João Brasil

João Brasil: “Sou tipo um rapper, um funkeiro; minha matéria-prima é meu cotidiano”

Rock in Rio, funk, EDM, Brazilian Bass, memes, morte da cultura dos mashups e novo clipe: confira um papo transante com o “cronista” João Brasil
* Com a supervisão e colaboração de Flávio Lerner

Em poucas semanas, damos as boas-vindas para mais um verão. Novos sons, hits e festas chegam em quantidades grandes para ajudar a suportar o calor que já bate na nossa porta. Mais ou menos nessa época do ano passado, o grande hit era claro: “Michael Douglas”, do João Brasil, havia se tornado uma febre fonográfica instantânea — em todos os cantos do país, geral deixava bem claro que nunca mais iria dormir.

Completando agora uma década de carreira, e após já ter desfrutado da exposição de hits como “Moleque Transante” (este pelo projeto Rio Shock), “Baranga” e incontáveis mashups, João embarcou em uma nova fase, mais eletrônica, onde pôde refrescar seu som através do EP #Naite, que, dentro da estética que batizou de “Low Funk” — que mistura seu amor pelo funk carioca a diversas outras referências da dance music e brasilidades populares —, traz quatro músicas, incluindo “Latinha”; novo single que, assim como “Michael Douglas”, vai deixar os entendedores entenderem do que se trata seus “lá-lá-lás” e “ló-ló-lós”.

Aproveitando o gancho desta entrevista, o João nos convidou para mostrar com exclusividade aqui na Phouse o clipe de “Latinha”, que traz imagens de nada menos que sua performance no último Rock in Rio. De quebra, decidiu conversar conosco a respeito disso e de muitas outras questões da sua carreira — papo que você pode conferir logo depois de assistir ao clipe abaixo, em primeira mão!

O clipe de “Latinha” será lançado oficialmente nesta quinta-feira

João, conheci o teu trabalho através do projeto 365 mashups, de 2010, e ali ouvi misturas que nunca tinha sequer imaginado. Queria que você contasse um pouco sobre a importância desse projeto e o que ele te trouxe em termos de carreira.

Esse foi o maior projeto que fiz na vida. Realmente fiz um mashup por dia durante um ano. Estava morando em Londres e fazendo mestrado, foi muito intenso. O projeto me levou para espaços como o jornal The Guardian, proporcionou uma parceria minha com o Fatboy Slim no disco dele, me colocou para tocar em festivais como o Back to Black, também em Londres e tocar durante a queima de fogos do Réveillon de Copacabana para mais de dois milhões de pessoas.

“A nova política da internet praticamente matou a cena de mashup. Estamos voltando aos anos 80, com o Spotify como a nova rádio e o músico independente com cada vez menos voz.”

Os mashups reinaram até o começo desta década, mais ou menos; depois, podemos notar um declínio acentuado na popularidade deles. O que você acha dessa cultura dos mashups e por que ela caiu tão acintosamente nos últimos anos?

A nova política da internet praticamente matou a cena de mashup. Derrubaram minha página no Soundcloud, assim como as de diversos artistas que faziam mashups e remixes. Hoje em dia, praticamente, não conseguimos subir nenhum remix ou mashup que não seja oficial. Antes mesmo de completar o upload do mashup, o sistema o derruba. É uma pena, estamos voltando aos anos 80 — o Spotify e os outros players de streaming viraram a nova rádio, e as grandes gravadoras voltaram a ter uma importância muito grande. O músico independente está com cada vez menos voz a cada ano que passa.

Talvez nada represente melhor a capacidade de mashups do João Brasil do que esse clássico que mistura um pagode do Grupo Raça, um beat de funk e um dos gols mais perdidos da história do futebol brasileiro

Você lançou recentemente o novo EP, #Naite, com um show de sucesso no Rock in Rio. Como foi fazer o lançamento em um festival tão importante?

Foi épico. Foi o melhor dia da minha vida profissional como um performer. A galera estava muito animada, pulando muito, vibe incrível. Montamos o meu maior show até hoje, com painel de LED, fogos, brincadeiras com o público e tudo mais a que tínhamos direito. Era um mar de gente, foi inesquecível para todo mundo que estava lá. A galera recebeu as novas músicas muito bem e já tinha gente cantando algumas delas, foi demais!

“Eu sou um observador e cronista do que acontece ao meu redor. Sou tipo um rapper, um funkeiro, onde a minha matéria-prima para as canções está no meu cotidiano.”

A faixa “Michael Douglas” virou seu maior hit até hoje. Conta um pouco pra gente do meme e de como surgiu a ideia de fazer esse som.

Eu estava no Sul, em Atlântida, no club Pista 3. Estava todo mundo muito animado, éramos um grupo grande, todo mundo pulando e se abraçando. Vários DJs amigos do Sul, o crew de Brasília New Chicks On The Block, todo mundo cantando “Nunca mais eu vou dormir”, sobre outra música que estava rolando. Aí eu mandei “Ih, que isso?! Michael Douglas!”, o povo chorou de rir, pirou. Pensei na hora: tenho um hit. Voltei para o Rio e produzi a música em uma semana. A minha cabeça de “mashupeiro” logo fez a música soar como um mashup de funk com EDM.

Reza a lenda que esse áudio de Whatsapp que originou o meme “Michael Douglas”

Por que você acha que “Michael Douglas” explodiu tanto? Você entende que tem mais a ver com a sonoridade dela ou pelo fato de se tratar de uma piada com um meme?

Ela fala com todo mundo. O cara mais velho que adora o ator Michael Douglas, o baladeiro insider que sabe o que “Michael Douglas” significa na noite e as crianças que não querem dormir nunca. Atingiu a todos. Os amigos da minha filha de cinco anos cantam na escola. Realmente o que aconteceu foi algo surreal. E a sonoridade fácil ajudou a disseminação também: batida de funk e synths de EDM.

#Naite é o mais recente EP do produtor

“Michael Douglas” faz alusão ao MDMA, e “Latinha” brinca com Loló. Você por acaso quer ser o novo Tim Maia cantando “Chocolate”?

Ou a Rita Lee cantando “Lança Perfume”? [Risos] Adoraria ser o novo Tim Maia, mas me contento em ser um observador e cronista do que acontece ao meu redor. Sou tipo um rapper, um funkeiro, onde a minha matéria-prima para as canções está no meu cotidiano.

Estamos divulgando aqui em primeira mão o clipe de “Latinha”. Você tem alguma curiosidade pra nos contar sobre a faixa, o vídeo e seu processo de produção?

A ideia que tive foi: quero uma música épica, eletrônica, com humor e cantada em português, bem na linha de “Michael Douglas”, mas sem batida de funk. O funk iria ficar na interpretação do vocal, na vibe mesmo. Confesso que me incomodo que a maioria dos produtores de música eletrônica do Brasil tem nomes gringos e faz músicas em inglês. Não sou contra ninguém compor em inglês, eu mesmo já compus, mas compor apenas nesse idioma, sendo brasileiro, eu acho um pouco estranho.

“A maioria dos produtores de música eletrônica do Brasil tem nomes gringos e só faz músicas em inglês. Não sou contra ninguém compor em inglês, eu mesmo já compus, mas acho um pouco estranho.”

Não é a minha onda, gosto muito de música brasileira. Eu chamei o Brazza Squad para fazer o drop da música. O remix que eles fizeram de “Michael Douglas” ficou fantástico, toco sempre nos meus sets, e foi natural chamá-los para uma colaboração na “Latinha”. Não poderia ter escolhido parceria melhor para essa faixa. O clipe, todo filmado no Rock in Rio, passa bem a energia dessa nossa colaboração.

João Brasil

João Brasil e Brazza Squad, no Rock in Rio

Trabalhar com o Brazza Squad foi uma mistura inédita na sua carreira? Existe alguma mistura ainda não feita que você quer levar para o público?

Foi a primeira vez que colaborei com DJs de Brazilian Bass. Curti muito o resultado, gosto muito do estilo. Já tinha feito mashups nessa onda, mas nunca uma música do zero. Ainda quero fazer muitas novas misturas nessa vida [risos], principalmente com esses funks novos a 150 BPM que estão rolando agora nas comunidades do Rio.

No final de agosto saiu o clipe da faixa “Youtubers”, uma ode psicodélica a uma galera que hoje influencia a opinião das pessoas em alguma medida, e em uma entrevista pro G1 você até os chamou de “novos rockstars”. Até quando você acha que dura este momento de ouro dessa galera?

Acho que dura ainda um bom tempo. O YouTube é a nova televisão da molecada mais nova. Outro dia fui numa palestra sobre o Musical.ly e descobri o mundo dos “musers”. Eles foram os maiores responsáveis por espalhar o “Michael Douglas” para a criançada, fizeram várias versões. Ainda vamos ver muitas plataformas e influenciadores surgirem. Está tudo cada vez mais rápido, porém os melhores vão saber aproveitar a oportunidade e surfar as diferentes ondas, ao mesmo tempo em que muitos vão ficar pelo caminho.

João Brasil

João, no Rock in Rio, executando seu passinho clássico: a “sarrada gravitacional”

Como tem sido o retorno das pessoas a essa sua mistura entre EDM e funk carioca? Pela nossa experiência, o grosso do público da cena eletrônica no Brasil tem um preconceito enorme com o funk…

Eu amo funk, adoro as batidas. Sou do Rio, e por aqui é muito difícil não ter um pouco dessa influência. O preconceito com o funk não é exclusivo do público da dance music, muita gente tem. É uma música produzida, originalmente, por negros e pobres. O preconceito não é apenas musical, infelizmente. Odeio preconceito e adoro funk — os mashups e minhas misturas são maneiras que encontrei de construir um mundo onde todos possam se divertir, independentemente de sua origem, classe social, orientação sexual, religião ou cor.

“Minhas misturas são maneiras que encontrei de construir um mundo onde todos possam se divertir, independentemente de sua origem, classe social, orientação sexual, religião ou cor.”

Ao mesmo tempo, o estilo se desenvolveu muito nos últimos anos, e faz sucesso tanto nas favelas quanto nas festas de playboy. Você tem alguma ideia de por que existe ainda tanta resistência no Brasil ao funk carioca?

O Brasil sempre viveu um complexo de vira-lata, sempre achou que tudo que vem de fora é melhor, e isso não é de hoje. Não damos valor às nossas verdadeiras riquezas, aos nossos verdadeiros talentos. Ainda precisamos ter nomes gringos e músicas em inglês para ter música na playlist Eletro BR do Spotify. Ainda precisamos contratar um gringo como o Diplo ou o Hardwell para tocar nossa própria música — como “Baile de Favela” — para nós mesmos. Ainda temos muito que evoluir como sociedade.

Depois desses últimos lançamentos, quais são os planos? Uma turnê por aqui no exterior? Mais videoclipes?

Depois de “Latinha”, vamos finalizar o clipe de “Rave de Favela”, que será lançado até o final do ano. Vou lançar mais um single também. Entro numa agenda intensa aqui pelo Brasil no verão com a turnê do #Naite, que só vai acabar no carnaval, e depois parto para a Europa e os Estados Unidos para a minha turnê gringa no verão de lá.

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