FTampa

“Eu falhei em bandas cinco vezes; na dance music, apenas uma” — FTampa

Saiba mais sobre a árdua e inspiradora história de vida do mineiro FTampa, no dia em que ele completa 29 anos.

Hoje, dia 02 de junho, é data de aniversário do nosso querido FTampa — um dos maiores nomes da EDM no Brasil, e que foi atração da nossa própria festa de dois anos, em 2015. O mineiro de Conselheiro Lafaiete, que agora completa 29 anos, já havia compartilhado sua trágica história de vida. Ontem, uma matéria bem bacana saiu com ele no EDM.com, explicando um pouco mais desse passado árduo, e de como ele superou tantas dificuldades na vida, em possivelmente uma das trajetórias mais fortes e inspiradoras que temos na nossa cena. Além disso, o rapaz contou sobre sua nova fase, em que quer produzir material mais orgânico, com mais sentimento, sem se preocupar com o mercado.

Não havia tempo hábil de fazermos uma nova entrevista exclusiva com o FTampa, e ele nos pediu de presente de aniversário a tradução da matéria de ontem pro português, pros seus fãs brasileiros poderem ler; não íamos recusar, né? Abaixo, portanto, você confere a ideia que ele trocou com a editora Jamie Lamberski.

Quais pessoas na sua vida tiveram o maior impacto pra você?

Sempre estive mais por conta própria, mas tive bastante apoio da família e dos amigos. Eu era casado e recebia bastante apoio da minha ex-mulher. Quando você decide ser um músico, poucos acreditam em você, mas quando você chega lá, eles dizem: “eu sempre estive ao seu lado”. Eu sei que minha família acreditava, mas sempre tiveram preocupação também, queriam que eu meio que tivesse um “emprego de verdade”.

Tentei ser músico cinco vezes. Estava em um bom trabalho, ganhando bastante, e então eu simplesmente saí pra tentar seguir a carreira — e falhei. Tentei de novo e de novo, e continuei falhando, por anos. Toda vez que você falha, ganha experiência, e aprende muito com ela. Quando eu fracassei, encarei como algo normal. Às vezes faço uma track que eu gosto e as pessoas não curtem. É normal. Toda vez que não dava certo, eu dizia: “Ah, eu não tenho grana pra investir em música. Vou ter que entrar em um novo emprego, juntar mais dinheiro e tentar de novo”. No começo, eu estava tentando fazer parte de bandas. Foi só há cinco anos que eu comecei a ouvir música eletrônica. Eu falhei em bandas cinco vezes; na dance music, apenas uma.

O que te levou à música eletrônica?

É engraçado. Eu tenho um primo que é DJ, e ele sempre me dizia: “cara, você tem que fazer música eletrônica. Eu vejo como você se dedica pra música, e quantas pessoas você ajuda. Música eletrônica é algo que você pode fazer por conta, sem depender de ninguém. Você sabe tocar os instrumentos e trabalhar num estúdio”.

“Não é música de verdade”, eu pensava, mas quando eu ouvi fiquei bastante impressionado. E era feito só por uma ou duas pessoas. Procurei por uns samples, e foi assim que comecei, naquela mesma noite. Comecei a me divertir, graças ao meu primo.

Como você se descreveria aos 17 anos?

Perdido e desesperado. Foi o pior momento da minha vida, em que eu tinha perdido uma grande parte da minha família. Foi por isso que me mudei. Estava me sentindo tão mal e solitário… Lembro que tentei me mudar justamente pra ficar longe de tudo. Quando parti, não tinha amigos, nem familiares próximos. Comecei então a fazer novas amizades e tentei reconectar com o mundo.

Posso realmente dizer que eu me perdi aos 17. Era um cara muito só, vivendo no meu próprio mundinho. Nunca falo sobre isso. Por muito tempo o meu manager me disse pra contar minha história, mas é só agora que me sinto à vontade. Não queria me promover usando essa minha história, porque eu sei o quanto ela é triste. Foi muito difícil. Às vezes as pessoas falam “ah, coitadinho”. Não quero que pensem assim. Quero conquistar meu espaço sem ajuda.

Quais os desafios que você ainda encara?

O mercado muda muito rápido. Todos tocam minhas faixas, mas é bem difícil conseguir espaço nos festivais maiores. Toco bastante, mas é difícil ser reconhecido como um artista. Tantos marqueteiros e produtores-fantasma… Isso é errado, mas você precisa encarar. Não pode fugir, esse é o mercado. Às vezes me sinto mal. As pessoas pagam pra tocar em festivais e estar em rankings — isso é muito triste. Quando eu vejo, falo: “onde está a verdade aqui?”. Acho ruim, mas não julgo quem usa produtores-fantasma porque talvez você não tenha o que é necessário pra ser um produtor, mas você é um artista. Só que os palhaços que tentam ser músicos estão roubando o lugar de quem é de verdade. No Brasil, há muitos desses caras.

Como a música ajudou você a superar os obstáculos?

Sempre tentei colocar meus sentimentos na arte, e isso me ajudou. Por muito tempo, eu compunha só pra mim. Tinha vergonha de mostrar o que fazia pros outros. A música me ajudou demais. Toda vez que eu me sentia mal, ia pro estúdio. Até hoje em dia, tudo se trata de como estou me sentindo.

Penso que quando alguém gosta da sua música, é porque essa pessoa está conectada com você. Quando você curte uma canção, é porque sente uma conexão. Acredito mesmo que cada pessoa que vem pra mim e diz: “eu amo essa música”… Eles entenderam a mensagem.

Como você venceu a timidez?

Levou bastante tempo. Eu apenas decidi, ao ver que o único modo de conectar as pessoas com a minha música era mostrando a elas. Caso contrário, eu estaria no estúdio, trancado no escuro pra sempre. Comecei a fazer umas faixas pra minha banda, eles curtiram. Aquela foi a primeira vez que eu mostrei o que eu estava compondo. Quando comecei a fazer música eletrônica, as primeiras tracks eram horríveis, mas não tive problema em mostrar.

O que te inspira a fazer a sua música?

Tudo gira em torno de quando estou compondo. Não sou fechado em um único estilo. Gosto de fazer qualquer tipo de música — depende do meu momento. Eu só procuro fazer com bastante esmero e expressar minha dor.

Quando fiz “Kick it hard”, se tornou uma faixa de festival; todo mundo tocou. Aí ficaram esperando que eu fosse fazer outra no estilo; eu vim com “Hero”, que é sobre a minha raiva. Tinha um cara no Brasil a fim de uma garota, e ela estava a fim de mim. Ele me tirou de um lineup de um festival porque ficou com ciúmes. Aí tem uma passagem em “Hero” que diz assim: “você ainda vai engolir, otário” — eu tava muito brabo.

Você se mudou pra Los Angeles, mas recentemente voltou pro Brasil. Por que saiu de LA?

Fiquei com muita saudade da família e dos amigos, então vou ficar morando entre LA e Brasil. Quero fazer músicas novas, e acho que se você está se sentindo mal ou solitário, isso afeta a sua arte. Ficar com essas pessoas vai me ajudar a vir com novos sons.

Gostei de morar em Los Angeles, é uma ótima cidade, um ótimo povo, mas [a mudança] tem a ver comigo. Tenho amigos em LA, mas os verdadeiros, que conheço desde criança, estão no Brasil. É muito difícil levar minha família pro exterior, então estar no meu país é bom pra todo mundo, e me deixa feliz. Nunca saio de casa, não quero ficar rodeado de gente da indústria; só quero produzir. Se alguém gostar, ótimo, é isso que eu quero — deixar os outros felizes com meu trabalho. E posso fazer isso de qualquer lugar.

Você tem planos de lançar um álbum?

Tenho uma quantidade de faixas suficiente pra fazer um LP, mas não penso nisso, porque prefiro fazer cinco tracks de uma vez e aí escolher as melhores pra lançar. Neste momento, estou num processo de mudar o meu som; quero me distanciar e fazer minhas próprias coisas. Minha origem é de banda, então quero gravar minhas próprias guitarras, meus próprios pianos, minhas próprias baterias; fazer minha música mais orgânica. Poderia ser mais pop.

Estou tentando me reencontrar. Quero ser o cara que eu era nas bandas, passando horas no estúdio. Por um tempo, eu fiz tracks só por fazer. Adoro essas faixas pra festival, mas quero criar algo que demande mais trabalho, mais sentimento, mais processos criativos. Acredito de verdade que encontrar um som ideal é experimentação, pesquisa e mais experimentação. É o que quero fazer. Estou gravando muitas guitarras nas faixas novas, sem pensar em selos ou na indústria. Tenho trabalhado por diversão e vai dar certo porque é feito com o coração. E tenho levado na boa — não me preocupo em ter que lançar, então posso pensar em cada detalhe.

Se tivesse uma coisa que você pudesse dizer pra uma versão mais jovem de você, o que seria?

Estou com 29 anos agora. Não importa o quão mal você se sente, sempre há uma saída. Normalmente, quando as pessoas passam por coisas assim, é muito difícil. Já vi gente viver algo parecido ao que eu tive e acabando num caminho errado, porque é o mais fácil. Eu decidi seguir o caminho certo e fazer coisas boas. Acredito em carma. Se você escolhe o caminho errado e faz algo muito ruim agora, você não vai ter uma base, mesmo amadurecendo. Indo pelo caminho certo, você forma uma base sólida. Depois de um bom tempo, você vai chegar lá.

Qual a lição mais importante que você aprendeu na vida?

Nunca desistir. Não importa o quanto estiver ruim, nunca desista.

Traduzido por Flávio Lerner.

Você pode conferir a matéria original aqui.

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