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Exclusivo: DJ Marky fala sobre novos lançamentos e o que falta à cena brasileira

Flávio Lerner

Publicado em

16/03/2017 - 9:17

Enquanto conta detalhes sobre seu remix para o Justin Martin, sua festa Influences e os lançamentos previstos pra 2017, Marky dá declarações contundentes sobre a cena nacional.

DJ Marky. Na época do boom da cultura DJ no Brasil, com a explosão das raves e da cena jungle/drum’n’bass, esse nome era ainda mais impactante — principalmente na Europa, onde se tornou ídolo, responsável pelo single brasileiro mais vendido na Inglaterra. Marky não parou, não se tornou ultrapassado e tampouco perdeu ritmo ou qualidade; contudo, os tempos são outros, e, pós-EDM, nomes como Vintage Culture e Alok tomaram-lhe espaço no nosso país como heróis nacionais.

Contudo, não apenas pra quem gosta de d’n’b ou turntablismo, mas sobretudo pra quem aprecia DJs sets tão ricos em musicalidade quanto em técnica, Marky segue sendo rei — e mesmo não tão em voga na mídia quanto em outrora, segue muito bem, obrigado. O pioneiro do DJismo brazuca, paulistano da Zona Leste e são-paulino fanático não é lá muito chegado a dar entrevistas, mas quando topa, é certeza de opiniões contundentes. Foi o caso quando, na semana passada, fui trocar uma ideia breve sobre dois assuntos principais: o seu novo lançamento, um remix para o estadunidense Justin Martin, e a nova edição da festa Influences, que rolou no último dia 11, no Pan-Am, com o DJ Dubstrong [de quebra, aproveitei pra pegar um depoimento breve para o Dia do DJ]. Pra minha grata surpresa, o que era pra ser uma troca rápida acabou evoluindo em uma conversa mais profunda, em que o DJ acabou tocando em assuntos macro, como o momento da cena brasileira em relação com o resto do mundo. Abaixo, você confere os principais momentos desse papo.

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Novo lançamento: remixando pela primeira vez o amigo Justin Martin

No ano passado, o conceituado DJ e produtor de São Francisco Justin Martin — um dos cabeças do selo Dirtybird, de Claude Von Stroke — lançou seu segundo álbum, Hello Clouds. Agora, no fim de fevereiro, o LP ganhou sua versão de remixes, com releituras de nomes como Soul Clap, Little By Little e Low Steppa, todas em variações do house. A única que foge das batidas 4×4 é a de Marky, que curiosamente foi designado a remixar uma música chamada “Back to the Jungle”. O paulistano conta que a relação de amizade entre os dois vem de uns cinco anos atrás; o Marky primeiro conheceu o Claude Von Stroke no Creamfields, em Liverpool, que o convidou a remixar sua faixa “Aundy”. “Eu fiz o remix e vários DJs de house e techno, como o James Zabiella e o próprio Justin Martin, começaram a tocá-lo. Toda festa que eu tocava em São Francisco, o Justin ia, e a gente ficou muito amigo. Gostamos das mesmas músicas, das mesmas coisas, e agora ele me pediu pra fazer esse remix”, conta.

“É bom que eu tive um prazo bem longo, porque hoje as gravadoras querem tudo muito rápido, querem um remix depois de duas semanas, e acho que é por isso que hoje em dia a música tá virando uma coisa genérica, com prazo de validade, que só funciona por três meses, depois joga fora. Então me deram um bom tempo, eu demorei uns três meses. Ele é totalmente inspirado em jungle music, da época em que eu trabalhava em uma loja de discos e escutei jungle pela primeira vez”, seguiu, acrescentando orgulhoso que, depois de poucos dias de lançamento, a faixa já estava no primeiro lugar do chart de drumba do Beatport. “Não significa muita coisa, porque o Beatport não representa nem 1% de todas as lojas de música do mundo, mas já é um começo bacana.”

Eu perguntei se ele tinha escolhido a faixa ou se a tinham designado por causa do nome, mas o Marky garantiu que não. “Não foi por causa do título, não. O Justin me ligou, falou que tinha essa música, que tava estourada. Achei bem legal, e ao mesmo tempo bem simples e superimpactante. Ela não tem muitos elementos; se não me engano, tem mais canal de efeito do que de beat, de bateria, sintetizador e tal… Descontruí ela inteira, e fiz uma coisa bem diferente, porque se fosse pra fazer um remix dessa música com house, ia soar muito igual. Na Dirtybird eles gostam muito de drum’n’bass, gostam muito de música no geral, que é o que falta um pouco no Brasil. Aqui, se você faz um remix, tem que ser meio mainstream, sabe? Então esse lance de eles quererem abranger todos os estilos é muito legal. Eu tenho uma conexão muito boa com essa galera de house e techno, então eles apreciam muito o meu trabalho, e vice-versa. A gente tá sempre trocando figurinhas.”

“Hoje as gravadoras querem um remix depois de duas semanas; por isso, a música tá virando uma coisa genérica, com prazo de validade, que só funciona por três meses.”

Influences

A festa começou no Vegas Club há cinco anos, e se mudou pro Pan-Am no ano passado, onde rola mais ou menos a cada dois meses. Mas o que importa mesmo é como ela representa uma oportunidade rara de ouvir sets diferentes do padrão. Muito longe de se ater a um estilo como house ou techno — ou mesmo drum’n’bass —, Marky mostra o que sabe fazer de melhor: condensa um caldeirão de referências das mais diversas, de soul, funk e disco a jazz e música brasileira, passando também pelas suas maiores influências dentro da música de pista per se. E se você já viu o DJ em ação, sabe que ele é um dos melhores em casar músicas aparentemente incombináveis. “É uma festa em que toco todos os estilos que foram essenciais na minha carreira. É mais do que uma noite, é uma aula. As pessoas têm que ir com a cabeça aberta. E direto recebo vários DJs, justamente porque é uma noite diferente, que falta no circuito, já que a maioria das noites é só o mesmo estilo de música.”

Influences é também nome do disco compilado por Marky em 2008, lançado pela londrina BBE Records. E a boa notícia é que agora em maio será lançado um volume dois. “É um disco totalmente feito com a cabeça lá fora. Sai em vinil duplo: um disco mixado, outro com as músicas ‘normais’, mas com faixas bônus.”

Cena brasileira: musicalidade, modismos e festivais

Se você acompanha minha coluna aqui na Phouse há certo tempo, pode ter percebido que eventos como o Boiler Room de Recife e o Dekmantel são algumas de minhas pautas favoritas — justamente por apresentarem essa busca pela heterogeneidade, por DJs que fogem do óbvio e misturam diversos estilos orgânicos e referências brazucas com música eletrônica. A Influences de Marky se encaixa bem nesse conceito, e quando o perguntei se via relação entre esses eventos, ele se prontificou a falar bastante sobre sua visão da cena brasileira em geral. “Acho que o Brasil tem muito ainda que aprender. Tivemos um puta boom nos anos 90 com o hardcore, o techno, o jungle, e a gente conseguiu fazer com que as pessoas entendessem todos os gêneros musicais, né? Se formos relembrar, o Skol Beats é o maior festival de música eletrônica que o Brasil já teve… Os festivais antes tinham dois, três pares de toca-discos, e dois ou três pares de CDJs, e as pessoas iam única e exclusivamente pela música, o que não acontece mais — hoje a música vem em quinto lugar. O nome, o ‘brand’, vem em primeiro, o que é uma pena muito grande.”

Set de influências para o Boiler Room, em 2014

O Marky contou que só não foi no Dekmantel São Paulo por estar numa turnê na Índia e na Europa, mas admirou o lineup e a iniciativa em trazer também artistas de música brasileira. “Eu já fui em vários shows do Azymuth [atração do Dekmantel SP], mas nunca no Brasil. É legal essa valorização da música daqui, porque ela é muito valorizada lá fora, ainda mais com esse estouro de boogie nacional, essa volta de músicas do Marcos Valle, Robson Jorge, Lincoln Olivetti, Tim Maia, e DJs como o Tahira ou o Nuts. Sou a favor de festivais que abrangem todos os estilos, é uma saída pra uma educação melhor das pessoas. É bacana que, nesse lance da música brasileira, os caras tão tocando e não tão nem aí; é o trabalho que eu, Mau Mau, Renato Cohen, Murphy, Andy fizemos nos anos 90, 2000. A gente fez com muito amor e carinho, mas acabou se perdendo um pouco, devido ao fato de as pessoas não darem tanto valor mais à técnica, ao conhecimento e ao verdadeiro disc-jóquei. Depois do Steve Aoki, que começou a dar tortada, Paris Hilton, a coisa deu meio que uma debandada. Mas na Europa, na Ásia, continua muito bem, e espero que volte a crescer, como deve ser aqui no Brasil. Acho que os donos de clube, que organizam festivais, devem ter pulso firme e tentar fazer algo melhor, porque o nosso país é complicado; quando um estilo musical começa a virar mainstream, ele fica estável, e aqui, estabilidade significa que morreu.”

Novo EP de remixes e gigs pelo mundo

Antes do Influences Vol. 2, o Marky vai ter outro novo lançamento: em abril, sai o EP My Heroes Remixes, com três faixas novas — duas delas, remixes de músicas do LP My Heroes, primeiro álbum do DJ, lançado em 2015. “Vai ter um remix que eu mesmo fiz do single ‘Silly’, mais um remix do Nytron pra ‘Bella Drix’, além de uma faixa nova minha, a ‘Ready to Go’. Então são duas de drum’n’bass e uma meio house, meio tech house…”

Além disso, o DJ conta que tem começado a alcançar novos mercados, “mais exóticos”; além da Índia, tocou em Seul, na Coreia do Sul, pela primeira vez. “Tenho datas fechadas até o meio do ano que vem: bastantes festivais na Inglaterra, turnês na Ásia, no Japão, na Coreia de novo, Austrália, Nova Zelândia, Tailandia, Bali…” ~

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Ashibah: “O Brasil é o meu sonho e eu sempre conto os minutos até voltar”

Artista fala sobre relação com o Brasil, collab com o Mumbaata e abre detalhes do novo álbum

Nazen Carneiro

Publicado há

Ashibah
Foto: Divulgação
* Edição e revisão: Flávio Lerner

A DJ, produtora e cantora egícpcio-dinamarquesa Ashibah está retornando ao Brasil para nova tour no início de outubro. Com o sucesso de sua última passagem pelo Brasil, em julho, e o lançamento do EP She Knows (ao lado do duo carioca Mumbaata) pela conceituada gravadora alemã Get Physical, a artista se aproximou ainda mais do público do país e tomou as pistas — e as rádios — com suas músicas fortes, profundas e muito dançantes.

Em meio ao intenso trabalho de estúdio do seu próximo álbum, Ashibah conversou com a Phouse sobre esse momento especial da carreira, sua relação com o Brasil, como rolou a collab com o Mumbaata, deu dicas de músicas e abriu detalhes sobre o seu próximo álbum. Confira na entrevista abaixo!


Suas composições e seu vocal são tão cheios de paixão pela música. E você tem essa versatilidade, que vai de Michael Jackson e Tracy Chapman a instrumentos musicais tradicionais egípcios. Por gentileza, conta pra gente o que você tem ouvido, e o que mais te influencia hoje?

Alguns dos meus favoritos recentes incluem “Kiss of Life”, da Sade, o remix de Dennis Ferrer para “The Cure and the Cause”, do Fish Go Deep, “Girl”, de The Internet, “For My Lover”, da Tracy Chapman, e “Can You Feel It”, do Mr. Fingers.

No meio disso tudo, afro house também tem se destacado. Nunca é o suficiente (risos) [no original, “I Just Can’t Get Enough”, um trocadilho com a música do Michael Jackson].

Recentemente você lançou o EP She Knows, junto com o duo brasileiro Mumbaata, pela gravadora alemã Get Physical Music, que é um dos selos mais renomados e respeitados em todo o mundo. Esse EP é muito forte e feito para a pista de dança, além de ter uma história completa para contar…

O lançamento desse EP pela Get Physical foi um dos destaques deste ano. Eu sempre tive o desejo de lançar por esse selo. Conheci o Mumbaata em uma festa no Brasil e combinamos que deveríamos fazer uma sessão de estúdio, e então eu fui ao Rio e nos encontramos. A vibe e a energia entre nós foi muito inspiradora, e fizemos tudo que eu queria. Quando o pessoal da Get Physical disse ter gostado, pensamos em fazer mais um som e criar um EP, e eles adoraram. Foi uma experiência incrível.

“Uma das coisas que eu amo no Brasil é a abertura das pessoas para ouvir algo novo. É o lugar perfeito para testar novas pistas, novas ideias e eu adoro isso. Os brasileiros são pessoas de coração, e eu acho que é por isso que eu os amo tanto: porque eu sou do mesmo jeito.”

Você tem uma relação muito especial com o público brasileiro, e sua última tour por aqui foi um sucesso completo. Comente alguns detalhes que você considerou especiais nessa tour.

Minha última passagem pelo Brasil foi algo para se registrar. Vocês sempre encontram novas maneiras de me surpreender. Uma das coisas que eu amo no Brasil é a abertura das pessoas para ouvir algo novo. É o lugar perfeito para testar novas pistas, novas ideias e eu adoro isso. Os brasileiros são pessoas de coração, e eu acho que é por isso que eu os amo tanto: porque eu sou do mesmo jeito.

O amor que recebo toda vez que eu toco me dá muito fôlego, sabe? As pessoas dançam, elas cantam e elas estão lá. No Park.Art, em Curitiba, por exemplo, eu toquei para quase 15 mil pessoas, e mesmo assim pude sentir a energia de cada um — cada pessoa com uma energia diferente, bonita e inesquecível. Todos os locais são especiais e marcantes, como as noites intermináveis da Privilège, em Búzios, onde a festa nunca para e o amor é infinito é alucinante. Como artista, isso é um sonho. O Brasil é o meu sonho e eu sempre conto os minutos até voltar.

Você tem tomado conta dos programas de rádio por todo o país. O EP com o Mumbaata chegou a tocar em oito Estados e teve, inclusive, estreia nacional no programa Dance Paradise, da Jovem Pan FM. Toda essa exposição foi estranha de alguma forma, ou você considera natural?

O maior desejo de todo artista é que isso aconteça. Criar algo que realmente vem do coração e sentir essa resposta imediata é algo que me mantém querendo criar mais e mais. Está fluindo de forma natural e sou muito grata por isso.

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Você ainda se sente nervosa antes de um show?

Sempre. Você tem que estar nervoso, porque você ama isso. E se você parar de ficar nervoso, talvez precise de novos desafios. São as borboletas [no estômago] que mantêm você em pé.

Ok! Agora essa pergunta é muito importante: qual a melhor bebida brasileira? (Risos)

Ah, não vale! Essa é difícil, foram muitas (risos), mas com certeza a caipirinha de maracujá na praia de Búzios, no lindo bar à beira mar do Brothers Groove, marcou bastante.

Foto: Divulgação

Você acha que o público brasileiro gosta mais quando você canta mais sexy ou aquele vocal forte e poderoso?

Eu acho que eles amam ambos. O público gosta dos contrastes.

Você está prestes a terminar seu novo álbum, certo? Estamos todos curiosos, e eu preciso que você conte mais sobre ele aqui na Phouse!

Meu álbum está saindo do forno já há algum tempo, e estou muito animada, claro, mas muito nervosa ao mesmo tempo. O que vocês podem esperar desse novo trabalho sou eu, em diferentes perspectivas. Adianto aqui que o álbum será dividido em três partes, com os três EPs. Será uma verdadeira jornada. Não posso revelar mais agora, mas tudo o que posso dizer é para esperar profundidade, vocais, emoções, força total e crocância (risos).

+ Mumbaata e outros artistas brasileiros revelam os bastidores da “Cocada”

Incluirá colaborações? Algum artista brasileiro?

Sim, com certeza. Posso adiantar que Mumbaata e Jean Bacarreza estarão nesse álbum. Também alguns artistas egípcios.

Você tem uma turnê brasileira confirmada para outubro. O que vem por aí?

Primeiro de tudo, mal posso esperar para voltar! Estou com um novo show e novos elementos ao vivo. Iremos nos apresentar em locais inéditos onde pretendo mostrar materiais em primeira mão para o público brasileiro curtir e se divertir muito comigo!

* Ashibah está de volta ao Brasil nesta semana, onde apresentará algumas de suas novas faixas. Veja as datas abaixo!

Ashibah
Arte: Divulgação

* Nazen Carneiro é colaborador da Phouse.

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Entrevista

Sócia do Caos, Eli Iwasa fala sobre curadoria, cena e sonho realizado

Celebrando a diversidade, casa recebe Modeselektor, Zegon e Mau Mau neste final de semana

Rodrigo Airaf

Publicado há

Caos Club
Eli Iwasa. Foto: Divulgação
* Edição e revisão: Flávio Lerner

É em um galpão industrial completamente reformado em Campinas que acontece uma vastidão de apresentações antes pouquíssimo prováveis de rolar na região. Desde sua inauguração, em dezembro, abrindo no máximo duas vezes por mês e rolando por longas horas, o Caos reverberou uma jornada sonora das mais recompensadoras, trazendo desde nomes majestosos como Laurent GarnierCarl CraigChris LiebingSpeedy J Marco Carola, até nomes de grande destaque na atualidade, como Nina KravizReconditeANNA e Nastia. Por falar em artistas imponentes, foi lá a apresentação única da alemã Ellen Allien no Brasil — fato que vai se repetir com o gigante Dixon, em outubro.

Tendo como filosofia a diversidade tanto de público quanto de som — você pode encontrar numa mesma noite tanto a disco music de Eric Duncan quanto o techno pulsante de Tijana T, por exemplo —, há projetos como a Wolf, voltada ao público LGBTQ+, e a Groove Urbano, que fomenta o hip hop, ambos com histórico de eventos no Club 88 (do mesmo grupo que criou o Caos). Por esses eventos passam expoentes fora do circuito usual, entre eles Linn da QuebradaEmicida e Gabriel o Pensador.

Voltando aos beats eletrônicos, até mesmo Fisher, febre mundial da cena tech house mais comercial, apresentou-se no club na última semana, em uma noite explosiva em parceria com a festa paulistana Michael Deep.

Caos
Caos, em sua inauguração com Carl Craig, em dezembro de 2017. (Foto: Bill Ranier/Divulgação)

A próxima loucura que o Caos vai aprontar está logo aí, na madrugada de sexta para sábado: um after com ModeselektorZegon e Mau Mau, a partir das 04h. Pode ser maluco para alguns unir o poderoso e eclético duo alemão a um difusor da bass music e um pioneiro do techno brasileiro na mesma noite (tudo isso logo depois de uma festa de hip hop), mas não é maluquice para o Caos — e certamente não para sua sócia-fundadora Eli Iwasa.

É com ela que conversamos agora, para que nos ajude a entender o porquê de o Caos ter se tornado um projeto tão único e tão importante para o interior de SP em menos de um ano, além de explorar um pouco a proposta da casa através de sua visão e experiência de duas décadas no cenário eletrônico.

Caos
Eli Iwasa na cabine do Caos, que possui um amplo espaço ao redor do DJ. (Foto: Reprodução/Facebook)

Eli, o lineup do after que vai rolar no próximo sábado é curioso, e parece ser bem especial: Zegon, que é conhecido na cena bass; Modeselektor, duo gringo muito querido por quebrar barreiras de estilos musicais; e por fim, Mau Mau, deuso do techno que vem com um set de clássicos. Como e por que o lineup foi montado assim?

O Modeselektor é conhecido por não se prender a rótulos, por sua imprevisibilidade, então por que também não fazer algo fora do óbvio? Tanto o Zegon quanto o Mau Mau são artistas com uma baita bagagem musical, e pedi para cada um deles que fizesse um set especial para que pudessem mostrar um pouco a mais de suas próprias histórias.

O Zegon, além de ter sido DJ do Planet Hemp, faz parte do N.A.S.A. e do Tropkillaz, então pode ir do hip hop ao eletrônico, e tudo mais no meio, com a maior facilidade. Quando fechei o Modeselektor, a primeira pessoa que pensei em chamar para fechar a festa foi o Mau, fazendo um set de clássicos. Ele, que ajudou a construir tudo isso que temos agora, que tem um papel fundamental no desenvolvimento da música eletrônica no Brasil, e que também é figura central da minha própria história na cena, não poderia ficar de fora.

Em sua comunicação, o Caos deixa claros seus princípios de inclusão, posicionando-se contra preconceitos e barreiras sociais, convergindo diversos públicos. Como isso se traduz nos lineups da casa?

Quando começamos a pensar no que gostaríamos no Caos, resgatamos a ideia de como eram os clubs importantes em nossa formação, como o Lov.e e o Kraft. Uma das coisas mais significativas daquela época era justamente a mistura de públicos: o “playboy” e o “mano”, as “bees”, as trans, a turma do som e os que caíam de paraquedas, encarando seus próprios preconceitos e aprendendo na democracia que uma pista de dança deveria ser.

Aqui nem todo lugar é assim. O que parece absurdo pra muita gente é uma realidade na região. E queríamos reunir os amigos e clientes de universos backgrounds diferentes num só lugar. É um processo de aprendizado constante e um desafio também, porque Campinas ainda é uma cidade bem conservadora em muitos sentidos. 

Caos
“Sem sexismo, sem racismo, sem capacitismo, sem ageísmo, sem homofobia, sem gordofobia, sem transfobia, sem ódio”, diz banner instalado perto da porta. (Foto: Reprodução/Facebook)

Durante a fase embrionária do projeto, já havia a expectativa de reconhecimento em tão pouco tempo?

Nunca! Nem nos meus sonhos mais loucos (risos)!

O que tem por trás do trabalho de curadoria que o público em geral não vê?

Um grande desafio é alinhar a visão de uma casa noturna com o momento do mercado e com o que o seu público espera, e não deixar seu propósito se perder diante de todas as mudanças que a cena e seu próprio club sofrem ao longo dos anos. Lidamos com muita coisa no Brasil: alta do dólar, uma carga tributária gigantesca, a falta de apoio dos órgãos oficiais, e a toda hora precisamos nos lembrar por que escolhemos ter um club, pois nem sempre é fácil.

Tem muita festa acontecendo, a concorrência é grande e isso faz com que muitas agências de talentos acabem pedindo ofertas inviáveis ao produtor brasileiro. Ao mesmo tempo, estamos sofrendo com esse momento econômico e político no país, o que refletiu no ticket médio e na frequência com que as pessoas saem — muita gente gasta com cautela e escolhe uma festa no mês em vez de sair todas as semanas.

Do nosso lado, existe um cuidado ainda maior na hora de investir em um artista internacional, o esforço de não bater datas com outros eventos, e tudo isso reflete na curadoria: ora você se arrisca mais artisticamente, ora você toma decisões de resultados mais certeiros. 

A agência Muto é responsável pela comunicação audiovisual do Caos, trazendo vídeos conceituais a cada edição.

Então pra escolher os artistas, nem sempre a paixão fala mais alto?

Nossas decisões são bem emocionais. Pensamos muito na experiência e nos momentos que podemos proporcionar através dos clubs. Não é exatamente a maneira certa de gerir um negócio (risos), mas é a maneira que é certa para nós. Sempre fomos assim, muito intuitivos, com a paixão falando alto.

A experiência também permite que tomemos decisões certas mesmo sem fazer muitas contas, porque com o tempo você aprende o que funciona e o que não, quais dias são melhores para seu club… Muito importante falar também que manter-se atualizado com o que acontece na cena é fundamental; o público se renova constante e rapidamente, assim como estilos musicais e artistas.

Imagino que várias datas do Caos foram lindas e que seja difícil fazer uma escolha, mas em qual delas você realmente sentiu uma sinergia perfeita entre o lineup, a resposta do público, a conexão entre os artistas, e pensou: “o resultado está literalmente do jeito que imaginei”?

A inauguração do Caos fez muita gente chorar entre toda a equipe e público, porque sentimos que algo muito significativo estava acontecendo ali. Já sobre a noite com Laurent Garnier, pessoalmente, queria há anos booká-lo para algum dos meus clubs em Campinas, mas nunca sentia que era a hora. Quando abrimos, sabia que estávamos prontos para recebê-lo aqui, da maneira que ele merece.

Eu nunca vou esquecer o momento em que o Laurent entrou na cabine e o Toca, um dos meus sócios, veio até mim, super emocionado, porque só a gente sabe o tanto de dedicação que foi preciso para chegarmos ali e abrirmos a casa. A ficha caiu que tudo que vivemos e aprendemos nos trouxeram até aquele momento, com todos nós colocando nosso potencial em prática para fazer o Caos ser uma realidade.

Caos
O Caos é realmente para todos… Até mesmo pra Paçoca, filha da Eli Iwasa. (Foto: Reprodução/Facebook)

Como você enxerga a noite de Campinas em relação ao cenário nacional atualmente?

Vejo que o Caos e o Club 88, junto com o Laroc, que são nossos amigos e fazem um trabalho incrível, estão realmente fomentando a cena da região e a transformando em um destino para quem gosta de música eletrônica. Sempre existiu o fluxo de público de Campinas para São Paulo, e hoje, finalmente, existe também o fluxo de São Paulo, cidades ao redor, Sul de Minas para esses clubs.

Vale lembrar que esse trabalho não é de hoje. O interior de SP sempre contou com clubs muitos importantes, como Kraft e Anzu, além de festivais como Kaballah, Tribe e XXXPERIENCE, que realizam seus eventos por aqui.

Pra fechar, o que é um bom curador pra você?

Um bom curador é aquele capaz de traduzir a visão de um club ou evento através da música, dos artistas e das experiências que compartilha e proporciona.

Rodrigo Airaf é colaborador eventual da Phouse.

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Entrevista

Em meio à turnê brasileira, Kolombo fala sobre sua relação com o país

Fã do Brasil, belga ainda passa por Warung Tour, Rio e El Fortin

Alan Medeiros

Publicado há

Kolombo
Foto: Reprodução

Olivier Grégoire é a mente por trás do projeto Kolombo. Mesclando batidas de house, disco e hip hop, este importante DJ belga conquistou os clubbers brasileiros logo em sua primeira passagem. A identificação com o nosso país foi tamanha que hoje o Brasil pode ser considerado a segunda casa de Olivier, dono de turnês recorrentes no país.

Os motivos que levam Kolombo ao patamar de um superstar da dance music por aqui são fáceis de serem compreendidos. Seu som é alegre, vibrante e projetado para o dance floor — tem tudo a ver com as pistas brasileiras. Além disso, ele segue se distanciando daquele perfil sério e carrancudo que muitos artistas gringos possuem; Grégoire é carismático e transmite uma energia boa quando está em ação. A cereja do bolo é a consistência que se mantém através dos anos, tanto em seu trabalho solo, quanto no que é desenvolvido frente à LouLou Records.

Neste fim de semana, Kolombo encerra mais uma turnê brazuca. Desta vez terão sido seis datas entre os dias 17 e 25 de agosto — com direito a uma gig na Argentina no meio disso tudo. Depois de tocar em Cuiabá (MT), Itapetininga (SP), São Paulo e Córdoba, o produtor segue para a Warung Tour Gramado (RS) nesta sexta, e encerra com duas gigs no sábado: uma no Bunker Festival, no Rio de Janeiro, e a outra na festa de 13 anos do El Fortin, em Porto Belo–SC. No embalo da turnê, encontramos o artista para um breve bate-papo:

Olivier, quando você pensa em Brasil, qual é a primeira coisa que vem à sua cabeça? De alguma maneira, sua relação com as pistas do país mudou a forma como você se conecta com a música?

O Brasil é muito especial para mim. A primeira coisa que vem na minha cabeça é a energia incrível do público. É bom porque me sinto confortável para testar tudo. As pessoas têm a mente aberta e o público é enérgico.

Você é um cara que possui um som muito verdadeiro. São claras as referências musicais que formam seu perfil sonoro: uma mistura de house, disco e hip hop. Ter um estilo próprio é uma das prioridades do seu trabalho?

Com certeza! Como você disse, eu tenho esse background forte que me fez construir minha identidade na música. Nunca pensei em prioridade, é apenas algo que vem naturalmente.

Neste ano novamente você volta à posição de headliner no aniversário do El Fortin. O que o público pode esperar de você nessa noite?

Bom, estou trabalhando em muita música nova, então como eu disse antes, a galera brasileira é o público perfeito para ver como as coisas novas funcionam. Toquei no ano passado no El Fortin e foi impressionante. Estou ansioso para essa.

Uma pergunta um tanto quanto especial: quais são suas atuais faixas preferidas para a pista?

Tenho tocado uma das minhas últimas produções, que não foi lançada ainda — funcionou muito bem na pista. Também faixas de Bontan e Claude VonStroke… Esse estilo de dub underground.

Pra encerrar: o que o Brasil tem de mais especial? Pão de queijo [risos]?

Não. Picanha para sempre [risos]!

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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