“O mundo tem mais do que duas frentes, e na música não é diferente”

Expoente nacional, DJ Glen reflete sobre as conquistas do seu último ano
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Poucos artistas brasileiros tiveram um 2018 tão intenso e vitorioso quanto Glen Faedo. O DJ Glen, como é carinhosamente chamado no cenário eletrônico, encarou uma sequência intensa de gigs ao longo da temporada e viu boa parte de seus trabalhos de estúdio ganharem a luz do dia por labels como Elevation, NastyFunk, Universal Music, Cajual, Radiola Records e Armada Deep.

Seu atual momento de carreira reflete um processo de preparação pessoal e profissional para os desafios que uma carreira na música eletrônica compreende. Ao longo da temporada, Glen desenvolveu suas habilidades voltadas à discotecagem e à produção musical em busca de se tornar um artista mais dinâmico e completo.

Hoje, é possível dizer que ele é um dos poucos players do cenário nacional que conseguem encarar com facilidade tanto uma pista mais comercial, quanto uma atmosfera mais underground — embora Glen ignore esses títulos na maioria das situações.

A nosso convite, ele faz uma espécie de retrospectiva do ano passado e nos conta detalhes de facetas importantes de sua carreira. Confira:

Na pista e no estúdio, como você avalia as transformações da sua carreira no último ano?

Uma vez li em algum lugar algo que faz muito sentido: ninguém cresce de verdade apenas focando em uma área, a vida tem que ser trabalhada como um todo. Ano passado foi o primeiro da minha vida que comecei sendo pai. Toda essa responsabilidade e satisfação como ser humano mudaram direta e indiretamente minha maneira de trabalhar, levando mais a sério e buscando metas maiores. Sem contar que parece que o universo está dando uma forcinha e tudo fluindo com mais leveza.

Em fevereiro, toquei no festival mais importante da minha carreira, o Dirtybird Campout, e foi importante principalmente por me colocar lado a lado com pessoas que têm a mesma relação com a música, trabalho e vida que eu. Eles são amantes, profissionais e não curtem a super capitalização e nem o total desapego do fator financeiro, pois afinal, alguns ali tem fees de 30 mil dólares por apresentação no Brasil, o que é insano.

“Acredito que o futuro está no êxodo urbano.”

Alguns dos seus lançamentos mais recentes foram collabs e remixes com artistas nacionais e internacionais bastante relevantes. Como é pra você produzir a quatro mãos?

Gosto muito de colaborações no estúdio. Produzir com alguém deixa tudo mais divertido e especial, e não gosto de seguir um lado metódico tipo linha de produção com músicas. Aprecio a liberdade e criação, porém sei que por muitas vezes eu viajo demais e o som fica sem pé nem cabeça, ou quando acerto na viagem, a track só é digerida depois de anos, o que é muito chato.

Quando produzo junto com alguém, não fico experimentando tanto e vamos direto no que tem que ser feito. Não gosto de collabs à distância, mas quando é inevitável, elas também acontecem. Tento visualizar que a pessoa está junto comigo tipo um amigo imaginário, o que é um tanto maluco mas funciona.

O que levou você a escolher Americana–SP como sua cidade base? Quais são os prós e contras de se estar fixado aí?

Eu nasci em Americana e morei aqui até meus 27 anos, mas muitas qualidades da cidade só descobri no período em que morei no Rio de Janeiro, que obviamente é minha cidade do coração, mas hoje acredito que o futuro está no êxodo urbano. Não faz o menor sentido as pessoas viverem empacotadas em um lugar pra ter tudo mais perto sendo que o tempo pra chegar em cada lugar é maior do que se estivesse longe.

Quando decidi voltar ao interior de SP, estava pensando na verdade em me mudar para a Europa. Queria ter filhos e jamais teria numa cidade louca como o Rio; a tal da segurança que todo mundo fala não te atinge apenas quando a roda da roleta da morte te acerta, mas pelas beiradas em todo lugar que vai. É uma bad que vai te pegando e deixando com medo de tudo. A forma como a violência existe te faz consumir a segurança e te deixa em uma frequência que considero ruim.

Ficaria aqui falando por dias sobre isso, mas o ponto final foram os vizinhos. Minha casa em Americana não tem vizinhos e posso fazer barulho o quanto quiser a hora que quiser; Viracopos é o melhor aeroporto do Brasil, e São Paulo é logo ali. A praia me faz falta, mas volto ao Rio pelo menos uma vez por mês.

“[No Rio de Janeiro] A tal da segurança que todo mundo fala não te atinge apenas quando a roda da roleta da morte te acerta, mas pelas beiradas, em todo lugar que vai.”

Com as cenas underground e mainstream cada vez mais próximas, como você enxerga o futuro da música eletrônica no Brasil em 2019?

Recentemente eu me abstive desse pensamento “esquerda/direita”; acho que o mundo tem muito mais do que duas frentes, e na música não é diferente. Temos grandes e diversos mercados, cada um com sua rede de artistas e público que vai migrando conforme a situação. Vi propostas de som mais agressivas e alternativas virem à tona em 2018, algo que me agrada muito. Também sinto o mercado mais comercial um pouco desesperado e com certeza novas oportunidades surgirão, como em 2012 e 2013.

Sei que você é um apaixonado pela cultura do vinil. Quais foram as suas compras preferidas do ano nesse formato?

Adorei essa pergunta. Há alguns anos está impossível importar discos sem pagar mais de cem por cento do valor do produto em taxas diversas. Logo, tive que mudar meu método de compra e focar nos títulos que serão futuros clássicos, a nível mais como colecionador do que como matéria prima de trabalho.

Me orgulho de ter todos os discos lançados do produtor que pra mim é a maior estrela do ano, o Kölsch. Conheci ele pessoalmente no ano passado e é um cara muito bacana.

Recentemente você estreou como residente do Ame Club. Como tem sido ser parte desse projeto desde a sua criação?

É uma sensação difícil de explicar. O nome “Ame” vem de alma, em francês, e foi escolhido pelo Silvinho, sócio-proprietário que leva o nome “Soul” desde que o conheço, há quase duas décadas. A alma então é o foco desse club, e vejo muito do amor tanto do Silvio quanto do Mario Sergio que, mesmo sendo dois dos empresários mais bem-sucedidos da música eletrônica no país, nunca deixaram de lado aquilo que fez eles se apaixonaram pela arte. Me sinto, então, sendo escolhido pela alma, e dessa maneira me farei presente lá.

Muitos jovens artistas sonham com uma carreira estabilizada na música. O que você pode compartilhar de experiência para essa galera?

Acho que nos dias atuais nada nunca será estável. Minha dica é: aproveite o momento e planeje só metade das coisas; deixe a outra metade com a sorte.

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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