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Entrevista

Para curador, Tribaltech vai se consolidar como “evento-postal” de Curitiba

Jonas Fachi

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Entrevista Tribaltech Escape

Mohamad Hajar Neto, responsável pelo marketing e um dos curadores do Tribaltech Escape, fala sobre as expectativas desta edição e o futuro do festival.

* Com colaboração de Flávio Lerner 
* Foto por Soney Souza

Tribaltech Escape, o fim da trilogia que marcou época em nossa cena eletrônica nacional, está prestes a chegar: neste sábado, Curitiba recebe nova edição do festival mais tradicional do Sul do país. Diante de um momento em que o Brasil abraça alguns dos maiores eventos musicais do planeta, o “TT” caminha de forma distinta, por ser realizado por pessoas que têm profundo conhecimento do campo em que estão inseridas, captando ideias, tendências e aspirações por novidades, de maneira bem particular.

Assim, o encerramento de um ciclo em um novo local também simboliza o nascimento de outro conceito. No coração da cidade, um complexo industrial abandonado há mais de dez anos ganha vida novamente, através de música, interação social e cultura. Estamos diante de uma nova era. Por isso, convidamos o responsável pelo marketing e um dos curadores do evento, Mohamad Hajar Neto, para uma entrevista que busca compreender todos os aspectos que envolvem sua realização — desde filosofia musical, identidade e visão para o futuro, ele nos cedeu detalhes imprescindíveis para sabermos tudo o que vem por aí.

Como estão os últimos preparativos para o festival?

Na semana retrasada, quase toda a parte de reforma do local foi concluída, e na semana passada entramos em um ritmo acelerado de produção do evento em si. Cada dia que passa, o lugar parece menos com um complexo abandonado e mais com um festival multicultural.

Quais foram as maiores dificuldades em relação à adaptação do novo local, e como a edição Escape se diferencia das outras duas anteriores da trilogia?

Acho que a maior dificuldade foi em comunicar ao público o quão grande e incrível é esse lugar, pois ele em si é muito mais apropriado para a produção de um evento do que uma fazenda. Tanto pela localização urbana — mais fácil de agendar entregas, fazer reuniões, voltar pra casa com tempo pra descansar — como pela estrutura já existente. No entanto, com os vídeos e fotos que passamos a divulgar após o trabalho inicial de limpeza, o público abraçou a causa, e acredito que tudo esteja caminhando para uma edição épica.

Quanto à trilogia, bem, tudo sempre foi tratado pela comunicação oficial do festival de maneira abstrata, deixando para que cada um interprete à sua maneira. Como entrei para o time só no último capítulo, posso te dar a minha visão: acredito que depois de declarar seu fim em 2012, o Tribaltech só voltaria se fosse para assumir uma nova identidade, com respeito à história construída, mas de olho no futuro. Se pensarmos bem, do Reborn ao Escape foi contada uma história de importantes transições, com duras lições a serem aprendidas no capítulo do meio. Sendo assim, vejo esta edição como a “redenção” após tudo o que assolou o TT durante a Evolution, com a produção encontrando um formato adequado ao que ela acredita e o público sendo recompensado com um festival novo e com bastante personalidade.

Entrevista Tribaltech Escape

Muitas vezes o público não tem dimensão de tudo que engloba a realização de um evento de grande porte. São quantas pessoas envolvidas direta e indiretamente para tudo funcionar devidamente?

Impossível eu precisar um número sem consultar os responsáveis pela produção, mas dando uma estimativa: desde que o local foi liberado para a realização do evento, há uns quatro meses, são dezenas de pessoas envolvidas diariamente, desde os técnicos e pedreiros que trabalharam na reforma até a equipe de curadoria e planejamento. Agora, no último mês, começou o trabalho intensivo de montagem da festa em si — mais dezenas de pessoas trabalhando com decoração, montagem dos palcos, divulgação… Nossa equipe de escritório também deu uma inflada nos últimos dias, pessoas temporárias no marketing, no financeiro, na logística. Nesta semana, penso que passaremos tranquilamente da casa da centena, quando começam a montar os soundsystems, bares, as decorações começam a serem aplicadas em seus devidos lugares… Isso sem contar os quase cem artistas, que se pode dizer que estão a todo o momento trabalhando inconscientemente na construção da trilha sonora que dará vida a tudo isso.

Um dos destaques desta edição é a volta do palco Organic Beat. Qual a importância de se ter, num festival de música eletrônica, um palco que fuja da proposta de música de pista?

Para o conceito do Tribaltech, que tem como característica mais marcante a sua multiculturalidade, ele é essencial. Ele funciona dos dois lados: quebra o preconceito do clubber radical, apresentando a ele um som orgânico mais próximo do que ele pode gostar, e quebra o preconceito do cara de fora, que de repente passa a aceitar a antiga rave como “festival”, comparece para ver uma banda headliner e acaba tendo um contato bem positivo com a cultura eletrônica.

Claro que isso é um processo que vem de anos: lá em 2009, em sua primeira aparição, eu diria que a aceitação/rejeição foi de 50/50. Nos dois anos seguintes a festa enfrentou frio e chuva, o que o tornou mais deslocado, tanto que o próprio Criolo não atraiu mais do que algumas pessoas para seu show no TT de 2011. Desta vez, a aceitação foi de uns 90%: tanto o Criolo está mais famoso, como o público mais maduro. Vejo muita gente empolgada para o que vai rolar lá e acho que desta vez ele vai ser um dos principais espaços de todo o evento.

“A revitalização de um espaço urbano marginalizado é mais a cara do urbanóide Tribaltech do que a zona rural.

Parece existir uma tendência mundial e que vem dando muito certo na Europa: a busca por locais inusitados, em espaços que um dia foram parte ativa de uma cidade. Dar vida a um extinto complexo industrial tem tudo a ver com as raízes da música eletrônica, certo?

Sem dúvidas. Do nosso lado do oceano, o techno surgiu nos galpões abandonados da falida cidade de Detroit, enquanto que na Europa foram os resquícios da Berlim oriental que deram vida a uma cena semelhante. Aí eu puxo aqui uma brincadeira que eu uso inclusive para explicar o conceito do detroitbr: como no Brasil tudo acontece com algumas décadas de atraso, agora é a hora de nós vivermos uma revolução cultural semelhante. Vivemos tempos de crise, não só financeira, mas de identidade: o 7×1, vindo de maneira simbólica no que deveria ser o clímax do esporte, vem acontecendo diariamente em vários aspectos da nossa vida. Toda a corrupção que está sendo revelada, todas as dificuldades que estamos passando em nosso dia a dia em comparação à década passada… Tudo isso está deixando o brasileiro inquieto, formando um ambiente muito favorável à arte, pois ela é a expressão da sentimentos que palavras já não conseguem externalizar de maneira adequada.

Aí vem o lado bom dos tempos difíceis: a gente se vira com o que tem e descobre que isso é muitas vezes melhor do que o que vinha de fora e era venerado. Vejo artistas como Alok e Vintage Culture tocando em aniversários de cidades do interior e festivais do mainstream global e isso é ótimo, porque é a música eletrônica comercial genuinamente brasileira. Não é meu gosto pessoal, mas sinceramente, tem muito mais a ver com o nosso povo do que Guetta e Calvin Harris.

Voltando agora para o assunto festival: funciona da mesma maneira, porque convenhamos: montar um evento como o TT é uma verdadeira arte. Nós, como público, sempre pensamos na fazenda pela inércia, porque sempre foi lá, mas participando da produção desta edição, posso dizer com tranquilidade que a revitalização de um espaço urbano marginalizado é mais a cara do urbanóide Tribaltech do que a zona rural.

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No lineup, existem opções para gostos variados, mas ainda seguindo uma linha de conceito que sempre existiu. Quem você destaca como os artistas mais aguardados pelo público em cada palco?

A linha de conceito é muito importante. Em vez de pensar somente nos nomes estampados no flyer como se estivéssemos preenchendo um álbum de figurinhas, optamos por fazer composições coesas, misturando o que o público quer com o que acreditamos que ele possa passar a querer depois de ver ao vivo — do clássico ao novo, do nacional ao internacional. Parece bobagem, mas a curadoria é uma das partes mais difíceis, exatamente pela infinidade de fatores que podem influenciar na escolha de artistas ou horários, muitas vezes sabotando toda uma experiência que estava sendo planejada.

Partindo para os nomes: no Tribaltech Stage, acho que temos Octave One, Stephan Bodzin e Kolombo sendo grandes medalhões para diferentes camadas de “aprofundamento musical”, digamos assim.

No Timetech, temos uma verdadeira “seleção da Alemanha”, da qual é difícil destacar um, mas acredito que a força estará com as mulheres: Nastia é a mais conhecida do público nacional, enquanto Margaret Dygas é a que os mais ligados já sabem que vai arrebentar e angariar uma boa base de novos adoradores. Daniel Bell talvez não agrade às massas, mas é sem dúvidas o cara mais experiente de todo o lineup — vai ministrar a famosa “aula de história” no rolê.

“Em vez de pensar somente nos nomes estampados no flyer, como se estivéssemos preenchendo um álbum de figurinhas, optamos por fazer composições coesas, misturando o que o público quer com o que acreditamos que ele possa passar a querer.”

No Organic Beat, Criolo é o grande ídolo de geral, Bixiga 70 conversa com a galera mais conceitual, e Pedra Branca é conhecido no mundo do trance, mas quem ver vai se surpreender com a beleza da apresentação deles. No final, os DJs de bass music vão dar mais cara de “pista de dança”, sem descontextualizar o stage.

O mundo do psytrance é algo que eu não estudo mais com o afinco de antes, mas no lineup do Progressive Stage sei que Dickster e Vibe Tribe são as “lendas”, enquanto Major7 e Reality Test se comunicam bem com a nova geração. Vegas e Element são dois DJs nacionais que vêm com peso de gringo, por tudo o que representam pra cena hoje.

O Burn Energy Stage, onde tocarei com meu projeto Kultra no começo da festa, é a casa de alguns dos principais DJs de techno e house do país. Imagino que a apresentação de BLANCAh e o B2B entre Fabø e HNQO venham a ser os pontos altos por lá. Tive a oportunidade de ouvir o álbum que o Henrique [HNQO] vai lançar pela D.O.C., e olha, está muito bom!

No Supercool, além de Ney Faustini — um dos melhores DJs brasileiros em atividade —, acredito que o Joutro Mundo venha a surpreender, exatamente por ter uma musicalidade mais “solta” e diferente do que o festival vai apresentar no resto dos palcos.

Para você, que acompanhou pessoalmente o festival desde o início na fazenda, e agora ajuda no encerramento de um ciclo na cena eletrônica de Curitiba, qual o sentimento?

A minha relação com o TT é muito íntima. No começo, o festival acontecia em agosto, quando eu comemorava meu aniversário — era sempre uma rave especial, independentemente do lineup. Conforme ele abraçava temáticas multiculturais e assumia posturas visionárias, fui me identificando cada vez mais, até que em 2010 fiz algo que viria a selar minha relação com a marca.

Foi naquele ano que entrei pra equipe do Psicodelia.org e, coincidentemente, foi o ano de uma das piores edições, em que pouca coisa deu certo. Fizemos um podcast pós-festa pontuando cada aspecto que falhou, mas fazendo isso sem faltar com o respeito, desejando que o ano seguinte fosse diferente. Alguns meses depois, estava no aeroporto embarcando para o Rock in Rio, até que tropecei em Jeje, Dudu e Fernanda [então produtores do TT], que me reconheceram como “o cara do Psicodelia”, e vieram conversar comigo. No começo fiquei preocupado e acuado, mas para minha surpresa, eles não estavam ali pra me repreender: elogiaram a nossa postura, assumiram os erros e nos convidaram para ir ao escritório na outra semana para conversar.

Dali em diante, eu percebi que por mais que o mundo da noite e da música seja repleto de gente em busca de dinheiro, poder e outras ilusões fortalecedoras de ego, ainda existem pessoas trabalhando e dedicando as próprias vidas pela arte, pela sociedade, pelo desenvolvimento do mercado cultural no nosso país.

“O novo lugar vai revolucionar como Curitiba — e por extensão o resto do país — se relaciona com a música eletrônica.”

Por mais que fosse um desejo, nunca tive obsessão em trabalhar na T2 [Eventos, produtora do TT]; sempre os vi como referência para tudo o que eu fazia de forma independente. No entanto, não tem como fugir de uma das principais leis da vida: se você trabalha duro, mergulha de corpo e alma e se dedica no que faz, inevitavelmente você se aproxima dos seus semelhantes e as recompensas chegam. Há dez anos eu pisei na primeira rave, e há cinco larguei um emprego estável e que pagava muito bem para me arriscar profissionalmente na cena. Depois de três longos e duros anos vivendo de freelas e ajudas familiares, fui convidado para parte do TT e do Club Vibe, e finalmente tenho estabilidade trabalhando na área que escolhi. O sentimento é de felicidade e gratidão, tanto pela compensação de inúmeras apostas e perrengues do passado, como por todo o futuro que posso ajudar a escrever daqui pra frente.

Com esta edição, a trilogia de resgate do Tribaltech se encerra. O que vem depois?

Cara, é tanta possibilidade que não sei nem por onde começar. Em termos de Tribaltech, confesso que não sei. Como o lugar não está sendo reformado pensando apenas em uma edição, tenho certeza que teremos muitas TTs pela frente, com novas temáticas conceituais a serem exploradas. Mas em termos de cena, penso que o novo lugar vai revolucionar como Curitiba — e por extensão o resto do país — se relaciona com a música eletrônica. Vamos colocar mais um tijolo na gigante construção que vem sendo feita pelos artistas, superclubs, agências, festas de rua, festivais estrangeiros que vieram com propostas sérias (aqui vale separar o joio do trigo, pois alguns vieram somente para sugar e atrapalhar o desenvolvimento local), rumo à consolidação da cultura eletrônica como um dos principais movimentos do nosso tempo.

A fazenda tem todo o lance do open air, do contato com a natureza e tudo mais, mas vale lembrar que uma das razões para as raves do passado terem acontecido em lugares afastados era a necessidade de se esconder, tanto de fiscalizações intransigentes como da sociedade, ainda imatura para compreender os eventos — quando eu comecei a ir, muitos amigos tinham que mentir aos pais que estavam indo em churrascos de faculdade. Agora, estamos no coração de uma capital, com aval do poder público e apoio de muita gente. Por isso, na minha previsão otimista, o que vem por aí é a transformação do Tribaltech em um dos “eventos-postais” de Curitiba e a retomada da cidade como um dos polos da cena eletrônica nacional, fortalecendo ainda mais o país como unidade, em sinergia com tudo de sólido que vem acontecendo em Santa Catarina, São Paulo e outros Estados.

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Análise

O indie dance original respira com a volta do Friendly Fires

Flávio Lerner

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Friendly Fires
Foto: Reprodução
Depois de mais de seis anos sem lançamentos, o trio britânico que marcou os anos 2000 está de volta

Fundado em 2006, o trio britânico de dance-rock/indie danceFriendly Fires foi importantíssimo para uma guinada mais eletrônica e dançante à cena indie da década passada, que encontrava-se em sua era de ouro com a ascensão de bandas como The Killers, Franz Ferdinand, The Strokes e Bloc Party. Seu surgimento — somado à ascensão de grupos como Klaxons, Chromeo, Cut CopyMetronomy e o brasileiro Cansei de Ser Sexy — fez com que aquele cenário mais centrado nas guitarras passasse a ter um foco maior nos sintetizadores e nas batidas. O LCD Soundsystem não estava mais sozinho.

Comandando pelo carismático e rebolativo Ed Macfarlane — com suas dancinhas impagáveis ao vivo e nos videoclipes —, o Friendly Fires explodiu mesmo em 2008, com o primeiro e homônimo álbum, e desde então acumulou milhões de fãs no mundo inteiro. Nunca fizeram exatamente música eletrônica de pista, mas bebiam claramente de fontes como a house e o synth pop de grupos como New Order e Depeche Mode. E não só isso: a batida e a vibe ensolarada das músicas trazia muito da música brasileira. Singles como “Jump in the Pool” e “Kiss of Life” surgiram com fortes elementos de percussão de samba — e em 2008 e 2009, o grupo chegou a realizar apresentações em conjunto com uma escola de samba.

Em 2011, às vésperas do lançamento do segundo álbum, Pala, que se afastava ainda mais do indie rock, foram capa da conceituada revista inglesa NME, e tiveram a ousadia de dizer que preferiam escutar Justin Timberlake do que Morrissey — antigo líder do grupo The Smiths, que dominou a cena indie nos anos 80. Pra roqueiros britânicos que levam esse tipo de comparação muito a sério [o que, arrisco dizer, seja boa parte do público da revista], uma declaração do tipo soava como heresia.

O trio seguiu sua vida muito bem, obrigado. Pala também fez sucesso, e o FF seguiu apresentando-se em shows lotados no mundo inteiro nos próximos anos. Mas pararam de fazer música. Em 2014, deram um tempo de vez, e só foram voltar agora, quatro anos depois, com shows de retorno na Inglaterra realizados nas últimas semanas. E claro, novo single — o primeiro em mais de seis anos.

“Love Like Waves” foi lançada no último dia 05, e segue a linha do Friendly Fires que já estamos acostumados, sem grandes alterações na estrutura sonora. É uma canção boa e agradável, que resgata o saudosismo dos fãs e empolga pelas novas possibilidades, mas também não chega a ser dos melhores sons já feitos pelo trio.

Novos singles devem surgir nas próximas semanas, culminando, em breve, com o aguardadíssimo terceiro álbum. Se mantiver a qualidade dos LPs do passado, tem tudo para ser um dos grandes lançamentos de 2018.

Bóra relembrar outros grandes singles do grupo:

* Nota do Autor: Indie dance/nu disco, assim como progressive house e deep house, foi mais um dos estilos que caiu naquela salada de tags do Beatport, na década passada, e acabou passando a ser usado para se referir a uma sonoridade completamente diferente. Aqui, evidentemente, falo sobre o indie dance original, que vai de bandas como o Cut Copy a produtores como o Tensnake.

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Opinião

Carta aberta aos fãs de progressive house

Flávio Lerner

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Aos fãs de progressive house
Oi gente, tudo certo? Vamos conversar? Os ânimos tão meio exaltados por aqui.

Seguinte: o DJ e produtor Leo Lauretti assistiu à volta do Swedish House Mafia in loco e nos escreveu um texto com algumas reflexões. Quando eu vi que ele falou em progressive house para se referir ao estilo do trio sueco, minha reação imeadita foi a de substituir o termo. Isso porque aqui na Phouse — ao menos desde maio de 2017, quando assumi como editor —  usamos essa tag para falar sobre o gênero original: esse mesmo que vocês curtem, o de Sasha, Digweed, Hernán e companhia.

Sempre que eu recebia para editar qualquer texto usando o termo “progressive house” para se referir ao “prog house mainstream”, eu o substituia por algum outro nome — geralmente, big room ou EDM, para evitar a confusão que existe há cerca de dez anos, desde a época em que o Beatport permitia que as gravadoras se apropriassem das tags que quisessem. Mas no texto de Lauretti percebemos que nem big room e muito menos EDM serviriam para rotular o tipo de som a que ele estava se referindo. Os dois nomes se tornaram genéricos demais para caracterizar essa estética mais particular, que sim, traz elementos progressivos, mas em uma roupagem bastante pop e acessível às massas. A melhor solução encontrada foi aparentemente simples: vamos manter o nome “prog house” [evidentemente sem a intenção de ofender ninguém] que é como os fãs se acostumaram a rotular o som, e colocar uma nota ao final explicando o caso.

Apesar de o artigo ter tido ampla aceitação entre os fãs de Swedish House Mafia, nunca imaginei que fosse causar um desconforto desse tamanho nos fãs do progressive clássico. Ora, através do nosso colunista Jonas Fachi, sustentamos uma cobertura bastante rica dessa cena. Incontáveis reviews sobre apresentações de nomes como Hernán Cattaneo e Guy J, matérias sobre projetos novos que vêm impulsionando a cena prog nacional… Vocês o conhecem, não conhecem? Se não, leiam os textos dele. Vocês vão curtir. Agora, tudo isso passa a não valer mais nada porque usamos o mesmo termo para nos referir, em um momento específico, a outro gênero musical?

Certo ou errado, com boas ou más intenções, a confusão do passado entre as nomenclaturas dos gêneros já foi feita. Não é culpa nossa. Mundialmente, o estilo que consagrou o Swedish House Mafia é ainda fortemente referido por seus entusiastas como progressive house. Isso passou a pertencer a eles também, gostemos ou não. Aprendamos a dividir. Assim como o dubstep se transformou em algo diferente a partir da onda do Skrillex, no começo desta década. Assim como o deep house hoje é um termo guarda-chuva tão grande que já não tem praticamente nada a ver com o deep house clássico. Os fãs sempre chiam, mas é em vão. E a própria EDM não é unanimidade. Na Phouse, convencionamos o uso da sigla para nos referirmos ao som do mainstream, mas volta e meia alguém reclama que “EDM engloba todo o cenário da dance music”. Não está errado. O termo pode ser usado em mais de um sentido. É tão difícil aceitar isso?

Por um lado eu entendo vocês. Há alguns anos eu discotecava um estilo que gostava de classificar como nu disco ou indie dance. Graças à mesma confusão no Beatport, hoje indie dance/nu disco se tornou algo completamente diferente. O importantíssimo movimento acid house no Reino Unido não tocava apenas acid house. Entre Estados Unidos e Inglaterra, “garage” significa duas coisas diferentes. No Brasil, funk tem um sentido completamente diferente do que nos EUA. Vocês acreditam que o James Brown se importaria? Eu não. Em meu primeiro artigo aqui na Phouse, há três anos, já tinha escrito argumentação parecida: a cooptação é inevitável.

No fundo, é apenas um nome. Uma referência. Mas nunca uma verdade absoluta, objetiva, imutável, escrita em pedra. A música é o que segue importando. A comunhão na pista de dança. Dentro do contexto, todo mundo sabe quem é quem. Ninguém confude a cidade de São Paulo com o Estado de São Paulo, com o santo ou com o time. A palavra “lance” pode ser utilizada para descrever uma jogada em uma partida de futebol, um trecho de uma escadaria ou uma investida em um leilão. E creio que ninguém aqui corre o risco de tentar bater um suco com um mixer da Pioneer. Nem de ir numa noite do Warung esperando ver o Avicii.

Talvez, no artigo de ontem, a gente pudesse ter chamado o estilo de progressive house mainstream. Parece fazer bastante sentido. Mas vamos combinar que fica um nome feio e comprido demais. E talvez não fosse o bastante pra evitar as vaias. Não posso deixar de suspeitar que toda essa raiva que uma galera pegou pelo fato de Lauretti ter usado o termo “prog house” tenha a ver com um ranço, algum tipo de elitismo ou soberba cultural. “Como ousam usar o nome do MEU gênero para descrever essa reles música de playba?” Não consigo não lembrar imediatamente de toda a celeuma causada quando o Seth Troxler tocou um vocal de funk. Vejo muita semelhança entre os casos: uma histeria porque “profanaram minha casa”, “mancharam meu som impoluto”. Vamos lembrar que cada nicho e história tem seu valor para o seu público, e ninguém é melhor que ninguém por aqui — mesmo que, tecnicamente, um som possa até ser mais refinado que o outro.

A gente respeita muito o progressive house. Qualquer um deles. Assim como todos os outros gêneros musicais que dizem respeito ao universo da música eletrônica. E vocês são sempre muito bem-vindos aqui. Vamos combinar que tem espaço pra todo mundo, sem confusão? Sem ódio? Sem precisar diminuir ninguém?

Vamos mirar nossa indignação em coisas mais importantes?

* Flávio Lerner é editor da Phouse.

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Opinião

A volta do Swedish House Mafia e o retorno do prog house

Phouse Staff

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Swedish House Mafia progressive house
Um dos eventos mais importantes dos últimos anos no cenário eletrônico deve trazer consequências marcantes
* Artigo por Leo Lauretti

Swedish House Mafia fechou o Ultra Music Festival 2018, a 20ª edição de um dos maiores festivais de música eletrônica do mundo, e algumas coisas importantes vieram à tona. Durante o show, acompanhei a reação das pessoas nas redes sociais, e muitos falando bem da apresentação em si.

Primeiramente, me chamou a atenção todo o hype que foi levantado para essa performance, e deixo uma pergunta: será que a EDM/prog house* morreu mesmo, ou será que estamos vivendo um retorno desse estilo? Não acho que viveremos algo semelhante ao passado em questão de estrutura musical, mas me arrisco a dizer que algo novo pode surgir com moldes similares aos do passado. Adoraria saber o que vem por aí, e digo isso desde quando descobri, há 30 dias, que o Swedish House Mafia voltaria.

+ Swedish House Mafia “de volta pra valer”

Outro fato curioso é que o trio não tocou nenhuma música nova deles, senão as que fizeram até se separarem. Mesmo assim, as reações têm sido muito boas, o que me leva a questionar: por que músicas de seis, sete anos atrás continuam com o mesmo peso e força, enquanto vemos outras se perdendo em menos de meses? Temos aqui a resposta do que “matou a EDM” há uns anos. Hoje em dia, existem poucas músicas que emocionam como “Don’t You Worry Child”, que marcaram época. Seja agora, seja daqui a dez anos, esses sons continuarão a representar muito para quem vivia ouvindo a track durante o seu auge (2013/14). O low BPM surgiu como uma outra proposta de música para festivais, porém vejo muita saturação e “plasticidade” nos dias de hoje, e, por isso, um alerta.

Por último, o que acontecerá daqui pra frente? Como amante desse estilo do Swedish House Mafia, torço muito pela volta dele, mas muito mesmo. Isso significa que o low vai morrer? Vejo que PODE perder força, mas acho que não morrerá, uma vez que existe um público muito mais conscientizado sobre o assunto, o que possibilita ao gênero se manter em uma constante, ou com apenas uma pequena queda. Quanto ao prog, o futuro está nas mãos dos produtores, meios de mídia, público, e principalmente dos DJs que animam as festas acolherem esse “novo” estilo. Se alguém quiser mudar algo, são estes que podem começar!

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* Nota do Editor: Em face da confusão instaurada nesses últimos dez anos quanto ao termo progressive house — originalmente um estilo bem diferente deste capitaneado pelo Swedish House Mafia —, continuaremos chamando aquele de “progressive house”, enquanto este passa a ser referido como “prog house”, evitando o uso de um mesmo termo para se designar a gêneros diferentes.

** Leo Lauretti é colaborador eventual da Phouse.

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