daft punk vida real

Estaria o Daft Punk abandonando a fantasia?

Depois de cerca de duas décadas consolidando um dos maiores mitos da música pop contemporânea, “os robôs” dão sinais de que podem estar o desconstruindo.

O Daft Punk é inegavelmente genial não somente para criar tracks, mas também por toda a aura mitológica que reveste Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo há quase 20 anos. O duo estabeleceu, através de anos de construção semiótica, uma fantasia em que são robôs futurísticos, not from this planet. Eles se mantêm na maior parte do tempo em silêncio, sem se comunicar, fazer shows ou lançar algo novo por anos, como se estivessem distantes de nós, inacessíveis, reclusos em suas naves espaciais, prontos para eventualmente retornar epicamente e salvar o planeta do mau gosto.

Sempre que há um burburinho sobre algum suposto álbum novo, já surgem os primeiros rumores e as primeiras tracks vazadas: sempre falsas. Surgem até os rumores dos rumores, de que eles mesmos soltam falsos boatos; no Grammy, em 2014, quando a câmera focou em dois caras, lado a lado, muito parecidos com o Thomas e o Guy-Man humanos, especulou-se que seriam eles ali na plateia, à paisana, e que quem estava no palco como Daft Punk seriam atores. Depois, revelou-se que os caras na plateia eram profissionais vinculados ao duo, provavelmente colocados lado a lado para gerar a confusão. Através da sua própria mitologia, portanto, o Daft Punk brinca com a realidade e zomba da sociedade do espetáculo.

No tão aguardado último álbum, Random Access Memories, lembro bem que houve uma histeria coletiva assim que surgiram os primeiros passos de uma campanha de marketing gigantesca. Depois dos incontáveis boatos de vazamentos de música nova — armadilhas para jornalistas e blogueiros, fisgados pela ânsia por cliques e furos —, começaram a pipocar samples de poucos segundos do que depois descobriríamos ser Get Lucky. A partir de então, uma série de teasers e microdocs com depoimentos dos colaboradores fodões de RAM começaram a ser periodicamente veiculados. À época, cobrindo para o MyCool cada passo da dupla, escrevi mais de uma dezena de posts com manchetes como “Daft Punk divulga nome do novo álbum, solta mais um teaser, segue fazendo cu doce”, “Daft Punk aumenta a provocação, tira a roupa e faz lap dance na nossa cara” e “Daft Punk encerra maior lap dance da história e finalmente libera a rapadura”.

Um dos teasers de Get Lucky foi ao ar no intervalo comercial do Saturday Night Live

Não deixa de ser um mito também o lugar-comum de que ninguém conhece os rostos dos produtores franceses. Apesar de não revelarem oficialmente desde 1996, qualquer fã moderado da dupla já se deparou com fotos em que os robôs estão em seus disfarces humanos — basta procurar no Google ou dar uma olhada em páginas como esta que você pode ver diversas dessas fotos de Thomas e Guy-Man através dos tempos. Mesmo assim, e mesmo curiosamente usando seus nomes verdadeiros, o mito em torno do Daft Punk foi consolidado.

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Em 2014, quando surgiram as primeiras notícias sobre Eden, dizia-se equivocadamente que seria um filme sobre o Daft Punk. Achei estranho e contraditório a ideia da dupla se expor dessa forma, mesmo em uma obra de ficção. Quando descobri que o filme girava em torno de outros protagonistas que viveram a cena french house, concluí, triunfante, que eu tinha razão: “evidente que não é um filme sobre os robôs, isso desconstruiria o mito!”. Pouco tempo depois, porém, essa minha ideia voltou a entrar em cheque com a notícia de que teremos muito em breve Daft Punk Unchained, o documentário que promete revelar detalhes dos bastidores das vidas de Thomas e Guy-Man.

Não bastasse a notícia do doc, tivemos ainda dois acontecimentos recentes curiosos que se somaram ao fato: no começo deste ano, uma escultura do Daft Punk foi talhada pelo artista Xavier Veilhan; diferente do que qualquer um imaginaria, porém, a imagem da dupla imortalizada em madeira foi nua e crua, sem os trajes robóticos.

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O outro fato curioso é o de que, ainda mais recentemente, Thomas Bangalter figurou brevemente — também em sua persona de carne e osso — em Reality, um filme de Quentin Dupiex [também conhecido como o produtor musical Mr. Oizo]. Há uma semana, vazou o vídeo com a cena em questão: Thomas está lendo em uma sala de espera, até ter sua revista arrancada pelo ator Jon Heder.

Voltamos, então, ao dilema: será possível pensarmos em uma nova etapa do Daft Punk na qual a dupla abandonará a fantasia [algo como a terrível fase sem pintura facial do Kiss]? Isso faria sentido? Um documentário revelando histórias reais e humanas de Bangalter e Christo, com relatos de suas vidas privadas e traços de suas personalidades, por mais que soe tentador aos fãs, não seria o mesmo que revelar o funcionamento de um truque de mágica? Ou será que entendemos tudo errado, e que o filme trará uma maneira de abordar a carreira dos robôs dentro da sua própria construção mitológica?

São muitas perguntas, com apenas uma certeza: Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo sabem bem o que estão fazendo.

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