destaque em outras cidades — aliás, adoro mostrar meu trabalho com mais amplitude. Mas muitas vezes não tive oportunidade no Warung ou em outros clubs, por causa de construção e coerência do lineup. Isso é normal.

Além de artista, você vem realizando uma série de eventos, a exemplo do Seas. Houve o anúncio de outra label party que está a caminho, denominada “Cr/se”. Conte-nos os detalhes sobre esses projetos, e no que diferem um do outro.

O Seas é nosso projeto de Balnaério Camboriú voltado à house com esse ar de praia — impossível não ser assim ali na região —, onde tenho como sócios o Nezello e o [seu irmão] Sharles Nezello. Faremos eventos em parceria com outros clubs e nossos próprios com mais independência. O Seas está tomando uma proporção muito maior do que esperávamos a curto prazo e estamos super felizes com o resultado!

Sobre o Cr/se, é nosso novo projeto em Curitiba, mais urbano e independente, de house a techno, com parceria dos artistas locais e outros núcleos independentes do Brasil. Estamos na fase final da estruturação dele e queremos fazer algo simples, em que todos se sintam livres, com valores justos, mas com muita qualidade.

Tenho acompanhado seus mini-vídeos em estúdio com o Fabø. Você parece estar destinando maior tempo para a produção musical. Como conciliar tudo? Quando serão os próximos lançamentos?

Sim. Consegui resgatar toda essa parte criativa que estava congelada nos últimos cinco anos, pois estava totalmente voltada à [antiga agência] 24bit, e posteriormente a Alliance [nova agência]. Já terminamos 12 tracks juntos, temos três lançamentos marcados para fevereiro e março (via Kingstreet Sounds, AIA-D e Eisenwaren), mas estamos aguardando a resposta dos outros selos. Sozinha tenho também um lançamento no meu selo AIA com um remix do L_cio em abril, um remix para a Any Mello e outro lançamento na Austro Music.

O mercado da música eletrônica é cíclico e muito dinâmico. Você está com uma nova residência no Terraza, club que hoje em dia pode ser considerado um dos mais underground do Brasil e que ajudou a moldar a cena em Florianópolis. Conte-nos um pouco sobre essa nova fase.

Sempre tive essa relação de amor com o Terraza. Mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer. A oportunidade chegou na melhor hora e estou muito feliz. O club está em sua fase mais madura e com muitos planos para um novo posicionamento no mercado. Estamos em momentos bem parecidos e ajudarei o [DJ residente] Ricardo Lin e todo o grupo no que for preciso para que esse crescimento aconteça.

Como artista, é preciso sempre estar se reinventado e se unindo a pessoas que tenham o mesmo ideal. Quando você iniciou, imaginava que estaria onde está hoje? Qual a chave para manter-se relevante em um mercado cada vez mais competitivo?

Nossa, nunca imaginei. Mesmo porque, era tudo muito novo em Santa Catarina. Eu só me dei conta que estava sério quando não conseguia mais estudar por causa das minhas viagens e tive que largar o emprego também. Sobre manter-se relevante, devemos observar as novas ondas e nos adaptarmos a elas sem perder a nossa essência. Estamos em constante mudança e isso não se limita apenas ao Brasil. Sou artista da velha guarda, mas que ama estar entre os novos grupos, de ouvi-los e aprender com eles. Gosto de olhar para frente e de ser prática. Se não deu certo em algo ou se não me adapto, já invento outra coisa e bola pra frente. O importante é não parar.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Saiba tudo sobre o Caos, novo clube do underground de Campinas

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Entrevista

Saiba tudo sobre o Caos, novo clube do underground de Campinas, que estreia com Carl Craig

Jonas Fachi

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Caos
Em entrevista exclusiva, Eli Iwasa, uma das fundadoras do novo clube campineiro, traz todos os detalhes do empreendimento e revela, em primeira mão, a atração especial de abril
* Com a colaboração de Flávio Lerner
* Foto de capa por Bill Ranier; artes e vídeos promocionais por Muto

Quando em 29 de maio de 2013 a “japa do techno” Eli Iwasa abriu as portas do Club 88 pela primeira vez — junto com seus sócios Rodolfo Salin, Antonio Carlos Diaz, Juka Pinsetta e João Mota —, era a concretização de um sonho que cresceu, transbordou, fomentou a cena local e dentro de uma semana se transforma em uma nova realização: o club Caos, que inaugura em Campinas no dia 22 trazendo pela primeira vez à cidade a lenda do techno de Detroit, Carl Craig.

E Carl é aquele artista para o qual a palavra “lenda” realmente se encaixa, sem cair em banalizações ou esvaziamentos. Tanto que foi escolhido a dedo pela DJ, empresária, sócia-proprietária e curadora Eliana Iwasa para ser a grande atração do primeiro ato desse novo empreendimento no interior de São Paulo.

Eli possui mais de 15 anos de carreira na música eletrônica, e já passou por clubs como o lendário Lov.e em São Paulo, o Kraft em Campinas e diversos eventos e gigs pelo país afora — seja como produtora, curadora ou DJ. À frente do Club 88, que continua funcionando normalmente no belíssimo Jockey Club de Campinas, a artista bookou artistas como Mind Against e Michael Meyer, e agora o momento é de expansão.

O Caos é o segundo estabelecimento do grupo e foi desenhado para abrigar artistas de maior porte — além de Craig, já estão confirmados Marco Carola (12/01) e um grande artista israelense (para abril) que ainda não foi anunciado oficialmente, revelado em primeira mão por Eli nesta entrevista exclusiva que você lê abaixo.

+ Em turnê pela América Latina, Carl Craig volta ao Brasil neste fim de ano

Assim, o Caos promete estimular ainda mais a já movimentada cena do interior paulista, com seu espaço industrial aconchegante e ressignificado especialmente para que as pessoas sintam-se livres na pista, guiadas pela soberania musical.

Confira todos os detalhes que Eli nos revelou sobre o novo reduto underground campineiro:

Como mostrado na apresentação do projeto à imprensa, o Caos chega para cobrir uma demanda local por artistas de maior renome, devido à falta de capacidade no Club 88 atualmente. Quando vocês perceberam que existia esse potencial latente para um projeto maior?

Sempre houve um desejo de receber esses artistas, e o Caos nasceu justamente para possibilitar essa realização. Quando procuramos o local, pensamos no tamanho ideal que nos permitisse viabilizar esses nomes que sonhamos tanto em bookar, e que oferecesse uma experiência diferente do Club 88. Nós voltamos ao nosso começo, onde o que importava era a música sem muitas firulas — com apenas som e luz que proporcionassem algo bem intenso na pista.

Talvez um dos grandes diferenciais desse novo club é sua localização. Parece existir no Brasil uma tendência extraída da Europa por espaços com características industriais. O que o Caos vai apresentar de diferente em relação à estrutura, capacidade e, mais importante, atendimento e soundsystem?

O Caos ocupa um antigo galpão industrial, onde ficava uma siderúrgica — uma das características mais interessantes do espaço é que ele conta com diversas janelas, com luz natural inundando o club assim que amanhece. O ambiente é rústico, cru, mas é fundamental que as pessoas tenham conforto.

A pista conta com dois bares grandes, uma área externa bem ampla, e vamos trabalhar com o sistema cashless, que é super moderno e garante maior tranquilidade para você consumir na festa. Quanto ao soundsystem, vamos deixar para quem for à inauguração, mas posso te adiantar que é de uma marca que usamos em alguns de nossos eventos em Campinas.

“É simbólico ter na inauguração um artista que nos faz revisitar nosso passado ao mesmo tempo em que nos faz olhar para frente — porque Carl Craig é história, mas nunca deixou de ser um visionário.”

Não é qualquer clube que consegue inaugurar com uma das lendas de Detroit, Carl Craig. Qual a expectativa para sua vinda? O Caos tem pretensão de oferecer quantas horas de apresentação para os convidados?

O techno de Detroit sempre foi uma influência muito grande para mim, e Craig um dos meus produtores favoritos. É um artista que se manteve atualizado, atuando um diversas frentes, e  cuja música só reforçou sua relevância ao longo dos anos. Depois da apresentação arrebatadora no DGTL em São Paulo, a expectativa realmente é muito alta. Acho que é muito simbólico ter um artista como ele na noite de inauguração de um club que nos faz revisitar nosso passado ao mesmo tempo em que nos faz olhar para frente — porque Carl é história, mas nunca deixou de ser um visionário.

Além de você como anfitriã, teremos o lendário Mauricio Lopes e o duo campinense Black Sun na estreia do Caos. Em relação a residentes, existem nomes cotados?

O time de residentes de um club se forma conforme sua história é escrita, e os personagens importantes para ela aparecem nesse processo. Os residentes do Club 88 estão entre os melhores DJs de Campinas e região, em minha opinião, e conquistaram seu lugar com a qualidade de seus sets ali. No Caos, tenho certeza que este grupo também vai se formar no seu ritmo e tempo.

Caos

Antes de tudo, vem o Caos

Em janeiro, outro nome importante do circuito global chega a Campinas: Marco Carola. Nessas duas primeiras datas, podemos observar que o techno e o tech house prevalecem. É esse o estilo de música que o Caos vai focar, ou haverá abertura para outros nomes importantes de estilos como deep house ou house progressivo?

Um ponto importante é que não vamos levantar bandeira de estilo algum — o que importa é a qualidade musical. Temos o techno de Detroit de Carl Craig, o tech house cheio de classe de Marco Carola, mas também confirmamos o Guy J no dia 06 de abril, para quem gosta de progressive house, além de três artistas de techno que ainda não posso relevar, mas que estão entre os mais relevantes do estilo.

Além de uma data mensal fixa, o espaço irá receber outros gêneros de música, como o hip hop. Como vai funcionar exatamente esse diálogo entre estilos e públicos tão diferentes?

Já temos uma programação diversificada no Club 88, e nossos projetos de hip hop e pop (o Groove Urbano e a Wolf) também terão suas noites no Caos mensalmente. Cada noite e cada público servem para enriquecer nosso trabalho, nossa experiência, e o que podemos oferecer ao público.

“Não vamos levantar bandeira de estilo algum — o que importa é a qualidade musical.”

Parece haver uma tendência recente de novos clubes, com propostas cada vez mais nichadas, surgindo pelo Brasil. Como você enxerga esse atual momento do mercado dos clubes e da cena eletrônica em geral? Crises econômicas à parte, você diria que este é um dos melhores momentos para abrir esse tipo de negócio no país?

Sempre acreditei que crises trazem muitas oportunidades. O interior de SP abriga muitos dos maiores festivais do Estado, tem um público que consome avidamente música eletrônica, provou que é importante celeiro de talentos, com ótimos produtores e DJs, e conta com o Club 88 e o Laroc, que investem fortemente em sua direção artística de forma constante — assim, percebemos que havia demanda e espaço para um novo club. Num momento em que o mercado está tão retraído, por que não encarar mais um empreendimento se tudo conspirou a favor?

Como é o processo de estudo e incubação da ideia de criar um novo clube até, efetivamente, o seu nascimento? Conta pra gente o trabalho que envolve a criação de um empreendimento desse tipo.

Nosso trabalho é muito intuitivo — sempre falo que não servimos como modelo de negócio algum, de uma maneira mais tradicional assim falando [risos]. Lógico que todos esses anos de experiência servem como base para tomada de decisões, e no caso do Caos, foi apenas seguir um desejo latente em ter um espaço maior, para não termos que criar uma estrutura temporária cada vez que quiséssemos expandir nossas atividades para fora do Club 88. Todos nós temos uma inquietude que nos faz sempre pensar qual o próximo passo, o próximo negócio, evento…

Quando o 88 completou quatro anos, sentimos que era hora de crescer. A primeira coisa é encontrar o local adequado — ou no nosso caso, descobrir um local e pensar que seria incrível ter um club ali, como foi com o prédio do Jockey Club. Eu já tinha em mente que artistas gostaria de trazer, e corremos para a obra ser finalizada a tempo.

“Não há excessos: o Caos é uma grande pista de dança com um baita soundsystem e uma iluminação projetada para criar a atmosfera certa para dançar.”

Quais são as principais referências que nortearam o conceito e os princípios do Caos?

De alguma maneira, o Caos é como o final e início de um ciclo, e sentimos que é um retorno às nossas origens, quando o que realmente importava era apenas a música, mas com o olhar para o futuro. Tudo que era excesso foi retirado: o club é uma grande pista de dança com um baita soundsystem e uma iluminação projetada e pensada para criar a atmosfera certa para dançar. Desde a comunicação até a decoração, tudo foi simplificado, sem rodeios, sem exageros, para que você tenha a experiência e a percepção mais pessoais possíveis.

Espero que as pessoas realmente vivenciem uma imersão musical ao som de ótimos artistas, e possam compartilhar conosco a realização de mais um sonho.

Como o Caos vai se diferenciar de todos os outros clubes conceituais do mercado brasileiro?

Posso falar da estrutura, do espaço, dos bookings, mas o que na verdade sempre nos diferenciou, e espero que continue no Caos, é a relação que criamos com as pessoas que prestigiam nosso trabalho, com nossa equipe e com os artistas. Esse apreço pelo outro, por uma boa festa — é claro — e o amor genuíno ao que fazemos é o que vai tornar o Caos especial.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Entrevista

Albuquerque: “Faço questão de inovar sempre; cada cenário, cada estação do ano requer um som diferente”

Jonas Fachi

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Entrevista Albuquerque
Um dos DJs mais conceituados no Brasil, o curitibano Albuquerque fala com a Phouse sobre ascensão e gestão da carreira, Warung Recordings, Radiola, ADE e a cena de Curitiba

É inegável, hoje ele é um dos DJs mais ativos e requisitados do país. Seu talento sempre foi a força motriz por trás do sucesso que o leva a se apresentar em clubs como Warung, em Itajaí, onde é residente, até o Watergate em Berlim.

Porém, para ser um DJ que gere influência e seja uma marca reconhecida no cenário, existem outros fatores que fazem a diferença para se destacar em um mercado tão competitivo como o nosso, e Ricardo Albuquerque é um especialista nesse quesito.

Neste ano, ele assinou um remix para o respeitado produtor Christoph pela Warung Recordings, gravadora que ajuda a gerir ao lado de Leo Janeiro. Ao mesmo tempo, esteve em tour por países como EUA, Espanha e Portugal, onde se apresentou no consagrado BPM Festival.

Esse equilíbrio de se fazer relevante atrás dos decks e no estúdio, aliado a uma agência de respeito e a pessoas que cuidam de sua imagem com o máximo profissionalismo, o fazem estar sempre sendo cotado para os horários nobres dos eventos em que se apresenta, vivendo o que ele mesmo considera seu melhor momento. Nesta entrevista, fomos buscar saber do artista todos os segredos do seu sucesso, além da evolução da cena eletrônica em sua cidade, Curitiba.

O talento sempre foi e sempre será a força motriz por trás do sucesso de um artista, porém existem outros fatores que fazem a diferença para se destacar em um mercado tão competitivo como o nosso. No que um DJ precisa estar mais atento para que seu nome esteja sempre relevante e ao mesmo tempo não se torne cansativo?

Acredito que não exista uma ciência exata para se alcançar destaque, mas com certeza, num mercado tão cheio e concorrido, é mais do que necessário que o artista esteja bem assessorado. Sozinho, é muito difícil fazer qualquer coisa. Eu procuro contar com ótimos profissionais e isso vai de management à assessoria de imprensa e agência, todos muito bem capacitados e que convergem as ideias com as minhas. É muito importante falarmos a mesma língua quando o assunto é a carreira; todos da equipe têm que entender a peculiaridade de um trabalho artístico, que vai muito além de cada gig.

Sobre não se tornar cansativo, me preocupo muito com isso. Procuro sempre criar temas novos para nossas festas, buscar inspirações em áreas diferentes e, claro, variar meu repertório. Não sou o tipo de DJ que é escalado pra fazer warmup e toca o mesmo set do peak time. Faço questão de inovar sempre — cada cenário, cada estação do ano requer um som diferente. Quem acompanha meu Soundcloud sabe muito bem disso. Surpreender o público faz parte do meu dia a dia e eu curto muito, me dá vontade de fazer mais!

Você esteve participando mais uma vez do ADE neste ano. Quais foram suas impressões? O artista que não esta lá está um passo atrás do mercado?

Sim, foi nosso quarto ADE. Fico impressionado com a quantidade de pessoas que vão pra Amsterdã nesse período e não participam da conferência. Claro que a cidade é fantástica, os coffee shops são iradíssimos e as festas surreais, mas ir até lá e não ouvir o que os mestres têm a dizer? Mancada!

Não acho que seja necessário estar lá todos os anos, é um programa bem oneroso, mas com certeza minha evolução como gerenciador da minha carreira e do meu selo se deve a esse encontro anual. Os temas são totalmente relevantes à nossa profissão, portanto é mais que claro pra mim que estar lá me faz crescer a longo prazo. Surgem novas ideias, novas percepções, constatações, tudo nos agrega muito — a longo prazo, repito.

“Num mercado tão cheio e concorrido, é mais do que necessário que o artista esteja bem assessorado. Sozinho, é muito difícil fazer qualquer coisa.”

Em sua tour pela Europa, você se apresentou na edição portuguesa do BPM Festival, fazendo um B2B muito comentado com o Chaim. Como surgiu essa parceria? 

Eu e meus amigos somos fãs do Chaim há cerca de seis anos. Nos conhecemos pessoalmente no BPM México de janeiro — na ocasião conheci a esposa dele, que também trabalha na indústria de festas. Ela nos apresentou, e quando nos reencontramos em Portugal eu fiz questão de chegar cedo pra acompanhar o set dele. Devido aos atentados recorrentes na Europa, a fiscalização da entrada do club estava demorando muito e vi que ele acabou tocando pra bem pouca gente.

Quando ele terminou o set, o convidei pra tocar comigo mais tarde, tendo em vista também que era um showcase do Warung, nós éramos os anfitriões e ele o convidado. Ele topou e tocamos juntos no meu slot. Claro que por conhecer o trabalho dele há tempos, foi mais fácil adaptar a linha; acabamos cedendo um pouquinho cada um. É desafiador, claro, mas muito legal!

Na próxima semana você se apresentará na tour da Kubik em Curitiba — festa que busca uma proposta audiovisual diferente. Qual a expectativa de receber o evento em sua cidade?

A Radiola Kubik será a única noite do projeto com 16 horas de festa, e com algumas surpresas também. Queríamos um diferencial e isso se reverte em bônus para o público. Eu me apresentei na Kubik São Paulo em 2015 e achei muito legal a conexão entre o som e o disparo das luzes nos cubos. O local será o mesmo do Tribaltech e tenho certeza que todos irão sair satisfeitos. Me apresento à meia-noite, e nosso convidado internacional, Guti, se apresenta às 02h.

“Corremos atrás de patrocínios, licenças, alvarás e toda burocracia necessária pra levar qualidade pro público. Se depender do Estado, não sai nada, e se sai é mal feito.”

Parece ser uma tendência Curitiba receber eventos de música eletrônica em lugares antes não imaginados. O Tribaltech agora tem um novo local muito elogiado dentro da cidade, o Warung está marcando época na pedreira Paulo Leminski. Você acredita que é apenas uma fase ou o poder público como um  todo tem concedido maior abertura a diferentes culturas musicais?

Eu acredito ser só o começo. O público quer o novo e nós também. Com certeza esses locais novos e inusitados surgem por mérito dos organizadores e produtores de eventos. A festa dos cinco anos da Radiola, por exemplo, foi no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, por nosso esforço. É triste dizer, mas se depender do Estado não sai nada, e se sai é mal feito. Corremos atrás de patrocínios, licenças, alvarás e toda burocracia necessária pra levar qualidade pro público. Quando o evento tem envolvimento das secretarias é feito por obrigação. Eu nunca vi um que preste, nem quando quem está lá no comando se esforça. Mas enfim, Curitiba tem essa chama diferenciada por parte dos núcleos. Aqui o som fala mais alto, e espero que continue assim.

Há algum tempo você anunciou que a Radiola Records estava tirando um tempo nos lançamentos para buscar aprimoramento musical. Em que fase se encontra a gravadora agora? Podemos esperar lançamentos em breve?

Mais que musical, esse aprimoramento foi profissional. Uma label, assim como qualquer empresa, precisa se organizar. Essa pausa fizemos há mais de um ano. No momento, temos 27 lançamentos disponíveis nas lojas e mais quatro até janeiro na agulha. O último foi o Lost Souls EP, uma bomba que toco sempre e quase derrubou o Watergate [risos]. Todos vieram me perguntar o que era aquela faixa, e era minha e do [produtor argentino] Tomy Wahl feita aqui na Radiola, quando ele veio pra tour. Essa track também saiu com um remix do romeno JUST2.

Pela frente nos releases, teremos mais uma faixa minha com remix do Dionigi, Caoak com remix do Ronnie Spiteri, Ariel Merisio com remix do Boghosian e algumas surpresas pro primeiro semestre de 2018. Aumentamos a equipe e vamos pra cima!

Você tem realizado seus próprios eventos, levando a Radiola para esse meio também. Existe um interesse em consolidar a marca também como um evento musical, ou são festas pontuais?

A Radiola Label Night é a festa temática do nosso selo e já tem seis anos. Nesse período estivemos nos principais clubs e festas do país, como Warung, Beehive, D-EDGE, Place Lounge e Colours. São mais de 40 eventos realizados em que já tivemos em nossos lineups diversos artistas internacionais relevantes, como Nick Curly, Djebali, Hot Since 82, David Glass, Oli Furness, Tomy Wahl, Jesse Perez, Joyce Muniz, Jamie Trench, Emanuel Satie, Dorian Paic, Russ Yallop, Gallya, Shosho, Ricky Ryan, entre outros. A marca de festas sem dúvida tem o foco musical e de entretenimento.

Em 2018 estamos lançando nosso novo website para facilitar pros contratantes. Além disso, teremos as festas Jardim Elétrico e Sonido Profundo, que dependem da disposição do lugar pra realização. Respondendo a pergunta, sim, pretendemos consolidar ainda mais a marca Radiola.

Como tem sido conciliar uma agenda carregada de shows, produzir música, eventos e ainda gerir juntamente com o Leo Janeiro a Warung Recordings? Você acredita que está vivendo a melhor fase da sua carreira?

A cada ano que entra, percebo estar vivendo o melhor momento da carreira — tudo isso devido a muito trabalho e força de vontade, de todos da equipe. É complicado conciliar tudo o que quero fazer, mas sinto que lidar com isso é o que eu mais gosto. As gigs são basicamente nos finais de semana, então o que eu faria da vida se não fosse fazer música e festa? Estou curtido muito produzir e tenho muita coisa pra lançar nos próximos meses.

Tenho um álbum em um projeto novo em que já tenho dez músicas prontas e alguns esqueletos pra desenvolver. Sobre a Warung Recordings, evidentemente é o selo do club. Como já disse em outras ocasiões, eu e o Leo gerenciamos hoje e nos dividimos em diversas funções do selo, mas ele não nos pertence — pertence à empresa Warung. Podemos opinar e indicar alguns artistas, mas tudo é passado pra direção, que opta pela quantidade de lançamentos e pelo material que quer fazer. Muita gente me manda demos sem nunca ter tocado lá ou sem ter vinculo algum com o espaço; eu tento explicar que não mando nas diretrizes do selo, fazemos esse trabalho por amor ao club e a música.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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