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Entrevista

Ney Faustini: “Estude música, mais do que você já estuda”

Rodrigo Airaf

Publicado em

14/06/2018 - 20:03
Ney Faustini
Foto: Gabriel Quintão/Divulgação
Às vésperas de tocar no Caos, Ney Faustini fala sobre presente, passado e futuro
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Pesquisador musical ávido, discotecário premiado e produtor aclamado por nomes que vão de Ben Sims a Rainer TrübyNey Faustini é um cara habituado a seguir o fluxo do que manda seu coração em quaisquer etapas de sua vida. Como DJ, começou na cena de drum’n’bass. Antes disso, já participava de campeonatos de Kart, paixão herdada do seu pai, piloto da Stock Car nos anos 80 e 90.

As corridas continuam até hoje, mas isso nunca o impediu de curtir e absorver tudo o que a música eletrônica tem a oferecer, fosse nos anos 2000, com os eventos memoráveis como Skol Beats e clubs mitológicos como o Lov.e e o Overnight — fez parte da história destes dois últimos nas cabines, inclusive —, seja como um dos DJs e produtores mais experientes e musicalmente vorazes da atualidade. Hoje costuma carimbar sua presença tanto nos principais clubs atuais brasileiros, como o D-EDGE, onde realiza uma residência muito benquista, quanto em turnês no exterior.

Em uma conversa inspirada e pautada em aspectos do passado, presente e futuro, batemos um papo com o DJ paulistano às vésperas de sua apresentação no Caos, club de Campinas onde vai se apresentar durante três horas nesta sexta-feira, dia 15 de junho, ao lado de Chris Liebing e Victor Ruiz

No maior estilo “somos a média das cinco pessoas com quem mais convivemos”, você se lembra de pessoas, momentos, gestos, crenças ou cenas específicas do seu passado que ficam até hoje marcadas na sua memória como turning points para o desenvolvimento do Ney Faustini como o profissional que conhecemos hoje?

Posso dizer que vivi muitas experiências, algumas boas e outras nem tanto, que me influenciaram diretamente na minha formação como artista nesses quase 20 anos de discotecagem. Falando pelo lado bom, experiências de pista, entre festas, clubs e festivais, são sempre especiais. Lembro bem da primeira vez que ouvi o DJ Marky tocando em uma rave no interior de São Paulo, ainda antes da residência dele no Lov.e, e como aquilo me influenciou a querer tocar drum’n’bass. Da primeira edição do Skol Beats, em 2000, que foi o primeiro festival de música eletrônica que frequentei, e onde pude ouvir vários dos DJs que eu já acompanhava. Das primeiras vezes que vi o Laurent Garnier se apresentando em São Paulo. Dos inúmeros DJs e live acts que pude presenciar nos clubs que mais frequentei na vida, D-EDGE e Lov.e. Sem querer ser nostálgico demais, o meu conceito do “ser DJ” teve base nessa época, final dos 90 e início dos 2000.

Profissionalmente, algumas ocasiões estão marcadas na memória como se tivessem acontecido ontem: minha primeira vez tocando no Lov.e em 2001, abrindo a noite pro Marky; a primeira gig na Freak Chic em 2010, no D-EDGE; a apresentação no primeiro Boiler Room no Brasil, em 2013; mais recentemente, tocar pela primeira vez no Rock in Rio no palco Eletronica, e abrir o palco do Dekmantel em São Paulo, no mesmo dia em que o Jeff Mills o fechou, foram experências fantásticas. Saindo um pouco da discotecagem, lançar meu primeiro disco em vinil, o Sleepless, em 2012 pela Foul & Sunk, foi um divisor de águas pro meu amadurecimento como produtor. Uma lembrança puxa a outra, mas essas foram as primeiras que vieram à cabeça.

A maturidade é algo natural na vida de qualquer pessoa — ainda bem! Como artista, qual o conselho essencial que você daria para o Faustini de uns 20 anos atrás e por quê? 

Eu diria “estude música, mais do que você já estuda”. Eu sempre tive muito prazer em pesquisar, frequentar lojas de disco, descobrir músicas e artistas novos, independentemente de estilos. Esse sempre foi meu foco como apreciador de música, além de DJ. Porém, mesmo começando a produzir, lá por 2009, eu nunca tive uma real formação musical e não me aprofundei no estudo de nenhum instrumento. O que eu sempre tive comigo era o que eu gostava de escutar, meu repertório, e dali eu buscava minha inspiração pra produzir. Estudar a música mais profundamente, mergulhando ainda mais na parte teórica, além de toda diversidade cultural e histórica, é algo que venho fazendo mais recentemente e gostaria de ter feito antes.

“Sinto falta do tempo em que as pessoas se preocupavam mais em aproveitar o momento do que ficar registrando tudo no celular.”

Você é considerado um DJ mais próximo das sonoridades da house music, mas pra esta sexta você foi escalado para um lineup mais techno, ao lado de Chris Liebing e Victor Ruiz. É possível que com esse “empurrãozinho” veremos um lado musical seu ainda mais amplo em Campinas?

Eu naturalmente tenho uma preparação muito particular pra cada situação, e nesta noite não será diferente. Eu evito me rotular e, dentro do possível, gosto sempre de variar, especialmente em sets mais longos. Mas também gosto desses casos, em que existe um foco mais específico. E afinal, Detroit é uma das minhas maiores influências musicais, então a expectativa em abrir uma noite mais voltada ao techno com um set de três horas é enorme. Estou separando várias músicas especialmente pra esta ocasião.

Explorando um pouco mais este seu lado “techneiro”, conta pra gente quais foram as descobertas mais incríveis deste gênero que você realizou ultimamente? 

Além das referências de Detroit e Berlim, tenho escutado também muitos artistas e gravadoras holandesas, francesas, suecas… A Delsin sempre foi uma das minhas gravadoras favoritas e segue firme numa extensa agenda de lançamentos com velhos e novos artistas, assim como a também holandesa Clone. Taapion é um selo mais jovem e que apresentou um time francês de produtores que gosto muito, encabeçado pelo Shlømo. De uma maneira geral, estou sempre acompanhando gravadoras como Echocord, ESHU, ARTS, Tikita, Ilian Tape, Curle, Mistress, Suchitech, The Corner, Non Series, Skudge, entre tantos outros.

Foto: Divulgação

É difícil barrar a energia da noite de SP. Aliás, do dia também. Mas quais são as outras cidades brasileiras onde você já tocou e sentiu também uma energia singular no público ou na forma como consomem cultura e arte?

Os três estados do Sul estão com festas e projetos muito consolidados, mas acho que tenho uma relação mais próxima com Floripa, por conta da minha residência na Troop, e é sempre incrível tocar por lá. O que me impressiona no Sul, além do que rola nas capitais, é o interesse de um público cada vez maior por música eletrônica underground em cidades do interior.

Momento nostalgia: sua bagagem data desde o fim dos anos 80. Você fez parte de momentos históricos do cenário. De quais características da cena clássica você mais sente falta hoje? 

Eu tento não ser tão saudoso com situações e cenários de antigamente, porque dentro das inúmeras opções que existem de festas hoje, sempre dá pra achar alguma com a qual você se identifique. Dito isso, sinto falta do tempo em que as pessoas se preocupavam mais em aproveitar o momento do que ficar registrando tudo no celular. Nada contra fazer pequenos registros, eu gosto de relembrar alguns momentos também, mas rola um exagero hoje em dia.

“Temos que aproveitar as facilidades que o mundo moderno oferece à profissão, mas não se atinge um trabalho sólido e autêntico através de atalhos.”

Muitos DJs chegam ao sucesso de repente, às vezes já perto de um auge que pode acabar igualmente rápido. Mas você é de uma geração em que a maioria segue uma curva longa até um reconhecimento mais sólido. Que aspectos de uma longa carreira você acha impossíveis de serem adquiridos por DJs “fast-food”, e que realmente fazem falta para um artista? 

A quantidade de “novos DJs” que entram na profissão por motivos não tão musicais cresceu bastante de uns anos pra cá. Gente em busca de sucesso rápido e que nunca teve real interesse pela música e pela arte em si. Ser DJ exige alguns sacrifícios e muito amor, algo que vai bem além das ferramentas de marketing e redes sociais. Vi muita gente da minha geração, e da anterior também, abrindo mão de muita coisa na vida pra poder comprar vinil e equipamentos. Temos que aproveitar as facilidades que o mundo moderno oferece à profissão, mas não se atinge um trabalho sólido e autêntico através de atalhos, e acho que isso vale pra tudo na vida. Repertório e feeling de pista, por exemplo, são aprendizados longos e continuos, só pra citar dois aspectos essenciais.

Passarinhos me contaram que você tem algumas novidades pro futuro próximo, de internacionalidades ao vinil. Confirma pra gente?

Neste ano quero dar um foco maior aos meus trabalhos autorais, já que acabei fazendo mais remixes nos últimos três anos. O último que terminei, pro japonês Tominori Hosoya, deve sair em agosto pela Bucketround, gravadora espanhola de deep house que lança apenas vinil. Incluo nessa fase atual de trabalhos novas colaborações com meus amigos do Fractal Mood e com o sueco Sean Dixon. Pro segundo semestre também estou planejando uma tour em algumas cidades da Europa.

Foto: Divulgação

Uma cor, um filme, um movimento, um sentimento, uma ação, uma reação… O que mais pode te inspirar além do som?

Cidades são sempre inspiradoras, e essa relação de amor e ódio com São Paulo é uma influência constante. Em 2011 decidi passar dois meses em Berlim só pra experimentar a sensação de viver uma rotina, ou a falta dela, por lá. Eu tento sempre absorver um pouco de cada lugar que eu vou, a trabalho ou a passeio. Se tiver arte, museus pra visitar e lugares históricos, melhor ainda. Situações mais extremas de sentimento, de felicidade ou tristeza, também são muito inspiradoras.

Você já tocou algumas vezes no Club 88, mas será a primeira vez no Caosdos mesmos sócios. E estreia logo em, como já foi dito, noite grande de techno. Quais são as suas expectativas para o dia 15 de junho?

Toquei uma vez no Club 88, quatro anos atrás. Conheço a Eli Iwasa desde os tempos do Lov.e Club, e vinha acompanhando toda a montagem do Caos com a expectativa de que seria um club pra se tornar referência no interior de São Paulo. Vi fotos e vídeos de algumas das festas que rolaram nos últimos meses, e já deu pra sentir um pouco de como é a atmosfera por lá. O Chris Liebing é uma lenda, e imagino que vá rolar uma peregrinação partindo de várias cidades pra essa noite. Nada como experimentar a sensação de tocar em lugar novo com a casa cheia, e pegando essa energia de começo de festa. A ansiedade é enorme!

* Rodrigo Airaf é colaborador eventual da Phouse.

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Entrevista

Adam K: “Se você trabalhar duro o suficiente e tiver um pouco de sorte, seus sonhos se tornarão realidade”

Produtor veterano virou destaque no cenário brasileiro depois de parceria com o Vintage Culture

Phouse Staff

Publicado há

Adam K
Adam K com o Vintage Culture. Foto: Divulgação
* Por Toni Gobatto
** Edição e revisão: Flávio Lerner

Adam K é uma das pessoas mais comentadas na música eletrônica brasileira atual — tudo isso por causa da sua sólida parceria com o Vintage Culture. “Pour Over” foi lançada recentemente através de uma parceria entre os dois e, futuramente, outras tracks ganharão vida pela mão da dupla.

Antes disso, entretanto, o produtor canadense de 38 anos traz uma bagagem de muitos sucessos, como o hit “Twilight”, com Soha, que atingiu o primeiro lugar no iTunes Dance do Canadá e dos Estados Unidos em 2008 — resultado alcançado também com “Raining”, lançada em 2010. Em 2012, mostrou sua versatilidade ao bater o primeiro lugar do chart de trance do Beatport com “Tomahawk”, que saiu em parceria com BT, via Armada Music.

   “Twilight” foi lançada em 2007, via Rebirth

Adam K se tornou uma referência em produção musical; sua visão, paixão pelo que faz e técnica aguçada o mantém como um profissional de alta visibilidade no mercado da música. Ele também é fundador da Hotbox Digital, label responsável desde 2007 por mostrar novos talentos da house music no Canadá.

Agora, em contato com a Phouse, o artista fala conta mais sobre sua trajetória, relação com o Vintage e o Brasil, artistas em que está de olho e fecha tudo com um conselho valioso para quem sonha em ser um produtor de sucesso. 

Já “Tomahawk” foi ao mundo em 2011, pela Armada

Há quanto tempo você está no mercado musical, e como começou a produzir?

Eu componho desde os 15 anos de idade, mas só passei a trabalhar com música aos 21. Comecei produzindo depois de ir a uma rave de drum’n’bass em 1995. Depois da festa, eu voltei para casa e perguntei ao meu amigo Nynex, pelo IRC (plataforma onde o deadmau5 cunhou o seu nome artístico), como ele produzia música. Ele me passou dois programas: Rebirth e FastTracker 2. Eu comecei e nunca mais parei.

Quantas vezes você já esteve no Brasil, e o que você mais gosta no país?

Eu já vim ao Brasil umas 15 vezes, e toda vez que venho, fica melhor. As pessoas são receptivas e a comida é uma perfeição. Eu também tenho lembranças da minha festa favorita, produzida pelos meus amigos — a Kaballah em Curitiba. Eles mantiveram a festa aberta por duas horas a mais para eu poder continuar tocando. Foi um dos eventos mais incríveis que já fui no país.

Pela sua própria Hotbox Digital, “Into The Light” é um dos singles mais recentes do Adam K

“Pour Over” é um enorme sucesso já, com mais de cinco milhões de plays no Spotify e 12 milhões de visualizações no YouTube. Como você conheceu o Vintage Culture?

O Lukas e eu nos conhecemos pelo Instagram e começamos a trocar ideia. Descobrimos uma conexão de gostos e musicalidade, e estou curtindo muito escrever canções com ele desde então.

Sei que você tem um próximo lançamento com o Vintage Culture, chamado “Save Me”. Vocês estão trabalhando em mais músicas?

Nós sempre estamos trabalhando juntos em músicas, mas nem tudo o que produzimos será lançado. Alguns sons são só para as pistas, e outros são ideias que acabamos descartando. “Save Me” é uma parceria entre eu, Lukas e Floki, uma cantora e compositora canadense. O Lukas também
está trabalhando em outra canção com ela, chamada “Taking Over”.

“Raining” saiu pela Ultra Records, em 2010

Que produtores você tem mais curtido atualmente?

Funkin MattBruno BeFISHERChris Lake… Diversas músicas boas estão vindo desses artistas.

Muitos produtores jovens que estão iniciando a carreira agora estão lendo esta entrevista. Qual conselho você daria a eles?

Se você quer fazer música, você fará música. Se você parar, é porque você não quer o suficiente. Siga seus sonhos, e se você trabalhar duro o suficiente e tiver um pouco de sorte, eles se tornarão realidade.

* Toni Gobatto é colaborador da Phouse.

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Ashibah: “O Brasil é o meu sonho e eu sempre conto os minutos até voltar”

Artista fala sobre relação com o Brasil, collab com o Mumbaata e abre detalhes do novo álbum

Nazen Carneiro

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Ashibah
Foto: Divulgação
* Edição e revisão: Flávio Lerner

A DJ, produtora e cantora egícpcio-dinamarquesa Ashibah está retornando ao Brasil para nova tour no início de outubro. Com o sucesso de sua última passagem pelo Brasil, em julho, e o lançamento do EP She Knows (ao lado do duo carioca Mumbaata) pela conceituada gravadora alemã Get Physical, a artista se aproximou ainda mais do público do país e tomou as pistas — e as rádios — com suas músicas fortes, profundas e muito dançantes.

Em meio ao intenso trabalho de estúdio do seu próximo álbum, Ashibah conversou com a Phouse sobre esse momento especial da carreira, sua relação com o Brasil, como rolou a collab com o Mumbaata, deu dicas de músicas e abriu detalhes sobre o seu próximo álbum. Confira na entrevista abaixo!


Suas composições e seu vocal são tão cheios de paixão pela música. E você tem essa versatilidade, que vai de Michael Jackson e Tracy Chapman a instrumentos musicais tradicionais egípcios. Por gentileza, conta pra gente o que você tem ouvido, e o que mais te influencia hoje?

Alguns dos meus favoritos recentes incluem “Kiss of Life”, da Sade, o remix de Dennis Ferrer para “The Cure and the Cause”, do Fish Go Deep, “Girl”, de The Internet, “For My Lover”, da Tracy Chapman, e “Can You Feel It”, do Mr. Fingers.

No meio disso tudo, afro house também tem se destacado. Nunca é o suficiente (risos) [no original, “I Just Can’t Get Enough”, um trocadilho com a música do Michael Jackson].

Recentemente você lançou o EP She Knows, junto com o duo brasileiro Mumbaata, pela gravadora alemã Get Physical Music, que é um dos selos mais renomados e respeitados em todo o mundo. Esse EP é muito forte e feito para a pista de dança, além de ter uma história completa para contar…

O lançamento desse EP pela Get Physical foi um dos destaques deste ano. Eu sempre tive o desejo de lançar por esse selo. Conheci o Mumbaata em uma festa no Brasil e combinamos que deveríamos fazer uma sessão de estúdio, e então eu fui ao Rio e nos encontramos. A vibe e a energia entre nós foi muito inspiradora, e fizemos tudo que eu queria. Quando o pessoal da Get Physical disse ter gostado, pensamos em fazer mais um som e criar um EP, e eles adoraram. Foi uma experiência incrível.

“Uma das coisas que eu amo no Brasil é a abertura das pessoas para ouvir algo novo. É o lugar perfeito para testar novas pistas, novas ideias e eu adoro isso. Os brasileiros são pessoas de coração, e eu acho que é por isso que eu os amo tanto: porque eu sou do mesmo jeito.”

Você tem uma relação muito especial com o público brasileiro, e sua última tour por aqui foi um sucesso completo. Comente alguns detalhes que você considerou especiais nessa tour.

Minha última passagem pelo Brasil foi algo para se registrar. Vocês sempre encontram novas maneiras de me surpreender. Uma das coisas que eu amo no Brasil é a abertura das pessoas para ouvir algo novo. É o lugar perfeito para testar novas pistas, novas ideias e eu adoro isso. Os brasileiros são pessoas de coração, e eu acho que é por isso que eu os amo tanto: porque eu sou do mesmo jeito.

O amor que recebo toda vez que eu toco me dá muito fôlego, sabe? As pessoas dançam, elas cantam e elas estão lá. No Park.Art, em Curitiba, por exemplo, eu toquei para quase 15 mil pessoas, e mesmo assim pude sentir a energia de cada um — cada pessoa com uma energia diferente, bonita e inesquecível. Todos os locais são especiais e marcantes, como as noites intermináveis da Privilège, em Búzios, onde a festa nunca para e o amor é infinito é alucinante. Como artista, isso é um sonho. O Brasil é o meu sonho e eu sempre conto os minutos até voltar.

Você tem tomado conta dos programas de rádio por todo o país. O EP com o Mumbaata chegou a tocar em oito Estados e teve, inclusive, estreia nacional no programa Dance Paradise, da Jovem Pan FM. Toda essa exposição foi estranha de alguma forma, ou você considera natural?

O maior desejo de todo artista é que isso aconteça. Criar algo que realmente vem do coração e sentir essa resposta imediata é algo que me mantém querendo criar mais e mais. Está fluindo de forma natural e sou muito grata por isso.

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Você ainda se sente nervosa antes de um show?

Sempre. Você tem que estar nervoso, porque você ama isso. E se você parar de ficar nervoso, talvez precise de novos desafios. São as borboletas [no estômago] que mantêm você em pé.

Ok! Agora essa pergunta é muito importante: qual a melhor bebida brasileira? (Risos)

Ah, não vale! Essa é difícil, foram muitas (risos), mas com certeza a caipirinha de maracujá na praia de Búzios, no lindo bar à beira mar do Brothers Groove, marcou bastante.

Foto: Divulgação

Você acha que o público brasileiro gosta mais quando você canta mais sexy ou aquele vocal forte e poderoso?

Eu acho que eles amam ambos. O público gosta dos contrastes.

Você está prestes a terminar seu novo álbum, certo? Estamos todos curiosos, e eu preciso que você conte mais sobre ele aqui na Phouse!

Meu álbum está saindo do forno já há algum tempo, e estou muito animada, claro, mas muito nervosa ao mesmo tempo. O que vocês podem esperar desse novo trabalho sou eu, em diferentes perspectivas. Adianto aqui que o álbum será dividido em três partes, com os três EPs. Será uma verdadeira jornada. Não posso revelar mais agora, mas tudo o que posso dizer é para esperar profundidade, vocais, emoções, força total e crocância (risos).

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Incluirá colaborações? Algum artista brasileiro?

Sim, com certeza. Posso adiantar que Mumbaata e Jean Bacarreza estarão nesse álbum. Também alguns artistas egípcios.

Você tem uma turnê brasileira confirmada para outubro. O que vem por aí?

Primeiro de tudo, mal posso esperar para voltar! Estou com um novo show e novos elementos ao vivo. Iremos nos apresentar em locais inéditos onde pretendo mostrar materiais em primeira mão para o público brasileiro curtir e se divertir muito comigo!

* Ashibah está de volta ao Brasil nesta semana, onde apresentará algumas de suas novas faixas. Veja as datas abaixo!

Ashibah
Arte: Divulgação

* Nazen Carneiro é colaborador da Phouse.

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Entrevista

Sócia do Caos, Eli Iwasa fala sobre curadoria, cena e sonho realizado

Celebrando a diversidade, casa recebe Modeselektor, Zegon e Mau Mau neste final de semana

Rodrigo Airaf

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Caos Club
Eli Iwasa. Foto: Divulgação
* Edição e revisão: Flávio Lerner

É em um galpão industrial completamente reformado em Campinas que acontece uma vastidão de apresentações antes pouquíssimo prováveis de rolar na região. Desde sua inauguração, em dezembro, abrindo no máximo duas vezes por mês e rolando por longas horas, o Caos reverberou uma jornada sonora das mais recompensadoras, trazendo desde nomes majestosos como Laurent GarnierCarl CraigChris LiebingSpeedy J Marco Carola, até nomes de grande destaque na atualidade, como Nina KravizReconditeANNA e Nastia. Por falar em artistas imponentes, foi lá a apresentação única da alemã Ellen Allien no Brasil — fato que vai se repetir com o gigante Dixon, em outubro.

Tendo como filosofia a diversidade tanto de público quanto de som — você pode encontrar numa mesma noite tanto a disco music de Eric Duncan quanto o techno pulsante de Tijana T, por exemplo —, há projetos como a Wolf, voltada ao público LGBTQ+, e a Groove Urbano, que fomenta o hip hop, ambos com histórico de eventos no Club 88 (do mesmo grupo que criou o Caos). Por esses eventos passam expoentes fora do circuito usual, entre eles Linn da QuebradaEmicida e Gabriel o Pensador.

Voltando aos beats eletrônicos, até mesmo Fisher, febre mundial da cena tech house mais comercial, apresentou-se no club na última semana, em uma noite explosiva em parceria com a festa paulistana Michael Deep.

Caos
Caos, em sua inauguração com Carl Craig, em dezembro de 2017. (Foto: Bill Ranier/Divulgação)

A próxima loucura que o Caos vai aprontar está logo aí, na madrugada de sexta para sábado: um after com ModeselektorZegon e Mau Mau, a partir das 04h. Pode ser maluco para alguns unir o poderoso e eclético duo alemão a um difusor da bass music e um pioneiro do techno brasileiro na mesma noite (tudo isso logo depois de uma festa de hip hop), mas não é maluquice para o Caos — e certamente não para sua sócia-fundadora Eli Iwasa.

É com ela que conversamos agora, para que nos ajude a entender o porquê de o Caos ter se tornado um projeto tão único e tão importante para o interior de SP em menos de um ano, além de explorar um pouco a proposta da casa através de sua visão e experiência de duas décadas no cenário eletrônico.

Caos
Eli Iwasa na cabine do Caos, que possui um amplo espaço ao redor do DJ. (Foto: Reprodução/Facebook)

Eli, o lineup do after que vai rolar no próximo sábado é curioso, e parece ser bem especial: Zegon, que é conhecido na cena bass; Modeselektor, duo gringo muito querido por quebrar barreiras de estilos musicais; e por fim, Mau Mau, deuso do techno que vem com um set de clássicos. Como e por que o lineup foi montado assim?

O Modeselektor é conhecido por não se prender a rótulos, por sua imprevisibilidade, então por que também não fazer algo fora do óbvio? Tanto o Zegon quanto o Mau Mau são artistas com uma baita bagagem musical, e pedi para cada um deles que fizesse um set especial para que pudessem mostrar um pouco a mais de suas próprias histórias.

O Zegon, além de ter sido DJ do Planet Hemp, faz parte do N.A.S.A. e do Tropkillaz, então pode ir do hip hop ao eletrônico, e tudo mais no meio, com a maior facilidade. Quando fechei o Modeselektor, a primeira pessoa que pensei em chamar para fechar a festa foi o Mau, fazendo um set de clássicos. Ele, que ajudou a construir tudo isso que temos agora, que tem um papel fundamental no desenvolvimento da música eletrônica no Brasil, e que também é figura central da minha própria história na cena, não poderia ficar de fora.

Em sua comunicação, o Caos deixa claros seus princípios de inclusão, posicionando-se contra preconceitos e barreiras sociais, convergindo diversos públicos. Como isso se traduz nos lineups da casa?

Quando começamos a pensar no que gostaríamos no Caos, resgatamos a ideia de como eram os clubs importantes em nossa formação, como o Lov.e e o Kraft. Uma das coisas mais significativas daquela época era justamente a mistura de públicos: o “playboy” e o “mano”, as “bees”, as trans, a turma do som e os que caíam de paraquedas, encarando seus próprios preconceitos e aprendendo na democracia que uma pista de dança deveria ser.

Aqui nem todo lugar é assim. O que parece absurdo pra muita gente é uma realidade na região. E queríamos reunir os amigos e clientes de universos backgrounds diferentes num só lugar. É um processo de aprendizado constante e um desafio também, porque Campinas ainda é uma cidade bem conservadora em muitos sentidos. 

Caos
“Sem sexismo, sem racismo, sem capacitismo, sem ageísmo, sem homofobia, sem gordofobia, sem transfobia, sem ódio”, diz banner instalado perto da porta. (Foto: Reprodução/Facebook)

Durante a fase embrionária do projeto, já havia a expectativa de reconhecimento em tão pouco tempo?

Nunca! Nem nos meus sonhos mais loucos (risos)!

O que tem por trás do trabalho de curadoria que o público em geral não vê?

Um grande desafio é alinhar a visão de uma casa noturna com o momento do mercado e com o que o seu público espera, e não deixar seu propósito se perder diante de todas as mudanças que a cena e seu próprio club sofrem ao longo dos anos. Lidamos com muita coisa no Brasil: alta do dólar, uma carga tributária gigantesca, a falta de apoio dos órgãos oficiais, e a toda hora precisamos nos lembrar por que escolhemos ter um club, pois nem sempre é fácil.

Tem muita festa acontecendo, a concorrência é grande e isso faz com que muitas agências de talentos acabem pedindo ofertas inviáveis ao produtor brasileiro. Ao mesmo tempo, estamos sofrendo com esse momento econômico e político no país, o que refletiu no ticket médio e na frequência com que as pessoas saem — muita gente gasta com cautela e escolhe uma festa no mês em vez de sair todas as semanas.

Do nosso lado, existe um cuidado ainda maior na hora de investir em um artista internacional, o esforço de não bater datas com outros eventos, e tudo isso reflete na curadoria: ora você se arrisca mais artisticamente, ora você toma decisões de resultados mais certeiros. 

A agência Muto é responsável pela comunicação audiovisual do Caos, trazendo vídeos conceituais a cada edição.

Então pra escolher os artistas, nem sempre a paixão fala mais alto?

Nossas decisões são bem emocionais. Pensamos muito na experiência e nos momentos que podemos proporcionar através dos clubs. Não é exatamente a maneira certa de gerir um negócio (risos), mas é a maneira que é certa para nós. Sempre fomos assim, muito intuitivos, com a paixão falando alto.

A experiência também permite que tomemos decisões certas mesmo sem fazer muitas contas, porque com o tempo você aprende o que funciona e o que não, quais dias são melhores para seu club… Muito importante falar também que manter-se atualizado com o que acontece na cena é fundamental; o público se renova constante e rapidamente, assim como estilos musicais e artistas.

Imagino que várias datas do Caos foram lindas e que seja difícil fazer uma escolha, mas em qual delas você realmente sentiu uma sinergia perfeita entre o lineup, a resposta do público, a conexão entre os artistas, e pensou: “o resultado está literalmente do jeito que imaginei”?

A inauguração do Caos fez muita gente chorar entre toda a equipe e público, porque sentimos que algo muito significativo estava acontecendo ali. Já sobre a noite com Laurent Garnier, pessoalmente, queria há anos booká-lo para algum dos meus clubs em Campinas, mas nunca sentia que era a hora. Quando abrimos, sabia que estávamos prontos para recebê-lo aqui, da maneira que ele merece.

Eu nunca vou esquecer o momento em que o Laurent entrou na cabine e o Toca, um dos meus sócios, veio até mim, super emocionado, porque só a gente sabe o tanto de dedicação que foi preciso para chegarmos ali e abrirmos a casa. A ficha caiu que tudo que vivemos e aprendemos nos trouxeram até aquele momento, com todos nós colocando nosso potencial em prática para fazer o Caos ser uma realidade.

Caos
O Caos é realmente para todos… Até mesmo pra Paçoca, filha da Eli Iwasa. (Foto: Reprodução/Facebook)

Como você enxerga a noite de Campinas em relação ao cenário nacional atualmente?

Vejo que o Caos e o Club 88, junto com o Laroc, que são nossos amigos e fazem um trabalho incrível, estão realmente fomentando a cena da região e a transformando em um destino para quem gosta de música eletrônica. Sempre existiu o fluxo de público de Campinas para São Paulo, e hoje, finalmente, existe também o fluxo de São Paulo, cidades ao redor, Sul de Minas para esses clubs.

Vale lembrar que esse trabalho não é de hoje. O interior de SP sempre contou com clubs muitos importantes, como Kraft e Anzu, além de festivais como Kaballah, Tribe e XXXPERIENCE, que realizam seus eventos por aqui.

Pra fechar, o que é um bom curador pra você?

Um bom curador é aquele capaz de traduzir a visão de um club ou evento através da música, dos artistas e das experiências que compartilha e proporciona.

Rodrigo Airaf é colaborador eventual da Phouse.

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