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Entrevista

Para curador, Tribaltech vai se consolidar como “evento-postal” de Curitiba

Jonas Fachi

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Entrevista Tribaltech Escape

Mohamad Hajar Neto, responsável pelo marketing e um dos curadores do Tribaltech Escape, fala sobre as expectativas desta edição e o futuro do festival.

* Com colaboração de Flávio Lerner 
* Foto por Soney Souza

Tribaltech Escape, o fim da trilogia que marcou época em nossa cena eletrônica nacional, está prestes a chegar: neste sábado, Curitiba recebe nova edição do festival mais tradicional do Sul do país. Diante de um momento em que o Brasil abraça alguns dos maiores eventos musicais do planeta, o “TT” caminha de forma distinta, por ser realizado por pessoas que têm profundo conhecimento do campo em que estão inseridas, captando ideias, tendências e aspirações por novidades, de maneira bem particular.

Assim, o encerramento de um ciclo em um novo local também simboliza o nascimento de outro conceito. No coração da cidade, um complexo industrial abandonado há mais de dez anos ganha vida novamente, através de música, interação social e cultura. Estamos diante de uma nova era. Por isso, convidamos o responsável pelo marketing e um dos curadores do evento, Mohamad Hajar Neto, para uma entrevista que busca compreender todos os aspectos que envolvem sua realização — desde filosofia musical, identidade e visão para o futuro, ele nos cedeu detalhes imprescindíveis para sabermos tudo o que vem por aí.

Como estão os últimos preparativos para o festival?

Na semana retrasada, quase toda a parte de reforma do local foi concluída, e na semana passada entramos em um ritmo acelerado de produção do evento em si. Cada dia que passa, o lugar parece menos com um complexo abandonado e mais com um festival multicultural.

Quais foram as maiores dificuldades em relação à adaptação do novo local, e como a edição Escape se diferencia das outras duas anteriores da trilogia?

Acho que a maior dificuldade foi em comunicar ao público o quão grande e incrível é esse lugar, pois ele em si é muito mais apropriado para a produção de um evento do que uma fazenda. Tanto pela localização urbana — mais fácil de agendar entregas, fazer reuniões, voltar pra casa com tempo pra descansar — como pela estrutura já existente. No entanto, com os vídeos e fotos que passamos a divulgar após o trabalho inicial de limpeza, o público abraçou a causa, e acredito que tudo esteja caminhando para uma edição épica.

Quanto à trilogia, bem, tudo sempre foi tratado pela comunicação oficial do festival de maneira abstrata, deixando para que cada um interprete à sua maneira. Como entrei para o time só no último capítulo, posso te dar a minha visão: acredito que depois de declarar seu fim em 2012, o Tribaltech só voltaria se fosse para assumir uma nova identidade, com respeito à história construída, mas de olho no futuro. Se pensarmos bem, do Reborn ao Escape foi contada uma história de importantes transições, com duras lições a serem aprendidas no capítulo do meio. Sendo assim, vejo esta edição como a “redenção” após tudo o que assolou o TT durante a Evolution, com a produção encontrando um formato adequado ao que ela acredita e o público sendo recompensado com um festival novo e com bastante personalidade.

Entrevista Tribaltech Escape

Muitas vezes o público não tem dimensão de tudo que engloba a realização de um evento de grande porte. São quantas pessoas envolvidas direta e indiretamente para tudo funcionar devidamente?

Impossível eu precisar um número sem consultar os responsáveis pela produção, mas dando uma estimativa: desde que o local foi liberado para a realização do evento, há uns quatro meses, são dezenas de pessoas envolvidas diariamente, desde os técnicos e pedreiros que trabalharam na reforma até a equipe de curadoria e planejamento. Agora, no último mês, começou o trabalho intensivo de montagem da festa em si — mais dezenas de pessoas trabalhando com decoração, montagem dos palcos, divulgação… Nossa equipe de escritório também deu uma inflada nos últimos dias, pessoas temporárias no marketing, no financeiro, na logística. Nesta semana, penso que passaremos tranquilamente da casa da centena, quando começam a montar os soundsystems, bares, as decorações começam a serem aplicadas em seus devidos lugares… Isso sem contar os quase cem artistas, que se pode dizer que estão a todo o momento trabalhando inconscientemente na construção da trilha sonora que dará vida a tudo isso.

Um dos destaques desta edição é a volta do palco Organic Beat. Qual a importância de se ter, num festival de música eletrônica, um palco que fuja da proposta de música de pista?

Para o conceito do Tribaltech, que tem como característica mais marcante a sua multiculturalidade, ele é essencial. Ele funciona dos dois lados: quebra o preconceito do clubber radical, apresentando a ele um som orgânico mais próximo do que ele pode gostar, e quebra o preconceito do cara de fora, que de repente passa a aceitar a antiga rave como “festival”, comparece para ver uma banda headliner e acaba tendo um contato bem positivo com a cultura eletrônica.

Claro que isso é um processo que vem de anos: lá em 2009, em sua primeira aparição, eu diria que a aceitação/rejeição foi de 50/50. Nos dois anos seguintes a festa enfrentou frio e chuva, o que o tornou mais deslocado, tanto que o próprio Criolo não atraiu mais do que algumas pessoas para seu show no TT de 2011. Desta vez, a aceitação foi de uns 90%: tanto o Criolo está mais famoso, como o público mais maduro. Vejo muita gente empolgada para o que vai rolar lá e acho que desta vez ele vai ser um dos principais espaços de todo o evento.

“A revitalização de um espaço urbano marginalizado é mais a cara do urbanóide Tribaltech do que a zona rural.

Parece existir uma tendência mundial e que vem dando muito certo na Europa: a busca por locais inusitados, em espaços que um dia foram parte ativa de uma cidade. Dar vida a um extinto complexo industrial tem tudo a ver com as raízes da música eletrônica, certo?

Sem dúvidas. Do nosso lado do oceano, o techno surgiu nos galpões abandonados da falida cidade de Detroit, enquanto que na Europa foram os resquícios da Berlim oriental que deram vida a uma cena semelhante. Aí eu puxo aqui uma brincadeira que eu uso inclusive para explicar o conceito do detroitbr: como no Brasil tudo acontece com algumas décadas de atraso, agora é a hora de nós vivermos uma revolução cultural semelhante. Vivemos tempos de crise, não só financeira, mas de identidade: o 7×1, vindo de maneira simbólica no que deveria ser o clímax do esporte, vem acontecendo diariamente em vários aspectos da nossa vida. Toda a corrupção que está sendo revelada, todas as dificuldades que estamos passando em nosso dia a dia em comparação à década passada… Tudo isso está deixando o brasileiro inquieto, formando um ambiente muito favorável à arte, pois ela é a expressão da sentimentos que palavras já não conseguem externalizar de maneira adequada.

Aí vem o lado bom dos tempos difíceis: a gente se vira com o que tem e descobre que isso é muitas vezes melhor do que o que vinha de fora e era venerado. Vejo artistas como Alok e Vintage Culture tocando em aniversários de cidades do interior e festivais do mainstream global e isso é ótimo, porque é a música eletrônica comercial genuinamente brasileira. Não é meu gosto pessoal, mas sinceramente, tem muito mais a ver com o nosso povo do que Guetta e Calvin Harris.

Voltando agora para o assunto festival: funciona da mesma maneira, porque convenhamos: montar um evento como o TT é uma verdadeira arte. Nós, como público, sempre pensamos na fazenda pela inércia, porque sempre foi lá, mas participando da produção desta edição, posso dizer com tranquilidade que a revitalização de um espaço urbano marginalizado é mais a cara do urbanóide Tribaltech do que a zona rural.

+ CLIQUE AQUI para ler mais sobre o Tribaltech Escape

No lineup, existem opções para gostos variados, mas ainda seguindo uma linha de conceito que sempre existiu. Quem você destaca como os artistas mais aguardados pelo público em cada palco?

A linha de conceito é muito importante. Em vez de pensar somente nos nomes estampados no flyer como se estivéssemos preenchendo um álbum de figurinhas, optamos por fazer composições coesas, misturando o que o público quer com o que acreditamos que ele possa passar a querer depois de ver ao vivo — do clássico ao novo, do nacional ao internacional. Parece bobagem, mas a curadoria é uma das partes mais difíceis, exatamente pela infinidade de fatores que podem influenciar na escolha de artistas ou horários, muitas vezes sabotando toda uma experiência que estava sendo planejada.

Partindo para os nomes: no Tribaltech Stage, acho que temos Octave One, Stephan Bodzin e Kolombo sendo grandes medalhões para diferentes camadas de “aprofundamento musical”, digamos assim.

No Timetech, temos uma verdadeira “seleção da Alemanha”, da qual é difícil destacar um, mas acredito que a força estará com as mulheres: Nastia é a mais conhecida do público nacional, enquanto Margaret Dygas é a que os mais ligados já sabem que vai arrebentar e angariar uma boa base de novos adoradores. Daniel Bell talvez não agrade às massas, mas é sem dúvidas o cara mais experiente de todo o lineup — vai ministrar a famosa “aula de história” no rolê.

“Em vez de pensar somente nos nomes estampados no flyer, como se estivéssemos preenchendo um álbum de figurinhas, optamos por fazer composições coesas, misturando o que o público quer com o que acreditamos que ele possa passar a querer.”

No Organic Beat, Criolo é o grande ídolo de geral, Bixiga 70 conversa com a galera mais conceitual, e Pedra Branca é conhecido no mundo do trance, mas quem ver vai se surpreender com a beleza da apresentação deles. No final, os DJs de bass music vão dar mais cara de “pista de dança”, sem descontextualizar o stage.

O mundo do psytrance é algo que eu não estudo mais com o afinco de antes, mas no lineup do Progressive Stage sei que Dickster e Vibe Tribe são as “lendas”, enquanto Major7 e Reality Test se comunicam bem com a nova geração. Vegas e Element são dois DJs nacionais que vêm com peso de gringo, por tudo o que representam pra cena hoje.

O Burn Energy Stage, onde tocarei com meu projeto Kultra no começo da festa, é a casa de alguns dos principais DJs de techno e house do país. Imagino que a apresentação de BLANCAh e o B2B entre Fabø e HNQO venham a ser os pontos altos por lá. Tive a oportunidade de ouvir o álbum que o Henrique [HNQO] vai lançar pela D.O.C., e olha, está muito bom!

No Supercool, além de Ney Faustini — um dos melhores DJs brasileiros em atividade —, acredito que o Joutro Mundo venha a surpreender, exatamente por ter uma musicalidade mais “solta” e diferente do que o festival vai apresentar no resto dos palcos.

Para você, que acompanhou pessoalmente o festival desde o início na fazenda, e agora ajuda no encerramento de um ciclo na cena eletrônica de Curitiba, qual o sentimento?

A minha relação com o TT é muito íntima. No começo, o festival acontecia em agosto, quando eu comemorava meu aniversário — era sempre uma rave especial, independentemente do lineup. Conforme ele abraçava temáticas multiculturais e assumia posturas visionárias, fui me identificando cada vez mais, até que em 2010 fiz algo que viria a selar minha relação com a marca.

Foi naquele ano que entrei pra equipe do Psicodelia.org e, coincidentemente, foi o ano de uma das piores edições, em que pouca coisa deu certo. Fizemos um podcast pós-festa pontuando cada aspecto que falhou, mas fazendo isso sem faltar com o respeito, desejando que o ano seguinte fosse diferente. Alguns meses depois, estava no aeroporto embarcando para o Rock in Rio, até que tropecei em Jeje, Dudu e Fernanda [então produtores do TT], que me reconheceram como “o cara do Psicodelia”, e vieram conversar comigo. No começo fiquei preocupado e acuado, mas para minha surpresa, eles não estavam ali pra me repreender: elogiaram a nossa postura, assumiram os erros e nos convidaram para ir ao escritório na outra semana para conversar.

Dali em diante, eu percebi que por mais que o mundo da noite e da música seja repleto de gente em busca de dinheiro, poder e outras ilusões fortalecedoras de ego, ainda existem pessoas trabalhando e dedicando as próprias vidas pela arte, pela sociedade, pelo desenvolvimento do mercado cultural no nosso país.

“O novo lugar vai revolucionar como Curitiba — e por extensão o resto do país — se relaciona com a música eletrônica.”

Por mais que fosse um desejo, nunca tive obsessão em trabalhar na T2 [Eventos, produtora do TT]; sempre os vi como referência para tudo o que eu fazia de forma independente. No entanto, não tem como fugir de uma das principais leis da vida: se você trabalha duro, mergulha de corpo e alma e se dedica no que faz, inevitavelmente você se aproxima dos seus semelhantes e as recompensas chegam. Há dez anos eu pisei na primeira rave, e há cinco larguei um emprego estável e que pagava muito bem para me arriscar profissionalmente na cena. Depois de três longos e duros anos vivendo de freelas e ajudas familiares, fui convidado para parte do TT e do Club Vibe, e finalmente tenho estabilidade trabalhando na área que escolhi. O sentimento é de felicidade e gratidão, tanto pela compensação de inúmeras apostas e perrengues do passado, como por todo o futuro que posso ajudar a escrever daqui pra frente.

Com esta edição, a trilogia de resgate do Tribaltech se encerra. O que vem depois?

Cara, é tanta possibilidade que não sei nem por onde começar. Em termos de Tribaltech, confesso que não sei. Como o lugar não está sendo reformado pensando apenas em uma edição, tenho certeza que teremos muitas TTs pela frente, com novas temáticas conceituais a serem exploradas. Mas em termos de cena, penso que o novo lugar vai revolucionar como Curitiba — e por extensão o resto do país — se relaciona com a música eletrônica. Vamos colocar mais um tijolo na gigante construção que vem sendo feita pelos artistas, superclubs, agências, festas de rua, festivais estrangeiros que vieram com propostas sérias (aqui vale separar o joio do trigo, pois alguns vieram somente para sugar e atrapalhar o desenvolvimento local), rumo à consolidação da cultura eletrônica como um dos principais movimentos do nosso tempo.

A fazenda tem todo o lance do open air, do contato com a natureza e tudo mais, mas vale lembrar que uma das razões para as raves do passado terem acontecido em lugares afastados era a necessidade de se esconder, tanto de fiscalizações intransigentes como da sociedade, ainda imatura para compreender os eventos — quando eu comecei a ir, muitos amigos tinham que mentir aos pais que estavam indo em churrascos de faculdade. Agora, estamos no coração de uma capital, com aval do poder público e apoio de muita gente. Por isso, na minha previsão otimista, o que vem por aí é a transformação do Tribaltech em um dos “eventos-postais” de Curitiba e a retomada da cidade como um dos polos da cena eletrônica nacional, fortalecendo ainda mais o país como unidade, em sinergia com tudo de sólido que vem acontecendo em Santa Catarina, São Paulo e outros Estados.

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Opinião

Nos passos de Boratto? Remix de Cattaneo indica que BLANCAh pode explodir globalmente

Jonas Fachi

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BLANCAh Hernan Cattaneo
O remix do maestro argentino com o israelense Audio Junkies chega em fevereiro, em coletânea do sexto aniversário do selo de BLANCAh
* Com a colaboração de Flávio Lerner

Em 2006, Hernan Cattaneo vivia o auge de sua carreira em meio à apresentação de um dos discos mais aguardados daquele ano. Intitulado Sequential pela consagrada gravadora Renaissance, o CD continha faixas de artistas como Bushwacka, 16 Bit Lolitas e Way Out West. Entretanto, após o lançamento, outro nome acabou chamando atenção de todos. Com uma irreverente e distinta forma de arranjar elementos somados a timbres ainda não vistos na cena, sua faixa “Arquipélago” foi colocada de cara na abertura da compilação.

Era o tipo sonoro que colocaria todo o resto da construção musical sob ligação. Tratava-se do primeiro single do ainda desconhecido produtor brasileiro que mais tarde se transformaria em um dos mais respeitados do mundo. Gui Boratto teve um dos primeiros reconhecimentos através de um artista do primeiro escalão, pelos ouvidos afiados do DJ argentino. Fazer parte da compilação automaticamente colocou Gui diante de um público super atento e colecionador, um primeiro passo fundamental em sua carreira.

Doze anos depois, Cattaneo continua sua jornada artística única, porém agora carregando a frente de seu nome o titulo de “Maestro” das pistas de dança de todo mundo. Uma vez mais, parece que o ícone sul-americano tem seus ouvidos voltados para um artista brasileiro que vem despontando internacionalmente — não apenas apoiando suas produções, mas agora também estabelecendo uma parceria de estúdio que poucas vezes abriu em 30 anos de carreira.

Imagem do DJ argentino em seu estúdio em Buenos Aires cercado por sua coleção de discos (Foto: LA NACION/Juan Pablo Soler)

Ontem, a catarinense BLANCAh fez o anúncio oficial de que Hernan — em conjunto do talentosíssimo produtor israelense Audio Junkies — tinha remixado “Talus”, faixa que fez parte de seu aclamado EP Osso, lançado em agosto de 2017. Em postagem no Facebook, a artista escreveu:

“A alguns meses atrás convidei Hernan Cattaneo para remixar uma música minha e pra minha alegria ele aceitou no ato.
Depois de algumas sessões de estúdio com seu parceiro de produção Audio Junkies os dois me entregaram esse remix lindo da minha música ‘Talus’. Acho que eu nunca encontrarei as palavras certas que definam este exato momento da minha carreira, a felicidade que sinto por ter o suporte de um artista como Hernan, e muito menos o que senti ao ver o Mestre tocando o remix que ele fez pra mim no Templo Warung Beach Club.
Muchas gracias desde el fondo de mi corazón Hernan Cattaneo, Thank you so much Audio Junkies”.

+ Hernan Cattaneo faz história com o primeiro “All Night Long” do Warung

“Talus” irá ser lançada apenas em vinil, o que coloca ainda mais profundidade ao novo EP pela gravadora que BLANCAh tem como sua casa, a Steyoyoke. O disco — que chega no dia 15 de fevereiro — se trata da sexta compilação anual de aniversário do selo, que traz remixes inéditos de faixas lançadas pelos seus artistas durante a temporada. Além da música da brasileira com remix de Hernan e Audio Junkies, compõem o EP outros três trabalhos que foram destaque em 2017, também recebendo novas interpretações: “Overflow”, de Nick Devon, em remix de Simon Doty e Nairo; “Paramour”, do Soul Button, com remix de Martin Roth; e “Syndicate”, de Clawz Sg e Nick Devon, remixado por Township Rebellion (você pode ouvir uma prévia de cada música aqui).

“Recebi a incumbência de encontrar alguém pra remixar uma música minha pra esse projeto [compilação da Steyoyoke]. E aí por acaso eu tava na Argentina e num primeiro momento pensei em fazer uma conexão com artistas brasileiros, pra ver se alguém se interessava em fazer um remix. Contatei alguns, que não se interessaram em fazer parte do projeto, e aí eu pensei: quer saber? Vou sonhar um pouco mais alto. Vai que o Hernan aceita, já que ele andou dando suporte pra algumas das minhas músicas e já tinha declarado abertamente que era meu fã”, contou a artista, agora em contato com a Phouse. “Criei coragem, fui pro tudo ou nada — porque o ‘não’ eu já tinha — e mandei um e-mail pra ele, explicando a proposta. Em menos de 24 horas ele respondeu dizendo que seria um prazer. Eu fiquei mega feliz, quase morri, pensei que ele nem ia responder [risos]!”

Hernan Cattaneo tocando o remix de “Talus” no Warung

Alcançar a importância global que Gui conseguiu desde “Arquipélago” é algo difícil de fazer, porém, com a benção de um dos maiores DJs de todos os tempos e a atenção da enorme quantidade de fãs que o seguem ao redor do planeta, BLANCAh pode estar dando mais um grande passo em sua carreira para se tornar um artista global. E mais: em um nível talvez até mais importante do que participar de uma das famosas compilações do Maestro, afinal, poucos produtores até hoje tiveram uma faixa remixada por Hernan. No Brasil, é algo inédito.

A artista tem muito a comemorar, pois seu “voo” está cada vez mais supremo. Até onde ela vai chegar? Talvez o particular interesse de Hernan por seu trabalho diga algo sobre. Assim como com o Gui em 2006, o argentino percebeu que se trata de uma identidade musical nova, própria e sem seguir tendências — premissas básicas que ele carrega consigo.

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Vale lembrar — como já publicado na Phouse —  que a Steyoyoke está em tour inédita pelo Brasil nesses dias. Depois de passar pelo Terraza Floripa no último final de semana, o showcase da gravadora alemã chega nesta sexta ao D-EDGE, e encerra no sábado no clube Chakra, em São Bento, Santa Catarina. No mesmo dia, o Maestro, que cumpre tour pela América do Sul, também estará no Brasil, estreando no Laroc Club. A promessa é de longset.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Opinião

20 artistas do mainstream nacional para ficar de olho em 2018

Luckas Wagg

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20 artistas 2018
Liu é uma das nossas grandes apostas para 2018. (Foto: Yohan Augusto)
Uma seleção de nomes que têm tudo pra explodir no cenário eletrônico brasileiro nesta temporada

O ano está apenas começando, mas já dá pra trazer aqueles listões que todo mundo curte. Então selecionamos aqui 20 artistas da cena mais mainstream da música eletrônica que valem ficar de olho pra esta temporada.

São nomes que não necessariamente estão começando ou são promessas; parte deles inclusive teve um 2017 já de bastante destaque. Porém, são DJs em quem acreditamos que, justamente por já terem revelado bastante potencial em uma amostra recente, têm uma margem de crescimento bem alta a curto prazo, e devem vir agora com tudo pra emplacar definitivamente no cenário nacional.

Longe de ser qualquer tipo de ranking, a seleção abaixo é apenas um acervo de alguns dos muitos artistas que entendemos que chamaram a atenção pela sua música ou apresentação em eventos que marcamos presença em 2017.

Liu

20 artistas 2018

Longe de ser mais uma promessa, Cristian Liu já pode — e deve — ser considerado como uma das novas e grandes estrelas da dance music nacional. Apadrinhado por ninguém menos que Alok, o DJ/produtor de traços asiáticos ficou conhecido por sua track “Don’t Look Back”, e desde então vem fazendo shows pelos quatro cantos do país. Seu lançamento mais recente é “Coastline”, em parceria com o garoto prodígio WOAK. A faixa já atingiu mais de 3 milhões de streams entre Spotify e YouTube.

Kiko Franco

Com remixes oficiais para grandes artistas como ZHU e J Balvin, Kiko Franco ganhou notoriedade no mercado nacional e a cada dia vem surpreendendo mais e mais. Em 2016, o DJ ficou conhecido pelo seu remix com Kubski para “Panda”, do rapper americano Desiigner. A faixa caiu no gosto de gigantes do cenário, como EDX, Vintage Culture e muitos outros. Seu lançamento mais recente é um remix para a faixa do 1Kilo, “Deixe-Me Ir”, em parceria com WOAK.

SELVA

Com certeza você já ouviu alguma músicas desses caras. Só para refrescar sua memória, eles são autores dos sucessos “Why Don’t U Love” — em parceria com Vintage Culture e Lazy Bear — e “Make Me Wanna”, com Zerky. Além de DJs e produtores, Pelu e Brian Cohen também são instrumentistas, e têm como destaque em suas performances um live de bateria e guitarra. O mais recente lançamento da dupla é “O Amor Existe”.

Öwnboss

Formado por Mario Camargo e Eduardo Zaniolo, o projeto Öwnboss vem ganhando notoriedade no cenário da música eletrônica desde os seus primeiros lançamentos — “Stressed Out” e “Take Me Out”, com Bruno Be. Em 2017, o grande destaque da dupla foi um rework para a faixa “Intro”, de The xx, com ninguém menos que Vintage Culture.

Future Class

Autores de diversas tracks que hoje compõem sets dos principais artistas do cenário nacional, Igor Dantas e Allan Deckii vêm chamando a nossa atenção há muito tempo. Com um 2017 super agitado, os garotos se apresentaram nos principais clubs e festivais do país, como Kaballah, Lollapalooza, Só Track Boa, Green Valley e Laroc. O lançamento mais recente da dupla é “Shooting Stars”, com Vintage Culture.

RADIØMATIK

O projeto de música eletrônica que marca a união do DJ/produtor Diego Moura com o músico Mario Veloso é a mais nova bola da vez. Com pouco tempo de formação, o RADIØMATIK já lançou duas faixas e tem agenda cheia pelos quatro cantos do Brasil. Seu mais recente lançamento é “Too Close”, que ganhou destaque na playlist MINT, do Spotify.

Dubdogz

Os irmão gêmeos Marcos e Lucas Schmidt, que juntos formam o projeto Dubdogz, sem dúvidas não poderiam ficar de fora desta lista. Os paulistas foram grande destaque em festivais como Tomorrowland, XXXPERIENCE e Electric Zoo Brasil — para o qual, inclusive, compuseram o tema oficial de sua última edição, “Sunrise”.

KVSH

Autor do grande sucesso do verão “Sede Pra Te Ver”, KVSH também é presença obrigatória por aqui. Produtor de mão cheia, Luciano Ferreira tem conquistado o público dos quatro cantos do país. Seu lançamento mais recente é “Eu Não Valho Nada”, com a DJ Samhara.

Evokings

Frutos da escola de produção Make Music Now, os meninos do Evokings são mais do que uma promessa. Em 2017 emplacaram o hit “Gravity” com Cat Dealers, e em seguida “My Way”, que já conta com mais de um milhão de reproduções no Spotify.

Breaking Beattz

Formado por Lauro Viotti e Rafael Zocrato, o duo Breaking Beattz despontou no Beatport em 2017 com uma de suas tracks entre as mais vendidas do ano. A dupla é dona de diversas faixas que invadiram as pistas dos principais clubs e festivais do Brasil no último ano. Entre elas, “Perfect Exceeder”, com Gabriel Boni, “Let The Bass Go”, com FractaLL, e “Get Low”, com Sharam Jey e Chemical Surf; com o duo brasileiro, também tiveram seu mais recente som, “Don’t Stop”.

RICCI

Um nome que dispensa comentários, Gabriel Ricci é uma das nossas grandes apostas para este ano.
Dificilmente você não ouviu diversas músicas desse jovem hitmaker em 2017, que assinou música inclusive pelo selo de Steve Aoki. Entre seus maiores sucessos estão “Lost Generation” e “Later”, além de “Wild Kidz”, com Vintage Culture. Mais recentemente, participou de uma mistura inusitada com o duo Seakret e o rapper Rael, em “Tá Pra Nascer Quem Não Gosta”.

WOAK

De identidade ainda não revelada, WOAK tem apenas 16 anos e já está dando muito o que falar. Só no Spotify o jovem garoto acumula quase um milhão de ouvintes mensais. Entre seus lançamentos, podemos destacar “Coastline”, com Liu, e “Deixe-Me Ir”, com Kiko Franco.

Zebu

De uma maneira bem interessante, Zebu mistura em suas produções  o future bass com sertanejo, samba, funk e outros gêneros nacionais. Sem dúvidas, um dos artistas mais ousados que conhecemos no último ano.

rrotik

Com lançamento por importantes gravadoras como Armada Music, rrotik não poderia ficar de fora da nossa lista. O jovem mineiro tem ganhado a nossa atenção com seus lançamentos de low bass, como “MYNE” e “Talking Bass”.

Joe Kinni

Autor do grande hit “Carioca”, com Jakko e Bianca Chami, Joe Kinni continua mostrando seu lado versátil na produção musical. Em 2017, o artista lançou diversas faixas com pés dentro e fora da música eletrônica. Seu lançamentos mais recentes são “Moça” e “Mensagem de Amor”. Pra quem curte essa nova onda do eletrônico com vocais nacionais, vale muito a pena seguir esse cara.

JØRD

Não foi a toa que o famoso “Jordinha” conquistou uma legião de fãs pelo Brasil. Apadrinhado por ninguém menos que o mestre Felippe Senne, o jovem de Belém do Pará tem sido uma das grandes referências para a nova geração de produtores. Sem muitos comentários, tirem a própria conclusão com aquele “bass” inconfundível do garoto:

Santti

Autor do hit “Sober”, com Cat Dealers, Santti é mais um nome em nossa lista que dispensa comentários. O garoto tem demonstrado ser um grande hitmaker e está entre as nossas descobertas favoritas de 2017. Seu lançamentos mais recentes são “Sunshine”, com Cat Dealers e LOthief, e “Céu Azul”, com Vintage Culture.

LOthief

Produtor de mão cheia, Leandro Souza é outro grande destaque do Low Bass que não poderia faltar nesta lista. Sob o nome de LOthief, o jovem produtor mineiro de 23 anos vem chamando a atenção com suas produções e conquistando diversos fãs Brasil afora. Seu lançamento mais recente é “Sunshine”, com Cat Dealers e Santti.

LIVIT

LIVIT set comemorativo

Coautores do hit “On Fire”, lançado pela Phouse Tracks — e que já conta com mais de um milhão e meio de reproduções no Spotify —, o LIVIT vem sendo destaque em diversas playlists no Spotify. O lançamento mais recente da dupla é “Give Me All You Got”, pela Sony Music.

The Fish House

Uma das melhores surpresas de 2017 foi o hit “Menina”, de Rafa Gontijo com seu primo Breno. Lançada pela Deepink, a música chegou a ser uma das mais tocadas em Minas Gerais. Outro grande lançamento de destaque do projeto de Gotijo foi “Hey Hey Hey”, com Doozie. A faixa foi tocada em diversos festivais por expoentes como Alok.

BÔNUS: SCORSI

Por último, mas não menos importante: SCORSI. Somos suspeitos a falar deste cara (ele é um dos nossos A&R na Phouse Tracks). Porém, fica a dica: FIQUEM BEM DE OLHO!

Luckas Wagg é CEO da Phouse.

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Review

Hernan Cattaneo faz história com o primeiro “All Night Long” do Warung

Jonas Fachi

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Hernan Cattaneo All Night Long
Em seu tradicional set de fim de ano, El Maestro rompeu novas barreiras e se tornou o primeiro artista dos 15 anos de Warung a tocar pela noite inteira
* Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini
* Vídeos por Fernando Hauenstein e Sebastian Tallon

Não existe data mais simbólica do que o dia 28 de dezembro no Warung Beach Club. O dia é reservado e sinônimo do desembarque de Hernan Cattaneo à Praia Brava. É fácil entender o porquê. Devido a sua consistência ao longo dos anos, o maestro argentino se tornou um embaixador da música que ajudou a criar. Aqui, sua ligação se fez por sua “experiência musical” se tratar de nada menos do que a identidade sonora que mais se enquadra com as expectativas do club, se tornando assim uma noite imprescindível para qualquer um que esteja em busca da famosa “mágica do Templo”.

O final de ano é estratégico porque consegue reunir elementos importantes: primeiro pelo verão no Hemisfério Sul ser uma das marcas do beach club. Segundo, pela quantidade de argentinos que estão de férias no litoral catarinense, somando-se aos fãs brasileiros que moram longe e que podem estar presentes. Para finalizar, turistas e público novo buscando conhecimento. Tudo isso forma uma das pistas mais divertidas e democráticas do ano na casa.

Após se apresentar no feriado de Independência do Brasil — data que tem se tornado sua referência também —, Hernan retornava sob expectativas que nunca diminuem. Neste review, como sempre, tentarei desvendar as ideias musicais e sua construção de set a fim de que todos possam ao mesmo tempo relembrar momentos marcantes, mas também entender a proposta musical para a noite. Ainda, buscarei mostrar a importância que ambos, artista e club, têm um para o outro. Veremos que é algo único.

O maior destaque dos meses pré-evento foi o pedido exclusivo de Cattaneo para ter a noite só para si, desde a abertura até o final. Todos sabem que a forma como conduz a pista de dança por longas horas é uma de suas marcas registradas, e ele estaria vindo do embalo de um back to back de espantosas 20 horas com Guy J no Canadá, em um club que mencionarei mais à frente.

Hernan Cattaneo All Night Long

Seu longset no Warung é considerado um clássico, porém para que tantas horas de música sejam bem-sucedidas, deve-se passar fundamentalmente por quão ambientado está o público antes de o artista principal iniciar. Hernan sabe tão bem disso que ele mesmo se propôs ao warmup dessa noite.

Tocar nesse ritmo de abertura é algo que ele adora, e fazia esse modelo de apresentação no início da carreira, quando a música eletrônica mal existia na América do Sul. Ao longo dos anos o Warung proporcionou ótimas aberturas a ele; nomes como Daniel Kuhnen, Leozinho e Danee são constantemente elogiados. Porém, Catta busca sempre ir além, se dispondo a fazer o que ninguém faria, e isso tem um motivo que entenderemos adiante.

Hernan Cattaneo All Night Long

Acertadamente, o club previu a abertura dos portões para as 21h, podendo assim deixar os mais interessados chegarem, se ambientarem e esperá-lo da melhor forma possível. Entretanto, o protocolo imaginado foi quebrado por volta das 21h25, quando ao chegar no club e ver que já havia pessoas a sua espera (cerca de 30), Hernan não hesitou e resolveu antecipar os trabalhos, sendo a primeira boa surpresa da noite.

O sistema de som ainda era tímido; ele propôs uma levada de deep house dançante com BPM bem baixo. Foi recebendo o público aos poucos, como se estivesse tocando na sala de casa. Que honra! Nesse começo, é impossível não destacar duas musicas de duas bandas eletrônicas icônicas. A primeira é “Damage Done” de Moderat, em um remix que não consegui descobrir, mas que seria algo aproximado com o do produtor Silinder. A segunda é nada menos que “Dream On”, do Depeche Mode — daquelas que você lembra pelo vocal inconfundível, em mais um remix não identificado. A partir das 23h, o sistema de som ganha seu devido ganho, e a pista que já estava cheia reage com a primeira euforia da noite. Agora era pra valer! Tocar desde o início é uma atitude que o público do Warung jamais esquecerá por duas razões: era algo que nunca havia ocorrido com um artista em 15 anos, e porque ficou evidente que o título de melhor warmup para o maestro já feito no club só poderia ser dele mesmo.

Hernan Cattaneo All Night Long

Se você está se perguntando se existe um motivo maior para esse pedido e desejo em abrir a própria noite, está correto. Vamos a ele. Existem certos clubs e eventos especiais na extensa carreira do argentino, alguns já extintos, outros ainda em atividade. A Stereo em Montreal, o Woodstock 69 em Amsterdã, a Moonpark e o Clubland (seu club formador) em Buenos Aires, o Cream de Liverpool e o Yellow de Tóquio são alguns dos quais Hernan tem registros de longsets históricos — como o de 12 horas no encerramento do club japonês em 2008.

Nesses “clubs para clubbers profissionais”, como ele costuma falar, criou laços mais profundos do que apenas apresentações marcantes de um DJ internacional para o público local. Porém, quando falamos de Warung, que é um desses lugares onde o frequentador recebe uma graduação musical, parece existir algo que transcende a todos e que honestamente não sei explicar.

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Pode parecer imprudência alguém fazer tamanha afirmação sem ter experimentado experiências musicais com ele nos lugares citados. Porém, olhando através de seu comportamento quando está dissipando o que tem de melhor na pista do Templo, arrisco dizer que em nenhum outro lugar sua música foi e tem sido recebida por um período tão extenso com tanta singularidade. Hernan tem sua figura tão em conformidade com a cabine, que a sensação de todos ao vê-lo ali em cima sob completa sintonia, repetindo os mesmos movimentos corporais e mentais necessários para se colocar músicas em sequência, é de que estamos diante algo mítico. O DJ que vemos no Warung parece ser daquele jeito somente ali.

Toda essa conexão ao longo do tempo gerou um resultado que poucos alcançaram dentro de toda indústria musical eletrônica: ser a figura central da criação de uma comunidade em torno do estilo musical que acredita e propaga desde quando ainda só ouvia discos de bandas de rock progressivo que suas irmãs colocavam para rodar. É claro que no final de tudo estamos tratando de entretenimento, porém com um nível de interação que é capaz de moldar ideias e visões das pessoas que decidem participar, e então colocá-las em união. Esse seu interesse em fazer o algo a mais, em tocar o máximo de tempo possível, é um tipo de realização que não se apaga tão fácil — ao contrário, se perpetua nas lembranças mais profundas dos participantes.

Hernan Cattaneo All Night Long

Considerações feitas, voltamos à música, e ela estava se desenvolvendo com toques viajantes moderados, temas com pequenos recortes emotivos e tribais, tudo bem cadenciado, sem exagero. Após a 01h, tive a sensação de que tínhamos atingido a velocidade de cruzeiro. Em navegação, é comum se falar sobre a relação da velocidade ideal e o perfeito equilíbrio do motor com o casco, ou seja, máximo desempenho aliado a maior economia. Hernan é especialista em estabelecer uma faixa sonora dentro da qual não se força a pista de dança, mas que nela atua naturalmente e em perfeito desempenho. O “ponto de cruzeiro” dessa relação é quando a música inserida pelas mãos do artista é capaz de extrair o máximo de cada individuo, mas sem que eles se desgastem antes do término.

Estava esperando mais alguma faixa para reconhecer, e então ouço uma melodia inconfundível para meus ouvidos. Procuro alguém para compartilhar a emoção de estar ouvindo “Take My Away”, de Fefo e Dario Arcas —  um dos melhores lançamentos da Sudbeat já feitos. Em 2010, ela marcou o décimo lançamento da gravadora de Hernan, recebendo inclusive um remix esplêndido do boss com Soundelixe. A faixa ainda fez parte de sua compilação The Masters Series – Parallel, para a Renaissance no mesmo ano. Novamente, se tratava de um edit que não consegui identificar.

Após isso, a construção musical começa a ganhar sua verdadeira cara, entrando em um tom mais dramático e infernal. Menos elementos, mais intensidade, e claro, as indispensáveis linhas de baixo aterrorizantes cortando e balançando toda a pista. No vídeo abaixo, que capturou momento próximo das 03h, está um daqueles sons que eu provavelmente não esquecerei até encontrar. Analisando o set inteiro, essa faixa seria uma espécie de previsão do que ele iria jogar nas horas que viriam.

Para mim, sempre foi impressionante como Hernan consegue ter amplitude musical dentro do seu estilo particular. Você pode dizer que esse é um dos papéis fundamentais de um DJ, porém conseguir executá-lo sem perder a essência é um dos grandes desafios da atualidade. Seguindo, outra faixa impressionante: “Robot Funk”, com remix de Phuture Phunk, fez todos entrarem em imersão. Essa música nada mais é que um ripping de “On The Run”, da banda Pink Floyd, adicionada a um baixo poderoso, um arranjo de bateria e um kick forte. Trata-se na verdade de um excelente remix, podendo ter sido apresentado pelo produtor Framewerk como tal, mesmo que não pudesse comercializá-lo.

Às 04h, entrou em ação “Strand”, de Stephan Bodzin — uma faixa com efeito progressivo e hipnótico, espécie de ponto de amostragem do que ele estava apresentando. A intensidade aumentava mais do que de costume. Comecei a imaginar que ele estava tocando por um bom tempo no mesmo ritmo para chegar em algo especial. Em meia-hora houve a quebra, não de ritmo, mas de sintonia. “Sirens”, remixada magistralmente por Patrice Bäumel, foi a escolhida para esse momento clássico dos sets de Hernan. Ele cantava sua maravilhosa letra tranquilamente enquanto todos ainda estavam se dando conta de que era um momento de pôr os pés no chão, mas só por uns minutos.

Hernan Cattaneo All Night Long

A partir das 05h, a sonoridade estava reta e nivelada, caracterizada pela maior altitude possível de energia e velocidade rítmica que El Maestro gosta de trabalhar, entregando para a pista de dança a melhor relação entre pessoas, ambiente e música. Sempre comento sobre esse momento do set até as 06h, que mostra o quão bem pensada e elaborada é sua construção. Havia nesse momento alguns aspectos mais obscuros, e sequência sem descanso.

Entramos na fase do amanhecer e era hora de algum clássico. A escolha foi por um que eu aguardava desde quando assisti ao vídeo dele o soltando no club Mamacas, em Atenas 2012. Tratava-se de “Eterna”, de Slam; uma faixa atemporal, produzida em 1991, e que recebeu um remix fantástico de John Digweed e Nick Muir 21 anos depois.

Próximo de chegar à fase da última hora, uma daquelas músicas que parecem já nascer clássicas. Seu vocal emitido como um mantra lembrou-me de um momento especial que tive em 2010, quando quase no mesmo horário, Hernan soltou “Love Stimulation”, de Humate, em remix de Tom Middleton — um momento que guardo até hoje de minha primeira experiência com o maestro. De alguma forma, isso surgiu em minha mente e tudo parecia ter voltado no tempo, reavivado por “Chanjira”, de Stuart King em remix de Mongo. Que momento!

Essa última hora é uma mistura de sentimentos. A já tradicional paradinha das 07h20 foi calculada com um lindo trabalho de um dos melhores produtores argentinos da atualidade: Kevin Di Serna, com “Horizons” — um arranjo limpo de piano, leves baterias e uma mensagem no vocal do break. Depois da calmaria, a volta é novamente cheia de intensidade, o sprint final para esgotar as últimas energias. A finaleira voltou-se novamente para o lado emocional com “Sofia” remixada por Guy Mantzur e, para minha maior surpresa, o encerramento veio com uma música que me fez pôr as mãos no rosto e apreciar sem querer que acabasse.

Eu já perdi as contas de quantas vezes assisti ao filme Inception. Além de elenco e direção brilhantes, ele tem uma das melhores trilhas sonoras da última década. E quando se fala em trilha sonora, hoje ninguém está no nível de Hans Zimmer. Sua composição chamada “Time” para o longa é algo que não se deve colocar em palavras. Felizmente, ela recebeu uma versão à altura para as pistas de dança, por Deeparture. A saudação mútua de agradecimento estava acontecendo junto do sentimento de maratona musical mais do que cumprida.

Hernan Cattaneo All Night Long

Escrevendo este review, pesquisando e relembrando faixas que foram apresentadas, notei que havia outras dezenas de detalhes especiais ainda para serem mencionados. Dar-me conta de que eu poderia simplesmente excluir tudo que tinha escrito e mesmo assim teria outras tantas coisas incríveis para contar, foi como uma cortina que se abriu em minha frente. Até onde vai a dedicação e o interesse de um artista para trazer ao seu público uma narrativa musical tão rica? Minha saída foi aceitar que algumas coisas vão e devem ficar apenas na lembrança.

Em 28 de dezembro, Hernan Cattaneo fez uma espécie de volta para casa, como quando ainda jogava no extinto Clubland de Buenos Aires. Agora, contudo, essa outra casa que ele descobriu e ajudou a formar tem um sentido diferente — afinal, seria como voltar, mas ainda estar jogando em um dos maiores palcos do planeta, um Camp Nou brasileiro, com sua grama (soundsystem) lisa, molhada, e um fundo de campo que parece não ter fim (mar). Seu conjunto musical estava nos dizendo isso o tempo todo: o Warung é um palco vivendo seu melhor momento, moldado por anos de uma identidade sonora inconfundível, onde, claro, só existe um camisa 10.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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