Entrevista

Atração do Tribaltech, Fran Bortolossi foca no estúdio e lança selo

Fran Bortolossi Entrevista

Em nova entrevista à Phouse, Fran Bortolossi fala sobre o selo em parceria com Ryan Papa, o desenvolvimento da cena do Rio Grande do Sul e a contratação de um dos maiores símbolos da história do techno.

Carregando consigo o instinto pioneiro tão reconhecido nas pessoas do Rio Grande do Sul, Fran Bortolossi segue sendo um dos nomes mais prolíferos que surgiram em nossa cena na última década. Historicamente, seu Estado de origem sempre foi sinônimo do “faça você mesmo, bem feito e diferente”. Fran herda esse DNA empreendedor, artístico e visionário, que o coloca como referência incontestável da cultura eletrônica no Sul do país.

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Sua automotivação para continuar em constante movimentação tem o levado a se conectar com todos os aspectos que envolvem o desenvolvimento do cenário em que está inserido — seja ajudando novos artistas locais nos eventos da Colours, como também trazendo nomes internacionais capazes de aprofundar e consolidar ainda mais o entendimento do seu público sobre música eletrônica de qualidade. Recentemente, a cena do RS esteve em pauta aqui na Phouse, e por isso, não poderíamos buscar outra pessoa se não Fran para imprimir sua visão sobre essa nova fase do Estado. Nesta entrevista, ele nos conta detalhes sobre seu extended set no club Cultive, o lançamento da Disc Wars junto de Ryan Papa, e suas percepções enquanto DJ e produtor musical.

No final do ano passado, você revelou à Phouse que 2016 foi o melhor ano de sua carreira. Como está sendo seu 2017? As expectativas aumentaram?

Com certeza as expectativas sempre são altas. Eu sempre estou impondo metas e planos para realizar com a música, e trabalho diariamente para fazê-los acontecerem. Assim, percebo que me mantenho em movimento e evolução constante.

Este ano tem sido muito bom também, e sou muito grato pelos momentos que estão acontecendo na minha carreira. Toquei pela primeira vez em novos países — Irlanda e Inglaterra —, fiz uma tour de três shows na Argentina com duas festas sold out, e uma delas era minha estreia na cidade de Bahia Blanca. Também tive alguns bons lançamentos até agora: debutei com EPs na LouLou Records e na Warung Recordings, e em setembro sai mais um, com três faixas, pela Witty Tunes — além de um remix para a LouLou. Também tenho um EP para sair com o Kolombo em dezembro, que já rendeu elogios do Toddy Terry e do DJ Sneak, quando eles tocaram juntos.

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Já no início do ano, eu tinha feito essa promessa de que passaria mais tempo dentro do estúdio, e na medida do possível, tenho realizado. Recebi dois suportes importantes recentemente, do Richy Ahmed e do Betoko, e meu desejo é que minhas produções falem cada vez mais por mim. Então tenho estudado bastante e dedicado bastante tempo a elas.

Na próxima semana, acontece mais um grande evento da Colours em Caxias do Sul. Parece que a festa está cada vez mais consolidada e itinerante. Quão importante é se deslocar também para outras cidades do RS?

A Colours sempre foi itinerante, desde o início. Começou em Farroupilha, e logo depois foi para Caxias. Porém, já tivemos edições em Passo Fundo, Santa Maria, Gramado e Bento Gonçalves, para citar algumas. Acho que por a marca já ter certo reconhecimento e prestígio perante o público, hoje em dia existe essa demanda de nos tornarmos cada vez mais móveis. E é muito legal ver um produto que criamos com muito trabalho e cuidado ser valorizado pelo público.

Você já pensou em realizar novamente alguma edição da Colours fora do Rio Grande do Sul, ou é uma marca estritamente criada para os modelos do Estado?

A gente teve umas cinco ou seis edições em Santa Catarina — em Garopaba, Florianópolis, Chapecó e Balneário Camboriú. Se tivermos essa demanda para viajar, seria ótimo ir para outros Estados ou países, mas sempre que realizamos edições fora da nossa “base”, são interesses mútuos de parceiros locais e da nossa equipe.

Sobre ser uma marca estritamente para o RS, acredito que não. Porém, há nove anos, quando estávamos desenhando o início da festa, a música eletrônica que tocávamos era difícil de se escutar no Estado. Então inicialmente sim, ela surgiu para atender essa lacuna.

Você fez um long set no club Cultive, em Garibaldi, na última semana. Como é a preparação para um evento assim? E o que um club precisa oferecer para o artista poder desenvolver algo desse tamanho?

A preparação foi feita escutando e pesquisando muita música, e separando elas por momentos. Músicas para o início e warmup, músicas para o peak time, separadas por house e techno, músicas pra finaleira… Para mim, que pesquiso e escuto música fulltime, é muito bom ter a oportunidade de fazer um set de oito horas, como o que rolou.

Em relação ao clube, primeiro de tudo é ter um bom relacionamento com eles — o que existe de fato —, e saber que a parte técnica vai ser atendida, que CDJs, mixer, som, luz, retornos vão estar perfeitos. A proximidade com o público também. Foi muito legal que do início ao fim da festa, a galera estava comigo. Essa foi a segunda edição desse projeto, e novamente contou com a casa cheia.

Eu tenho visto muito pequenos clubes, núcleos e eventos surgindo por todo o Rio Grande do Sul. O interior hoje não é mais só Passo Fundo e Caxias certo?

Ultimamente o interior do RS tem efervescido com novos projetos. Toda região de Passo Fundo e de Caxias do Sul é bastante forte. Porém há outros lugares como Santa Maria, Pelotas, que têm rolado muitas coisas legais e com muita força. Também é nítida uma melhora de Porto Alegre nos últimos dois, três anos, com eventos muito bem produzidos, e bons artistas locais surgindo ano após ano. Então o prognóstico é de que o RS melhorou muito ultimamente, sim.

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Como você tem aliado sua vida no estúdio a uma agenda intensa de shows? Produzir é algo que você sente necessidade pela maneira que o mercado exige hoje dos artistas ou é algo totalmente natural?

O que me trouxe para a música eletrônica foi a música de fato. Desde criança eu estudei alguns instrumentos como violão, guitarra e piano, e foi esse caminho que me trouxe para onde estou agora. Depois, com uns 20 anos, fiquei apaixonado por música eletrônica, e começar a discotecar foi algo que adorei fazer e continuo adorando. Mas sempre senti a vontade e necessidade de fazer minhas próprias músicas. Hoje em dia, aliada a essa vontade, acho que para ser um DJ e artista mais completo, preciso ter meus próprios temas, então é algo que quero me concentrar cada vez mais em estar fazendo.

Você é uma das atrações do Tribaltech. Qual a expectativa para esse festival tão tradicional e importante em nosso país?

Essa é a segunda vez que vou tocar no Tribaltech. A expectativa é altíssima. Acho um festival muito ousado e inovador. Primeiro porque mistura vários estilos, e segundo, porque dentro de todos esses estilos, temos artistas de vanguarda. Tenho certeza que vai ser uma experiência ótima para todo mundo, e quero fazer o possível para tocar várias músicas próprias no meu set.

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Quando teremos o primeiro lançamento da Disc Wars, sua nova gravadora, em parceria com o australiano Ryan Papa? E como rolou essa parceria com ele?

O primeiro lançamento deve sair entre outubro e novembro, e será do também australiano Verve. O Ryan Papa é um engenheiro de som e produtor da velha guarda, já teve as músicas dele como abertura dos famosos sets do [Hernan] Cattaneo na Creamfields, há vários anos. Ele foi quem fez as minhas primeiras masters, e acabamos ficando muito amigos. Quando ele fechou a Stigma Recordings — em que eu tive meu primeiro EP lançado e ele era o label boss —, ele reabriu a Disc Wars, que inicialmente era uma gravadora que ia do house ao downtempo, e me convidou para fazer parte, trabalhando no setor de public & relations, trazendo novos artistas e obviamente discotecando as músicas.

Eu aceitei o trabalho na hora, e já temos três releases encaminhados. Também é um lugar onde nós mesmos poderemos lançar nossas próprias produções, o que se é muito legal. Não precisamos passar pelo aval de ninguém, além de nós mesmos, para lançarmos nossas músicas.

Esse projeto seria sua grande realização em 2017?

Sim. Daqui pra frente eu pretendo me concentrar cada vez mais em estúdio, seja produzindo minhas próprias músicas ou ajudando amigos a produzir e lançar suas músicas também. Acho que faz parte de uma cena madura, os DJs e artistas terem suas próprias produções.

Teremos ainda alguma novidade para o restante do segundo semestre?

Além dos eventos que já temos anunciados agora para Caxias, teremos outros dois. Um, com um dos ícones e pioneiros do techno no mundo, o alemão Chris Liebing. Tenho certeza que será outro momento único para o RS, ter um DJ desse porte e importância tocando por aqui, e acho que novamente a Colours afirma o compromisso com a música eletrônica em investir e acreditar em um evento com um nome de tamanha magnitude. Confesso que estou muito ansioso para essa festa. Desde que tivemos a confirmação dele, ficamos muito felizes e a expectativa é enorme.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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